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A imaginação de uma dama é muito rápida, salta da admiração ao amor, e do amor ao matrimônio, num momento. (Jane Austen)

AMOR ON LINE - CAPÍTULO II

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CAPÍTULO II

 

 

22 de novembro de 2009


- Com licença, Sr. Darcy – a assustada e tímida copeira sussurrou na porta do escritório – A Ana mandou trazer isso para o senhor. – falou mostrando a bandeja com suco e um sanduíche recheado.

- Eu já disse àquela teimosa que não quero comer nada hoje! Pode levar isso de volta. – mas a mulher permaneceu parada no mesmo lugar. – Ela disse para você não voltar para a cozinha sem essa bendita bandeja, não foi? – perguntou achando graça da situação.

- Disse que me demitiria se voltasse com a bandeja.

- Então pode deixar aí, como alguma coisa depois. Obrigado.

Após a saída da mulher, o sinal de alerta do MSN chamou sua atenção para o notebook.

Darcy diz - “Finalmente você apareceu seu irresponsável”
*

Richard diz – Desculpe o atraso, mas fiquei na duvida entre uma boca deliciosa e uma reunião chata via internet com meu primo chato.
*

Darcy diz – Idiota! E como estão todos aí em Maceió?
*

Richard diz – Estão todos bem. E como andam as areias e aquele monte de água aí em Maragogi?
*

Darcy diz – Estou sem tempo para gracinhas, então vamos começar logo a reunião.
*

Richard diz – Então liga a web can porque odeio ficar digitando.
*

Darcy diz – Odeio isso. Por que toda vez você só marca nossas reuniões por aqui?
*

Richard diz – Porque não sou um homem das cavernas como você, que ainda prefere a máquina de escrever. Vamos lá meu escritor predileto, como está o nosso futuro novo best-seller mundial?

A reunião seguiu tranqüila. Quase uma hora depois, eles já tinham finalizado todos os detalhes do lançamento do novo livro do Darcy. Desligaram a can e finalizaram a conversa digitando.

 

Richard diz: O que está havendo com você?
*

Darcy diz: Por que?
*

Richard diz: Os últimos capítulos que você mandou estão um tanto repetitivos, mas estão bons, não me leve a mal. Fora ainda estar se recuperando do golpe do baú que levou, algum problema?
*

Darcy diz: Não vejo nada de errado com os capítulos. E não tem nada de errado comigo!
*

Richard diz: se você diz. Quando me entregará o livro completo.
*

Darcy diz – Espero terminar em menos de um mês.
*

Richard diz – Ótimo! Agora que terminamos vou entrar na sala de bate papo e conhecer umas gatinhas novas.
*

Darcy diz – Isso é tão idiota, Richard. Vá para as ruas e conheça alguém que não finja ter vinte quando tem quarenta; que diz ser quem não é apenas para se sentir melhor.
*

Richard diz – É um jogo divertido, Darcy. Deveria tentar.
*

Darcy diz – O que tem de divertido nisso?
*

Richard diz – Não tem compromisso e massageia nosso ego. Vou te passar o link do que eu sempre entro, têm todos os tipos de sala, por idade, preferência sexual, cidades.
*

Darcy diz – Eu não vou entrar. Tenho um livro para concluir e não posso me distrair com bobagens.
*

Richard diz – Passando o link. Adeus.


Darcy ficou um tempo olhando para aquele link; uma olhada só não mataria ninguém – pensou.

- Não mesmo! – pareceu decidido enquanto seguiu com o mouse para fechar a página, mas parou de repente.

Decidiu comer alguma coisa, pois seu estomago já denunciara que precisava se alimentar e rápido. Vinte minutos depois, estava mais uma vez em frente ao computador tentando seguir a razão e desligá-lo, ou tentar. Talvez Richard tivesse razão e só uma olhada não faria mal algum. Um clik rápido sem pensar muito e a tela abriu.

Nickname. Pensou um pouco antes de escrever.

 

- Que idiotice! Não acredito que estou prestes a fazer isso.

INTOLERANTE-H, digitou. Sorriu abertamente com a certeza de que ninguém iria chamá-lo para uma conversa e era isso o que ele queria.

- Garotas de vinte anos, sinal de dor de cabeça; descartado. – falou em voz alta enquanto escolhia a sala por idade. – Vinte e cinco a trinta e cinco. Vamos lá.

************************

- Onde está a mulher que é absoluta e demais? – se perguntou enquanto olhava as olheiras e a expressão desanimada e cansada em frente ao espelho. – Não pareço com uma mulher linda e absoluta agora.

