Citações

Qualquer coisa nutre o amor que já é forte. Mas no caso de uma leve e diáfana inclinação, estou convencida de que um bom soneto irá matá-lo de fome completamente. (Jane Austen)

AMOR ON LINE - CAPÍTULO III

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CAPÍTULO III

 

 

23 de novembro de 2009.


Darcy acordou cedo na manhã seguinte e resolveu fazer algo que há muito tempo não fazia, tomar um bom banho de mar as seis da manhã. Voltou para casa duas horas depois, renovado.

- Alguém parece de bom humor hoje. – Ana comentou quando ele entrou em casa.

- E por que acha isso?

- Acordou antes das dez e ainda por cima foi à praia. Das duas uma: bom humor ou esta doente.

- Acordei bem, só isso. O que temos para o café da manhã? Estou faminto.

- Primeiro: está sujando o chão de areia e isso vai me dar muito trabalho. Segundo: vou levar seu café para o escritório como sempre.

- Desta vez não, Ana.

- Como? – a mulher se surpreendeu.

- Peça para prepararem uma cadeira e um guarda sol lá embaixo na praia. Vou comer e trabalhar lá hoje.

- Não digo! Está doido!

Darcy saiu rindo ao ouvir o comentário da velha mulher. Realmente sentia-se diferente, mais disposto ansioso e ridículo. Conversou apenas por alguns minutos com alguém que nem sabia quem era e estava desse jeito.

- E se não for uma mulher e sim um homem?! – pensou em voz alta quando entrava no banho. – Estou parecendo e me sentindo um estúpido. Vamos lá Darcy, você é um adulto!

A manhã se passou rápido, sem contar que por mais que se esforçasse, não conseguiu escrever sequer meia página das trinta necessárias. Após o almoço resolveu ir até a cidade que ficava a quase dez km, pois ele morava na verdade, em um dos muitos povoados da região.

Comprou algumas coisas que precisava e ao invés de voltar pela auto-estrada, decidiu fazer o percurso pela praia. Enquanto sua caminhonete corria pela areia molhada, passou a refletir sobre sua vida nos últimos cinco anos.

Morando em Recife, escritor famoso e bem sucedido tinha uma vida agitada e cheia de mulheres aos seus pés. Quando conheceu a exuberante e ruiva fatal Caroline, percebeu rapidamente que era uma mulher ambiciosa, mas resolveu ignorar e se deixar levar.

 

Com o passar do tempo, percebeu que o que antes lhe atraía, o perigo e a ambição de Caroline, agora lhe atormentavam. Quando foi apresentado ao “primo” que viera passar uns dias, continuou mascarando a verdade, até o dia em que os flagrou dentro do quarto de hóspedes.

O choque maior não foi a traição, pois não mais amava Caroline, inclusive, queria a separação há muito tempo. Mas sua raiva foi por ter sido tão acomodado e deixar a situação chegar aquele ponto. Precisando de um tempo para pensar e terminar seu livro comprou uma casa em uma praia maravilhosa do litoral norte do estado de Alagoas por indicação de um amigo e em menos de três dias após a descoberta da traição já estava instalado em Maragogi, sem data prevista para retorno.

Na verdade, não sabia o que faria da sua vida após terminar o livro; talvez seguisse o conselho de Georgiana e voltasse para sua vida em Maceió, cidade que passou a morar após se casar com Caroline; talvez ficasse para sempre em Maragogi e o mais provável, talvez voltasse para Londres e terminaria seus dias em sua terra natal.

Olhou no relógio e após constatar que a noite se aproximava, sentiu um frio na barriga ao se lembrar da conversa da noite anterior e da possível conversa desta noite. Aquilo era ridículo! Não podia se deixar envolver por uma estranha.

- Talvez seja melhor não brincar com fogo ou alguém sairá queimado, e desta vez, não serei eu. – sussurrou enquanto aumentava a aceleração formando uma grande cortina de água.

************************

Estava cansada quando chegou ao escritório no final da tarde. Jogou sua bolsa em um canto e as pastas em outro; sentou na cadeira colocando os pés já descalços sobre a mesa.

- Parabéns! – Uma sorridente Charlotte apareceu na sala. – Ganhamos mais uma!

