Citações

Marienne Dashwood havia nascido para um extraordinário destino. Nascera para descobrir a falsidade de suas opiniões e para contrariar, pela sua conduta, suas máximas favoritas.(Jane Austen)

PROCURA-SE UM EX-NAMORADO DESESPERADAMENTE - CAPÍTULO IX

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Capítulo IX

Natan Elliot...



Ah, Paris! Até o ar desta cidade exala amor e romantismo. A magia de Paris é tão grande que aposto que se o Brutus do Popeye viesse aqui seria mais cavalheiro. Agora vamos a grande ironia, eu estava na cidade dos apaixonados a trabalho e completamente sozinha e sem grandes perspectivas.

Não foi nada fácil pegar um táxi vazio no aeroporto em plana segunda-feira de manhã, mas um gentil senhor me cedeu o seu após quinze minutos tentando. O trânsito estava meio caótico, pois era hora do rush, buzinas e gritos eram ouvidos a todo instante.

O taxista era turco e muito falante. Em dez minutos de corrida eu já conhecia toda a trajetória dele no país, melhor, acho que ele me contou desde quando ele morava na Turquia e veio para Paris clandestinamente. Eu tentava mesmo prestar atenção na conversa, mas precisava checar em minha agenda eletrônica meus compromissos daquele dia.

Visita ao parlamento agora pela manhã; almoço com a primeira fonte às treze horas e uma longa e penosa noite solitária na cidade luz. São em momentos como este que adoraria ser como a Charlotte, me vestir para matar e sair sem destino pela cidade até encontrar alguém interessante, mas sou meio travada para essas grandes loucuras. Certamente ficaria no hotel mesmo. Essa sou eu: Elizabeth Bennet.

- Vou tentar cortar caminho pela outra rua, pois aqui está impossível de transitar. – ouvi o motorista falar, mas não o olhei, pois estava lendo um material que o James mandou me entregar hoje cedo antes da viagem.

Andamos mais alguns metros e de repente senti meu corpo ser lançado com toda força para frente espalhando os papeis; o som de uma freada brusca se misturou com o som ensurdecedor de uma batida, a partir daí a escuridão tomou meus olhos...

- Madmoseile! Madmoseile!
As vozes estavam distantes; o zumbido forte que ecoava em meus ouvidos fazia minha cabeça latejar de dor enquanto o gosto horrível de sangue tomava minha boca. Tentei me mexer, mas meu corpo todo doía.

- Madmoseile!

Novamente ouvi a voz, mas agora todo o barulho estava mais perto, mais claro. Comecei a abrir os olhos devagar e me deparei com muitas pessoas me olhando preocupadas e assustadas.

- A senhora está bem? – alguém me perguntou em inglês.

- Acho que sim. – respondi com dificuldade, pois minha boca ardia um pouco. – Mas... Mas o que houve?

- Vocês bateram em outro carro, senhora. Agora fique calma que vamos tirá-la do carro. – só então pude perceber que eram para-médicos que estavam ao meu redor.

- E o motorista? – me preocupei, pois não o vi.

- Ele está bem, já está na ambulância. Agora quero que fique calma; vou colocar o colar cervical por precaução, tudo bem? – assenti, então ele fez os procedimentos necessários.

Não demorou muito para me colocarem na maca e em minutos eu estava na ambulância rumo ao hospital. Eu estava confusa, mas apesar do corte na boca e a dor de cabeça, me sentia bem. Tentei protestar e dizer isso aos para-médicos, mas eles diziam que só após uma avaliação médica poderiam me liberar.

Já no hospital após um exame superficial e alguns curativos, me obrigaram a fazer uma tomografia e para finalizar me deixaram em um quarto para ficar em observação até um neurologista vir falar comigo.

- Olha, não tenho porque ficar aqui. – enfatizei quando a enfermeira veio me dar um analgésico. – Eu estou ótima.

- Só o médico vai poder te liberar. Então por que não aproveita um pouco e descansa.

- Não posso ficar aqui! – reclamei – Tenho que ir trabalhar e estou atrasada.

