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Felicidade no casamento e meramente questão de sorte. (Jane Austen)

Manhã de um novo amor - Capítulo 4

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Capítulo 4

 

Victoria compareceu ao jantar na Wycliff House acompanhada dos seus primos Meg e Richard.

 

Ela sempre foi de natureza alegre e expansiva, gostava de se ver cercada de pessoas, e esta sua volta a vida social estava lhe fazendo bem. Sentia uma verdadeira alegria em rever velhos amigos e conhecidos, embora muitos deles lhe trouxessem de volta as lembranças de Alfred por serem amigos comuns de longa data.

 

Logo ao ser recebida pelo Marquês no hall de entrada da casa, este tomou sua mão enluvada e levou-a aos lábios e olhando fundo em seus olhos disse sedutoramente:

 

- Lady Victoria é um prazer recebê-la. Agradeço por ter vindo. Sua presença significa muito para mim.

 

Ele estava flertando abertamente com ela. Victoria sentiu que corava, como uma debutante de 18 anos, sentiu-se uma idiota por ter uma reação destas, e não pôde evitar um sentimento de contrariedade quando percebeu no brilho do olhar de Lord Hallthorn que este percebera que ela não era imune aos seus galanteios.

 

Não passou despercebida a Tory também que por uma manobra de Lord Hallthorn ela foi colocada ao seu lado na mesa de jantar. Ele se comportou polidamente durante o longo jantar, como era de se esperar de um cavalheiro, distribuindo sua atenção tanto para ela como para a outra senhora sentada ao seu outro lado.

 

Ao final da noite quando ela se despedia de Lord Hallthorn percebeu, imediatamente, que ele colocou disfarçadamente em sua mão um pequeno papel dobrado, que ela tratou de esconder rapidamente em sua bolsa, certificando-se que ninguém estivesse olhando. Sentiu-se muito embaraçada com esta atitude ousada dele.

 

O que a incomodou sobremaneira foi como seu coração estava disparado ao abrir o bilhete sozinha em seu quarto, não queria voltar a sentir este tipo de emoção por nenhum outro homem, seu amado Alfred deveria ser o único homem de sua vida.

 

“Lady Victoria,

 

Por favor, encontre-me amanhã às 4 horas da tarde em qualquer dos bancos que circundam a Serpentine no Hyde Park, eu a encontrarei.

 

Preciso muito conversar com a senhora.

 

Sinceramente,

Andrew Davenport”

 

O bilhete deixou Tory indignada.

 

A ousadia do Marquês de Hallthorn não tinha limites!

 

Ele estava marcando encontros furtivos com ela, como se ela não fosse uma mulher de respeito, como se ela, Lady Victoria Dorsey fosse uma viúva que tivesse casos clandestinos e com quem ele pudesse marcar encontros furtivos.

 

Aquela noite Tory custou a pegar no sono, indignada com a atitude ousada de Lord Hallthorn.

 

**************************************

 

Depois que todos os convidados do jantar haviam ido embora. O Duque de Wycliff  virou-se para o filho que ia se retirando para seus aposentos e disse na sua voz de comando, de homem que estava acostumado a ser obedecido:

 

- Preciso conversar com você, Andrew, vamos ao meu escritório.

 

- Meu pai, não podemos deixar para amanhã, estou bastante cansado.

 

- Não. Quero conversar agora.

 

Andrew acompanhou o pai ao seu escritório e sentou-se na poltrona que ele chamava de “poltrona do pito”, cada vez que o pai queria repreendê-lo era ali que ele se sentava.

 

- Eu precisaria ser cego e surdo para não perceber como você flertou abertamente com Lady Victoria Dorsey esta noite. O que você está pretendendo?

 

- Não estou entendendo, meu pai, porque está me censurando. Lady Victoria é uma mulher de nosso meio social e viúva, portanto livre e eu sou viúvo também. Não vejo onde estaria o problema?

 

- Ela seria uma péssima opção de casamento para você. O que pretende flertando abertamente com ela?

 

- Por que seria uma péssima opção?

 

- Você ainda pergunta? Ela foi casada com Howells muitos anos e não foi capaz de lhe dar um herdeiro. Ela é estéril e você precisa de uma mulher que lhe dê pelo menos um herdeiro. Onde você está com a cabeça, Andrew?

 

- O problema deles não terem tido mais filhos poderia ser dele e não dela. – retrucou o filho exasperado com o pai.

 

- Até pode ser, mas ela já está muito velha para gerar filhos, as mulheres quando passam dos 30 anos se tornam menos férteis que as de 20. Por Deus Andrew, você quer me enlouquecer? Não tenho, pessoalmente, nada contra Lady Dorsey, é uma mulher de boa família, muito refinada, educada e uma bela moça, mas ela não lhe dará o herdeiro que você precisa.

 

- E se eu lhe disser que me sinto atraído por ela, como nunca estive por nenhuma outra mulher? Sinto esta atração desde quando ela ainda estava casada com Howells, mas sempre a respeitei, mesmo porque naquela época ela jamais me daria atenção, é uma mulher honesta.

