Contos de abril - De volta para casa...
Nenhum barulho diferente; nenhum cheiro delicioso de café da manhã; nenhuma flor ou rosa em cima da cama – tenho certeza, pois já chequei mais de três vezes – Mesmo eu estando de dieta e ele sabe, nenhum misero bombomzinho sequer; a única música que estou ouvindo é o CD de rock horroroso que meu vizinho liga a todo volume todo santo dia depois das seis da manhã.
Ok! Hora de parar de fingir que estou dormindo e abrir os olhos para a dura realidade. Levantei aborrecida e segui em direção ao banheiro; enquanto ele tomava banho cantarolando todo feliz. Fui escovar meus dentes com um fiozinho de esperança que ele fosse o príncipe encantado apenas hoje.
- Amor? Pode me dar a toalha, por favor?
Revirei os olhos enquanto pegava a toalha entregando a ele. Como ele era previsível, esquecia a toalha, perdia a escova de cabelo, as chaves do carro então! O que seria deste ser sem mim?
- Obrigado, meu amor. Está frio hoje, a água está um gelo! – agradeceu quando lhe passei a toalha.
- Hum. – resmunguei encarando ele com aquele olhar assassino.
Por que somos tão na cara com nossas emoções?! Ta, a gente promete sempre que não vai ligar, que ele que vá catar coquinho e que esse negócio de sentimentalismo é coisa do passado. Toda semana somos “novas mulheres”. Precisamos ser mais firmes, oras!
- O que foi? – ele me perguntou com aquele sorriso desconfiado.
- Nada. – respondi emburrada me virando para a pia terminando de escovar os dentes.
- Então ta.
Desgraçado! Ele bem que poderia ao menos insistir um pouquinho, agora vou ter que começar a briga do nada. Como eles adoram nos fazer de bandidas!
Entrei no quarto e lá estava ele vestindo a roupa que eu escolhi uma noite antes. Como eu já imaginava o que iria acontecer bem que deveria ter escolhido tipo uma camisa laranja com um terno roxo, só de propósito. Tudo bem! Viajei, mas deu para entender o que quis dizer. Ele depende de mim para tudo, até para escolher suas cuecas.
Comecei a me trocar também e logo estávamos dividindo o espelho enquanto arrumávamos nossos cabelos. Novamente lancei o olhar assassino e novamente aquele meio sorriso desconfiado.
- Fala logo o que foi. – ele pediu em um longo suspiro – O que eu fiz desta vez?
- Não sei, me diga você. – parei de me segurar e o tom acusador já estava lá.
- Vamos ver. Não estou te traindo; não cheguei bêbado ou coisa do tipo, mesmo porque não bebo, trabalho o dia inteiro e amo minha família. – enumerou com os dedos o que me irritou profundamente – Está de TPM, acertei?
Meus filhos precisam de um pai e eu amo esse robô a minha frente então bater nele está fora de cogitação apesar de querer muito.
- Que data é hoje, Collins? – perguntei cruzando os braços no peito.
- Droga! – ele pareceu finalmente lembrar. Ah safado!
- Esqueceu novamente. – acusei já pegando minhas coisas, completamente aborrecida.
- É claro que não esqueci.
- Cala a boca que é bem melhor.
- Mas eu não esqueci, amor. Você que é muito apressada. – já estava ficando mais irritada com ele andando atrás de mim pelo quarto.
- Ta legal! Vamos dizer que você não esqueceu. – parei pronta para desmascara-lo – Do que estou te acusando de ter esquecido?
- Hã?
Bingo! Ele realmente esqueceu. Se não fosse a vontade de chorar eu brigaria, mas meu lema era: Quando estiver a ponto de demonstrar sua fraqueza ao inimigo, a melhor estratégia é a fuga.
- Tenha um bom dia, William Collins. – falei pegando minhas coisas e saindo do quarto.
- Espera, Char. – ele ainda me seguia – Eu sinto muito, me desculpa, por favor. O que quer fazer para comemorar, hein? – perguntou enquanto me abraçava e tentava me beijar.