- Não foi tão difícil, já que as provas e evidências que apresentamos eram claras e sem margem para contestamento. – respondeu ainda de olhos fechados.

- É por isso que você é a melhor, é tão modesta.

 

- Sei que você está louca para me contar o que aconteceu ontem, então desembucha.

- Ai como você é perversa. Ta legal! Estou tão feliz.

- Fico feliz em ouvir isso, Char. Detalhes, quero detalhes.

- Ah! Ficamos no QG um pouco, depois ele se ofereceu para me levar em casa, já que eu tinha ido de táxi.

- Safada! Você foi de táxi para forçá-lo a te levar em casa.

- É claro, que sim! – elas riram então Charlotte continuou – Foi maravilhoso e ele é perfeito para mim.

- Ai quanto mel! E os finalmente: ruim, médio ou ótimo?

- Mais que ótimo!

- Agora vai mesmo, não é? – perguntou sorrindo diante da animação da amiga.

- Levo muita fé. E sabe quem tive o desprazer de encontrar no QG antes de ir embora?

- Se for o Nicholas, tenho certeza de que foi um desprazer mesmo.

- O que está havendo com aquele cara? Acredita que quase não reconheci? Vestido como um adolescente e com uma moto!

- É a crise da meia idade minha filha. Tomara que ele não diga por aí que já foi meu namorado, queimaria meu filme.

- Como você está em relação a isso?

- Já chorei tudo o que tinha pra chorar. Gritei, xinguei até os antepassados dele e da ninfeta da bunda linda. Mas quer saber? Acho que estou muito bem. Nada como umas compras vinganças para levantar o astral de uma mulher.

- Então que tal um jantarzinho para comemorar a sua vitoria nos tribunais e as compras vinganças?

- Agradeço muito, mas quero ir para casa.

- Algum compromisso em especial que não quer me contar?

- Ah claro! Esqueci de te contar que estou tendo um caso com o Sr. Antenor do quarto andar, apesar dos oitenta e nove anos, ele ainda dá conta do recado que é uma beleza. – ironizou enquanto pegava suas coisas e se dirigia até a saída. – Nos vemos amanhã, ta?

 

Após se despedir da amiga, seguiu direto para casa, estava ansiosa por chegar logo e conversar com o intrigante Sr. intolerante. Resistiu até o fim para não entrar na sala de bate papo assim que entrou em casa. Primeiro tomou um banho demorado e comeu o jantar que havia trazido da rua, pois estava sem paciência para cozinhar.

Só perto das nove da noite, ligou o computador e entrou na sala com o mesmo nickname, mas para sua decepção, ele não estava. Desanimada, resolveu esperar um pouco enquanto respondia seus e-mails.

**************************

Já fazia quase uma hora que Darcy olhava para o monitor a sua frente. Queria muito conversar com a impaciente novamente, mas sua razão mais uma vez tentava lhe dominar por completo.

- Droga! – resmungou antes de sair do escritório aborrecido.

- Ih! O bom humor durou muito pouco.

Ouviu Ana comentar quando passou pela sala, mas não deu ouvidos. Nervoso, caminhou um ouço pela areia fria daquela noite ventilada.

- Diabos! Eu só tenho que fingir que nunca entrei naquela sala de bate papo! – esbravejou enquanto chutava a areia.

Olhou no relógio e viu que já eram quase dez.

- O que custa? É só uma conversa oras! Não estou me casando nem nada e quando me cansar, apenas caio fora.

Convencido de que era algo inofensivo, correu até em casa e pegou o notebook indo para a varanda. Apressadamente entrou no chat e ansioso procurou por ela.

INTOLERANTE-H diz:: Olá! – digitou inseguro.

INTOLERANTE-H diz:: Desculpe a demora. – se justificou angustiado por ela não ter respondido.

M-IMPACIENTE diz: Achei que não iria entrar mais... Costuma ser tão mal educado assim? Costuma deixar as mulheres esperando sempre?
*


INTOLERANTE-H diz:: Está irritada, não é?
*

M-IMPACIENTE diz: É lógico! Eu poderia apenas dizer que tinha acabado de entrar ou fingir indiferença, mas estou muito fula por ter me feito esperar.

