Citações

Quando as pessoas se decidem a adotar um tipo de conduta que sabem errada, sentem-se injuriadas quando se espera algo melhor da parte delas.(Jane Austen)

Manhã de um novo amor - Capítulo 1

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Há cerca de dois anos passados, numa fria manhã de novembro alguns trabalhadores do campo trouxeram o corpo de Lord Alfred Dorsey em uma carroça.

 

O fatal acidente aconteceu quando Lord Alfred cavalgava, como era seu costume, de manhã bem cedo por sua propriedade, Grangewood Hall em Hampshire. Ao saltar um muro de pedras, seu cavalo se desequilibrou jogando-o ao chão. A queda foi de mau jeito, ao atingir o solo ele quebrou o pescoço, morrendo instantaneamente.

 

A morte inesperada de Lord Alfred, aos 36 anos de idade, foi uma fatalidade que pegou a todos de surpresa, deixando viúva, aos 31 anos, Lady Victoria Dorsey, a filha mais velha de Fitzwilliam e Elizabeth Darcy.

 

Houve momentos, principalmente durante o primeiro ano, após a morte do marido que Victoria pensou que não fosse suportar a dor que parecia dilacerar seu coração. Mas, superou bravamente aquela dor terrível do início do luto que aos poucos foi sendo substituída por uma dor mais amena, mais suportável e menos dolorosa.

 

A saudade e a falta que sentia do marido estavam sempre povoadas pelas lembranças tão doces e tão queridas dos momentos que vivera com Alfred nos 12 anos de casamento.

 

Lembranças de toda a trajetória da vida em comum, da emoção dos primeiros encontros, do primeiro beijo, da cerimônia de casamento, dos momentos de amor, do nascimento da única filha deles, Marjorie, da expectativa e da decepção de não ter podido dar a ele o herdeiro de seu título e sua fortuna, que ele tanto queria e que ela não fora capaz de gerar, mas em momento algum ouvira dele uma reclamação ou uma palavra áspera a este respeito.

 

As melhores lembranças, entretanto, eram das inúmeras viagens que fizeram juntos. Alfred a levara a vários países da Europa, extremamente culto, ele tornara estas viagens ainda mais agradáveis, pois discorria com conhecimento sobre a História dos locais que visitavam, não havendo melhor guia que ele.

 

Não havia como não amar Alfred fora o homem mais generoso, gentil e carinhoso que uma mulher poderia ter por companheiro. Victoria se sentia privilegiada pela oportunidade que Deus e a vida lhe dera de ter convivido com um homem tão especial como Lord Alfred Dorsey.

 

A vida de Victoria Darcy, até o falecimento do marido, sempre tinha sido como um lago tranqüilo. A filha mais velha dos Darcys fora criada por pais amorosos, vivendo uma vida de privilégios. Ao completar 18 anos fora para Londres para sua apresentação à sociedade sendo considerada a mais linda debutante daquele ano e teve muitos pretendentes a sua mão.

 

Conheceu Lord Alfred Dorsey, Visconde Howells naquele mesmo ano, durante um passeio no Hyde Park em Londres. Simpatizou imediatamente por aquele rapaz loiro, de olhos claros que não chegava a ser um homem bonito, mas tinha um aspecto físico agradável, sendo extremamente simpático, afável e educado.

 

Apaixonaram-se perdidamente um pelo outro.

 

Na primavera do ano seguinte, casaram-se numa linda cerimônia na pequena igreja de Lambton, perto de Pemberley, com a presença e a benção de toda a família.

 

Logo, após o falecimento do marido, completamente desnorteada Tory, como era chamada carinhosamente pelos familiares, se deixara levar pelos parentes que queriam ajudá-la e confortá-la.

 

Primeiro o pai a levou para Pemberley, onde Tory e a filha passaram uma longa temporada, mas mesmo o apoio e o conforto de seus pais não conseguiram aplacar a sua dor. Depois, Meg, sua prima que ela considerava uma irmã mais velha por terem sido criadas juntas, levou-a para Londres durante outra temporada. Ela continuou agindo como um autômato, indiferente às pessoas e ao ambiente que a cercavam.

 

Somente o tempo, este operador de milagres, ajudou a cicatrizar lentamente suas feridas e por fim, ela compreendeu que precisava seguir sua vida sozinha sem ficar na dependência dos parentes e voltou em companhia de sua filha para sua propriedade Grangewood Hall, em Hampshire, no sul da Inglaterra.

 

Segundo as intrincadas leis de sucessão britânicas, como o Visconde Howells não deixara um filho do sexo masculino, o título, as propriedades e terras seriam herdadas pelo parente masculino mais próximo e este era justamente o marido de sua prima Meg, o Conde de Lindsey, Richard Rutherford.

 

Richard tranqüilizou Victoria de que ela teria o usufruto das propriedades e das terras do marido enquanto vivesse e que sua filha teria seu dote assegurado, dando a elas tranqüilidade e estabilidade financeira para prosseguirem suas vidas.