- Não quero nada. – respondi me livrando dos braços dele. – Perdeu a graça. E seria muito mais legal comemorarmos algo que você lembre.
Bati a porta com força e antes que ele me alcançasse corri até a garagem. Enquanto dirigia até o trabalho prometi a mim mesma que não iria chorar e que era uma nova mulher a partir daquele momento.
Essa promessa é igual a começar uma dieta na segunda; nunca vai pra frente porque a gente adora comer o que engorda, assim como amamos essas malas sem alças e sem rodinhas que temos no lado esquerdo da cama.
Quando cheguei ao trabalho encontrei todos com cara de poucos amigos, um péssimo sinal. Meu dia tinha começado brilhante e agora estava dando todos os sinais que seria ainda pior.
- Ainda bem que você chegou. – Lizzy minha colega de trabalho e melhor amiga falou apressada enquanto colocava minhas coisas na mesa.
A propósito, trabalho em uma agência de publicidade, sou uma das responsáveis pela criação das propagandas de TV.
- Morreu alguém? – perguntei apontando para os meus colegas.
- Ainda não, mas o chefe está mais tirano do que o normal.
- Hoje não! – choraminguei lembrando que tinha uma reunião com ele em menos de dez minutos. – Sinceramente não estou com paciência para as grosserias dele e é arriscado até mandar ele para um lugar nada agradável hoje.
- Então, por favor, desmarca. Volta para casa enquanto ele não te viu e eu digo que você está doente.
- De jeito nenhum! Hoje estou boa de briga. – respondi decidida.
- Isso não vai prestar. – Lizzy falou em meio a um suspiro.
Quinze minutos depois eu estava olhando para a expressão indecifrável do chefe enquanto ele via o comercial que eu e minha equipe preparamos.
- Então? – perguntei nervosa quando finalmente a apresentação acabou.
- Charlotte, vocês estavam bêbados quando criaram isso?
Fechei os olhos tentando respirar fundo, mas estava cada vez mais difícil.
- Então você não gostou?
- Minha filha de cinco anos pode fazer melhor que isso. – ele esbravejou.
Contar até dez! Vamos lá, Char, você consegue: um, dois, três, quatro, cinco... Ah quer saber? Que se dane!
- E por que você não coloca ela no nosso lugar, Paul?!
Foram olhares distintos que me lançaram. Uns apavorados como se me dissessem, coitada deu um tiro no pé. Outros de admiração, do tipo: Obrigado por fazer o que eu queria fazer a muito tempo. E um fuzilador, assassino; nem preciso dizer de quem foi esse, não é?
- O que disse? – ele perguntou estarrecido.
- Se sua filha de cinco anos é melhor que nós, nos demita e coloque ela no nosso lugar. – agora já tinha chutado o balde de vez.
- O que está havendo com você, Charlotte Collins?
- Estou de saco cheio das suas grosserias, da sua cara e da sua forma de nos tratar. Se uma criança é melhor que nós, vou te dizer, Paul. – falei me aproximando dele – Um cavalo é melhor que você.
- Charlotte! Está passando de todos os limites. Acaso está querendo ser demitida? – gritou descontrolado.
- Não, Paul. – respondi calma enquanto pegava minhas bolsas. – Eu me demito! – gritei de volta, saindo logo em seguida.
Estranhamente estava aliviada por ter feito aquilo. Sabe quando você se pesa e constata que perdeu dois quilos, a felicidade e alivio é imediato; bem, é assim que me sinto agora.
- Char? – Lizzy entrou na minha sala apavorada. – O que você fez?
- Nada que vá me arrepender. Me faz um favor?
- Acho que sim.
- Arruma minhas coisas e pede para o boy entregar lá em casa?
- Claro, mas aonde você vai?
- Não faço a menor idéia. – sorri beijando a face dela e saindo logo em seguida.