 

INTOLERANTE-H diz:: Gosto da sua sinceridade.
*

M-IMPACIENTE diz: Eu nem sempre gosto dela, mas não consigo evitar.
*

INTOLERANTE-H diz:: Desculpe mesmo, foi um dia ruim.

Ela demorou um pouco para responder, o que o fez ficar ainda mais arrependido de sua atitude.

M-IMPACIENTE diz: Tudo bem. Posso ajudar? Quer dizer, se quiser conversar....


INTOLERANTE-H diz:: Claro, mas antes me responda uma coisa. Como foi a audiência? Ganhou?
*

M-IMPACIENTE diz: Sim. Foi muito fácil.
*

INTOLERANTE-H diz:: Isso me soou meio convencido. rsrsrs... Mas parabéns, estava torcendo.
*

M-IMPACIENTE diz: Obrigada, mas sei que sou uma excelente advogada. rsrsrs... Então, quer conversar sobre o dia ruim?
*

INTOLERANTE-H diz:: É só essa droga de livro! Não consegui escrever nem meia página durante todo o dia.
*

M-IMPACIENTE diz: Isso é ruim. Posso ler?
*

INTOLERANTE-H diz:: O livro?
*

M-IMPACIENTE diz: É, se não for te prejudicar nem nada. Posso dar minha opinião como leitora ávida de romances e claro, como escritora amadora.
*

INTOLERANTE-H diz:: Você escreve?
*

M-IMPACIENTE diz: Não mais. Já me aventurei no mundo amador, mas nunca publiquei nada.
*

INTOLERANTE-H diz:: Um dia posso ler seu material, se quiser.
*

M-IMPACIENTE diz: Um dia. Agora pare de me enrolar e envia o livro para que eu possa ler.
*

INTOLERANTE-H diz: São cento e dez páginas já escritas.
*

M-IMPACIENTE diz: Não disse que vou ler tudo agora. Amanhã tenho o dia livre devido a minha grande vitória nos tribunais. Posso ler amanhã e depois te digo o que achei.
*

INTOLERANTE-H diz: Tudo bem. Mas para enviar preciso do seu e-mail.

******************************

Lizzy ficou um tempo refletindo sobre aquele pedido. É claro que ele precisava do e-mail para enviar o livro, mas a questão era o passo adiante que isso significava.

INTOLERANTE-H diz: Ei, desistiu?
*

M-IMPACIENTE diz: Não. Espera. Vou te passar meu e-mail.
*

Após alguns minutos viu através de seu MSN que havia recebido um novo e-mail de William Darcy.

M-IMPACIENTE diz: Então este é o seu nome? William Darcy?
*

INTOLERANTE-H diz: Você me pegou, agora vai me procurar no Google?rsrsrs...
*

M-IMPACIENTE diz: Isso seria um problema?
*

INTOLERANTE-H diz: Não sei... Acho que quebraria o clima que construímos até agora.
*

M-IMPACIENTE diz: Não, não vou te googlar. srsrs...
*

INTOLERANTE-H diz: Mas ainda não sei o seu nome. O e-mail que me passou não deixou muito claro.
*

M-IMPACIENTE diz: É o e-mail comercial e está em nome da empresa.
*

INTOLERANTE-H diz: Então não vai me dizer como se chama?
*

M-IMPACIENTE diz: Elizabeth, me chamo Elizabeth, ou Lizzy para os amigos.
*

INTOLERANTE-H diz: Como posso te chamar?
*

M-IMPACIENTE diz: Lizzy, pode ser Lizzy.
*

INTOLERANTE-H diz: Ok, Lizzy.
*

INTOLERANTE-H diz: Ow, Droga!
*

M-IMPACIENTE diz: O que foi?
*

INTOLERANTE-H diz: Começou a chover e eu estou na varanda. Espera um pouco, vou entrar.
*

M-IMPACIENTE diz: Tudo bem. rsrsrs...
*

Lizzy ficou esperou alguns minutos e enquanto fazia isso, começou a ler o livro dele.

