Citações

Qualquer ser humano está cercado por uma multidão de espiões involuntários. (Jane Austen)

Manhã de um novo amor - Capítulo 3

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail

Sarah se preparava para ir aquela noite ao jantar na casa dos condes de Lindsey. Colocara o melhor vestido que possuía, era cinza com a gola e os punhos de renda em branco. Era o vestido que costumava usar quando ia aos bailes públicos de Ashwell. Ela sabia que ele estava fora de moda para os padrões de Hertfordshire. O que não dizer, então, para os padrões londrinos? O que os refinados convidados dos condes iriam pensar? Ela afastou estes pensamentos negativos, pois de nada adiantariam, ela não tinha nada melhor para vestir. Sua esperança era passar despercebida em meio aos convidados, afinal ela era uma mera dama de companhia de Lady Victoria Dorsey e só fora convidada para o jantar por ser prima afastada do conde.
 

 Ela teria preferido ficar em casa, mas tanto Victoria como Meg fizeram questão que ela comparecesse, colocando-a numa situação em que a sua ausência seria considerada uma desfeita à anfitriã.

 Assim que ela encontrou Victoria no hall para apanharem a carruagem que as levaria para o jantar, esta examinou o vestido de Sarah e disse sem rodeios:

 - Sarah, amanhã nós iremos encomendar alguns vestidos novos para você. Não quero que se ofenda com meu comentário, mas estes vestidos que você está usando são sóbrios demais e as cores muito tristes não a favorecem em nada. Você é ainda muito nova para andar vestida de cinza e marrom o tempo todo.

 - Agradeço Victoria, mas você não tem obrigação alguma de me comprar vestidos, eu não teria como reembolsá-la, pois sabe que mando quase todo meu salário para ajudar minha família.

 - Estes vestidos serão um presente meu para você que tem me ajudado muito

 - Tenho feito apenas minha obrigação. Você não me deve nada.

 - Não seja orgulhosa, deixe-me dar-lhe um presente. – arrematou Victoria encerrando a questão quando o mordomo a avisou que a carruagem que as transportaria já as aguardava.

 Foram recebidos pelos anfitriões ao chegarem a Lindsey House. Meg apresentou Sarah ao marido. Seu primo o conde de Lindsey, Richard Rutherford a impressionou. Era um homem alto, elegante e bonito, com uma aura de poder, ele a saudou de maneira afável e simpática, fazendo-a se sentir à vontade em sua presença.

 Porém, uma surpresa aguardava Sarah naquela noite.

 Nada a preparara para a visão daquele homem devastadoramente bonito e charmoso. Apolo em pessoa não poderia ser mais belo. Alto, os cabelos castanhos ondulados, expressivos olhos de um azul profundo que lembravam duas safiras.

O coração de Sarah começou a bater acelerado dentro do peito, suas mãos ficaram frias e trêmulas e um rubor subir-lhe às faces eram sensações que ela não sentia há muito tempo. Afinal o que estava acontecendo com ela? O objeto de toda esta comoção estava a sua frente ao lado de Victoria que o apresentava com um sorriso orgulhoso nos lábios:

 - Sarah este é meu irmão Jonathan Darcy que quem já te falei.

 - Jonathan, esta é a Srta. Sarah Moore, prima de Alfred e de Richard.

 Sarah fez uma reverência que teve certeza saiu desajeitada e tratou de se recompor de sua comoção procurando respirar fundo, enquanto o Sr. Darcy se curvava diante dela saudando-a com o sorriso mais lindo que ela já vira no rosto de um homem.

Sarah sempre tentara sufocar seu lado romântico, pois sabia que o romantismo numa jovem pobre como ela só a faria sofrer, como sofrera quando se apaixonara pelo jovem de Ashwell, sabendo que estava alimentando um sentimento que não tinha condições nenhuma de prosperar. Achava esta estória de amor à primeira vista uma mentira inventada por quem não tinha o que fazer para encher a cabeça de jovens fúteis e desocupadas.

 - Soube que visita Londres pela primeira vez. O que está achando de nossa capital Srta. Moore?