 

Marjorie, sua única filha, agora com 11 anos de idade, estava entrando na difícil fase da adolescência. Ela ficara tão traumatizada com a morte do pai quanto a mãe, sentia muita falta dele por quem sempre sentira veneração, após sua morte tornara-se uma menina melancólica, calada e por vezes tinha surtos de agressividade contra a mãe, como se ela fosse a responsável pela morte do pai.

 

Logo que Tory retornou a sua propriedade, recebeu uma carta de Meg dizendo-lhe que um parente distante de Richard e Alfred estava passando por dificuldades financeiras e se ela não gostaria de ajudá-lo aceitando uma de suas filhas como sua dama de companhia.

 

Tory concordou com a vinda da jovem. Primeiro, para ajudar o parente necessitado e depois, porque seria bom para ela ter a companhia de uma mulher adulta, agora que estava só com a filha numa isolada propriedade do campo.

 

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Sarah Moore era a filha mais velha dos seis filhos do reverendo John Moore, pároco de Ashwell, uma pequena cidade em Hertfordshire.

 

A família Moore passava por uma situação financeira difícil devido à longa enfermidade da esposa do pároco que consumira todas as economias da família duramente acumuladas, além disso, um dos dois filhos homens do pároco era paraplégico, sendo que apenas o outro filho ajudava no sustento da família, trabalhando como ajudante numa marcenaria em Ashwell.

 

Foi então que providencialmente o reverendo recebeu uma solicitação do Conde de Lindsey, de quem era primo distante, se não gostaria de enviar uma de suas quatro filhas para ser dama de companhia de Lady Victoria Dorsey, que enviuvara recentemente e se sentia muito solitária e deprimida.

 

O Reverendo John Moore recebeu o pedido com reservas, pois jamais se separara de suas quatro filhas e não gostaria de ver nenhuma delas vivendo longe da família, que era muito unida. Após, muita ponderação, a situação financeira precária em que viviam pesou na decisão, afinal o salário oferecido era compensador e representaria um alívio nas despesas familiares.  

 

A escolha do reverendo recaiu a contragosto sobre a mais velha de seus filhos, Sarah de 27 anos.

 

Seria uma grande perda para a família, pois Sarah era uma moça ajuizada que exercia uma influência positiva sobre suas irmãs mais jovens, além disso, desde muito jovem ela ajudava a mãe a cuidar dos irmãos menores e era quem atualmente estava à frente nos trabalhos domésticos da casa.

 

As outras três filhas do pároco, eram bem mais jovens que Sarah, contavam 19, 16 e 14 anos respectivamente, sendo que a mais velha delas já estava noiva e tinha casamento marcado para a primavera do ano seguinte. As duas meninas mais novas eram jovens demais para viverem longe da família na casa de parentes estranhos.

 

Sarah Moore era uma moça sem grandes atrativos físicos, cabelos castanhos sempre presos num coque severo na altura da nuca, a única beleza naquele rosto de feições regulares eram os olhos, tinha belos olhos castanhos sombreados por longos cílios que chamava a atenção pela vivacidade e por terem um brilho de inteligência. Era de estatura mediana, magra e ágil de corpo.

 

Talvez a falta de atrativos físicos se devesse aos vestidos que Sarah usava, que em nada contribuíam para dar algum destaque a sua figura ou realçar suas formas femininas. Os poucos que possuía eram de cor cinza ou marrom, extremamente sóbrios, mas limpos e cuidadosamente cerzidos quando começavam a puir.

 

A falta de beleza aliada à pobreza da família e a conseqüente falta de dote, dificultara suas possibilidades de casamento. Tivera apenas um pretendente a sua mão quando contava 22 anos.

 

Era o dono de uma pequena loja de armarinhos da vizinhança, que na época tinha seus 35 anos, mas ela o rejeitou apesar de saber que seria provavelmente sua única oportunidade de se casar, pois o pobre homem era feio como o diabo.

 

Sarah tinha consciência de não ser nenhuma beldade, e também nunca aspirara ter um marido bonito, mas aquele homem atarracado, com bochechas caídas que lembravam as de um bulldog, era algo que ela não conseguiria tolerar ver diariamente. Ela não conseguia se imaginar tendo qualquer tipo de intimidade com ele e apesar de virgem, ela sabia muito bem quais seriam seus deveres maritais como esposa.

 

Ela preferiu a dura sina de se tornar uma solteirona, pois tinha quase certeza de que não receberia nenhuma outra proposta de casamento, como realmente acabou acontecendo.

 

Foi em meio a lágrimas que Sarah se despediu dos pais e de seus irmãos de quem nunca se separara antes e partiu numa diligência para a casa da prima desconhecida em Hampshire. Durante a longa e desconfortável viagem apenas pensamentos lúgubres povoavam sua cabeça, sabia perfeitamente a sua sina ao ir viver como parenta pobre na casa de parentes ricos, seria uma vida de trabalho, solidão e isolamento. Apesar da simplicidade com que sua família vivia havia muito amor e companheirismo em sua casa.

