Citações

Dinheiro não pode comprar felicidade. Acima do necessário, não traz satisfação verdadeira.(Jane Austen)

PROCURA-SE UM EX-NAMORADO DESESPERADAMENTE - CAPÍTULO VIII

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail
Capítulo VIII

Um novo amor meio diferente...



- Da próxima vez que você me pedir férias, eu juro que te demito na hora! – James esbravejou quando entrei em sua sala. – Duas semanas após seu surto de funcionária estressada e ainda não conseguimos colocar tudo em dia.

- Deixa de ser exagerado, James. Anne deu conta de tudo direitinho. – sentei em uma poltrona me servindo dos Mm’s da bomboniere da mesa dele.

- Encontrou as respostas que tanto foi buscar?

- Pior que não, ao menos não as esperadas.

- Imaginei, já que só ficou fora por uma semana e quando voltou seu humor estava bem pior.

- É. Me decepcionei com algumas verdades, só isso. Mas estou de volta, não estou?

- Claro! Como está a matéria da adulteração de combustível?

- Pronta. Fechei ontem junto com a análise dos depoimentos dos funcionários.

- Ótimo! Tenho um trabalho quente para você.

- Ah é? Estou mesmo precisando de algo para ocupar minha cabeça. Do que se trata?

- Soube por uma fonte que está havendo uma crise no parlamento francês, alguma revolta interna contra o governo. Quero que você vá até lá cobrir esta matéria.

- Hum... Paris? – sorri provocando-o.

- Vai lá a trabalho, Bennet.

- Não disse nada ao contrário. E quando vou?

- Em dois dias. – respondeu me entregando um envelope azul – Já soube da novidade?

- Que seria? – perguntei confusa pegando envelope. - Isso é alguma brincadeira?- completei ao ler o que estava escrito no envelope:

“CONVITE DE CASAMENTO DE RYAN MARQUES E RACHEL QUEEN.”

- Ops! Pelo visto ainda não recebeu o seu.

- Como ele pode se casar com ela após pouco mais de um mês do nosso rompimento? – realmente estava perplexa.

- Foi ciúmes que percebi implícito nesta pergunta?

- Não! Foi realmente surpresa. Você mesmo viu o estado que ele ficou quando rompemos.

- E você queria que ele estivesse chorando até hoje? Isso não é meio egoísta?

- É claro que não quero isso, mas faz pouco tempo!
- Agora tem que ter um tempo de luto antes de recomeçarmos novamente? É isso que você está fazendo?

- O que?

- Por que ainda não estar com alguém, Lizzy?

- Oras! Porque não quero. – menti, encobrindo o triste fato das minhas ultimas tentativas terem sido um grande fiasco.

- Acho que você deveria começar a ver novas possibilidades.

- Isso é uma consulta sentimental agora? – ironizei tentando ignora-lo.

- Só estou querendo dizer que tem muitos caras interessantes por aí que dariam o braço direito para sair com você.

- E você seria um deles? – perguntei sorrindo ao entender onde ele estava querendo chegar.

- E por que não? Nos conhecemos há muito tempo.

- Tempo suficiente para eu ter certeza de que você é um barco furado. James, já falamos sobre isso desde quando entrei por esta sala pela primeira vez e você me deu aquela cantada barata que quase me fez te acusar de assédio. Somos apenas amigos e colegas de trabalho.

- Ainda tenho esperanças de você me dar uma chance.

- James...

- Vai trabalhar, Bennet. – ele falou sorrindo.

Saí da sala dele com os papeis da investigação da França nas mãos direto para o refeitório, pois já era hora do almoço. Confesso que depois da bomba do casamento relâmpago do Ryan, minha fome passou completamente, mas como o dia seria longo, resolvi comer alguma fruta e um iogurte.

Era incrível como eu estava sendo o centro das atenções, bem mais de que quando o larguei no altar. Agora eu estava sendo vista como a coitadinha que não serviu para segurar o babaca do obituário. Mas eu sou bem mais forte que isso; ah se sou! De cabeça erguida fiz meu pedido e sentei em uma das mesas vazias.