INTOLERANTE-H diz: Oi, voltei. Desculpe por isso.
*

M-IMPACIENTE diz: Está tudo bem. Comecei a ler seu livro.
*

INTOLERANTE-H diz: Não me diga nada ainda, termine de ler primeiro.
*

 

M-IMPACIENTE diz: Não pretendia falar nada. Então está chovendo aí?
*

INTOLERANTE-H diz: Vamos falar sobre o tempo? rsrsrs...
*

M-IMPACIENTE diz: rsrsrs... E sobre o que quer falar?
*

INTOLERANTE-H diz: Não sei, me diz você já que eu sou um desastre em travar diálogos. Sobre o que quer falar?
*

M-IMPACIENTE diz: Que tal falarmos sobre nossos gostos, hobbies e este tipo de coisa?
*

INTOLERANTE-H diz: Acho ótimo.
*

M-IMPACIENTE diz: Ah! Mas antes tem uma pergunta muito importante que já deveria ter feito, já que vamos conversar.
*

INTOLERANTE-H diz: E qual é?
*

M-IMPACIENTE diz: Acaso é casado? Ou algum pervertido maníaco atrás de mulheres indefesas?
*

INTOLERANTE-H diz: Vou te responder com duas perguntas, está bem?
*

M-IMPACIENTE diz: Estou até com medo agora. rsrsrs...
*

INTOLERANTE-H diz: Primeira: É uma mulher indefesa?
*

M-IMPACIENTE diz: Nem um pouco, tenho aulas de jiu-jítsu. Qual a segunda?
*

INTOLERANTE-H diz: Tem queda por pervertido e maníacos ou se decepcionou com alguém recentemente?
*

M-IMPACIENTE diz: rsrsrs... Digamos que os homens estão na minha lista negra. Agora responda a minha pergunta ou não tem mais papo, pois sinto que estou sendo enrolada.
*

INTOLERANTE-H diz: Ok. Estou separado há cinco meses. E você?
*

M-IMPACIENTE diz: Trocada por outra há dois meses!
*

INTOLERANTE-H diz: Ele é um grande idiota.
*

M-IMPACIENTE diz: Nem me lembre disso.
*

INTOLERANTE-H diz: Então vamos xingar nossos ex’s ou falar sobre nós?
*

M-IMPACIENTE diz: Eles não merecem tanto confete assim. O que gosta de fazer em seu tempo livre...?

****************************

 

24 de novembro de 2009.

- Não vai sair nunca deste computador? – Jane perguntou aborrecida vinte minutos após chegar à casa da irmã.

- Preciso terminar de ler este livro. – respondeu sem tirar os olhos do computador.

- E desde quando você gosta de ler livros no computador?

- Desde nunca, mas é um favor para um amigo.

- Amigo?! Amigo, amigo? Ou amigo algo mais?

- Se eu te disser que nem amigo, amigo é, já que nem o conheço?

- Como assim?

- Outro dia te conto, agora preciso terminar, pois vou dar uma resposta a ele hoje à noite.

- Alguém tem um encontro hoje à noite?

- Digamos que mais ou menos isso.

- Não vai mesmo me contar? Agora fiquei curiosa.

- Jane! Está me atrapalhando.

- Ixe! Está bem! Ao menos larga isso aí e vamos almoçar em algum lugar já que nesta casa não tem nada na geladeira.

- Só por uma hora. – avisou antes de desligar o computador e ir com a irmã.

Como haviam escolhido um restaurante perto do apartamento de Lizzy, resolveram ir caminhando pela orla, uma forma de colocarem o papo em dia.

- Quando vai arrumar um namorado? – Jane perguntou recebendo uma carranca da irmã.

- Este assunto de novo? Já disse que só quero um velho, rico e moribundo.

- Ah Lizzy! O idiota do Nicholas fica por aí com aquela paquita da Xuxa enquanto você fica sozinha.

- Não posso arranjar alguém desesperadamente só porque o Nicholas tem alguém. Quando acontecer, terá que ser porque tinha que ser, entende? E você, que sorriso bobo é esse?

- Por isso te convidei pra almoçar. Victor me pediu em casamento ontem!

-Sério?! Parabéns! – a abraçou quando pararam na porta do restaurante. – Isso sim é uma boa notícia e merece comemoração. A conta hoje é minha.

Ao entrarem deram de cara com um casal que certamente daria uma boa indigestão para Lizzy.