 Sarah teria preferido que ele não iniciasse uma conversa com ela, preferia que ele tivesse lhe voltado às costas após os cumprimentos de praxe, como as pessoas faziam normalmente quando eram apresentadas a alguém que consideravam inferior na escala social.

 O que Sarah não sabia era que todos os irmãos Darcys eram muito unidos e ela havia ganhado a simpatia de todos eles ao ajudar Victoria a sair da tristeza e apatia em que andava mergulhada desde a morte do marido.

 Meg havia contado a Jonathan o quanto a companhia de Sarah havia ajudado a melhorar a disposição de Tory e isto bastou para que Jonathan sentisse gratidão e uma imediata simpatia por aquela moça que parecia tão deslocada em meio à suntuosidade de Lindsey House e que parecia uma preceptora em meio às requintadas e sofisticadas convidadas vestidas na última moda.

 - E...eu estou impressionada com o tamanho da cidade, a grandiosidade dos prédios, estou achando tudo muito bonito, Sr. Darcy.

 - Jonah, Sarah ainda não conheceu praticamente nada em Londres, pois chegamos anteontem à cidade. Vou ver se a partir da semana que vem eu a levo juntamente com Marjorie, que também se lembra pouco da cidade, pois era pequena quando esteve aqui pela última vez,  para fazerem alguns passeios pelos principais pontos turísticos.

 - Se não for atrapalhar gostaria de ir com vocês a um destes passeios. Assim poderei passar algum tempo em companhia de Marjorie que não vejo há tanto tempo. – disse Jonah sorridente para a irmã.

 - Será um prazer ter a sua companhia. Certamente, você conhece Londres melhor do que eu e será um excelente guia. Marjorie ficará louca de alegria, você sabe que é o tio favorito dela desde que chegamos que ela só pergunta de você.

 Durante o jantar, Sarah observou que Jonathan Darcy fora colocado entre duas jovens elegantemente vestidas que se desmanchavam em sorrisos cada vez que este lhes dirigia a palavra. Ela tinha que fazer esforço para desviar seus olhos daquele homem, parecia que como um imã ela se sentia atraída a ele, tinha que admitir que nunca um homem a impressionara tanto. Mas, não tinha ilusão alguma, a atenção que ele lhe dispensara quando foram apresentados se devia única e exclusivamente em consideração a Victoria.

 O jantar levantara o moral de Tory que voltou para casa com o ânimo renovado e estava falante e sorridente aquela noite.

 - Meg não perde a mania de querer arranjar noivas para meus irmãos. Primeiro foi William, ela fez de tudo para arrumar uma noiva para ele, no fim ele se casou com quem menos se esperava. Agora o Jonah, como se ele precisasse de alguém para ajudá-lo neste assunto, as mulheres faltam se atirar em cima dele e ele é experiente o suficiente para driblá-las com aquele seu sorriso devastador. É meu irmão, mas tenho que admitir que seja um conquistador e um libertino, não irá se casar tão cedo apesar das pressões de nosso pai.

 Sarah não entendia a razão de estar se sentindo incomodada com estas palavras, bem como não entendia as emoções que Jonathan Darcy estava despertando nela. Ela seria uma louca se permitisse nutrir qualquer sentimento por ele, pois não havia a menor chance dele sequer notar sua existência quanto mais corresponder a algum sentimento que ela viesse a ter por ele. Pertenciam a mundos distintos, separados pelas barreiras das classes sociais e econômicas.

 - Você gostou do jantar Sarah? – Tory perguntou após alguns momentos de silêncio.

 - Muito, tanto Meg como Richard são anfitriões perfeitos. Eles foram muito simpáticos comigo.

 - Nossa família é toda assim. Você vai gostar muito de Patricia quando a conhecer, apesar de ser filha de um duque, ela é muito simples e amável. William, meu irmão já é sério, calado, mas é uma excelente pessoa também.

 ******************************

 Na semana seguinte como havia prometido, Jonathan levou sua irmã, a sobrinha e Sarah para o prometido passeio aos pontos turísticos de Londres.

 A pequena Marjorie não cabia em si de felicidade, desde o dia anterior só falava no passeio que elas fariam no dia seguinte.

 Primeiramente visitaram a Catedral de São Paulo, depois a Torre de Londres e finalmente a Abadia de Westminster. No final do passeio ele as levou a uma confeitaria para tomarem chá e comerem doces.

