Nota da autora: Este conto fez parte de uma brincadeira na comunidade Orgulho e Preconceito - Fanfics do Orkut em que foi dado um mesmo tema (a visita de Lady Catherine de Bourgh ao recém-casado casal Darcy e Lizzy) para que as autoras desenvolvessem um conto segundo sua imaginação.

Pemberley estava em polvorosa!
Lady Catherine de Bourgh, tia materna de Fitzwilliam, estava para chegar para sua primeira visita, após o casamento do sobrinho com Elizabeth Bennet ocorrido seis meses atrás.
Elizabeth estava à beira de um ataque de nervos.
Ela começava a desconfiar que havia herdado da Sra. Bennet, os problemas nervosos que presenciara a mãe sofrer a vida inteira. Porém, sua reação ao estado nervoso era completamente diferente ao da mãe, ao invés de ficar prostrada na cama se lamentando e chorando. Lizzy foi tomada de uma energia nervosa espantosa. Ela acompanhava a Sra. Reynolds, a governanta, que corria de um lado a outro, dando ordens aos criados, verificando se os móveis entalhados estavam livres de poeira nos cantos mais remotos, os cristais reluzentes, as pratarias polidas.
A Sra. Reynolds, que conhecia Lady Catherine há muito anos, desde quando os pais de Fitzwilliam ainda eram vivos, dissera que tudo tinha que estar em perfeita ordem para receber a ilustre dama que tinha por hábito reparar nos mínimos detalhes.
Todos os aposentos da mansão haviam sido inspecionados para verificar se estavam impecavelmente limpos, mesmos os inúmeros quartos sem uso.
Darcy, em seu escritório, ao ver a agitação dos criados e de sua mulher, se arrependia até o último fio de seu cabelo do convite que fizera à tia para visitá-lo em Pemberley.
Como era do conhecimento de todos, tia e sobrinho estiveram de relações estremecidas, pois Lady Catherine tivera o desplante de ir à casa dos Bennets em Longbourn, confrontar Elizabeth sobre um possível noivado entre ela e o sobrinho, alegando que o mesmo tinha um compromisso de casamento acertado com Anne de Bourgh, sua filha.
Na época o estranhamento entre as partes fora tão grande que a tia não compareceu à cerimônia de casamento do sobrinho. Mas, tudo isto eram águas passadas e a própria Lady Catherine levada pela afeição que nutria pelo sobrinho ou pela curiosidade de ver como Elizabeth se conduzia como a Sra. Darcy, escreveu para ele dando a entender que as mágoas do passado deveriam ser esquecidas e que ela aceitaria de bom grado um convite para visitar Pemberley na primavera.
Darcy não teve outra saída a não ser convidar a tia a visitar Pemberley quando fosse de sua conveniência.
Lady Catherine respondeu a missiva do sobrinho imediatamente aceitando o convite.
Não havia como voltar atrás, no dia seguinte, Lady Catherine chegaria acompanhada da filha Anne.
A Sra. Reynolds e Elisabeth já haviam entrado uma dezena de vezes no quarto que Lady Catherine ocuparia durante sua estada em Pemberley, inspecionaram os lençóis de linho esticados sobre a cama para verificar se a criada não deixara nenhuma ruga ou dobra mal feita, as toalhas dispostas sobre a cômoda impecavelmente limpas. Tudo naquele quarto reluzia e cheirava a limpeza.
- Não quero dar nenhum motivo de queixa à tia do Sr. Darcy, Sra. Reynolds.
- Sra. Darcy, me desculpe o que vou dizer a senhora. Mas, por mais que faça, Lady Catherine irá encontrar algum defeito para criticá-la. No tempo da falecida Sra. Darcy, que era irmã de Lady Catherine, ela não parava de encontrar defeito em tudo. A pobre Sra. Darcy que era uma santa, deixava a irmã falar à vontade e nem dava atenção às suas críticas. Se me permite dizer, a senhora deve fazer o mesmo.
- Sra. Reynolds, se com a própria irmã ela encontrava motivo para críticas, imagine comigo a quem ela despreza por me considerar uma pessoa de baixa linhagem.
O Sr. Darcy vendo a agitação e ansiedade de Lizzy tentou de todas as formas confortá-la e transmitir-lhe segurança.
- Meu amor, acalme-se. Minha tia não encontrará defeito em nada. Tudo está na mais perfeita ordem aqui em casa. Você tem se revelado uma excelente dona de casa. Tia Catherine irá gostar de você quando a conhecer melhor. Você ficou com má impressão a respeito dela porque ela foi pressioná-la a desistir de mim. Mas, felizmente, tudo isto ficou no passado.
