Capítulo I
Mais uma onda de fogos pipocaram no céu já colorido com resquícios de outras explosões. O mar de branco espalhado pela orla lotada só aumentava a ansiedade que a tomava naquele momento.
Descer do carro foi algo mais difícil do que imaginava; talvez o motorista tenha ganhado a noite ao receber duas vezes o valor da corrida, já que a passageira saiu tão apressada que nem esperou pelo troco.
Mais uma explosão de fogos e os abraços acompanhados de sorrisos e palavras de um futuro prospero ecoavam pelo ar, em conjunto com o lindo e desta vez não tão calmante, barulho das ondas.
- Feliz ano novo!
Um simpático casal a abordou ainda no calçadão; nervosa, apenas sorriu e retribuiu os votos de felicidade e realizações. Caminhou mais um pouco, apesar da dificuldade, pois as pessoas praticamente se espremiam por toda a rua.
- Feliz ano novo, gatinha.
Desta vez não sorriu para o grupo de rapazes que lhe abordaram, caminhando ainda mais rápido. Estar ali talvez fosse um grande erro, um erro que ainda poderia ser corrigido; eram apenas alguns metros e o conforto e segurança de um táxi a levariam de volta para o hotel, seu refúgio, ou sua prisão.
Vinte e nove anos e seu coração batia acelerado igual a uma adolescente e seu primeiro amor. Outra explosão de fogos e desta vez elevou os olhos para o céu enquanto tons azulados, vermelhos e violetas formavam um grande coração. Sorriu timidamente diante da conspiração do universo.
Parou completamente tensa a alguns metros do local combinado; não estava pronta para aquilo, não se sentia pronta. E se nada fosse como imaginou durante todo este tempo? E se mais uma vez a decepção fosse maior que a expectativa? Ou pior; E se ela fosse a decepção?
- Nada de pensamentos autodestrutivos esta noite. – falou em meio a um longo suspiro na tentativa de buscar coragem.
Respirou fundo, virou o rosto para uma iluminada vitrine para se certificar de que estava tudo certo com sua roupa, cabelos e maquiagem e munida de pensamentos positivos retomou a caminhada.
Passou os olhos pela pequena multidão sentindo que seu coração batia tão forte que podia senti-los em seus ouvidos. As mãos suadas e a boca seca completavam o seu estado de nervos. Ansiosa, examinou o local e as pessoas vestidas de branco próximas ao farol abandonado, mas nenhum sinal do que procurava.
Sentindo o medo começar a lhe dominar, esperançosamente, olhou mais uma vez. Só então, seus olhos pousaram em um pequeno ponto azul em meio ao mar de branco...
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15 de novembro de 2009
- Darcy! Pela ultima vez, vamos a Maceió conosco. – Georgiana insistiu pela milésima vez.
- Não! – respondeu secamente e já sentindo a impaciência lhe tomar. – Charles está esperando no carro, vai atrasá-lo.
- Ele pode esperar. – respondeu zangada, igual a uma criança que não tinha conseguido o que queria, porém não tinha desistido. – Não tem graça ficar aqui em Maragogi, quando todos os nossos amigos estarão lá.
- Inclusive Caroline.
- Que se dane a Caroline! Que saco! Agora vai ser isso? quando ela vai, você fica. Preferimos mil vezes você a ela e aquele namorado idiota dela.
- Vai logo Georgiana, me deixa em paz. Seu noivo não é muito paciente.
- Charles terá que aprender a ser se quiser casar comigo. – respondeu com seu jeito decidido e autoritário. – Tem certeza de que ficará bem aqui sozinho?
- Absoluta. Tenho trinta e cinco anos e apesar de estar recém separado, ainda sei fritar um ovo e beber água.
- Muito engraçadinho. Dispensei a Ana apenas na semana do natal, então comida e roupa limpa você terá até o dia vinte de dezembro, depois se vira.
- Acho que vou sobreviver.
- Nos vemos no próximo ano, então. Se não mudar de idéia...
- Não vou mudar de idéia.
- Veremos. – um sorriso vitorioso surgiu nos finos lábios dela. – Feliz ano novo seu chato.