Como más notícias sempre vêm acompanhadas de má sorte, Ryan e sua noiva entraram no refeitório saltitantes como duas gazelas. Sabe aquele ditado: Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come? Bem, essa é uma situação que se enquadra perfeitamente neste ditado.
Lembra sobre a má sorte? Não poderia ficar pior. Ryan deixou sua noiva em uma mesa e veio em minha direção. Respirei fundo e fingi não perceber sua aproximação.

- Oi! – ele me cumprimentou sorridente, mas pude perceber seu nervosismo. – Soube que estava viajando.

- É. Tive curtas férias de uma semana. – sorri casualmente, mas louca de vontade de dizer poucas e boas a ele.

- Mas você está legal?

- Estou ótima! Melhor impossível. – Opa! Forçado demais.

- Posso sentar um pouco?

- Não sei. Sua noiva não vai se incomodar? – disparei me arrependendo em seguida.

- Então você já sabe? – ele ficou cauteloso agora enquanto sentava.

- Do seu casamento relâmpago? Ryan querido, trabalhamos em um jornal. O que esperava? As notícias voam por aqui.

- Eu queria ter sido a primeira pessoa a te contar, eu juro.

- E por quê? Não temos mais nada e se não lembra fui eu quem não quis. Droga! – esbravejei baixinho percebendo a grande maldade que acabara de cometer. – Desculpe, Ryan.

- Tudo bem, Lizzy. Eu entendo. Você ficou surpresa com a rapidez que tudo aconteceu, mas até eu ainda não entendo. Pode falar o que está pensando.

- Eu não estou pensando nada. – menti.

- Passamos dez meses da nossa vida juntos e acho que ainda sei quando está engasgada com alguma coisa.

- Olha, Ryan, não esquenta comigo. Tenho andado meio decepcionada com as pessoas ultimamente e saber do seu casamento assim tão rápido me chocou um pouco. É como se você nunca tivesse gostado de mim realmente; como se eu não tivesse sido boa o suficiente para você. Acho que nunca fui especial para ninguém... – ponderei pensativa enquanto me sentia estranhamente vazia.

- Lizzy, você foi mais que especial para mim. Eu quis me casar com você.

- Mas me esqueceu tão rápido.
- Acho que você me traumatizou. – ele brincou enquanto sorria – É sério, acho que quando eu e Rachel voltamos percebi que preciso manter quem realmente me ama por perto. Sei que ela me ama e sei que estou quase lá. Não dizem que o melhor remédio para curar um fora é outro amor? Pois foi assim que me senti quando ela voltou para a minha vida: curado.

- Eu sei. Estou sendo infantil, não estou?

- Não. Está reagindo como qualquer pessoa normal reagiria. Mas quer ouvir uma boa notícia?

- Por favor.

- Quando você encontrar alguém especial vai entender tudo.

- Então acho que vou demorar a entender, com a sorte que eu ando ultimamente. Ryan? Obrigada por ter vindo falar comigo. São com essas atitudes suas que lembro por que me apaixonei por você.

- Não o suficiente para se casar. Nunca falamos sobre isso e já que agora estamos bem, eu queria saber o porquê.

- Talvez nem eu entenda. Mas ultimamente tenho pensado que não esteja pronta para casar com ninguém; ao menos não até ter as respostas que preciso. Talvez se fosse agora eu não teria fugido.

- Então hoje você tem as respostas?

- Mesmo que ainda incompletas, acho que tenho. Mas estamos bem assim. Veja pelo lado positivo. Se não fossem minhas dúvidas você não estaria se casando com sua Rachel. – sorri sinceramente.

- É verdade. Então estamos bem? – ele me estendeu a mão em um sinal de paz.

- Estamos ótimos. – apertei a mão dele.

- Rachel e eu estávamos pensando se você não gostaria de ir ao casamento. – ele estava muito nervoso, pois gaguejou a frase inteira.

- Acho melhor não. Estou me esforçando para ser civilizada e compreensiva, mas não acho que seja uma boa idéia. Ainda posso enfiar a cara dela no bolo.

- Claro. Claro. Você tem razão, isso não seria mesmo uma boa idéia.

- É, tenho sim, mas desejo que vocês sejam muito felizes, de verdade.