- Sempre os estressadinhos. – ela resmungou impaciente – Vou ser bem clara. Você precisa ficar aí até o médico vir te examinar.
- Estou esperando há quase duas horas! Pode chamá-lo para mim, por favor?

- Claro, deseja mais alguma coisa? Um café? Uma água? – ela ironizou, mas fingi não perceber.

- Quero saber onde colocaram minhas coisas que estavam no táxi, por favor.

- A polícia de trânsito recolheu e pode pegar tudo quando sair daqui. Alguém na portaria vai te dar o endereço, mas sua bolsa e seus documentos estão ali em cima. – ela apontou para uma mesinha que ficava no quarto. - Agora trate de ficar quieta, pois assim vai interromper o soro e precisa dos analgésicos contidos nele para não sentir dor.

Mesmo a contragosto deitei novamente. Eu realmente me sentia bem e não precisava ficar aqui, mesmo porque odeio hospitais; tenho verdadeiro pavor. Mas tinha que concordar com a enfermeira chata, a dor estava desaparecendo. Já como não tinha outra opção a não ser esperar, fechei os olhos enquanto me acomodava melhor na cama e isso me fez muito bem; não demorou muito para eu pegar no sono.

- Acorde! O médico está vindo e precisa estar acordada para que ele a examine. – abri os olhos e me deparei com outra enfermeira. E essa era bem mais carinhosa e paciente.

- Quanto tempo dormi? – perguntei meio grogue, acho que devido a medicação.

- Umas três horas. – ela respondeu me ajudando a sentar na cama.

- Tudo isso?! – me exasperei. – Eu deveria estar almoçando com uma pessoa agora. Droga! O James vai me matar. Será que posso dar um telefonema?

- Assim que médico te ver e liberar.

- Mas se eu não fizer esta ligação vou perder meu emprego e uma grande matéria, por favor. – supliquei.

- Realmente não posso fazer isso. Mas já que é tão importante, posso fazer a ligação para você.

- Eu serei eternamente grata se você fizer isso para mim. Pode pegar minha bolsa ali, por favor?

- Claro.
Esperei ela vir com a bolsa e retirei minha agenda anotando o telefone do jornal e o celular do James em um papel. Pedi para ela contar a ele o que aconteceu e que ele cancelasse o encontro com as fontes já que estava sendo mantida refém naquele hospital e não sabia quando seria liberada.

- Pode deixar, ligarei assim que possível.

- Muito obrigada?

- Christine.

- Obrigada mesmo, Christine.

Ouvimos passos se aproximando e um homem vestido de branco entrou de cabeça baixa analisando provavelmente minha tomografia.

- O Dr. Eliot está vindo, vou deixá-la com ele agora. Volto assim que fizer a ligação.

Nem me dignei a olhar para o médico, permaneci emburrada olhando para a janela. Certamente ele também não iria me liberar, mas ele ouviria meus argumentos infalíveis.

- Como ela está? – ouvi ele perguntando a enfermeira, mas ainda não olhei para eles. Porém algo me inquietou: aquela voz não me era estranha.

- Os sinais estão normais; alguns hematomas superficiais e um corte interno na região da boca.

- Ótimo! Preciso que providenciem mais um soro com essa medicação. – provavelmente ele entregou uma receita a ela, pois ela disse que iria providenciar e saiu do quarto.

De onde eu conhecia aquela voz? Deus! Não, não podia ser.

- Como está se sentindo, Srta... – ele foi até a minha ficha e ao ler meu nome nos encaramos chocados ao mesmo tempo. – Bennet. – ele finalizou com a voz falha.

O quarto estava girando? Porque tudo estava rodando ao meu redor. Meu coração acelerou enquanto minha respiração ofegou circulando quente por meu pulmão e minha garganta.

Ele também parecia desconsertado. Seus olhos negros estavam fixos em mim enquanto aqueles lábios vermelhos tremiam levemente. Após alguns segundos intermináveis, ele pareceu retomar o controle e esboçou um sorriso tímido.

- Como se sente, Elizabeth? – perguntou se aproximando.
- Es... Estou ótima. – respondi com dificuldade. – Quero ir embora daqui, doutor. – meu tom soou frio e impessoal.

- Sinto muito, mas terá que ficar em observação por esta noite.