Entrei no carro e o pânico me invadiu. Eu realmente tinha me demitido de um emprego estável e de anos?! Preciso de um porre de café para acreditar no que fiz. Liguei o carro e logo estava em uma cafeteria que ficava na saída da cidade, sempre ia lá quando solteira, pois a universidade ficava de frente a ela.
Quando cheguei lá caminhei até o balcão e ao invés de sentar em uma mesa preferi sentar em um dos bancos do balcão; fiquei observando o movimento. Era incrível e triste ver algumas pessoas da minha época de faculdade ainda trabalhando lá, era como se aquela vida fosse suficiente para eles. Sentei em um dos bancos e uma garçonete conhecida veio me atender.
- Bom dia, o que vai querer?
- Oi. – respondi sorrindo. – Lembra de mim?
- Desculpe, mas acho que não. – ela respondeu me olhando fixamente.
- Estudei na Universidade da frente e sempre vinha aqui com meus amigos. Mas já faz tempo, uns sete anos mais ou menos.
- Muitos estudantes vêm aqui e...
- Seria impossível lembrar de todos. – completei sem graça. – Desculpe, não estou tendo um dia muito fácil hoje. Um capuccino, por favor.
- Claro.
- Eu lembro de você.
Elevei meus olhos e me deparei com um homem que estava ao meu lado e que não tinha observado antes, mas eu não o conhecia, não mesmo.
- Não está lembrando de mim, não é? – ele sorriu charmoso.
- Desculpe.
- Bom, agora sei como se sentiu quando a garçonete não te reconheceu. – sorriu abertamente me deixando ainda mais constrangida. – Talvez você lembre de uma semana de carnaval onde a turma de publicidade e direito viajou para Búzios e ficamos juntos durante todo o feriado.
- Jack? É você?
O sorriso dele foi à resposta que precisava.
- Minha nossa! – exclamei enquanto o cumprimentava de forma mais educada. – Estou me sentindo péssima por não ter te reconhecido, mas você está diferente.
- Sabe como é? Não pegaria muito bem um advogado defender seus clientes com o cabelo loiro e grande e com roupa de surfista.
- Então é advogado? – perguntei vendo-o de terno e com os cabelos curtos e agora castanhos. – E pintou o cabelo!
- Respondendo sua primeira pergunta: Eu fazia direito, Char, lembra? – sorri sem graça mais uma vez. Só estava dando bola fora! – E quanto ao cabelo, essa é a cor natural dele, o loiro foi curtição da juventude. Você também está diferente, suas roupas se resumiam a tops e calças justas. E pode deixar, não vou contar a ninguém que você ainda pegou a moda do cabelo repicado na frente e grande atrás.
- Ai não! – sorri envergonhada cobrindo meu rosto com as mãos. – Se contar isso a alguém vai precisar de um bom advogado. – brinquei fazendo ele sorrir. – Então, o que faz por aqui?
- Sempre que venho à cidade ou passo por aqui, venho a esta cafeteria recordar os bons tempos.
- Então não mora mais em Londres?
- Moro em Paris há três anos. E você, o que faz aqui em plena hora do Hush?
- Longa história. – respondi enquanto a garçonete voltava com nossos pedidos.
- Dia ruim? Desculpe, mas não pude deixar de ouvir.
- Depende do ponto de vista. – sorri sem graça – Briguei com meu marido e depois briguei com meu chefe e acabei de me demitir. Você colocaria isso como um dia ruim?
- Ruim, não. Péssimo! – ele sorriu então eu o acompanhei. – E o que vai fazer agora?
- Ainda não sei, mas adoraria fugir de tudo por um dia. – respondi brincando com a caneca a minha frente.
- Acho que posso te ajudar.
- Ah é? E como vai fazer isso? Me dando um emprego e fazendo meu marido lembrar a data de aniversário de casamento? – ironizei enquanto tomava meu capuccino.
- Sou um advogado em inicio de carreira e mal pago minhas contas então esquece o emprego. E quanto ao seu casamento não sou a pessoa mais indicada a dar conselhos amorosos já que nunca me relacionei com alguém por mais de dois meses.