 

- Os Wycliffs têm deveres que se sobrepõe aos possíveis sentimentos que possamos nutrir por alguém. Nada o impedirá de ter um relacionamento extraconjugal com ela, se ela concordar, agora que está viúva, basta que vocês sejam discretos. Este tipo de arranjo acontece com freqüência na aristocracia onde os casamentos são geralmente alianças de interesses.

 

Andrew sentiu uma irritação profunda tomar conta dele diante das palavras do pai. Irritava-o a forma leviana e pouco respeitosa como o pai queria que ele tratasse Lady Victoria.

 

- Meu pai, Lady Victoria Dorsey não é mulher para um cavalheiro ter com ela um relacionamento ilícito. Ela sempre foi uma mulher de respeito.

 

- Pois então trate de sufocar esta atração. Já disse que quero vê-lo casado no ano que vem e se Deus for misericordioso, sua mulher deverá estar grávida antes do final do ano.

 

Embora as palavras do pai não representassem nenhuma novidade para ele, pois ouvia esta mesma cantilena desde que entrara na puberdade. Andrew Davenport foi dormir aquela noite com uma sensação de peso no peito. Sentado em frente à lareira de seu quarto ele sorriu ironicamente ao pensar que era objeto de inveja de todos que o conheciam, invejavam seu título, sua fortuna, a vida de privilégios que levava, mas esqueciam-se que ele tinha obrigações a cumprir e algumas bem custosas.

 

*******************************************************

 

Tory teve uma noite de sono agitado, em seus sonhos se misturavam seu falecido marido e o marquês e tudo era muito confuso.

 

Alfred duelava com Andrew Davenport e o pivô do duelo era ela, no final Alfred foi morto com o peito transpassado pelo florete de Andrew que lhe atingiu o coração. Tory acordou suando, chorando e trêmula e só conseguiu recobrar a lucidez muito tempo depois. Agradeceu a Deus por tudo se tratar apenas de um mau sonho.

 

Na manhã seguinte, como haviam combinado anteriormente, Meg e Tory foram juntas à chapelaria, e os comentários das duas mulheres giravam em torno do jantar da véspera.

 

- O duque comentou ontem com Richard que quer que o filho se case logo, ele está preocupado com o fato de Andrew não ter ainda um herdeiro para o ducado. Quer uma nora bem jovem e saudável que possa lhe dar muito filhos, de preferência homens, é óbvio. – comentou Meg com a prima.

 

- Foi uma pena o que aconteceu com Jane, morrer tão jovem.

 

- Foi uma pena mesmo, para você ver que morte de parto não acontece apenas nas classes pobres, com todos os recursos que Jane teve ao seu alcance, inclusive o Dr. Wright, o médico mais conceituado da cidade não conseguiu salvá-la.

 

- Lord Hallthorn deve ter ficado devastado com a morte da esposa. – comentou Tory pensando no quanto a morte de seu próprio marido a afetara.

 

- O casamento deles não foi por amor e parece que não andava bem, comentava-se na sociedade que ele mantinha uma amante aqui em Londres.

 

Após esta conversa, Tory voltou para casa aquele final de manhã ainda mais convencida de que deveria por um ponto final em qualquer avanço do Marquês de Hallthorn. Ela decidiu que iria ao encontro dele na Serpentine para uma conversa definitiva. Tinha um discurso bem ensaiado na ponta da língua.

 

Este Lord Hallthorn está querendo acabar com minha paz de espírito. Eu não quero me envolver emocionalmente com ninguém, muito menos com alguém como ele, que quer ter apenas um caso passageiro comigo enquanto não arruma a noiva jovem que lhe dará o herdeiro. Ele deve estar achando que estou vulnerável por ser viúva e acha que serei uma conquista fácil. Mas eu vou por um ponto final nesta estória. Vou deixar bem claro a ele que não sou o tipo de mulher que ele está pensando, jamais irei me sujeitar a relacionamentos escusos, jamais irei denegrir o nome de Alfred.”[

 

Tory pediu para Sarah acompanhá-la, pois não era de bom tom uma mulher andar sozinha no Hyde Park, mas pedira a Sarah que quando o marquês se aproximasse ela se afastasse e permanecesse a uma distância discreta, pois precisava ter uma conversa reservada com ele.

 

Sara estranhou esta atitude pouco comum da prima e estranhou ainda mais o nervosismo da mesma que não parava de mexer com as mãos enluvadas numa atitude de quem estava muito agitada, porém não fez comentário algum.

 

Chegaram a Serpentine(*) que é um lago que existe no Hyde Park e sentaram-se num dos bancos.

 

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(*)http://www.inetours.com/England/London/images/Parks/Hyde/Serpentine_0071.jpg

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- Não quero que você pense mal de mim Sarah, depois vou te contar tudo o que está

acontecendo.

 

- Victoria você não me deve nenhuma explicação, sou uma mera dama de companhia e além do mais você é uma mulher livre.

 

- Eu faço questão de lhe explicar, pois me sentirei melhor. Não quero que me julgue mal.

