Citações

Há pessoas que por mais que se faça por elas, menos fazem por si mesmas. (Jane Austen)

PROCURA-SE UM EX-NAMORADO DESESPERADAMENTE - CAPÍTULO I

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CAPÍTULO I

A fuga...



Encostada na velha porta de madeira ouvia atentamente todos os comentários maldosos das pessoas. Bando de abutres! Por que não entendem? Certo, porque nem eu mesma posso entender. Que coceira infernal na cabeça! O que aquela biba usou no meu cabelo? Laquê de pulgas?!

Passos firmes se aproximando novamente; hora de correr temendo não ser ele chorando mais uma vez. Estou me sentindo péssima, mas não posso continuar com isso, não mesmo. Corri até a cadeira, quer dizer, tentei, pois o peso desse maldito vestido quase não me deixou sair do lugar e para completar quase tropecei na calda. Me preparei para defender ferrenhamente minha decisão pela milésima vez quando Charlotte e minha irmã Jane entraram na sacristia.

 

- Já parou com o chilique de noiva? – Charlotte perguntou com as mãos na cintura.

- Quantas vezes vou dizer que não é chilique?! Não posso mais me casar, gente!

- Lizzy querida – Jane se aproximou de mim com sua paciência de freira – É perfeitamente normal se sentir insegura no dia do seu casamento, mas só precisa respirar fundo e ir até aquele altar dizer sim ao seu noivo.

- Eu não vou! – me descontrolei. – Vocês não entendem?

- Sinceramente, não! – Char bradou impaciente – Tem noção de como essa roupa de dama de honra está me matando? Comprei o vestido um número a menos para ficar mais gostosa e gastei horrores com esse penteado horroroso que mais parece que uma vaca voadora deixou um presentinho na minha cabeça; então dona Lizzy, trate de sair dessa sacristia e vá se casar logo!

Quando Charlotte terminou seu discurso inflamado, eu e Jane estávamos boquiabertas olhando para ela completamente chocadas.

- O que? – Ela perguntou como se nada tivesse acontecido – Acho que esse negócio de tensão pré-casamento pega. Eu hein!

- Lizzy, mamãe já está quase enfartando no altar. O papai já não esconde sua alegria pelo que você está fazendo, e nem preciso dizer como o Ryan está não é? O que deu em você?

- Ryan não é o homem da minha vida. – choraminguei – Não posso me casar com ele. Como vou passar o resto da minha vida com alguém desse jeito?

- Queridinha, divórcio existe para isso mesmo. – Char falou enquanto se olhava no pequeno espelho vitoriano da sacristia – Agora deixa de frescura e vai logo fazer o Ryan parar de chorar ou ele vai inundar a igreja. Como alguém tem tanta lágrima assim?!

- Viram! – exclamei como se tivesse chegado ao ponto que queria – Ele está chorando copiosamente como se fosse um bebê.

- Será que é porque ele está sendo abandonado no altar? – Jane perguntou calmamente. Às vezes fico me perguntando se ela um dia perderia essa calma. Será que minha irmã é um alien?!

 

- Ou talvez pelo enorme prejuízo que ele vai ter. – Char ironizou recebendo uma carranca nossa. – É sério! – ela se defendeu – Soube que só o buffet custou uma nota preta, sem falar naquele fraque horroroso que ele comprou. Amiga, acho que só pelo mau gosto dele com roupas você nem deveria ter cogitado se casar com ele.

- Você não está ajudando muito, Char. – Jane a repreendeu.

- Ta bom! Foi mal. Mas pode me dizer por que só agora percebeu que o Ryan é um babaca?

- Ele é um babaca? Quer dizer, você também acha isso?

- Desculpe amiga, mas já que está dando o fora nele vou te dizer o que eu acho. Ele é um grande idiota. Nem sei como você conseguiu se apaixonar por um cara como ele.

- Obrigada por me contar isso só agora. – ironizei.

- Lizzy, o que vai fazer?

- Pergunta difícil, Jane.

- Eu sei, mas terá que decidir agora.