- Disso eu lembro bem. – sorri.
- Você disse que queria um dia longe de tudo, então pensei se não gostaria de me acompanhar até Lymer.
- Está falando sério?
- Estou. Tenho que ir até lá fechar um contrato de aluguel de uma casa para os meus pais e podemos passar o dia lá, como há sete anos.
- Não acho uma boa idéia. – meu coração começou a acelerar, afinal Jack tinha sido minha grande paixão.
Toda mulher tem aquela paixão cafajeste do passado que teima em voltar a sua mente de vez em quando. Ah! Não me digam que vocês não tem! O que estou querendo dizer é que o Jack é minha paixão bandida, cafa; aquele homem que você era louca e tarada.
- Não exatamente como há sete anos. – ele riu acho que da minha cara de horror – Vamos como amigos, para colocarmos o assunto em dia e esquecer o dia ruim.
- Até que seria uma boa idéia. – fiquei tentada por alguns instantes – Mas quem me garante de que você não se tornou um assassino maluco?
- Ninguém. – ele riu debochado. – Char, não tentei te matar a sete anos.
- Não ria de mim! – o repreendi sorrindo também. – O mundo anda muito maluco hoje em dia.
- Então, vai ou não?
- Cara que tentação! - o olhei realmente tentada. – Ta legal! Mas deixa antes eu fazer uma ligação.
Ao quarto toque, Lizzy atendeu afobada.
- Char sua maluca, onde você está?
- Estou na saída da cidade com um amigo e vamos até Lymer.
- O que?! Você está drogada? Está sendo seqüestrada e coagida a falar isso?
- Lizzy! – não pude deixar de sorrir – Não estou sendo seqüestrada ou coisa do tipo. Estou te ligando apenas por que caso isso aconteça, alguém em toda Londres vai saber quem foi o culpado.
Jack gargalhou das minhas sandices.
- Olha, o nome dele é Jack Pierce, ele mora em Paris é advogado e a placa do carro dele é... Espera. – olhei para o Jack que não parava de rir.
- Está falando sério? – ele perguntou ainda divertido.
- Estou com cara de quem está brincando?
- Não, não está.
Ele me entregou o documento do carro e eu passei os dados para Lizzy.
- Char, o que é que você está fazendo?
- Nada. Ele é um antigo amigo da faculdade que encontrei por acaso e resolvemos ir até lá. Preciso de um tempo.
- E por que não ligou para o Collins?
- Eu não sei. – E lá se foi minha alegria! Pense em como alegria de pobre dura pouco.
- Só tenha cuidado, ta legal? E não faça nada que vá se arrepender depois.
- Vou me lembrar disso. – respondi antes de desligar.
- Quer desistir? – Jack perguntou vendo o desanimo em meu rosto ao desligar o telefone.
- Uma parte de mim sim, mas outra não.
- Acho bom as duas entrarem em um acordo. – sorriu fracamente – Char, já fomos amigos antes de eu estragar tudo. Só quero relembrar o quanto era divertido antes.
- Não precisa falar mais nada. Vamos de uma vez.
Ele pagou nossa conta e logo ganhávamos à estrada, rumo a Lymer. Talvez fosse a grande loucura da minha vida, mas eram sensações inéditas que experimentava naquele dia.
Já há quase uma hora na estrada, ele já sabia algo sobre mim e eu já sabia quase tudo sobre ele. Que trabalhava para ele mesmo depois de anos em um escritório; que nunca namorou sério nem nada do tipo e que continuava com o mesmo péssimo gosto musical.
- Como alguém sobrevive tanto tempo ouvindo rock? – indaguei baixando um pouco o volume do som.
- Você não sabe o que é música de verdade. – ele respondeu sorrindo.
- Rock não pode ser considerado música. O que estes caras têm na garganta? Como alguém normal grita roucamente à noite toda e ainda sobrevive?
- Isso vindo de alguém que curtia Space Girls. Por favor! – ele não conseguiu segurar a gargalhada. – Aquilo então era música?