Ouviu o celular tocando insistentemente e ao identificar como sendo sua sócia Charlotte, atendeu logo.

- Já estou finalizando os relatórios, Char. – falou antes que fosse cobrada.

- Não liguei por este motivo.

- E qual foi então? Dinheiro emprestado estou fora. – brincou com a amiga.

- O que eu devo vestir para o meu primeiro encontro com o Denis?

- Quem é Denis?

- O cara que eu conheci na internet há três meses.

- Achei que o nome dele fosse Ébano africano. – ironizou recebendo alguns grunhidos da amiga.

- Esse é o nickname dele da internet. Agora aja como uma verdadeira amiga e me diz o que eu devo vestir.

- Tudo bem. Quais as opções?

- Vestido tipo: estou aberta para qualquer coisa ao final da noite. Ou uma calça de corte reto e uma blusa tomara que caia composta que diz: estou me fazendo de difícil, por isso, sexo só no segundo encontro.

- Já parou para pensar que esse cara pode ser algum assassino maluco?

- Não começa, Lizzy. Já falei com ele por telefone várias vezes, web can e até conheci a mãe dele pela internet.

- Viu? Ele não é normal. Ainda mora com a mãe.

- Quero transar agora ou sexo depois do segundo encontro? – perguntou ignorando a piada da amiga.

 

- Que tal. Estou desesperada e por isso entro em salas de bate-papo.

- Obrigada pela ajuda. – respondeu irritada e prestes a desligar.

- Não Char! Não desliga. Desculpe, apenas me preocupo contigo.

- Não precisa se preocupar sei me cuidar. Para que se sinta mais segura, vamos nos encontrar no QG do Stela Maris, mais movimentado impossível.

- Fico mais aliviada e não saia de lá sozinha com ele em hipótese alguma.

- Isso quer dizer que devo usar a calça?

- Claro. E muda a tomara que caia por algo mais fechado, tipo um hábito de freira. – brincou seriamente - Bom encontro, Char, me conta tudo depois.

- Pode deixar; beijos.

Após desligar o telefone, terminou de se vestir e foi para a varanda terminar os relatórios que apresentaria na audiência do dia seguinte. Um pouco mais de uma hora depois, findou seu trabalho.

Foi até a cozinha se servir de um pouco de sorvete e voltou para o computador. Enviou alguns e-mails, parabenizou alguns aniversariantes em sua página de relacionamento, e por fim, entrou no MSN para ver se tinha alguma amiga para bater papo, mas para sua falta de sorte, ninguém interessante.

- Um sábado à noite e a única companhia que tenho para conversar são minhas plantas; a que ponto uma mulher pode chegar! – se lamentou olhando para a tela do computador.

Pensou em ligar para Jane, mas não queria atrapalhar a diversão da irmã que com certeza estava a mil em alguma balada. Ligar para a mãe e as irmãs mais novas no interior estava fora de questão, não queria ficar ouvindo intermináveis sermões por dificilmente ir visitá-los.

Decidiu ligar para Charlotte, realmente estava preocupada com a amiga e talvez com esta ligação conseguisse tirá-la de uma grande fria. Após alguns toques, finalmente Charlotte atendeu.

- Lizzy? O que foi? – Charlotte sussurrou, não querendo ser ouvida.

- Está tudo bem? Por que está falando baixo?

- Estou ótima, é que estou no banheiro da casa do Denis.

- Não acredito que já está na casa dele, Char! – gritou.

 

- Não me recrimine amiga, não tenho mais idade para ficar de joguinhos. Sou uma mulher adulta, bem resolvida e sem sexo há meses.

- Tudo bem, se quer morrer é problema seu. Então, como é o Ébano africano?

- Melhor do que imaginei. Ai, Lizzy! Ele é perfeito. Educado, gentil, inteligente e aparentemente, estável financeiramente a julgar pelo seu apartamento.

- E o que ele fez com a mãe dele? Enterrou no quintal?

- Ela está viajando sua doida.

- Ao menos me diga que está feliz?

- Muito. Acho que finalmente encontrei o cara perfeito. Sinto que é ele e quem diria que o encontraria na internet. Por que não entra na sala de bate papo e encontra um para você?

- Ah nem pensar. Homens só de vista, minha filha.

- Não custa nada, Lizzy. Entra apenas para se distrair igual fazíamos quando adolescentes. Lembra?