- Podemos ir, se você quiser. – Jane se ofereceu.

 

- Em absoluto. Nicholas não me incomoda mais. – respondeu já se sentando à mesa que ficava de frente para a mesa dele.

- Ele não deveria estar trabalhando? – Jane sussurrou.

- Em se tratando das loucuras que ele anda fazendo, não ficaria espantada se ele tiver largado o emprego.

Após fazerem os pedidos, Jane que estava de frente para Lizzy percebeu a aproximação do ex cunhado e a alertou.

- Jane, Lizzy. – ele as cumprimentou com um semblante sério.

- Como vai Nicholas? – Jane foi a única a responder.

- Não tão bem, e sua irmã sabe por quê.

- Eu? – Lizzy perguntou ainda sem se virar para olhá-lo.

- Podemos conversar um instante lá fora?

- Não temos o que conversar.

- Temos sim. Recebi as faturas dos seus “presentinhos”.

- Ah! Volto logo, Jane.

Nicholas saiu na frente com Lizzy logo atrás. Quando ele parou na porta do restaurante e virou para ela, Lizzy não conseguiu segurar o riso.

- Isso no seu nariz é um piercing?

- Quer parar de desviar o assunto?! – respondeu constrangido.

- Desculpe. – mas ela não conseguia parar de rir – É que você está ridículo.

- Para, Lizzy! – ele pediu desesperado – O que há com você? Dois mil e quinhentos reais em compras!

- Só isso? Achei que tivesse dado mais.

- Foi por vingança não foi? Não se conforma de me ver feliz ao lado de outra pessoa. Desde quando se tornou está mulher resignada e amargurada?

- Vai se ferrar, Nicholas. – sibilou impaciente.

- Vamos lá, Lizzy. Isso será bom para você. Bote a raiva pra fora. Desde quando se tornou esta mulher?

- Desde que você me traiu seu idiota! – finalmente desabafou sentindo as lágrimas umedecerem seus olhos. – Como acha que é pensar que está tudo bem em seu relacionamento e de repente do nada, ser trocada por outra pessoa que enquanto você entrava para o ensino médio ela engatinhava?!

 

- Eu já disse que sinto muito. Não pude evitar, não mandamos em nossos sentimentos, me desculpe.

- E acha que isso é suficiente?! Pois te digo que não é, seu idiota! Foram quatro anos! E o que ganhei durante todos estes anos? Nada!

- Não diga isso, fomos felizes.

- Tem razão, fomos. Mas acredite, esta felicidade hoje nada conta pra mim. Olha pra você! Está fazendo um papel ridículo se fazendo de garotinho. Tem medo do que? Que ela te chute assim que perceber que você vai ao geriatra?

- Viu como é bom pra você desabafar, querida?

- Não me chame de querida, seu desgraçado! – sibilou – Sabe o que seria bom pra mim? Dar um belo soco nessa sua cara e quebrar seus dentes.

Vendo a raiva contida em cada palavra e nos olhos faiscantes dela, Nicholas preferiu se afastar um pouco.

- Um dia você vai me esquecer, Lizzy.

- Não acredito nisso! Acha mesmo que estou sofrendo por você? Não vou negar que foi difícil no começo, mas agora estou de pé e não é você ou sua ninfeta que vão me derrubar. Passar muito bem.

- E quanto à fatura do meu cartão de crédito?

- Se vire. E posso te dar um conselho? Você não parece o filho descolado, mas o pai bobão que quer ser o filho e pegar a namoradinha dele, mas quer saber o final da história? Ela prefere o dinheiro do pai, mas transar com o filho.

Entrou no restaurante já sem apetite, mas não daria esse gostinho para ele. Sentou e como seus pedidos já haviam chegado, comeu enquanto ria animadamente com Jane. Sorriu vitoriosa quando viu Nicholas pegar sua namorada pelo braço e sair fumaçando do restaurante.

*****************************

O dia foi longo para Darcy; esperar até a noite para saber o que ela tinha achado sobre o livro estava sendo difícil, na verdade, isso era apenas uma desculpa para a ansiedade que sentia em falar com ela novamente.