- Obrigado, Lizzy. Você também.

***~***~***~***~***~***~***
Sexta-feira à noite e nenhum programa interessante em vista. Jane mais uma vez tentou me convencer a sair para jantar com ela e Charles, mas sinceramente ser vela não era um dos itens de divertimento da minha lista; recusei gentilmente e bem envergonhada quando o próprio Charles pegou o telefone e insistiu no convite, um claro sinal da decadência da minha vida amorosa. Eu sou mesmo um grande fiasco.

Preferi ficar em casa e com o único homem que me entende, aliás, que entende todas as mulheres. Por que os homens não são como ele? Seriam tão mais interessantes. Quem é ele? O maravilhoso e delicinha Dom Juan de Marco. Sem contar que o ator desta versão que estou assistindo é uma gracinha. Tive sorte que o filme ia passar na TV aquela noite.

Me afundei um pouco mais em minha cama, vestida para matar um de vergonha com minha camisola de algodão desbotada e descosturada e me entupindo de coisas bem ligth como: pipoca, milkshake e chocolate. O próprio retrato vivo de uma mulher na fossa.

No intervalo do filme comecei a mudar de canal procurando outra coisa para ver quando o filme acabasse já que sono era algo que estava longe de sentir. De repente parei em um canal especializado em fofocas dos famosos onde uma manchete em letras garrafais me chamou atenção:

“NOTÍCIA EM PRIMEIRA MÃO! FOI OFICIALIZADO HOJE O NOIVADO DO PODEROSO E MAIS COBIÇADO SOLTEIRO DO REINO UNIDO, DAMON MARS COM HELENA BUOVA, HERDEIRA DO PODEROSO BANQUEIRO ITALIANO, RAUL BUOVA.”

Eu mal pude acreditar no que estava vendo! Até a dragão Buova tinha conseguido se dar bem! Mas confesso que adorei ver a cara de quem comeu e não gostou do Damon nas fotos. Ele bem que merecia isso!

Mas confesso também que adoraria que tivesse dado certo entre nós, claro, se ele não fosse o safado, golpista, interesseiro desgraçado que ele é, apesar de lindo, gostoso e extremamente charmoso.
Uma fungada acompanhada de um resmungo e voltei para o canal do filme. Alguns minutos depois, ouço o barulho da campainha e sem muita vontade fui atender.

- Nossa! Você está horrível! – Char falou ao ver meu estado deplorável.

- Meu espelho falou a mesma coisa hoje. – resmunguei enquanto cedia passagem para ela entrar.

- Vim te buscar para irmos a uma festa que meus pais estão oferecendo.

- Eu realmente agradeço, Char, mas não estou com muita vontade de sair. Além disso, estou me divertindo muito aqui em casa.

- E o que é melhor que dançar e ver gente interessante, posso saber?

- Dom Juan de Marco. – respondi sorrindo enquanto entravamos no meu quarto.

- Isso sim é um homem com H maiúsculo. Lembra a primeira vez que vimos este filme?

- Claro que lembro. Éramos adolescentes ainda. Você ficou gamada pelo Dom Juan.

- E quem não ficaria? Daria meus milhões por uma noite com ele. – ela comentou quando entramos no quarto.

- Sabe do que lembrei agora? Que você obrigava os garotos que ficava a beijar a sua mão, só para ter a mesma sensação que as mulheres tinham com o beijo do Dom Juan. Você é maluca! – lembrei gargalhando.

- E todos só beijavam no lugar errado. – ela reclamou já tirando as sandálias altas e sentando na cama pegando uma boa porção de pipoca. – Como eles não sabiam que tinham que beijar nos nós dos dedos?

- Que tal porque eles tinham quinze anos e achavam coisa de velho beijar na mão? Você sempre exigiu muito dos homens, Char.

- Eu quero o mínimo, mas eles não são espertos o suficiente para tomar a iniciativa e descobrir o caminho para o tesouro sem ajuda de um mapa. – sorrimos enquanto ela roubava meu chocolate. – Posso saber o motivo do momento: “Oh! Como sou infeliz!”?

- Nem eu sei.

- Será que não tem a ver com os fracassos dos reencontros com seus ex-namorados?