O discurso de Darcy, no entanto, não convenceu Elisabeth que continuou sua inspeção por todos os cômodos da vasta mansão para verificar se estava tudo limpo e arrumado, ela não queria receber nenhuma crítica da grande dama.
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Finalmente, na tarde do dia marcado, duas carruagens chegaram a Pemberley, uma transportando as hóspedes Lady Catherine e sua filha Anne e a outra, as bagagens e duas criadas de quarto.
A longa e exaustiva viagem entre os condados de Kent, onde se situava Rosings Park e Derbyshire havia sido feita por etapas, por causa da saúde precária de Anne, que chegou visivelmente cansada e abatida.
Lady Catherine, entretanto, não parecia cansada, desceu da carruagem impávida, como se tivesse viajado apenas por uns minutos.
Darcy ajudou a tia e a prima descerem da carruagem, cumprimentou-as com um respeitoso beijo na mão, indagando sobre a viagem delas.
- Fitzwilliam, notei que os jardins de Pemberley estão menos floridos neste ano, acho que seus jardineiros negligenciaram na adubação da terra ou não fizeram as podas e replantes na época correta. Amanhã irei conversar com o chefe dos jardineiros e verificar isto pessoalmente.
Elisabeth que estava a alguns passos atrás de Darcy, aproximou-se e curvou-se numa reverência e disse:
- Lady Catherine, seja bem vinda. É um prazer recebê-la para uma temporada conosco.
- Elisabeth, devo dizer que aceitei com receio o convite que Fitzwilliam me fez para visitar Pemberley. Tive receio que você não quisesse me receber depois da nossa conversa em Longbourn.
- Lady Catherine, vamos esquecer o passado.
- Gostaria que você me chamasse de Tia Catherine como Fitzwilliam, afinal agora com o casamento, você se tornou minha sobrinha.
Lizzy teve dificuldade de chamá-la de tia, apesar de seu esforço parecia que a palavra relutava em querer sair de sua boca.
Lady Catherine não mudou em nada seu comportamento, encontrava defeito em tudo e não se acanhava em dizer abertamente qual o defeito e o que deveria ser feito para saná-lo. Todos os aspectos da casa, da decoração aos criados, do asseio da cozinha ao menu servido às refeições, das plantas do jardim aos cuidados da estufa, dos estábulos aos animais, tudo estava passando por uma minuciosa inspeção.
Mas, a gota d’água para Darcy foi quando numa noite Lizzy lhe disse:
- Fitzwilliam, durante a permanência de sua tia aqui em Pemberley, acho melhor dormirmos em quartos separados.
- O quê!? Por que esta novidade agora? Sempre dormimos na mesma cama desde que nos casamos. Eu me recuso a dormir sozinho no meu quarto quando posso dormir com minha esposa com quem sou legalmente casado.
- Sua tia me chamou outro dia para uma conversa reservada e disse que é muito impróprio um casal de nossa classe social dormir juntos na mesma cama, que apenas os casais das classes inferiores dormem na mesma cama porque não dispõe de aposentos separados e vivem na promiscuidade. Ela disse que você pode me visitar à noite e que eu devo cumprir minha obrigação de esposa e permitir que você desafogue sua luxúria em mim, mas que não devo permitir que você durma a noite toda comigo.
- E como minha tia ficou sabendo que dormimos a noite toda juntos?
- Só pode ser através da conversa dos criados. A criada pessoal dela parece que não para de fazer perguntas a nossos criados sobre nossos hábitos.
- Maldita hora em que convidei minha tia para nos visitar!
- Fitzwilliam, você não acha que enquanto sua tia estiver em Pemberley, é melhor seguirmos os costumes da classe alta e dormirmos em quartos separados para não dar motivo ao falatório dela?
- Lizzy, nem por um decreto do rei eu cumpriria esta ordem, quanto mais por causa desta intrometida de minha tia. Deixe estar que vou dar um jeito dela ir embora antes do prazo previsto.
- William, eu não quero que você falte com o respeito que deve a ela. Além de nossa hóspede, ela é sua tia.
- Não vou desrespeitá-la, mas também não vou permitir que ela interfira na nossa vida privada. Minha mãe quando era viva permitiu que tia Catherine desse muitos palpites aqui em Pemberley porque ela era sua irmã mais velha e minha mãe achava que lhe devia respeito por isso. Lembro-me de vê-la suspirar de alívio sempre que minha tia ia embora, parecia que até o ar ficava mais leve por aqui com a partida dela. Depois que minha mãe faleceu, tia Catherine não veio mais nos visitar, pois nunca teve um bom relacionamento com meu pai que não gostava dela e não permitia sua interferência. Eu pretendo seguir a mesma conduta dele.