Certo! Nessas horas eu adoraria ser como a Doroti de O Mágico de OZ e bater os sapatinhos e sumir, mas de uma coisa eu tinha certeza em meio a toda aquela loucura: não me casaria com o Ryan nem amarrada!

- Quero falar com o Ryan. – disse por fim.

Agora que ele estava chorando há mais de cinco minutos bem na minha frente já tinha plena certeza de que eu não deveria nem ter namorado o Ryan. Eu queria até sentir pena e me explicar, mas cada vez que abria minha boca ele começava a chorar. Isso até me fez lembrar meu primo Max quando esperneava por não ter ganhado o brinquedo que queria. Juro pelos meus cachinhos loiros que se o Ryan deitar no chão e espernear eu saio correndo.

Aqui estou, sentada em uma poltrona enquanto espero o meu ex futuro marido parar de chorar. Nossa! Não tinha reparado em como o pároco é bonitão! Que sorriso e que olhos!

- Lizzy! – me assustei com o berro do Ryan e tirei minha atenção da foto do pároco na parede da sacristia. – Por que está fazendo isso?

 

- Ryan. – falei gentilmente enquanto me aproximava dele devagar – Sei que está tudo confuso agora, mas se nos casarmos estaremos cometendo um grande erro.

- Não! Erro é se não nos casarmos. – E o berreiro recomeça.

Podem me julgar, mas já está me dando raiva. Sabe qual é minha vontade? Pegar na camisa dele e dizer em alto e bom som: CARA SEJA HOMEM E PARA COM ESSE CHORORÔ! Mas como estou me sentindo muito culpada, é melhor amenizar as coisas.

- Ryan, sinto muito mesmo, mas eu não posso. Deixei isso ir longe demais, mas precisamos parar com tudo antes que realmente seja tarde demais. Preciso ir agora, me desculpe mais uma vez.

Automaticamente me arrependi de ter dado um beijo na testa dele, pois o choro veio ainda mais forte e os soluços também. Revirando os olhos, larguei o buquê na mesinha e me dirigi até a porta.

- Lizzy? – o ouvi chamar em meio ao choro então parei e me virei para encará-lo. Esperei pacientemente ele assuar o nariz no lenço. – Quem vai cobrir todo esse prejuízo? Podemos rachar tudo?

“Obrigada meu anjinho da guarda por ter me livrado dessa roubada!”

- Me manda a conta, Ryan. – respondi já correndo até a porta dos fundos alcançando a rua rapidamente, completamente aliviada.

Não queria ouvir mais sermões, por isso resolvi não falar com ninguém e saí às escondidas. Como já saí de casa quase decidida a não me casar, dispensei a limusine e vim na minha moto mesmo.

Abrindo um parêntese bem grande: ADORO MOTOS! Sou apaixonada por duas rodas e velocidade para desespero da minha mãe que adoraria que eu fosse normal e gostasse de bonecas.

Foi muito constrangedor cada vez que eu parava em um sinal e ouvia piadinhas. Mas tenho que admitir, uma noiva fugitiva numa moto não era algo que acontecia todos os dias, não é?

 

Eu sei que deveria estar me sentindo a pior das mulheres por ter abandonado meu noivo no altar, mas contrariando tudo, estava me sentindo aliviada. Se eu me casasse com Ryan teria que poupar dinheiro para gastar em lenços de papel. Nunca imaginei que um homem pudesse chorar tanto. E ainda tem feministas que dizem que homens não choram; isso porque elas não conheceram o Ryan.

Quando cruzei a avenida que dava para meu apartamento uma forte chuva começou a cair me molhando instantaneamente. Acelerei a moto um pouco mais para chegar em casa mais rápido, mas ao dobrar a esquina da minha rua descobri que isso não foi uma boa idéia. Foi tudo muito rápido e em questão de segundos eu já estava no chão sentindo meus cotovelos arderem.

- Ai meu Deus! – ouvi uma voz assustada falando próximo a mim – Você está bem?

Não consegui responder. Elevei meus olhos e me deparei com um homem lindo a minha frente. Ah qual é?! Eu caí da moto, mas isso não afetou minha visão muito menos o meu senso de beleza.