- Também. – admiti sem muita vontade de conversar enquanto via o filme.

- Falar sobre isso ajuda, sabia?
- Não vai mais a festa? – a encarei finalmente.

- Depois de chocolate, pipoca e milkshake e Dom Juan de Marco? Acho que aqui está bem mais interessante. – ela sorriu solidária. – Então, quer conversar sobre o que te deixou assim?

- Ryan vai se casar. – falei de repente.

- Mas já?!

- Pois é. – enfatizei como se finalmente alguém me entendesse. – Dá pra acreditar nisso?!

- Primeiro: Você não gosta dele. Segundo: Você deu um chute nele em pleno altar. Então, o que está havendo?

- Será que não é obvio? Todo mundo está se dando bem. Jane e Charles, Ryan e Rachel e até o Damon vai se casar com seu dragão Buova.

- Desde quando você se espelha na situação afetiva do mundo para determinar seu grau de felicidade?

- Desde que até meus ex-namorados estão felizes enquanto eu estou sozinha e confusa.

- Quem é você, sua impostora? Lizzy, você é bem mais decidida e auto-suficiente do que esse farrapo humano que está na minha frente.

- Já ouviu falar em crise de identidade?

- E você já ouviu falar em deixa de frescura? Lizzy! Não é porque não deu certo que suas chances acabaram.

- Não deu certo é bondade sua amiga. Um é um mau-caráter safado; outro é casado e muito feliz, obrigada e o pior de todos eles, não lembra que transamos várias vezes no banco do carro dele! – concluí sob o olhar pensativo dela.

- Ok! Concordo que foi muito ruim...

- Vergonhoso eu diria.

- Deprimente, mas a questão é que você desistiu muito fácil.

- Se você está falando sobre o Natan, pode parar, pois eu não vou procurá-lo.

- E por quê?

- Por que dentre todos esses ex-namorados ele foi o que mais eu amei e também foi o que mais me machucou. Não sei se sobreviveria se levasse outro fora dele.

- As coisas entre vocês ficaram muito estranhas. Não houve rompimento pelo que eu lembre.
- Não, ele simplesmente apareceu com outra de mãos dadas na minha cara. Isso, um dia após dizer que me amava. Fora que por causa dele aconteceu aquilo que eu tento lembrar e esquecer ao mesmo tempo.

- Aquela noite ainda te perturba, não é?

- E como. Não é fácil se achar uma vadia e saber que alguém que você nem sabe quem é também te acha uma grande vadia.

- Mas o assunto aqui é o Natan. Acho que valeria a pena esclarecer as coisas com ele.

- Ele me deu o fora, Char, esqueceu?

- Mas aí é que está. Depois disso tudo ele simplesmente não apareceu com mais ninguém até a sua formatura. Você não acha que tem algo mal contado nessa história toda? O cara te venerava, mas não transava com você; te deu o fora, mas não namorou mais ninguém. Muito suspeito.

- Ai, Char, quer saber? Se tem ou se não tem, agora já não importa mais. Essa história de caçar meus ex-namorados desesperadamente pela Europa foi uma grande loucura da minha cabeça. Você tinha razão, eu não deveria ter começado isso.

- Mas você sabe onde ele está?

- Não, quer dizer, soube que talvez ele estava em Paris, mas não foi nada concreto. Tinha tanta esperança com os outros e meu bloqueio com o Natan é tão grande que ele foi o único que não pesquisei mais a fundo.

- E o que pretende fazer agora? Virar freira?

- Fiquei tentada agora. – brinquei rindo sozinha da minha piada. – Tem cada padre lindinho que vale a pena o sacrifício.

- É sério, Lizzy.

- Isso é só uma fase ruim, Char. Logo logo estarei novinha em folha.

- Então temos que ver suas possibilidades, tipo o vizinho bonitão.

- Até que seria uma excelente possibilidade caso ele não tivesse namorada e me achasse uma verdadeira maluca.

- Tem razão, um cara jamais vai se interessar por uma mulher que vomitou nele. Mas que seria uma bela possibilidade, ah isso seria.