Charlotte se referiu ao tempo em que elas viviam em salas de bate papo fingindo que eram modelos loiras, altas e muito gostosas.

- Claro que lembro, a diferença é que tenho vinte e nove e não dezesseis.

- Você quem sabe. Agora me deixa ir que não quero que ele pense que estou fazendo alguma coisa estranha no banheiro. Te vejo amanhã e conto os detalhes.

- Ta legal, mas qualquer coisa bate direto nos países baixos, assim dá tempo você correr.

Quando Charlotte desligou, Lizzy ficou lembrando o quanto era divertido aquele mundo de faz de conta que elas criavam quando adolescentes. Terminou seu sorvete e em um ato de nostalgia, entrou na sala de bate papo que sua amiga costumava entrar e que já estava em favoritos, pois muitas vezes, Charlotte usava o seu computador.

 

Já se sentiu excitada quando digitou o nickname: M-IMPACIENTE. Apesar de saber que ninguém a chamaria, achou tudo divertido. Escolheu a sala de vinte e cinco a trinta e cinco anos. Não demorou muito para ser convidada para uma conversa, contrariando o que imaginava.

****************************

Gatinha; carente-M; safada; Sedutora; Toda sua; Desesperada.

Darcy ria daqueles nicknames, que deixava explicito que uma conversa com estas mulheres seria cansativa, vulgar ou desestimulante. Já estava decidido a sair e acabar com aquela loucura, quando uma nova participante entrou lhe chamando atenção de imediato.

INTOLERANTE-H diz: Olá. – não resistiu ao impulso de compreender aquela impaciente.
*

M-IMPACIENTE diz: Olá. – ela respondeu após um tempo.
*

Darcy não sabia o que falar; chegou aquele momento em que ou se falava alguma coisa idiota ou simplesmente saia da sala sem dar explicações; mas inexplicavelmente, ele precisava saber mais daquela pessoa.

INTOLERANTE-H diz: Tão impaciente que não pode conversar um pouco?
*

M-IMPACIENTE diz: Depende do assunto.
*

INTOLERANTE-H diz: Podemos escolher entre o clima; o campeonato brasileiro ou a nossa vergonhosa política nacional. – brincou.
*

M-IMPACIENTE diz: Interessante, mas acho que não estou interessada.
*

INTOLERANTE-H diz: Hum. Agora sei o porquê do impaciente. Tenho direito a uma segunda chance?
*

M-IMPACIENTE diz: Este pedido vindo de um intolerante não pode ser negado. rsrs...
*

INTOLERANTE-H diz: Então conto com você para iniciar uma conversa boa, pois preciso confessar que não levo muito jeito para estas coisas.
*

M-IMPACIENTE diz: Vejamos... Por que não começa me dizendo de onde você é? Ah! Nem preciso dizer que não tenho a menor paciência para mentiras; então não me descreva o George Cloney.

 

INTOLERANTE-H diz: rsrsrs.... Olha que sou bem mais bonito que ele hein. Menos rico e famoso, claro.
*

M-IMPACIENTE diz: Nossa! Fiquei impressionada. Então, de onde você é?
*

INTOLERANTE-H diz: É uma longa história...
*

M-IMPACIENTE diz: Não tenho pressa.
*

INTOLERANTE-H diz: Bem, nasci na Inglaterra e vim para o Brasil ainda criança com minha família. Morei em São Paulo, Florianópolis, Recife e Maceió e agora, vim passar uma temporada em Maragogi, interior de Alagoas. E você?
*

M-IMPACIENTE diz: Não estamos tão longe assim; apenas 120km nos separam. Moro em Maceió.
*

INTOLERANTE-H diz: Coincidência?
*

M-IMPACIENTE diz: Não creio em coincidência. E o que você faz aí neste paraíso?
*

INTOLERANTE-H diz: Vim escrever um livro e pensar um pouco.
*

M-IMPACIENTE diz: Então é escritor?

*************************************

Lizzy ficou esperando ansiosa pela resposta dele. Não sabia como começou, mas estava envolvida por aquela conversa com alguém aparentemente inteligente e muito interessante.

INTOLERANTE-H diz: Digamos que rabisco alguma coisa. E você o que faz?
*

M-IMPACIENTE diz: Sou advogada. E que tipo de livro você escreve?
*

INTOLERANTE-H diz: Sei que vai parecer estranho, mas escrevo romances.
*

M-IMPACIENTE diz: O que tem de estranho nisso? Acaso estou conversando com um homem que além de intolerante e machista?
*

INTOLERANTE-H diz: Intolerante sim, machista não. A grande ironia é que não sou nenhum pouco romântico.
*

M-IMPACIENTE diz: E onde encontra inspiração para seus livros?
*

INTOLERANTE-H diz: Não sei... As idéias vêm assim do nada e quando vejo, inexplicavelmente sai um bom livro.