 

Deitado em sua rede, sorriu com satisfação ao lembrar da conversa da noite anterior que se estendeu até as quatro da manhã. Cada descoberta nova sobre o tipo de filmes que ela via, os autores prediletos ou até o mesmo o sabor do sorvete, aumentava ainda mais sua curiosidade. Lizzy parecia ser uma daquelas mulheres que era muito fácil se apaixonar por ela.

- William? – ouviu a voz de Ana lhe chamando.

- Oi Ana. – respondeu ainda sorrindo.

- Como está seu humor?

- Não tenho vontade de matar ninguém hoje... – brincou.

- Que ótimo, pois Caroline está no telefone. O que eu digo?

- Nada. Me passe o telefone, vou atender...

- Deixa então eu tirar as coisas que quebram fácil do seu alcance.

- Não será preciso desta vez, Ana. – gargalhou enquanto via a mulher sair desconfiada.

- O que você quer, Caroline? – perguntou secamente, mas calmo.

- Saber se temos um acordo.

- Claro.

- A casa de Maceió é minha?

- E mais uma boa quantia e o carro que te dei.

- Você está doente?! O que te fez mudar de idéia?

- Nada. Apenas quero que você suma da minha vida e te comprando percebi que conseguiria o que quero. Você é tão barata, Caroline. – ironizou.

- Não comece a me ofender, Darcy! – gritou.

- Você mesmo se ofende, Caroline. Ouça bem uma coisa. Esta será nossa última conversa, entendeu? Para mim, a partir de hoje, você simplesmente não existe mais, é como se fosse o que você sempre foi: nada.

- Mas...

- Adeus, Caroline.

Desligou sentindo que aquilo fez muito bem para seu ego. Olhou no relógio e com grande alegria entrou na sala de bate papo. Ela já estava lá, mas desta vez, ao invés de IMPACIENTE-M, encontrou Lizzy.

H-INTOLERANTE diz: Nos trataremos pelo nome mesmo?
*

LIZZY diz: Acho que sim, me sinto mais confortável, mas pode ficar a vontade.
*

H-INTOLERANTE diz: Tudo bem, mas posso pedir algo antes?
*

LIZZY diz: Claro.

 

H-INTOLERANTE diz: Será que podemos falar pelo MSN? É que fico meio confuso aqui, inclusive já falei com um cara chamado Igor ao invés de você. rsrsrs...
*

LIZZY diz: rsrsrsrs.... Tudo bem, vou te adicionar.
*

H-INTOLERANTE diz: Ótimo! Vou ficar aguardando.
*

Saiu do chat e após aceitá-la continuaram o papo pelo MSN.

DARCY diz: Bem melhor. Sem fotos? – observou vendo que não tinha foto na página dela.
*

LIZZY diz: Sem fotos? rsrsrs...
*

DARCY diz: Ok. Como você preferir. Agora não me mate de curiosidade; o que achou do livro?
*

LIZZY diz: Posso ser sincera?
*

DARCY diz: Agora me deu medo. Deve.
*

LIZZY diz: Esse Lucas precisa de terapia.
*

DARCY diz: Por quê?
*

LIZZY diz: O cara está fissurado por está tal de Carla, que é uma tremenda picareta. Não me admira que a relação dele com a pobre Lucy seja tão fria.
*

DARCY diz: Acha que é fria?
*

LIZZY diz: Um Iceberg.
*

DARCY diz: Achei que estivesse tudo bem entre eles, quer dizer, eles estão juntos.
*

LIZZY diz: Olha, você pediu minha opinião, então agora agüenta. Tudo bem que no começo ele ainda se sinta ligado a Carla, mas aos poucos ele precisa se entregar de verdade para Lucy.
*

DARCY diz: Achei que mulheres gostassem de homens problemáticos.
*

LIZZY diz: Gostamos, mas só um pouquinho. É assim que funciona: pegamos, cuidamos, saramos e pronto! Temos o homem perfeito, entendeu? Mas o Lucas está sendo um saco. (desculpe o palavrão).
*

DARCY diz: Resumindo. Você odiou?
*

LIZZY diz: Não! Não odiei, mas acho que o que está te bloqueando escrever o final é porque o Lucas não ama completamente a Lucy, ele ainda precisa enterrar de vez a Carla e enxergar a mulher maravilhosa que tem ao seu lado.