- Estou perfeitamente bem. Não sinto nada. – a não ser meu coração dilacerado por revê-lo após tantos anos e sentir a mesma dor de seis anos atrás.

- Levou uma pancada forte na cabeça e teve uma leve concussão, por isso precisa permanecer no hospital por esta noite para observarmos se seu quadro muda.

- Não pode me manter aqui contra a minha vontade! – elevei meu tom, colocando para fora toda a raiva e mágoa que sentia dele.

- Não, não posso. Mas não vamos deixar que mágoas do passado coloquem sua saúde em risco. – pude ver dor nos olhos dele, mas isso não me compadeceu.

Não consegui responder, estava tentando conter a enxurrada de lágrimas que estava presa em meus olhos.

- Lizzy... – ele tentou tocar meu rosto, mas me afastei.

- Não, Natan. – falei séria – Não.

- Tudo bem. – ele assentiu se afastando e caso eu tenha visto bem, ele enxugou uma lágrima dos olhos, mas talvez o efeito dos remédios estivesse me fazendo ver coisas.

- Quando poderei ir embora? – perguntei friamente.

- Se tudo continuar evoluindo bem, amanhã pela manhã. Pedirei a outro médico que cuide do seu caso.

- Somos adultos agora, Natan. Faça seu trabalho. – confesso que fui dura demais, mas vai dizer isso ao meu coração ferido.

- Ok. Passarei aqui à noite para ver como você está.

- Obrigada, doutor. Natan? – chamei antes dele sair. O olhar suplicante que ele me lançou foi como uma flecha no meu peito.

- Sim?

- Preciso fazer algumas ligações e só vão trazer meu celular se você liberar.

- Ah! – ele pareceu decepcionado – Vou ver o que posso fazer.

- Obrigada.
Ele ainda tentou falar alguma coisa, mas não dei esta liberdade a ele. Meu olhar duro e distante o fez se afastar cabisbaixo. Fechei os olhos com força quando me vi sozinha e deixei algumas lágrimas caírem; rever o Natan reabriu antigas e dolorosas feridas.


***~***~***~***~***~***~***

Quase oito da noite e o sono estava longe de chegar. Realmente ficar em uma cama de hospital sem fazer nada não era o meu forte mesmo; estava quase morrendo de tédio quando Christine entrou no quarto sorridente com uma bandeja com comida.

- Hora do seu jantar. – ela anunciou sorridente.

- Como pode chamar isso de jantar? – fiz uma careta ao ver a sopa sem gosto a minha frente. – Quando eu precisar perder peso vou me internar aqui.

- Muito engraçado. – ela sorriu – Está em observação e por isso deve maneirar no que come. Como está se sentindo?

- Ótima! Já poderia estar no hotel a esta hora saboreando um bom jantar francês.

- Amanhã você estará livre. Teve muita sorte em não ter nada, foi um acidente muito feio.

- Fico feliz em ver que a sorte ainda lembra de mim. – ironizei começando a comer aquela água com legumes. – Christine? – comecei o assunto que estava me inquietando há horas.

- Sim?

- Faz tempo que o Dr. Elliot trabalha aqui?

- Acho que uns três anos; quando entrei ele já trabalhava. Ele é lindo, não é? – o sorrisinho dela não me surpreendeu. Natan sempre causou essa reação nas mulheres.

- Nem reparei. – menti – Ele é casado ou coisa parecida? – tentei parecer o menos interessada possível.

- Não que eu saiba. Está interessada nele?

- Claro que não! Perguntei por perguntar.

- Sei. – ela não caiu muito na minha mentira, afinal eu era uma péssima atriz. – Ele já apareceu com uma namorada uma vez, mas faz um tempo, depois disso nunca ouvimos falar sobre isso. Ele é muito reservado com sua vida pessoal e não se envolve com ninguém do trabalho.

- Hum... Ele ainda está aqui no hospital?
- Está. O plantão dele só acaba amanhã às cinco da manhã. Por quê?

- Por nada, só curiosidade.

- Se ele te der bola você vai ser a heroína deste hospital. Agora termina essa sopa enquanto vou recolher os pratos dos ouros quartos.