Os olhos azuis reluzentes; os cabelos desalinhados e respingando da chuva que caía e tenho que dizer: Que mão é essa?! Ele tem mãos lindas.

- Estou. – finalmente respondi sentando no chão molhado enquanto ele se agachava para se certificar.

- Não se mexa, vou chamar uma ambulância. – falou já pegando o celular do bolso.

- Não precisa. – certifiquei já me levantando, só então ele percebeu minha roupa um tanto inusitada, mas não comentou nada. – Eu realmente estou bem, apenas relei os cotovelos.

- Tem certeza?

- Tenho. – enquanto respondia fui até minha moto analisando o estrago, que para minha sorte, nada além de arranhões na pintura e um retrovisor quebrado.

- Eu não vi você. Em um instante eu estava saindo da garagem e no outro você já estava no chão.

- A culpa foi minha. Mas é que o dia não está sendo muito fácil hoje.

- Hum, entendo. – ele sorriu e ficou ainda mais bonito; como pode isso? – Quer que a leve em algum lugar? Para casa talvez ou para a igreja. – gaguejou na ultima palavra se referindo é claro ao meu vestido de noiva destruído.

- Não, obrigada. Eu moro aqui. – apontei para o prédio ao nosso lado - Olha, minha seguradora vai cobrir o prejuízo então anota meu telefone e acertamos tudo, pode ser?

- Um farol quebrado não vai me levar à falência. – ele sorriu de novo. É melhor ele parar com isso. – Para nossa sorte batemos apenas de raspão. Então?

- Então eu agradeço, me desculpo e agora preciso sair da chuva e me esconder antes que comecem a me procurar. – respondi deixando ele visivelmente sem graça.

- Uma noiva fugitiva? – ele perguntou sorrindo.

- Por aí. – respondi levantando minha moto sendo ajudada por ele.

- Tem certeza de que está bem?

- Estou sim, obrigada. Preciso ir agora.

- É claro. Então, adeus. – me estendeu a mão.

- Adeus e me desculpe novamente. – aceitei a mão estendida.

Subi na moto e entrei na garagem do prédio deixando aquele estranho lindo para trás. Aquele realmente estava sendo um dia muito esquisito.

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- Posso ficar com essas taças? Elas são lindas!

- Char! Eu te chamei para me ajudar com a devolução dos presentes de casamento e não para saqueá-los. – sorri diante da língua que ela me mostrou.

- Que desperdício. Sua cozinha iria ficar divina. Às vezes tenho vontade de me casar só para ganhar coisas tão lindas e caras quanto essas.

- Ai Char, o que seria de mim hoje sem o seu bom humor para me alegrar?

- Sua mãe já veio aqui?

- Tecnicamente sim, ela na verdade me mandou uma carta dizendo que está muito chateada para me ver ou falar comigo e fora o sermão escrito que tive que ler.

- E o seu pai?

- Pensei até que ele iria soltar fogos de artifícios quando eu fugi da igreja.

 

- Acredite, se tivesse fogos lá, ele soltaria mesmo. – rimos enquanto encaixotávamos os últimos presentes. – Ainda não acredito no que você fez. Como você está se sentindo dois dias após sua apoteótica e comentada fuga do altar?

- Aliviada e com mais certeza de que fiz o que era certo.

- Também estou aliviada amiga, ele não era pra você.

- E quem será para mim, Char?

- Ai amiga, tenho certeza de que há alguém na medida certa para você por aí. Só precisa ter calma para esperar.

- Quando nos aproximamos dos trinta, tempo é algo que não nos ajuda muito, principalmente com a lei da gravidade fazendo tudo cair.

- Quanto a isso tenho a receita: Academia e caso não dê certo, cirurgia plástica.

- Vou me lembrar disso. – sorri abertamente. – Pronto! Este foi o ultimo. – falei lacrando a ultima caixa. – Agora vamos comer alguma coisa, pois estou faminta.