 

M-IMPACIENTE diz: E como vai com o livro novo?
*

INTOLERANTE-H diz: Estou tendo dificuldades com a finalização, mas creio que até o final do mês concluo.
*

M-IMPACIENTE diz: Qual o enredo?
*

INTOLERANTE-H diz: Tem certeza de que falar sobre meu trabalho não vai te aborrecer? É que sou tão apaixonado pelo que faço que quando começo a falar...
*

M-IMPACIENTE diz: Em absoluto. Podemos falar sobre o que você quiser.
*

- Droga! Como assim falar sobre o que você quiser? Agora ele vai me achar uma oferecida. Acho que estou perdendo a prática com esse negócio de paquerar. – esbravejou enquanto aguardava a resposta dele.

INTOLERANTE-H diz: Foi você quem pediu. rsrs... Bem, basicamente o livro fala sobre um homem que conhece uma bela e intrigante mulher que com o desenrolar da estória se mostra uma mulher interesseira e mau caráter.
*

M-IMPACIENTE diz: Posso perguntar uma coisa?
*

INTOLERANTE-H diz: O que você quiser. Só não garanto responder.
*

M-IMPACIENTE diz: Experiência própria?
*

Um silêncio enlouquecedor de quase dois minutos e Lizzy já queria sumir. Sempre falando mais do que deveria.

M-IMPACIENTE diz: Desculpe por isso. – pediu percebendo que ele não falaria.
*

INTOLERANTE-H diz: Disse que talvez não respondesse e não quis responder.
*

M-IMPACIENTE diz: Ah!
*

Conseguiu responder enquanto sentia uma raiva lhe consumindo.

- Seu grosso, idiota e mal educado! – praguejou enquanto resistia à tentação de não escrever isso ou simplesmente fechar a tela e deixá-lo falando sozinho.

INTOLERANTE-H diz: Agora acho que eu é quem devo me desculpar. Mas é um assunto que me tira do sério. Desculpe.
*

M-IMPACIENTE diz: Não, tudo bem, eu é quem sou intrometida e perdi uma boa oportunidade de ficar calada. Tenho que ir.

 

INTOLERANTE-H diz: Droga!
*

Lizzy se assustou com aquilo e estranhamente o imaginou batendo na mesa ou algo do tipo.

INTOLERANTE-H diz: Ainda está aí? – ele perguntou depois de um tempo.
*

M-IMPACIENTE diz: Estou.
*

INTOLERANTE-H diz: Espantei você não foi?
*

M-IMPACIENTE diz: Ainda não, mas realmente preciso ir.
*

INTOLERANTE-H diz: Não tem nada a ver com minha falta de educação?
*

M-IMPACIENTE diz: Em partes. rsrsrs... Mas a verdade é que realmente preciso acordar muito cedo amanhã, tenho uma audiência importante e preciso ganhar.
*

INTOLERANTE-H diz: Entendo. Então boa sorte.
*

M-IMPACIENTE diz: Obrigada, vou precisar.
*

INTOLERANTE-H diz: Obrigado pela conversa. Foi melhor do que imaginei.
*

M-IMPACIENTE diz: Tinha expectativas em relação a nossa conversa?
*

INTOLERANTE-H diz: Na verdade, sou iniciante nesse negócio de sala de bate papo.
*

M-IMPACIENTE diz: Ah! Digamos que sou uma reincidente.
*

INTOLERANTE-H diz: Nos falamos amanhã? Quer dizer, se você quiser é claro.

O que responder? Estava morrendo de vontade de dizer sim, pois há muito tempo não experimentava aquela sensação de excitação e tinha uma conversa tão agradável; mas ao mesmo tempo não queria se mostrar tão ansiosa assim.

M-IMPACIENTE diz: É, se der eu apareço. Caso eu entre será no mesmo horário.
*

INTOLERANTE-H diz: Ok.
*

M-IMPACIENTE diz: Até mais.
*

INTOLERANTE-H diz: Até.

Respirou fundo antes de sair da sala. Desligou o computador e permaneceu ainda alguns minutos na varanda enquanto sorria abobalhada sentindo-se uma adolescente outra vez.

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