- Por agora eu prefiro ficar com o Dom Juan. – sorri voltando minha atenção para o filme.
- Péssima escolha, minha cara, pois também estou de olho nele. – ela brincou nos fazendo sorrir.

- Char? – falei encarando-a.

- Hum? – ela respondeu com a atenção presa ao filme.

- Obrigada por estar aqui quando poderia estar se divertindo agora.

- Não esquenta. Fiquei só pela comida e pelo Dom Juan, queridinha.

Não pude deixar de sorrir. Char era realmente uma amiga e tanto e sua força é fundamental para sair dessa fossa.

***~***~***~***~***~***~***

O som do vento batendo suavemente nas árvores, o canto dos pássaros e o frio quase gélido da manhã me fazia muito bem. Já fazia alguns dias que eu não fazia minha corrida matinal, primeiro foi a semana das viagens, em seguida as duas ultimas semanas tão conturbadas tanto no trabalho quanto na minha falta de vida afetiva; tudo isso tirou um pouco o meu ânimo, até para correr.

Acho que estou fora de forma; só dois quilômetros e já estou cansada! Melhor sentar um pouco a beira do lago e apreciar a paisagem, quem sabe assim consigo pensar melhor em que rumo dar a minha vida agora, já que esse negócio de caça a ex-namorados acabou definitivamente.

Realmente isso faz um bem danado. Fechei os olhos aspirando o ar com força enquanto o vento bagunçava meus cabelos. Opa! Desde quando o vento é molhado e lambe nossos pés? Abri os olhos assustada e me deparei com um lindo e muito fofo poodle branco encostado nas minhas pernas, louco por um carinho.

Olhei para os lados e para trás e nenhum sinal de algum dono procurando sua bolinha de pêlos. Peguei ele nos braços a procura de uma identificação, mas não achei nada, nenhuma coleira. Ele era o cachorro mais fofo que eu já vi e estava bem limpo e bem cuidado.

- Ei rapaz! Quem é você hein? – perguntei fazendo carinho recebendo lambidas eufóricas pelo rosto todo. – Quem te deixou fugir foi tão irresponsável que nem uma coleira com identificação colocou em você.
Cessando a euforia inicial, ele deitou no meu colo se aninhando enquanto me olhava suplicando por um cafuné. Sorrindo passei a acariciar a cabeça dele.

- Homens! – falei sorrindo – Sempre dengosos e cheios de manha, não é? Se bem que te chamar de homem é uma grande ofensa, desculpe amiguinho. Sim, porque se os homens fossem tão fieis e carinhosos quanto vocês, as mulheres seriam muito mais felizes. Será que você não está a fim de arrumar uma namorada? Eu estou disponível.

Ele me olhou como se estivesse me entendendo, se pôs de pé, ainda no meu colo, e voltou a lamber meu rosto.

- Se isso for um sim eu já entendi. – falei gargalhando.

- Um conselho de amigo. – abri os olhos voltando minha atenção para meu lindo vizinho, parado atrás do banco vestido com um moletom preto e segurando dois copos de suco nas mãos. – Não caia na lábia dele. Aposto que ele não te falou que tem mulher e que acabou de ser pai de quatro filhotes, falou? – concluiu sorrindo enquanto se aproximava.

- Acho que ele omitiu algumas coisas. – respondi com um sorriso tímido, morrendo de vergonha ao pensar até onde ele tinha ouvido minha “conversa” com um cachorro. – Então ele é seu?

- Sim. Este é o Chine . – falou sentando no banco recebendo lambidas do seu cachorro que ainda permanecia no meu colo.

- Chine ? – perguntei achando graça do nome incomum. – Esta raça não é Chinesa. Ele nasceu lá?

- Não. Não escolhi o nome foi... foi uma ex-namorada. – falou sem jeito.

- Hum, entendi. Mas foi muita irresponsabilidade sua deixa-lo escapar sem coleira identificadora. Alguém mal intencionado poderia tê-lo encontrado ao invés de mim.

- Tem razão, mas seria muita irresponsabilidade se eu não estivesse bem ali na barraca de sucos, há quatro metros de vocês. – ele apontou para a barraca que ficava por trás de uma árvore que impedia ser vista de onde eu estava.

- Ah! Então você ouviu nossa “conversa”?