 Sarah estava encantada com tudo que viu os locais que visitou e as ruas de Londres que percorreu com seus edifícios grandiosos e suntuosos.

 - Gostou do passeio Srta. Moore?

 - Sim, muito, Sr. Darcy.

 - Do que mais gostou?

 - Impressionou-me a Abadia de Westminster pensar que todos os reis da Inglaterra desde Guilherme, o conquistador, foram coroados ali, porém a Catedral de São Paulo é mais bela e grandiosa.
 

 ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Abadia de Westminster:

alt

 Catedral de São Paulo:

alt


 ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

 Durante o passeio Jonathan havia dividido sua atenção entre suas três acompanhantes. Mas, Marjorie foi quem monopolizou as atenções do tio, cada vez que eles caminhavam, ela se pendurava no braço dele e não parava de falar numa animação que não se via nela desde a morte do pai.

 Sarah procurou ficar meio de lado no grupo, como convinha a uma dama de companhia, só participando da conversa quando era solicitada. A emoção que sentira no primeiro encontro com Jonathan Darcy persistia, ela sentia como se uma corrente magnética passasse por ela cada vez que ele lhe dirigia o olhar, aqueles olhos azuis escuros a hipnotizavam, ela sentia um desejo de mergulhar neles mesmo sabendo que se afogaria em suas águas profundas. Era um sentimento tão insano e fora de propósito que ela jurou sufocá-lo com todas as suas forças.

 ******************************

 Apesar dos protestos de Sarah, Tory providenciou alguns vestidos novos para ela, encomendando-os a sua própria costureira. Mas, respeitou o gosto discreto e prático de Sarah, eram vestidos de ótimo tecido e caimento, mas todos simples, mas Tory fez questão de que nenhum fosse cinza ou marrom.

 Sarah ficou eufórica quando numa noite Tory e ela foram convidadas a assistir uma ópera no camarote dos condes de Lindsey. Sarah sempre sonhara assistir a um espetáculo desses e finalmente iria realizar seu sonho.

 A suntuosidade da The Royal Opera House, as mulheres e homens em luxuosos trajes de gala, a beleza do espetáculo em si, tudo era um encantamento para Sarah. Logo que se iniciou o intervalo, Richard pediu licença às mulheres e saiu do camarote enquanto elas imediatamente começara a conversar.

 - Tory, você reparou como o Andrew Davenport não tirava os olhos de nosso camarote? – comentou Meg com um sorriso malicioso.

 - Você deve estar imaginado coisas Meg. Porque ele estaria olhando para cá? Não seria para o camarote vizinho ao nosso?

 - Não. Repare que ali só tem senhoras idosas. Olhava para o nosso camarote e se você quer que eu seja mais específica, olhava para você. Até o Richard percebeu e comentou comigo maliciosamente que parecia que Andrew havia perdido algo em nosso camarote.

 - Você está vendo coisas. Por que ele olharia para mim?

 - Victoria Dorsey, porque você é uma mulher jovem, está no auge da beleza e está disponível.

 Tory havia puxado a beleza de sua mãe Elizabeth, tinha os mesmos cabelos e olhos castanhos, como em sua mãe, a expressividade de seus olhos atraía a atenção em meio a um rosto de feições suaves e delicadas. Agora, aos 33 anos, na maturidade sua beleza parecia haver atingido o seu auge. Vestia-se com refinamento e elegância sabendo valorizar seu porte esguio e elegante.

 - Meg, eu não estou disponível. Sou uma viúva e você sabe muito bem que não pretendo voltar a me casar.

 - Por que não? Se você tiver oportunidade de reconstruir sua vida deve fazê-lo, você é nova demais para continuar sozinha o resto de sua vida. E que belo partido o Marquês de Hallthorn e um dia ele será o Duque de Wycliff, já pensou minha querida prima uma duquesa.

 - Pare já com estas besteiras Margareth. Casar-me novamente seria como trair a memória de Alfred.

 - Acho este seu pensamento equivocado, Alfred era um homem extremamente generoso, ele seria o primeiro a não querer vê-la solitária o resto de sua vida.