- Feliz ano novo sua intrometida. – ele retribuiu o abraço carinhoso – Ah! E quando voltar de viagem volta para a sua casa, pois não te agüento mais. – brincou recebendo uma tapinha na cabeça.
Após a saída de sua irmã, Darcy caminhou um pouco pela casa vazia chegando até a varanda que dava para o mar. Aspirou com força o ar marinho do final da tarde enquanto tentava se acostumar com sua nova vida; nova vida essa que neste momento não parecia muito animadora.
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Sentada no meio da cama, revisou a lista que tinha sobre suas pernas; olhou em volta e só então voltou sua atenção para os itens.
- Colocar todas as roupas do Nickolas nas malas. Ok. – falou em voz alta enquanto riscava o primeiro item.
- Pegar tudo o que lembra ele neste apartamento e jogar de janela a baixo ou dar aos pobres. Ok . Transformar o antigo escritório dele em uma sala de TV para mim. Ok. Agora só falta levar as coisas daquele desgraçado para a casa da mãe dele. – falou enquanto jogou o caderno na cama e foi abrir a porta.
- Jane! – se surpreendeu ao ver a irmã aquela hora em sua casa – Não deveria estar no trabalho?
- Estou preocupada com você.
- Por quê? Porque o meu quase noivo me trocou pela minha vizinha gostosona de dezenove anos? Estou ótima. – ironizou enquanto caminhava pelo pequeno corredor em direção ao quarto.
- Isso já faz dois meses. Já deveria estar retomando sua vida.
- Não abandonei minha vida. Continuo trabalhando, indo a academia, ao supermercado, pagando as contas, sem nenhuma idéia suicida e acredite, nem um pote de sorvete e nenhum filme romântico em mais de um mês. Viu? Estou ótima!
- Mas não sai à noite. Qual foi a ultima vez que foi a uma balada?
- Antes mesmo daquela menina que tem idade para ser filha daquele cachorro começar a andar. – esbravejou, mas depois voltou a se acalmar. – nunca gostei de sair, Jane. Talvez seja por isso que aquele safado me largou.
- Ainda diz que está ótima, Lizzy! Está morrendo de raiva e ficar trancada neste apartamento só vai ser pior.
- Estou realmente com raiva, mas isso não quer dizer que eu vá me atirar do décimo andar ou coisa parecida. Estou bem, Jane, acredite em mim.
- Tudo bem. – Jane respondeu, mas sem se dar por vencida. – Almoço na casa do Vitor, amanhã; topa?
- Não. Tenho muita coisa para fazer, tipo: torrar o cartão de crédito adicional que o Nick me deu antes que ele cancele; me encher de roupas lindas e sapatos maravilhosos e adiantar alguns trabalhos no computador, final de ano está chegando e as coisas ficam apertadas no escritório.
- Me convenceu apenas com estourar o cartão daquele cachorro – Jane brincou e as duas caíram na gargalhada. – Você é bem melhor que ele.
- Eu sei. Só não diga que sou melhor que ela. Pelo amor de Deus! Viu aquela bunda?! Aquela desgraçada nem para ter uma celulite! E se aqueles peitos um dia caírem, a estatua da liberdade derrubou a tocha no chão.
- Só você para fazer piada com algo tão triste, Lizzy. – Jane falou com uma admiração verdadeira.
- Ele não vai me derrubar. – respondeu firme.
- Vai conseguir alguém muito melhor que ele.
- Se for velho, rico e me fizer o favor de estar morrendo.
- Lizzy! – Jane a repreendeu sorrindo.
- É sério! Se não for assim, estou fechada para homens safados e metidos a gostosões. – brincou, mas ficou séria de repente – Acho que não posso mais fazer isso, Jane; ao menos não agora.
- Quando estiver pronta. – Jane a abraçou.
- Não sei quando estarei pronta. – respondeu com toda a sinceridade da sua alma.
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16 de novembro de 2009
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- Diabos Caroline! Não pode estar falando sério! Aquela casa é minha! – bradou assustando qualquer alma vivente a menos de dez metros daquele escritório.
- Tenho direito a 10% de tudo o que você tem. – a voz irritante do outro lado respondeu decidida.