- Desculpe, mas foi inevitável. – ele sorriu sem graça.
- Acho que estamos destinados a você sempre me encontrar em situações constrangedoras. – falei corando. – Estou me sentindo bem idiota agora...

- Se serve de consolo, Chine é a “pessoa” com quem mais converso na minha vida. E, ele é um ótimo confidente, sabe todos os meus segredos. – falou sorrindo. – Um suco?

- Claro. – aceitei o suco que ele me ofereceu. – Mas era para mim?

- É. Estava comprando um para mim quando te vi aqui, pensei que talvez após correr você gostaria de se refrescar um pouco.

- Obrigada, foi muita gentileza. – falei sinceramente. Realmente para um homem que não tinha segundas intenções ele estava sendo um cavalheiro. Ah se ele não tivesse namorada e eu tão infeliz a ponto de pensar em homem novamente. Faria um belo estrago nesse corpinho delicinha.

- Ele gostou de você. – ele observou vendo Chine se afundando nos meus braços.

- Parece que sim, mas como você decidiu ter um poodle?

- Isso me soou meio preconceituoso. Então um homem não pode ter um poodle? – perguntou em tom brincalhão.

- É claro que pode, só não é algo muito comum. Geralmente homens gostam das raças mais fortes, mais viris, tipo: Buldogue, PitBull...

- Na verdade ele ficou na minha vida.

- Já entendi. Presente da tal ex-namorada?

- Mais ou menos. Eu morava com uma pessoa alguns anos atrás e o Chine era dela, quando nos separamos ela o deixou comigo.

- Deixou como presente ou não quis ele?

- Ela não o quis.

- Tadinho. Como alguém não quer uma coisa tão linda e fofa dessas?

- Uma executiva em ascensão de uma grande multinacional. Ela mal tinha tempo para ela, imagine para o Chine e eu? Acho que foi melhor para nós dois, não foi Chine ? – respondeu fazendo carinho na cabeça do cachorro.

- Sinto muito.

- Não, tudo bem. Só que nem todo mundo gosta de cachorros.

- É verdade. Essa sua ex, por acaso seria aquela loira que estava com você no outro dia? – perguntei inconscientemente, como se aquilo fosse da minha conta.
- Não. Marion não é uma ex.

- Então é sua namorada? – novamente perguntando mais do que deveria, mas onde está o controle da língua quando se precisa dele?

- Acho que ainda não chegamos neste estágio. – mais um sorriso sem graça enquanto fitava seus pés.

- Esta resposta foi meio canalha. – disparei com minha sinceridade nata – Desculpe, mas acha que ela se sente da mesma forma?

- Temos uma relação muito sincera e antes que você pense que sou um canalha, ela é menos envolvida na relação do que eu. – ele se apressou em responder.

- Hum... – falei envergonhada por minha precipitação. - E a mulher do seu passado? A que você falou, ainda não se resolveram?

- Não; achei melhor deixar isso para lá.

- Ah é? E por quê?

- Ela não parece muito interessada. Acho que não há mais espaço para mim na vida dela.

- Acho que sei bem como é. Ela seguiu em frente e você resolveu fazer o mesmo.

- Isso. E quanto a você? Encontrou as respostas que queria?

- Não às que queria, mas às que precisava. Acho que assim como você, é melhor não procurar por respostas que talvez te machuquem mais do que te façam bem.

- É, tem razão.

Ficamos uns minutos em silêncio. Eu por não ter mais nada para falar e ele eu não sei, mas ele parecia inquieto, como se quisesse falar algo.

- Bom, adorei o papo e o suco, mas tenho que ir trabalhar. – falei me levantando.

- No sábado?

- Jornalista não tem folga, acredite. Tenho algumas matérias para terminar.

- Ok. – realmente ele estava estranho, inquieto e passava a impressão de querer falar algo.

- Está tudo bem? – perguntei não agüentando mais de curiosidade.

- Está, claro.

- Estou de carro, quer uma carona para casa? – ofereci enquanto entregava o Chine a ele.

- Não, obrigado. Preciso encontrar um lugar para o Chine ficar até amanhã à noite.