Quando me vi sozinha pensei em jogar a sopa na planta que estava no canto, mas nem a coitada merecia aquele grude. Resolvi comer um pouco, é melhor do que passar a noite toda com fome. Odeio sentir fome!

Me assustei quando o celular que estava na cabeceira da cama começou a tocar. Não sei como ele fez, mas poucos minutos depois que o Natan saiu do quarto, Christine trouxe meu celular. Identifiquei o número da Char e meu ânimo só melhorou.

- Quer morrer cedo, é? – ela gritou do outro lado.

- Sou ruim demais até para morrer. – brinquei.

- Só soube agora. Acabei de chegar da casa dos meus pais e vi o recado da Jane na secretária. Como você está amiga?

- Fisicamente estou ótima, não foi nada, estou no hospital só por precaução, mas sentimentalmente estou um lixo.

- Como assim?

- Você não vai acreditar em quem é o médico que está me acompanhando.

- Ainda não tenho bola de cristal, então fala logo.

- Natan Elliot.

- Mentira!

- Ah! Quem dera que fosse mentira. Dá pra acreditar que o encontrei aqui assim? Logo quem eu não queria encontrar!

- Realmente, muita coincidência, amiga. E aí, como foi esse reencontro?

- Pior não poderia ter sido. Ainda não consegui perdoá-lo e o tratei muito mal. Doeu mais do que imaginei.

- E ele ainda continua lindo?

- Char! Estou falando dos meus sentimentos e você quer saber se ele está bonito?

- Está?

- Ainda mais lindo. – suspirei derrotada – Quando vi aquela boquinha vermelha e aqueles olhinhos suplicantes quase me joguei nos braços dele. Droga! Como sou uma idiota.
- Você é humana, minha amiga. Amou demais este homem e ficou algo mal resolvido entre vocês e acho que o destino está te dando uma oportunidade de resolver isso de uma vez por todas e se livrar deste fantasma.

- Não acredito que você me disse isso! Desde quando você me apóia na minha caça aos meus ex-namorados? – a provoquei.

- Desde que reencontrei com o Collins ontem à noite.

- O que?! William Collins?! O nerd?

- Ele mesmo. Não vou te contar detalhes agora, mas entendi na pele o que você estava sentindo com todas aquelas dúvidas sobre seus ex-namorados especiais. De verdade, Lizzy, acho que você deveria se dar uma chance e esclarecer as coisas de uma vez por todas com o Natan. Quem sabe ele não é quem você tanto procura?

- Não sei não.

- Arriscar não vai te matar, vai? E caso mate, você já está no hospital mesmo, logo dão um jeito de te reanimar.

- Que brincadeira mais mórbida, Char. – comentei enquanto sorria. – Mas vou pensar no que você falou, eu prometo.

- Pensa sim. Vou desligar agora, mas te ligo amanhã cedo. Te amo.

- Também te amo, Char.

Desliguei o telefone pensativa. Será que a Char tinha razão? Será que a vida estava me dando mais uma chance com o Natan? Isso eu irei descobrir na primeira oportunidade.

***~***~***~***~***~***~***

Era incrível como se perde a noção do tempo quando se está em um hospital. Seu sono fica descontrolado, não da pra saber exatamente quando se é noite ou dia. Não sei há quanto tempo dormi, mas meu estômago roncava demais para não acordar. Eu bem sabia que era melhor ter tomado a bendita sopa toda.

Comecei a me espreguiçar e abrir os olhos devagar. Foi bem constrangedor flagrar o Natan no quarto me olhando, quer dizer, quando abri os olhos ele estava tentando fugir sem ser visto, mas já era tarde demais.

- Visita de rotina. – ele disfarçou explicou enquanto anotava algo em minha ficha.

- E eu tive que dormir para você vir? – esbocei um tímido sorriso.
- Achei que não me queria por perto. – ele parecia um bichinho acuado.

- E não queria mesmo. – respondi sentando na cama. – Mas agora quero.

- Sério? – ele parecia feliz, pois me lançou aquele sorriso maravilhoso que eu tanto lembrava.

- Acho que precisamos resolver algo pendente entre nós, não acha?