- Não quando eu provar para o juiz que você mantinha seu amante dentro da nossa casa.
- Não sei por que você está sendo tão mesquinho, Darcy. Você tem tanto dinheiro que aquela casa não vale nada perto do seu patrimônio.
- Mas aquela casa não! – gritou ainda mais exaltado. – A verdade Caroline, é que se dependesse de mim, você sairia deste casamento da mesma forma como entrou, apenas com a sua cara de pau e ambição.
- Mas não pode querido, então trate de ser bem flexível e pense bem, pois meu advogado está instruído a fazer com que eu saia bem recompensada por ter te aturado por tantos anos.
- Sua... Sua... – gritou pronto para um bom palavrão como há anos não pronunciava, mas o famoso som de um telefone desligado na cara o irritou mais ainda.
Completamente exasperado, jogou o telefone com toda força contra a parede deixando a raiva fluir por seus poros, por suas narinas infladas e o latejar de suas veias. Alguns objetos de vidro e cerâmica sentiram o peso daquela raiva toda.
- Ainda bem que esse homem tem dinheiro, ou essa casa não tinha mais nada que preste. – a velha e rechonchuda Ana comentou entre risadas com a assustada copeira que não estava acostumada com aquela cena. – Pode deixar que eu vou lá e limpo tudo e ainda por cima, acalmo a fera. – ela completou enquanto saia da cozinha.
- Sr. Darcy. – chamou com a voz firme evitando se aproximar muito.
- O que você quer, Ana?! – tentou não gritar, pois respeitava demais a mulher que praticamente o criara desde a morte de sua mãe.
- Vai quebrar mais alguma coisa ou já posso limpar tudo?
- Aquela mulher me tira do sério, Ana. – respondeu tentando se acalmar.
- Não vou dizer explicitamente que avisei, mas eu avisei. – a velha senhora falou enquanto recolhia os cacos.
- Ah Ana! Só faz isso por que sabe que te respeito mais do que qualquer pessoa neste mundo. – esbravejou, mas já bem menos irritado.
- Por que não vai encontrar seus amigos lá em Maceió e tenta se distrair? Ficar aqui não vai ajudar.
- Quer levar comida e me visitar aos domingos no presídio é Ana? Por que se eu encontrar Caroline e aquele crápula do Rodrigo, eu juro que os mato.
- Então fique por aqui mesmo. Não tenho mais idade para andar em presídios. – ela brincou enquanto se aproximava do seu eterno menino bravo e reclamão. – Caroline não vale a pena tanta raiva meu filho. É dinheiro que ela quer? Que ela sempre quis? Dê o que ela quer e se livre daquele encosto de uma vez.
- Mas Ana, ela se casou comigo apenas pelo meu dinheiro.
- Ela não é a única culpada pelo que aconteceu. – diante do olhar fulminante dele, ela continuou sem se intimidar – Conhece muito bem esse tipo de mulher; é um homem vivido e experiente, se deixou cair nesta armadilha por carência ou sei lá o que.
- Estava cansado de viver sozinho, Ana. Eu tenho você, mas...
- Mas você não faz meu tipo, bonitão. – ela brincou finalmente arrancando um sorriso aberto dele. – Dê o que ela quer e esqueça que um dia aquela mulher passou por nossas vidas.
- Você tem razão. Sempre tem razão não é?
- Estes cabelos brancos não são charme, meu filho. Tenho experiência suficiente para dizer que em breve irá encontrar alguém que te ame de verdade.
- Respeito muito seus cabelos brancos, Ana, mas isso é algo que está completamente fora de questão.
- Não está não. Não pode deixar aquela mulher o tornar amargo e sem acreditar que há pessoas boas e verdadeiras por aí.
- Problemas delas se existirem, contanto que não cruzem meu caminho. – respondeu tentando ser frio e indiferente – Se alguém me procurar, diga que sumi. Estarei trabalhando até tarde no escritório.
- William? – Ana o chamou quando ele já alcançava o corredor, fazendo-o parar e olhá-la. – Deixe o cheque assinado para comprar objetos de decoração e telefone novos ou Georgiana vai te matar.