- Por quê? Vai viajar?
- Não, é que a Marion está me visitando e ela tem alergia a cachorro, preciso arranjar um lugar para ele ficar. Eu poderia falar com um amigo que sempre fica com ele quando preciso, mas ele anda meio ocupado com sua nova vida emocional ultimamente.

- Posso ficar com ele se quiser. – me ofereci.

- Não. Não quero te incomodar, vamos dar um jeito, não é Chine ?

- Olha, eu faço questão. Não tenho planos para o final de semana e ele vai ser uma excelente companhia.

- Tem certeza?

- Absoluta. Vou adorar ficar com ele até amanhã.

- Então tudo bem. – ele sorriu finalmente aceitando minha oferta. – Vou pegar as coisas dele e levo para o seu apartamento, pode ser?

- Claro.

- É melhor eu pegar seu telefone, no caso de acontecer algum imprevisto.

Se eu não soubesse que ele tinha uma namorada e não estava nem um pouco interessado em mim pensaria que isso foi a desculpa mais esfarrapada para pegar meu telefone. Sorri com este pensamento e passei meu número para ele que agendou em seu celular imediatamente.

- Em vinte minutos estaremos lá. Muito obrigado novamente. – ele agradeceu enquanto se afastava com o Chine no colo.

- Não por isso. – respondi enquanto seguia em direção ao meu carro.

***~***~***~***~***~***~***
O final de semana passou voando, quando dei por mim já era domingo à noite. Olhei sorridente para o Chine, meu novo amor, que andava de um lado para o outro da sala com a bolinha que comprei para ele de manhã. Cuidar dele realmente foi uma ótima idéia, já não me senti tão sozinha, ao contrário, ele foi uma companhia maravilhosa.

Aproveitei os dois dias para finalizar duas matérias já que não sabia quanto tempo ficaria em Paris, pelos meus cálculos uns quatro ou cinco dias, tudo iria depender das fontes que o James conseguiu.

- Agora não, Chine. – falei quando ele veio com a bola na boca – Já brincamos demais hoje, rapaz. Agora seja um bom garoto e me deixa trabalhar.
Voltei minha atenção para o computador quando a campainha tocou. Levantei para atender com Chine correndo e latindo logo atrás. Através do olho mágico identifiquei meu lindo vizinho.

- Oi! – ele falou quando abri a porta. – Calma aí, garotão. – falou entre risadas quando Chine praticamente pulava em cima dele.

- Oi. – respondi sorrindo.

- Vim buscá-lo. Aposto que te deu um trabalhão.

- Imagina. Se soubesse que você não chamaria a polícia me acusando de seqüestrar seu filho, ficaria com ele para mim. – brinquei fazendo ele sorrir. Como ele era ainda mais bonito quando sorria. – Entra, vou pegar as coisas dele.

- Obrigado. – ele agradeceu entrando com Chine no colo. – Como foram estes dois dias com esse levado aqui? – perguntou enquanto sentava no sofá.

- Foram ótimos. Você tinha razão, ele é um ótimo confidente. – respondi enquanto caminhava pela sala recolhendo as coisas do Chine espalhadas pelo chão.

- Como ele se comportou na hora de dormir? É por que ele sempre estranha a primeira noite quando está fora de casa.

- Bom, não foi muito fácil. – entregando a sacola sentei no outro sofá. – Ele estranhou um pouco, começou a latir, mas depois que o coloquei na minha cama ele se acalmou e dormiu.

- Sério?! Safado! – rimos enquanto Chine pulava do colo dele para o meu. – Acho que perdi meu filho.

- Perdeu nada, ele te ama, mas sempre que precisar pode deixá-lo aqui. Não é Chine?

- Eu realmente não sei como agradecer por sua gentileza, mas acho que não vai ser preciso.

- Se está dizendo isso porque pensa que ele me incomoda, está muito enganado. Adorei ficar com ele, é sério.

- Não, não é isso. – ele sorriu nervoso enquanto brincava com a bolinha do Chine entre as mãos. – É que ele não vai mais precisar dormir fora de casa. – falou por fim, visivelmente desconsertado.
- Sua namorada não tem mais alergia? – fiz a pergunta mais idiota que alguém com um QI acima de 0 faria. Ele ficou me olhando de forma estranha, até que levantando colocou as mãos nos bolsos enquanto sorria.