- Finalmente estou pronto para termos esta conversa, Lizzy. – ele respondeu nervoso. - O que acha de darmos uma volta?

- Estou de alta?

- Pelo hospital. – ele explicou sorrindo da minha vontade de ir embora logo. - Acho que um pouco de ar puro vai te fazer bem.

- Claro. Mas posso fazer um pedido? – pedi sorrindo.

- Depende. – ele sorriu de volta.

- Posso comer alguma coisa decente? Estou morrendo de fome e se não comer nada vou acabar desnutrida, vocês não querem isso, querem?

- Não, não queremos. – ele sorriu enquanto me estendia a mão. – Vem, vamos te alimentar, acho que o seu médico vai liberar alguma coisa.

Passamos primeiro pela lanchonete do hospital e apesar dos meus ferrenhos protestos, segui as ordens dele e pedi torradas com um pouco de chá. Ele também pediu café com leite e em seguida ele me levou até o telhado do hospital onde um belo jardim coberto com bancos se espalhava por todo o lugar.

- Nossa! Aqui é lindo! – exclamei ao sentarmos em um dos bancos.

- É mesmo. A direção do hospital criou este lugar para que os funcionários pudessem relaxar.

- Foi uma excelente idéia. Então se especializou eu neurologia? – decidi iniciar a difícil conversa com algo mais leve.

- Sim. Sempre tive paixão pelo cérebro humano e quando precisei escolher uma especialidade, não tive dúvidas.

- Mora em Paris há muito tempo?

- Cinco anos. Logo após a formatura me mudei para cá, onde fiz minha especialização e há três anos consegui este emprego, primeiro como residente e agora efetivo.

- Que legal! Vejo que está muito feliz com sua vida. Fico feliz por você. – esfriei o chá com pequenos sopros enquanto sentia meu coração acelerar.
- E você?

- Eu trabalho no The Sun.

- Nossa! Mas isso é ótimo! Tenho certeza de que é a melhor repórter que eles têm lá.

- Imagina, sou apenas uma repórter em meio a tantos.

Chegou o tão conhecido: momento do silêncio constrangedor. Seis anos sem nos vermos e é claro que não tem assunto, não como antes. Passei a me concentrar no chá que ainda fumegava e ele brincava com o copo de café enquanto fitava o chão.

- Já te falaram que você fica muito sexy de branco? – disparei em tom de brincadeira a fim de quebrar aquele momento enlouquecedor.

- Já sim. – ele não conseguiu segurar a gargalhada.

- É sério. Muito sexy. Aposto que a ala feminina do hospital todo da em cima de você.

- Aí já é exagero. Sou um cara comum, só isso.

- Essa boca vermelha e esses olhos negros de cachorro pidão nunca foram comuns, acredite.

- Cachorro pidão é? – ele ria despojado, parecia estar mais a vontade.

- Praticamente um poodle. – rimos mais uma vez, mas depois algo me fez ficar séria, não dava mais para adiar aquela conversa. – Foram as primeiras coisas que olhei em você, foi aí que me apaixonei.

Ele pareceu ficar desconfortável, pois seu sorriso também cessou e me encarou fixamente enquanto o silêncio imperava, mas seus olhos gritavam o desespero que o tomava. Segurando em minhas mãos que agora estavam frias e tremulas, as beijou carinhosamente colocando em seu coração agora acelerado.

- Lizzy... – ele começou a falar com a voz embargada – Nunca em toda a minha vida, acredite em mim, nunca, nunca mesmo, eu amei tanto uma mulher quanto você.

- Então por que... – não consegui prosseguir, a voz não saiu.

- É tão complicado.

- Acho que sou inteligente o suficiente para entender. Não podemos mais fugir disso, Natan. – falei carinhosamente enquanto me aproximava dele. – O que mais me doeu foi não ter uma resposta, algo que me fizesse entender.
- Eu sei... Eu sei. Agi como um covarde com você, mas na época eu estava confuso e não conseguia me dar uma resposta, entende? Não sabia como falar com você.