- Fiztwilliam, o que você pretende fazer?
- Vou conversar seriamente com ela e mostrar que a senhora de Pemberley é você e que ela será bem vinda como visita, mas que pare de dar palpites e conselhos em tudo.
- Vai dar a impressão que eu me queixei com você e Lady Catherine irá se voltar contra mim.
- Ela também andou dando palpites na administração das terras, do administrador e dos arrendatários. Vou falar, primeiramente, sobre esta interferência dela e estender para os assuntos domésticos, fique tranqüila, já venho preparando minha conversa com ela há alguns dias.
Embora Lizzy não ficasse totalmente convencida com o argumento de Darcy e não acreditasse que a velha senhora fosse mudar após uma conversa com o sobrinho. Não deixava, entretanto, de ser uma tentativa.
Mas, foi o acaso e um pequeno animal quem solucionou o problema.
Todos dormiam profundamente quando o silêncio da madrugada foi quebrado por gritos lancinantes de mulher. Os gritos não paravam. Eram gritos histéricos que perfuravam o silêncio da noite de Pemberley como adagas.
Darcy despertou ao primeiro grito. Acendeu rapidamente a vela à cabeceira de sua cama e se levantou.
O segundo gritou despertou Lizzy.
- Fitzwilliam, quem está gritando desta forma aterrorizadora?
- Fique deitada, vou verificar o que está acontecendo.
Mas Lizzy, não deu ouvidos ao marido e se levantou também, vestiu apressadamente seu penhoar e o seguiu pelo corredor em direção de onde partiam os gritos.
Era do quarto que Lady Catherine ocupava.
Darcy entrou no quarto sem bater e se deparou com sua tia em pé sobre a cama, os olhos esbugalhados e gritando.
- Minha tia o que se passa?
- Um camundongo.... camundongo... no meu quarto... ele subiu aqui na minha cama. Tire esta criatura asquerosa do meu quarto, Fitzwilliam.

Neste ínterim vários criados, inclusive a Sra. Reynolds, haviam despertado e se encontravam no corredor assustados.
- Lizzy, por favor, leve minha tia para a saleta particular de nossos aposentos e tente acalmá-la, enquanto vamos caçar este maldito camundongo.
Darcy e dois criados vasculharam o quarto, mas não conseguiram encontrar o esperto animalzinho que escapara em meio ao tumulto causado por ele.
Lizzy pediu a Sra. Reynolds que providenciasse um chá para Lady Catherine, mas tão logo ela conseguiu se acalmar começou sua cantilena de críticas:
- Elizabeth, esta casa precisa ser mais bem cuidada, é inadmissível que haja camundongos passeando por ela. Este é um sinal claro do desleixo de seus criados. Esta governanta de minha irmã, Sra. Reynolds, é uma incompetente, faz o que bem entende nesta casa e não cuida de nada direito.
- A Sra. Reynolds é muito eficiente, Lady Catherine. Foi uma infelicidade o que aconteceu, pois colocamos ratoeiras sistematicamente na casa. Nestes seis meses que vivo aqui nunca havia visto um camundongo.
- Elizabeth, você está insinuando que o camundongo que vi perambulando pelo meu quarto foi fruto de minha imaginação? – retrucou indignada a velha senhora.
- Não senhora, absolutamente. Acredito piamente que a senhora o viu.
- Estou indo embora de Pemberley assim que o dia amanhecer.
Este infeliz incidente trouxe a paz e a tranqüilidade de volta a Pemberley.
Apesar dos protestos de Darcy e da própria Lizzy, nada demoveu Lady Catherine de partir na manhã seguinte com a filha como se mil demônios a perseguissem. Até no momento de sua partida a velha Lady não parava de mostrar sua indignação pela presença do camundongo em seu quarto, dizendo que a presença do animalzinho mostrava a falta de respeito pela sua heráldica presença e jurando nunca mais voltar a por os pés em Pemberley.
Darcy se pudesse gostaria de agradecer pessoalmente ao camundongo oferecendo-lhe uma generosa porção de queijo por tê-lo livrado da conversa desgastante que iria ter com a tia no dia seguinte, bem como haver se livrado da presença incômoda da tia mais rápido do que esperava.
O pequeno camundongo nunca mais foi visto nos suntuosos aposentos da mansão.
A paz e o amor voltaram a reinar em Pemberley.
Em tempo: Lady Catherine não foi fiel a sua promessa, ela ainda voltou algumas vezes a Pemberley, mas para a felicidade e alívio de todos, suas visitas se tornaram cada vez mais raras até cessarem completamente devido ao seu estado de saúde precário em decorrência da idade avançada.
Fim
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