 

DARCY diz: Hum... Sabe o que isso significa, não sabe?
*

LIZZY diz: Não.
*

DARCY diz: Estou perdido! Tenho menos de vinte dias para mudar tudo, praticamente reescrever o livro.
*

LIZZY diz: Está querendo dizer que vai mudar tudo só pelo o que eu falei? Não me dê tanto crédito assim.
*

DARCY diz: Na verdade, Richard, meu primo e meu editor, tentou falar mais ou menos isso, só que bem mais confuso. rsrsrs...
*

LIZZY diz: Então vai mesmo mudar o livro?
*

DARCY diz: Preciso, mas pensar como mulher não é algo muito fácil. Vou ter um longo trabalho pela frente.
*

LIZZY diz: Posso te ajudar, se quiser. A não ser que não confie em mim e ache que posso te prejudicar de algum modo.
*

DARCY diz: Sério? Faria isso?
*

LIZZY diz: Claro. Dar pitaco é comigo mesmo.
*

Darcy sorriu abertamente com o fato de conversar com ela durante vinte dias.

DARCY diz: Teremos um longo trabalho pela frente, o que significa que teremos que nos falar todos os dias.
*

Esperou ansioso pela resposta. Estava suando e nervoso igual a um adolescente.

LIZZY diz: Por mim sem problema, não tenho nenhum compromisso.

*****************************

Respondeu hesitante, aquilo estava indo longe demais, mas que mal havia nisso? Nunca saia a noite, estava com problemas de insônia e principalmente, adorava conversar com ele.

DARCY diz: Então estamos combinados?
*

LIZZY diz: Combinadíssimos. Inclusive, já fiz algumas anotações.
*

DARCY diz: Rápida, hein? E se eu recusasse?
*

LIZZY diz: Perderia uma compradora para o seu livro. rsrsrs... Agora vamos começar a trabalhar.
*

DARCY diz: Antes tenho que te avisar que não sou muito fácil para se trabalhar.

 

LIZZY diz: Obrigada por avisar, mas também sou osso duro de roer.
*

DARCY diz: Será uma briga interessante...
*

Foram mais de duas horas discutindo sobre o enredo do livro. Inicialmente ele não aceitou bem algumas mudanças e Lizzy precisou usar seus argumentos advocatícios para convencê-lo. Houve algumas discussões mais acirradas, mas no final de tudo, fizeram um bom começo de trabalho.

LIZZY diz: Ainda bem que você falou que era difícil de se trabalhar.
*

DARCY diz: Eu avisei. Mas você é muito teimosa.
*

LIZZY diz: Posso até ser teimosa, mas você é um grande machista.
*

DARCY diz: Não tinha nada sobre choro e você já colocou duas cenas de choro para o Lucas!
*

LIZZY diz: Você é do tipo que acha que homens não choram?! Por favor! Ele precisava desabafar, botar a raiva pra fora. Vai por mim, fiz isso hoje e me fez um bem danado.
*

DARCY diz: Hum... Se encontrou com seu ex?
*

LIZZY diz: Tive o desprazer.
*

DARCY diz: E o que fez? Bateu nele?
*

LIZZY diz: Confesso que não faltou vontade de tacar um belo soco no meio daquela cara cínica, mas me controlei. Tinha acabado de fazer as unhas! rsrsrs... Brincadeira. Mas disse tudo o que estava engasgado há algum tempo.
*

DARCY diz: Posso fazer uma pergunta?
*

LIZZY diz: Pode, mas talvez eu não responda. rsrsrs...
*

Sorriu ao repetir as palavras dele na segunda vez em que se falaram.

DARCY diz: Essa foi boa. rsrsrs... Tudo bem, pode não responder se não quiser. Ainda gosta dele?
*

Ficou um tempo em silêncio; não porque estivesse pensando na resposta, mas decidindo se poderia se abrir com um estranho. Apesar da ligação que estavam construindo, era estranho falar sobre algo tão intimo.