 - Eu não estou solitária, tenho Marjorie e agora Sarah para me fazerem companhia. Aposto que se acontecesse algo a Richard, você também não pensaria em se casar novamente.

 - Não estamos falando de mim, mas de você Tory.  E vamos encerrar este assunto agora, porque o objeto de nossa discussão está entrando aqui com Richard. – disse Meg entre dentes sorrindo para o marido e para Lord Hallthorn ao vê-los entrar no camarote.

 - Andrew fez questão de vir cumprimentá-las. – anunciou Richard com um sorriso.

 Após os cumprimentos de praxe e a apresentação de Sarah ao marquês de Hallthorn. Este se voltou para Tory e disse sorrindo:

 - Lady Victoria faz tanto tempo que não nos encontramos, que quando a vi aqui no camarote de Richard a princípio não a reconheci. Um prazer revê-la. Como tem passado?

”Por que será que ele não me reconheceu? Ele me conhece há muitos anos. Será que mudei tanto assim. Será que a viuvez me envelheceu tanto que estou irreconhecível? Pensou Tory meio alarmada, como toda mulher a observação do marquês havia tocado em sua vaidade.

 - Estou bem, Lord Hallthorn.

 - Gostaria de convidá-la para o jantar nesta próxima quinta-feira na Wycliff House ficaria muito feliz com a sua presença.

 - Agradeço o convite, terei grande prazer em comparecer.

 Após mais alguns minutos de conversa sobre a peça que assistiam, o sinal anunciando o final do intervalo tocou e o marquês retornou ao seu camarote.

 Quando voltaram para casa, Victoria pediu a Sarah que a ajudasse a desmanchar o penteado elaborado que estava usando, pois havia dispensado a criada de quarto, mas o motivo principal era que Victoria queria desabafar com Sarah suas preocupações.

 - Estou começando a achar que Meg tinha razão. Depois do intervalo é que eu percebi os olhares que Lord Hallthorn me lançava, como se eu tivesse dado algum tipo de abertura para ele me olhar daquele jeito.

 - Ele é um homem muito bonito e sedutor.

 - Isto não lhe dá o direito de querer flertar comigo não dei mostra alguma de procurar a atenção dele. Por que fui aceitar o convite para o jantar? Agora vou ser obrigada a ir.

 - Acho que ao invés de se sentir ofendida, você deveria se sentir lisonjeada, afinal isto significa que ele a achou bonita, uma mulher atraente como na realidade é.

 - Sarah você fala assim porque não faz idéia de como são estes aristocratas, quanto mais poderosos são piores. E o Marquês de Hallthorn, é filho e herdeiro do Duque de Wycliff, poucos homens no reino são tão poderosos como o duque. Eles acham que com um estalar de dedos conseguem que qualquer mulher corram ansiosas em agradá-los. São uns descarados. Claro ele deve estar imaginando que como estou viúva, serei uma presa fácil para as artimanhas dele.

 - Desculpe-me a franqueza, mas acho que você está exagerando Victoria. Ele me pareceu perfeitamente respeitoso, um cavalheiro. Não se esqueça que você e ele são primos de Lord Richard. E a irmã dele, Lady Patricia é sua cunhada, casada com seu irmão William. Ele jamais iria faltar com o respeito a você.

 - Nada é empecilho para homens como Lord Hallthorn alcançarem seus objetivos escusos. Quando ele era solteiro era famoso por suas conquistas amorosas. Mas, deixe estar, sei cortar o mal pela raiz.

 Aquela noite Sarah foi dormir pensando que a indignação de Victoria era um escudo que ela estava usando contra o medo de abrir seu coração para um novo amor. Entendia perfeitamente a dificuldade dela em deixar para trás um passado que fora tão feliz e se lançar para um futuro cheio de incertezas.

 

 

LAST_UPDATED2

 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje26
Neste mês811
Desde Março de 200975990
Brazil flag 63%Brazil (41193)
United States flag 6%United States (4083)
Portugal flag 5%Portugal (3213)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1337)
Ukraine flag <1%Ukraine (393)
France flag <1%France (297)
Netherlands flag <1%Netherlands (291)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (273)
Germany flag <1%Germany (269)
Latvia flag <1%Latvia (149)