- Da próxima vez, vou para a sua cozinha – ele a provocou.
- Se entrar lá e tocar em um pratinho sequer, considere-se um homem morto.
Darcy gargalhou e seguiu rumo ao escritório enquanto decisões importantes eram firmadas em sua cabeça.
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- Perfeito! – Lizzy exclamou ao contemplar o par de sapatos maravilhosos que tinha nos pés. – Vou levar.
- Como será o pagamento senhora? – a sorridente vendedora perguntou gentilmente.
- Pode colocar neste cartão de crédito aqui. – respondeu sorrindo por antecipação ao imaginar a cara que Nickolas faria ao ver a fatura do cartão no final do mês.
Andou mais um pouco pelo shopping e após mais algumas compras, resolveu ir até a praça de alimentação e saborear um delicioso milk-shake de chocolate da sua marca predileta.
Após fazer o pedido sentou em uma das mesas enquanto acomodava suas inúmeras sacolas da vingança em outra cadeira vazia. Pegou a revista que havia comprado e passou a ler os artigos de informática que havia lhe interessado; como esquecera os óculos em casa e não enxergava quase nada de longe, colocou a revista bem próxima ao rosto de forma que ficou quase coberto.
Estava tão envolta em sua leitura que nem ouviu os passos se aproximando de sua mesa e após o terceiro: Com licença, senhora. – baixou a revista e quase parou de respirar ao encontrar um par de olhos castanhos assustados e outro par de olhos azuis maravilhosos e tão bem maquiados (Desgraçada! Até nisso!) a sua frente.
- Lizzy. – Um nervoso e desconfortável Nickolas tremia o canto dos lábios.
- Não sabia que tinha ficado gago, Nickolas. – ironizou diante do nervosismo dele. – O que você quer?
- Não sabia que era você. – ele pareceu se recuperar do susto inicial – Queria apenas uma cadeira já que a praça está lotada e nossa mesa tem poucas cadeiras. – concluiu apontando para um grupo de jovens em que certamente o mais velho não tinha vinte.
- Desculpe a curiosidade – começou o mais irônica e segura possível – Está tomando conta de alguma creche?
- Lizzy! – ele começou a protestar quando a sua quasefilhaninfetacomabundalinda segurou o braço dele.
- Não! – Lizzy respondeu voltando sua atenção para a revista. – Não pode pegar a cadeira.
- Qual é, Lizzy? Estão vazias e você não está esperando ninguém.
- Como sabe que não estou esperando ninguém? – se sobressaltou diante da possibilidade dele achar que ela era uma rejeitada.
- Vamos embora, bebê. – a garota de botas de cano curto e mini-saia o chamou meio assustada.
- É bebê, vai embora e leva as drogas das cadeiras com você. – Lizzy falou enquanto levantava e pegava as sacolas. – Ah! Nickolas, aqui está seu cartão; você esqueceu de pegar.
- Lizzy. Somos adultos, ainda podemos freqüentar os mesmos ambientes sem este drama todo.
- A parte do somos adultos me deixou confusa, já que um homem de quase quarenta anos está usando uma camisa baby look lilás com uma bermuda surfista e tênis transado. – a voz cheia de sarcástico dela pareceu irritá-lo então ela decidiu dar o tiro de misericórdia – Ah! Obrigada por estes presentinhos, eles me fizeram ponderar que estar ao seu lado por quatro anos valeram realmente a pena.
- Presentinhos? – ele perguntou confuso.
- Aguarde a fatura no final do mês, bebê. – respondeu enquanto colocava os óculos caros que comprara a menos de vinte minutos e saiu poderosa, satisfeita, e porque não, vingada.
Enquanto dirigia ligou o rádio e a música febre da internet e agora dos rádios e televisões do Brasil começou a tocar. Sempre achara aquela musica brega, mas agora a letra descrevia com perfeição seu estado de espírito. Abrindo os vidros das janelas do carro deixando o vento circular, gritou antes de começar a cantarolar a letra que aprendera de tanto ouvir.
- Porque eu sou, demais!
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LAST_UPDATED2