 

Sarah Moore chegara à suntuosa propriedade da Viscondessa de Howells, temerosa e certa de encontrar uma prima rica, esnobe e orgulhosa. Normalmente, as jovens pobres que iam morar na casa de parentes ricos eram vistas com desprezo e consideradas hierarquicamente apenas um pouco acima de uma criada. Mas, ficou gratamente surpresa ao ver que Lady Victoria era uma mulher simples, simpática e generosa, que a tratou desde o princípio com educação e gentileza. Não demorou muito para ganharem a confiança mútua e tornarem-se amigas.

 

A presença de Sarah ajudou a amenizar a solidão de Tory que tinha agora uma companhia feminina de sua idade, com quem podia conversar e principalmente desabafar sua dor.

 

Ela adorava contar sobre sua vida com Lord Alfred a Sarah, parecia-lhe que estava dividindo o fardo de sua dor com alguém. Sarah era uma excelente ouvinte, deixava Tory falar à vontade, fazendo perguntas pertinentes demonstrando que se interessava e estava ouvindo atentamente as narrativas da prima. Gostava, particularmente de ouvir os relatos sobre as inúmeras viagens que esta fizera com o marido por terras distantes e exóticas.

 

Sarah imaginava como seria viver um grande amor como o de Tory com um homem generoso e cavalheiresco como Lord Alfred e visitar estes lugares que ela conhecia através dos livros de Geografia.

 

O trabalho, como dama de companhia de Lady Victoria Dorsey, não poderia ser mais leve para Sarah, acostumada ao duro trabalho de cuidar da casa, do pai, das irmãs e principalmente da mãe e do irmão doentes. Ele consistia basicamente em acompanhar Victoria em seus passeios a pé pela propriedade, às visitas aos pobres da região levando alimentos e roupas e fazer-lhe companhia enquanto bordavam e costuravam às tardes. Passavam praticamente o dia inteiro juntas.

 

Tory tinha curiosidades em saber sobre a vida de Sarah, tão diferente da sua, numa tarde, quando ambas se encontravam costurando, ela fez-lhe uma pergunta sobre uma questão que a deixava curiosa.

 

- Sarah você já amou alguém?

 

- Há muitos anos atrás Victoria, quando tinha 18 anos me apaixonei pelo filho de um advogado de Ashwell, a cidadezinha onde fica a paróquia de meu pai. Ele era um jovem simpático e muito popular, mas acho que nunca notou minha existência e muito menos soube dos sentimentos que eu nutria por ele.

 

- E o que aconteceu com ele? Ainda vive em Ashwell?

 

- Ele acabou se casando com a filha de um proprietário de terras da região. Atualmente, ele ajuda o sogro a cuidar das terras que um dia serão dele. Ele e a esposa têm três filhos.

 

- E você nunca amou mais ninguém? Nunca recebeu uma proposta de casamento?

 

- Não amei mais ninguém. Recebi uma proposta de casamento de um senhor de 35 anos, eu estava com 22 na época, ele é dono de uma pequena loja em Ashwell, mas não aceitei porque não sentia nenhuma simpatia por ele, achei que não iria tolerar viver com ele.

 

- É um casamento nestas condições seria péssimo. O ideal é casar por amor, mas quando não existe amor pelo menos é necessário se sentir simpatia pelo noivo. Você fez muito bem em não ter aceito este homem. Quem sabe um dia destes você ainda encontra o seu príncipe encantado.

 

- Já passei da idade de sonhar com estas coisas, Victoria. Príncipes encantados só existem nos livros de estórias infantis. – percebendo uma certa amargura nas palavras de Sarah, Victoria achou melhor mudar de assunto.

 

- Você conhece Londres, Sarah?

 

- Não, nunca estive lá. Dizem que é uma cidade enorme e muito bonita.

 

- Pois se prepare para conhecer. É realmente uma cidade enorme e muito interessante, quanto a ser bonita, há partes bonitas e partes feias, como em toda grande cidade. Vamos passar o mês de novembro lá, não quero ficar aqui em Grangewood na data de aniversário de dois anos do falecimento de Alfred, as lembranças seriam insuportáveis. Em Londres irá conhecer minha prima Meg, ela é a Condessa de Lindsey, é uma doçura de pessoa, você irá gostar muito dela. Ela foi criada por meus pais, mas tanto eu como meus irmãos a consideramos como uma irmã mais velha. Vai conhecer também meu irmão Jonathan que é diplomata, ele estava até a bem pouco tempo em missão no exterior, agora está trabalhando na Chancelaria em Londres.

 

A idéia de conhecer Londres entusiasmou Sarah que nunca havia saído de Ashwell até viajar para Hampshire e agora iria conhecer a capital com seus belos edifícios, museus, catedrais, palácios e parques. Ela pensou imediatamente que gostaria de fazer alguns passeios a estes locais em seu tempo livre se Victoria permitisse.

- Onde ficaremos hospedadas Victoria?

 

- Tenho uma casa em Londres, em Mayfair, não é muito grande, mas é bastante confortável. Tenho certeza que você irá gostar de Londres, Sarah. Lá teremos algumas diversões, como espetáculos de balé, operas, jantares e visitas na casa de amigos, não ficaremos tão isoladas como aqui em Grangewood.

 

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