 

DARCY diz: Acho que já sei a resposta.
*

LIZZY diz: Não é isso, só que... Você é...
*

DARCY diz: Sou um estranho?
*

LIZZY diz: Mais ou menos.
*

DARCY diz: Ajudaria se eu dissesse o motivo da minha separação?
*

LIZZY diz: Não precisa fazer isso, Darcy. É sério!
*

DARCY diz: Mas eu quero. Você tem razão, preciso desabafar. A não ser que você não queira ser meu ombro amigo.
*

LIZZY diz: Sou toda ouvidos (olhos). Mas antes deixa eu pegar alguma coisa pra comer, estou faminta?
*

DARCY diz: Eu também. rsrsrs... O que vai comer?
*

LIZZY diz: Sei lá, um sanduíche talvez.
*

DARCY diz: Então temos dez minutos para prepararmos alguma coisa e depois voltamos. Ok?
*

LIZZY diz: Ok.
*

Lizzy foi até a cozinha sentindo algo completamente novo, intenso e ao mesmo tempo leve. Conversar com aquele estranho todas as noites estava lhe renovando, trazendo sentimentos nunca antes sentidos. Não demorou muito para voltar para o quarto com seu sanduíche e um bom copo de suco.

LIZZY diz: Voltei.
*

DARCY diz: Ótimo. Já deitei no divã (rede) rsrsrs... Já pode me ouvir?
*

LIZZY diz: Já.
*

DARCY diz: Seria surpresa se eu dissesse que sou o Lucas?
*

LIZZY diz: Na verdade, não. Suspeitei desde o principio. Então passou um furacão Carla na sua vida?
*

DARCY diz: Caroline, esse é o nome dela. Prepare-se, a história é longa...
*

Lizzy ouviu atentamente todo o desabafo que ele fez, ouviu cada detalhe evitando falar o mínimo possível nem interrompê-lo. Ele contou desde sua vida devassa de solteirão rico até a cilada que caiu por vontade própria ao se casar com ela.

 

DARCY diz: E essa é minha triste história. Você ainda está aí?
*

LIZZY diz: Estou.
*

DARCY diz: Não vai dizer alguma coisa?
*

LIZZY diz: O que quer que eu diga?
*

DARCY diz: Apesar de temer, rsrsrs... Quero que diga o que está pensando.
*

LIZZY diz: Tenho apenas uma pergunta.
*

DARCY diz: Pode falar.
*

LIZZY diz: Já encontrou a Lucy?
*

Ele ficou um tempo em silêncio o que a deixou apreensiva. Inexplicavelmente estava com medo que a resposta fosse afirmativa; não que imaginasse algum dia ter alguma coisa com ele, isso estava fora de cogitação, mas de certa forma, tudo mudaria.

DARCY diz: Não.
*

LIZZY diz: Não encontrou?
*

DARCY diz: Ainda não. E você, ainda ama o seu ex?
*

LIZZY diz: Não.
*

Os dois ficaram em silêncio desta vez; foram quase cinco minutos sem uma letra sequer digitada. Olhando fixamente para o cursor piscando a sua frente, tentou escrever algo, mas o clima realmente tinha mudado.

DARCY diz: Não me pareceu um não muito firme. rsrsrs...
*

Sorriu aliviada e mesmo sem saber o que realmente ele estava pensando, resolveu entrar na brincadeira.

LIZZY diz: NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!! Melhorou? rsrsrs...
*

DARCY diz: Muito melhor! rsrsrsrs...
*

LIZZY diz: Tenho que ir dormir.
*

DARCY diz: Já?
*

LIZZY diz: São mais de duas horas da manhã e ainda não me recuperei da outra noite. Assim perderei todos os meus casos.
*

DARCY diz: Tudo bem. Nunca percebo o tempo passar quando estamos conversando.
*

LIZZY diz: Nem eu.
*

DARCY diz: Nos falamos amanhã?
*

LIZZY diz: Na mesma hora.

 

DARCY diz: Estou sem sono e vou modificar o trecho que fizemos hoje e envio para o seu e-mail.
*

LIZZY diz: Tudo bem; vou tentar ler na hora do almoço.
*

DARCY diz: Então... Boa noite, Lizzy.
*

LIZZY diz: Boa noite, Darcy.
*

Desligou o computador colocando-o na mesinha enquanto afundava em seus lençóis.

- Devo estar enlouquecendo! – sussurrou quando percebeu o vazio que sentiu ao desligar aquele computador.

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