- Não tenho mais namorada. – falou timidamente.

- Oh! – O que se diz numa hora dessas? Ah que pena, realmente sinto muito. Ou: Nossa! Que legal que você está sozinho. Acho que diante deste um metro e oitenta e dois, olhos azuis e sorriso inebriante, fico com a segunda opção. – Sinto muito. – falei por fim entregando o Chine a ele.

- Não, está tudo bem. Foi melhor assim. Uma vez você me disse que meu conselho te ajudou a tomar uma decisão importante, depois da nossa conversa no parque pensei melhor e acho que tomei a melhor decisão para todo mundo. Eu não conseguiria levar isso adiante sem tentar novamente com alguém do meu passado que voltou para a minha vida.

- Está se referindo a tal ex-namorada que você reencontrou por acaso?

- É. Você me encorajou a tentar mais uma vez. Arriscar mais algumas fichas antes de abandonar o jogo.

- Hum...

“ Fala alguma coisa além de hum, Lizzy! Ou ele vai te achar ainda mais idiota do que já acha!”

- Pelo visto ela foi muito importante para você do contrário não estaria tão disposto a reconquistá-la. Quanto tempo ficaram juntos?

- Não muito, na verdade só ficamos juntos uma vez. Quer dizer, não sei se aquilo pode ser chamado de encontro.

- Sério? Mas...

- Mas ela é uma daquelas pessoas que mesmo que você passe apenas uma hora, será inesquecível.

- Uau! Essa história é incrível. – Como eu queria ser essa mulher sortuda! Ai meus sais, por que ninguém me ama assim. – E por que não deu certo? O que aconteceu?

- Digamos que o dia seguinte não foi tão legal... - Bom, obrigado novamente por ter ficado com o Chine. – ele falou nos livrando de um estranho constrangimento.
- Já disse que eu é quem tenho que agradecer por você tê-lo deixado aqui. E mesmo que ele não precise dormir mais fora de casa, será que ele pode ficar aqui de vez em quando? Não foi só ele quem se apaixonou nesta história. – brinquei.

- É claro. Sempre que você quiser. Agora nós temos que ir.

O acompanhei até a porta e nos despedimos. Ao fechar a porta, segundos depois a campainha tocou novamente e quando abri lá estava ele visivelmente constrangido e ansioso.

- Oi. Esqueceu alguma coisa? – perguntei confusa.

- Sim, quer dizer, não. – achei graça da trapalhada dele. – É que o chine e eu gostaríamos de saber se você não gostaria de nos acompanhar amanhã à noite para visitarmos os filhotes dele.

- Oh! – exclamei completamente pega de surpresa.

- Foi só uma idéia que passou pela nossa cabeça... – ele começou a se justificar completamente corado.

- Eu adoraria ir – me apressei em responder e percebi que ele ficou aliviado. – Mas é que preciso viajar a trabalho para Paris amanhã de manhã e só volto em quatro ou cinco dias. Mas quando voltar se o convite ainda estiver de pé eu vou adorar conhecer seus netos. – sorri.

- Claro! – ele assentiu sorridente. – Então, boa viagem.

- Obrigada. – agradeci e desta vez nos despedimos de verdade.

É impressão minha ou rolou um climão entre o vizinho bonitão e eu? Será? Nós dois? Inacreditavelmente essa me pareceu uma excelente idéia. Sempre o achei bonito, mas nos últimos dias nos aproximamos mais e meus sentimentos estavam começando a ficar confusos.

- Melhor me concentrar no trabalho! – falei espantando falsas ilusões. – Se tiver que ser, será, Elizabeth Bennet. Nada de paranóia.
 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje84
Neste mês2421
Desde Março de 200985443
Brazil flag 63%Brazil (49484)
United States flag 6%United States (4818)
Portugal flag 5%Portugal (3748)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1432)
Ukraine flag <1%Ukraine (472)
Germany flag <1%Germany (353)
France flag <1%France (316)
Netherlands flag <1%Netherlands (302)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (302)
Latvia flag <1%Latvia (152)