- Por quê? Além de namorados, sempre fomos amigos. Lembro que só bastava um olhar e já sabíamos o que o outro estava pensando. Eu teria entendido o fato de você não me amar mais, mas você simplesmente me traiu e isso acabou comigo, me destruiu profundamente. – senti o choro se aproximando devido às lembranças, mas segurei, afinal eu não podia me mostrar a manteiga derretida que eu sou.

- Eu nunca te traí, Lizzy.

- Não me venha com essa, Natan. Eu vi, aliás, eu e todos os nossos amigos. – meu tom passou a ser acusador ao lembrar a vergonha que passei naquela festa.

- Eu sei o que você viu, pois era exatamente isso que eu queria que você visse, mas eu juro que não aconteceu nada entre mim e aquela garota. Eu só estava com ela para que você me odiasse.

- Mas por quê? Era bem mais fácil conversar comigo. Sempre falamos sobre tudo. Se você tivesse se aberto comigo, eu poderia enxergar onde estava errando e salvar nosso relacionamento, salvar nosso amor. – agora já não consegui mais segurar as lágrimas.

- Não, Lizzy. – ele me abraçou instantaneamente enquanto acariciava meus cabelos – Não chore, por favor.

- No que eu errei, Natan? O que eu fiz de errado? Estávamos tão bem.

- Por favor, não se culpe. Você era a namorada que todo cara desejaria ter: linda, esperta, inteligente, divertida... – ele me fez encara-lo enquanto enxugava minhas lágrimas com seus dedos.

- Mas não boa o suficiente para você, não é? – falei entre soluços.

- Não. – ele falou sério me deixando apreensiva – Você era boa demais para mim, Lizzy.
Ficamos um tempo nos encarando em silêncio. Nossos rostos estavam próximos demais, eu podia sentir o hálito quente dele; enquanto olhava para aqueles olhos negros senti novamente através das minhas lembranças, o gosto do beijo dele. Em um impulso me aproximei ainda mais pronta para dar o próximo passo...

- Lizzy... – ele sussurrou completamente nervoso.

- Shi! – o silenciei envolvida demais para raciocinar, afinal era o meu Natan que estava a minha frente. – Eu só preciso de um beijo. – sussurrei antes de colar meus lábios aos dele.

De início ele ficou um pouco travado, mas não demorou muito para me apertar com força enquanto explorava minha boca com sua língua. Um gemido escapou da garganta dele quando ainda beijando ele, sentei em seu colo, colocando uma perna em cada lado das pernas dele de modo que fiquei de frente para ele.

Um desejo imenso me tomou naquele momento, o mesmo desejo de antes. De todos os homens que haviam passado pela minha vida, Natan era o que eu mais desejava, talvez por nunca termos chegado às vias de fato, mas agora eu queria ser dele e controle e bom senso que fossem catar conchinhas na praia.

Ousadamente coloquei minhas mãos dentro da camisa dele cravando minhas unhas em seu peito definido. Ele pareceu perder ainda mais o controle, pois suas mãos fortes seguraram minhas nádegas com força me trazendo ainda mais para perto.

Arqueei meu corpo quando ele desceu seus lábios pelo meu pescoço chegando até meu colo. Realmente eu estava cega pelo desejo, seria dele ali mesmo. Procurei a boca dele novamente sedenta por mais um beijo quando ele me afastou com cuidado.

- Não! – protestei lembrando de todas as vezes que ele fizera isso no passado.

- Lizzy. – ele tentou falar, mas eu não deixaria, não desta vez. Já não tinha vinte e três anos e achava que ele ainda era aquele virgem que queria se preservar até o casamento.
- Não desta vez, Natan. – falei decidida começando a abrir o roupão do hospital, mas ele me impediu segurando gentilmente minhas mãos fazendo eu me sentir humilhada. – Porque você nunca me quis? Por que não me quer? – desabafei ultrajada e completamente envergonhada.

- Lizzy, por favor, me escuta. – ele pediu desesperado, unindo nossas testas.

- Se abra comigo, Natan. – pedi com a voz falha.

Ele segurou gentilmente meu rosto me fazendo encara-lo. Esboçou falar alguma coisa, mas percebi que não estava sendo fácil para ele. Tentou sorrir e me deu um selinho carinhoso.