Já acomodadas na mesa, saboreávamos minha especialidade: macarrão instantâneo. Tudo é justificável! Primeiro priorizei meus estudos, depois a faculdade de jornalismo e depois veio o emprego em um dos maiores jornais de Londres. Então, tempo para aprender a ser dona de casa foi algo que nunca tive.

- Quando vai voltar ao trabalho?

- Amanhã. – respondi desanimada – Já até imagino os comentários que vou ouvir e as perguntas que terei que responder.

- Não tem que responder nada e além do mais, logo todo mundo esquece.

- Espero que sim. Mas o chato é trabalhar no mesmo lugar que o noivo abandonado.

- Vão esquecer sim, você vai ver. Vai demorar um pouco e talvez eles te apedrejem ou te joguem na fogueira, mas depois passa. – ela brincou.

- Muito animador, Charlotte. Nossa! Sinto-me bem melhor agora.

- Não por isso, amiga. Ah! Quase esqueci de te contar. Sabe o que encontrei na casa da minha mãe no meu antigo quarto?

- Sua virgindade?

Ela me olhou séria enquanto eu me acabava de rir da minha piada sem graça.

- Ei, foi engraçado. – me defendi.

 

- Claro que foi, é que estou rindo por dentro. – respondeu emburrada.

- Ta, desculpa, mas fala logo o que foi que você achou.

- Nosso álbum de ex-namorados especiais.

- Não! Sério?

- Sério. Quase cai de costas quando o encontrei, achei que tinha perdido.

- Céus! Há quanto tempo não vemos aquele álbum, cinco, sete anos?

- Cinco mais precisamente. Lembra quando fizemos ele?

- Claro que lembro. Você quem deu a idéia de fazermos um álbum com as fotos, descrições dos nossos ex’s mais importantes e a nota que eles receberam e principalmente se eram dignos de repetir a dose. Acho que só coloquei uns quatro lá. Jane apenas um e você...

- Oito. – Char completou falsamente envergonhada. – Sempre fui a mais namoradeira das três. – completou como se fosse a coisa mais normal do mundo.

- Eu preciso ver esse álbum.

- Claro, vamos combinar uma noite com a Jane e relembrar nossos momentos adolescentes. Que tal amanhã?

- Perfeito. Podemos alugar uns filmes e tomar um bom vinho.

- Com este frio que anda fazendo vai ser perfeito. Agora tenho que ir, minha mãe quer me levar para mais uma clinica de estética que abriu esta semana.

- Sua mãe ainda anda viciada na eterna juventude?

- Está brincando! Ontem ela testou um troço novo para tirar rugas, meu pai disse que nunca a viu tão feliz.

- Então funcionou?

- Não. Ela ficou com a boca esticada por longas quatro horas. Parecia que estava rindo, mas na verdade, foi efeito da nova droga.

- Ai Char, deve ter sido horrível.

- Que nada. Ao menos pela primeira vez na minha vida ela estava sorrindo quando assinou o cheque do aluguel do meu apartamento.

- Char, só você. – não consegui parar de rir.

- Nos vemos amanhã?

- Até amanhã então. Vem, te levo até o elevador.

 

Fiquei conversando com a Char enquanto esperávamos o elevador e quando esse se abriu, quase enfartei quando vi o cara do acidente ainda mais lindo dentro dele. Vestido em um terno elegantíssimo escuro que ressaltavam seu cabelo cor de chocolate e seus olhos azuis.

- Oi! – falei automaticamente recebendo um olhar inquisidor da Char que entrava no elevador.

- Oi. – ele respondeu sorridente segurando a porta do elevador, visivelmente surpreso. – Como você está?

- Estou bem, obrigada.

- Que ótimo. Conseguiu se esconder à tempo?

- Na verdade consegui fazer um bom trabalho. Longa história.

- Longa mesmo. – Char que acompanhava o tímido dialogo em silêncio resolveu dar o ar da graça – E
como eu estou atrasada, acho que é melhor ficar para outra vez.

Completamente sem graça, ele soltou a porta do elevador e me deu um tchauzinho antes da porta se fechar.

 

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