 

- Quem sou eu para julgá-la Victoria? Você tem sido tão boa comigo que só posso ser grata e ajudá-la no que puder.

 

Neste instante, o Marquês de Hallthorn surgiu ao longe e ao ver Tory apressou seu passo. Ele cumprimentou Sarah com uma breve inclinação de sua cabeça e voltando-se para Tory disse:

 

- Agradeço que tenha atendido ao meu pedido, Lady Victoria.

 

Sarah fazendo uma reverência afastou-se do casal como havia combinado com Tory, sentou-se num dos bancos à margem do lago, numa distância razoável para não ouvir a conversa, mas mostrando claramente que Lady Victoria não estava totalmente desacompanhada.

 

- Lady Victoria, pedi-lhe este encontro porque quero conversar reservadamente com a senhora. Em nossos encontros sociais não é possível um instante sequer de privacidade. Eu quero lhe dizer o quanto a admiro e o quanto desejo que nosso relacionamento possa se aprofundar para nos conhecermos melhor.

 

- Lord Hallthorn, eu nunca lhe dei motivos para o senhor faltar com o respeito a minha pessoa. – disse Victoria com o cenho franzino demonstrando claramente o quanto estava zangada.

 

- Senhora, em momento algum passou pela minha cabeça faltar-lhe com o respeito.

 

- Então qual é o significado de marcar este encontro quase clandestino comigo e dizer que deseja aprofundar nosso conhecimento? Sinceramente a meu ver isto está me parecendo uma grande falta de respeito.

 

- Perdão, reconheço que fui imprudente e leviano marcando este encontro com a senhora, mas fui motivado pelo desespero de precisar lhe falar em particular. Não voltará a acontecer. O que se peço encarecidamente é que não impeça a oportunidade de conhecê-la melhor.

 

- E qual seria o propósito de aprofundarmos nosso conhecimento?

 

- Não lhe parece óbvio?

 

- O que me parece óbvio é que não existe a menor possibilidade de qualquer relacionamento sério florescer entre nós. Primeiro porque não tenho a intenção de voltar a me casar, segundo porque o senhor, segundo ouvi dizer, deverá escolher uma noiva e se casar no próximo ano para gerar um herdeiro para o ducado.

 

- E o que impede que seja a senhora a minha escolhida e a futura mãe de meu herdeiro.

 

- Lord Hallthorn, não é segredo para ninguém que não consegui dar ao meu falecido marido, o herdeiro de que ele tanto precisava, portanto as chances de que eu possa ter mais filhos são nulas. Vamos nos poupar futuros aborrecimentos e dar por encerrada qualquer pretensão de aprofundarmos nosso relacionamento. Vamos nos despedir como bons amigos, pois as nossas conexões familiares nos levarão a nos encontrarmos com freqüência socialmente e será melhor que o façamos como bons amigos.

 

- Lady Victoria desde que a vi no teatro no início desta semana, não tenho feito outra coisa a não ser pensar na senhora. Vou lhe confessar que eu a admiro a longo tempo, sempre a achei uma mulher bonita e sempre invejei seu marido pela sorte de tê-la como esposa. Infelizmente apesar de pertencermos ao mesmo círculo social nossos caminhos não se cruzaram quando a senhora era solteira, quando debutou na sociedade eu ainda me encontrava na universidade terminando meus estudos e somente vim a conhecê-la quando já estava casada.

 

- Como mulher, sinto-me lisonjeada por sua admiração por mim, mas o senhor há de convir  que não existe futuro possível num relacionamento entre nós. Acredite-me para nosso próprio bem, para pouparmos sofrimentos futuros, peço que o senhor me esqueça. Não lhe faltarão pretendentes e dentre elas o senhor poderá escolher sua futura esposa e a mãe de seu herdeiro.

 

Andrew ficou olhando por alguns minutos o belo rosto de Lady Victoria e percebendo a determinação desta resolveu que seria pouco cavalheiresco da parte dele continuar insistindo naquele momento.

 

- Lady Victoria, agradeço-lhe ter vindo aqui a meu pedido para esta conversa. Saiba que a minha admiração pela senhora só fez aumentar.

 

- Até logo, Lord Hallthorn. Desejo-lhe felicidades.

 

Lady Victoria Darcy fez uma elegante reverência e se afastou em direção ao banco onde Sarah a aguardava sentada.

 

Andrew Davenport ficou um longo tempo ali nas margens da Serpentine refletindo sobre a conversa que acabara de ter com Victoria Dorsey e seus sentimentos eram uma mescla de melancolia pelas ironias da vida que lhe dera todos os privilégios, mas estava lhe negando o que ele mais queria o amor de uma mulher que ao mesmo tempo em que estava tão perto de seu alcance estava tão distante.

 

O vento gelado de novembro soprava derrubando ao chão as poucas folhas mortas que ainda restavam nas árvores. O Marquês de Hallthorn se retirou do Hyde Park com passos ágeis e elegantes, no seu belo rosto um ar obstinado de quem não desiste facilmente da luta.

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