- Natan... – comecei a falar, mas ele colocou o dedo nos meus lábios. Respirou fundo e pareceu ganhar coragem.

- Lizzy. – começou decidido – Eu sou gay.

Certo. Provavelmente eu não ouvi bem; os remédios alteraram alguma coisa na minha audição e no meu cérebro, pois eu só posso estar ouvindo coisas.

- O... O que? – perguntei completamente em choque.

- Eu sou gay, Lizzy. – ele repetiu receoso, mas ao mesmo tempo aliviado.

- Como assim gay? – ainda não consegui processar o que tinha ouvido pela segunda vez. – Você é gay, gay? Gay mesmo?

- Lizzy, eu só conheço um tipo de gay. – ele sorriu, provavelmente da minha expressão ou da minha pergunta idiota.

- Tem certeza disso? – só alguém muito chocada faria uma pergunta destas.

- Absoluta.

- Mas e o que aconteceu agora? Quer dizer, você estava excitado, eu senti.

- Você é a única mulher que me faz perder a cabeça. Como acha que consegui te namorar por seis meses?

- Ai meu Deus você é gay! – repeti me afastando dele e caminhando para o parapeito do prédio aspirando o ar com força.

- Pelo amor de Deus, Lizzy. Fala alguma coisa. – eu estava de costas para ele, mas percebi que sua voz estava angustiada, ele estava angustiado e eu realmente não sabia o que dizer. – Lizzy! – ele insistiu.
- Eu... – comecei a falar me virando devagar até encará-lo. – Acho que preciso de uma bebida forte agora. – sorri nervosa, mais para acalmá-lo.

- Não acho que o seu médico te liberaria para beber. – ele sorriu nervoso colocando as mãos nos bolsos do jaleco enquanto se encolhia, introspectivo.

- É, eu acho que não. – fiquei um tempo encarando-o sem saber o que pensar muito menos o que falar. – Por que nunca me contou? – consegui falar.

- Por que estava confuso e não conseguia me aceitar. Não é muito fácil ser diferente. Para mim foi mais fácil inventar uma traição para te afastar de mim, ao menos até eu saber quem realmente eu era, quem eu sou.

- Eu teria ficado ao seu lado, Natan, sabe disso.

- Claro que sei, mas você me perturbava em toda confusão que era minha vida naquele momento.

- Agora consigo entender o fato de nunca termos transado.

- Lizzy. – ele parecia cauteloso ao se aproximar, mas eu caminhei até ele e o abracei forte. Queria que ele soubesse que apesar da surpresa eu estava ao lado dele. Ele retribuiu o abraço e me fez encara-lo. – Não era por isso que eu parava.

- Não? – perguntei surpresa.

- Não. – ele sorriu fazendo seus olhos negros brilharem. – Não queria que ficasse comigo sem saber a verdade. Me sentia enganando você, era errado, entende?

- Então quer dizer que...

- Sempre fiquei pensando em como seria. – ele sorriu tímido. – Como se sente após tudo o que te contei?

- Primeiro fiquei chocada eu confesso, mas agora, estou lisonjeada por ser a única mulher que te atrai.

- A única. – ele repetiu me abraçando forte e com o desejo cintilando em seus olhos. – Quer descobrir? – perguntou achando graça da sua própria pergunta.

- Não vamos trair ninguém? – perguntei entrando na brincadeira.

- Estou solteiro há quase um ano.

- Mais uma pergunta. Você é gay tipo drague queen ou mais comedido?
- Lizzy antes de tudo, sou um homem. – fiquei aliviada por ele não ter ficado ofendido, ao contrário ele parecia se divertir com minhas dúvidas idiotas.

- Um momento hetéro? – arqueei a sobrancelha enquanto sorria.

- Temos que resolver este mal entendido de uma vez por todas, você mesma falou. – ele me provocou roçando os lábios na minha orelha.

- Natan. Está falando sério? – perguntei ao me tocar da sinceridade em suas palavras.

- A menos que você não queira. – me olhou confuso.

Em resposta eu o beijei de forma provocante. Sei que parece loucura, mas ultimamente minha vida não era o que se podia chamar de normal.

***~***~***~***~***
 

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