Não respondi nada, apenas o acompanhei na gargalhada.
- Então você se casou com o Collins? – ele mudou de assunto, tocando na ferida.
- É. – respondi em meio a um suspiro.
- Desculpa Char, mas nunca imaginei vocês dois juntos um dia.
- Por que? – perguntei já temendo a resposta.
- Ah! Vocês são completamente diferentes.
- Eu sei. –confirmei lembrando de todas as nossas diferenças. Eu amo praia, Collins odeia. Eu adoro comer porcaria e o Collins vive a base de mato e suco. Só temos em comum o amor, sim porque eu amo aquele traste e sei que ele me ama.
- Você é tão divertida, despojada e gosta de se divertir – ele continuou diante do meu silêncio – Já o Collins sempre foi mais reservado, polido e muitas vezes chato. – ele sorriu com a ultima palavra. – Como isso aconteceu?
- Nem eu sei, acredita? Um dia eu odiava o Collins e assim como todo mundo da universidade o achava um babaca, mas daí um belo dia acordei e após uma conversa com ele durante o almoço e o sapo virou príncipe.
- Assim do nada?
- Não tão do nada. Saímos algumas vezes, ele sempre me ajudou a estudar e com o passar do tempo e com a proximidade fui descobrindo que por trás daquela pessoa esnobe e aparentemente tola, havia um homem maravilhoso, educado, galanteador.
- Mas hoje vocês não estão bem?
- Estamos. – afirmei com veemência – Apesar de que em situações como a desta manhã, sinto vontade de deixar tudo para trás e tentar viver outras coisas.
- Todo homem esquece seu aniversário de casamento. Olha, sou um advogado e sei que todo contrato é difícil de ser cumprido. Em um casamento não é diferente.
- Não sabia que ele tinha te contratado para defendê-lo. – ironizei deixando ele sem graça – Olha, não quero falar sobre isso agora.
- Ok! Vamos falar sobre o que você quiser então.
Era incrível como Jack me fazia bem, sempre fez. Enquanto conversávamos sobre amenidades e coisas divertidas eu esqueci de todos os meus problemas. Lembrei o motivo que me fez ficar com ele, que me fez jogar anos de amizade fora por uma semana mágica e inesquecível.
O que a vida queria nos reaproximando? Confesso que estou com medo de descobrir. Não foi muito legal da parte dela me fazer reencontrá-lo após um dia tão ruim.
Mais algum tempo na estrada e finalmente chegamos ao nosso destino. Primeiro fomos resolver o problema do contrato da casa dos pais dele; enquanto ele resolvia tudo preferi caminhar um pouco pela cidade.
Um pouco mais de uma hora depois fomos até a praia e decidimos comprar nosso almoço e comermos embaixo do píer, nosso lugar favorito de outrora.
- Nossa! Estou me sentindo como há sete anos. – ele exclamou enquanto comíamos.
- Com um pouco menos de cabelo. – o provoquei conseguindo uma gargalhada. – Acredita que mesmo morando tão perto, não venho aqui desde aquela semana?
- Sério?!
- É! Logo depois eu conheci o Collins e tudo aconteceu rápido demais. Casamento, responsabilidades, filhos. Acho que esqueci de como eu era.
- Para mim você é a mesma Char.
- Isso foi um grande elogio, mas não precisa exagerar, Jack. Você é que é feliz. Nunca se casou e pode continuar sendo o mesmo maluco de sete anos atrás.
- E quem disse que eu sou feliz? – parei para encará-lo e percebi tristeza em seu olhar. – Minha vida não é tão maravilhosa quanto você pensa.
- Mas você conquistou tudo o que queria e tem o estilo de vida que sempre defendeu. O que mais poderia faltar?
- Você!
Certo! Precisei de alguns segundos a mais para a comida em minha garganta descer. O encarei completamente confusa e assustada; tentei falar alguma coisa, mas as palavras não saíram.
- Assustei você, não foi? – ele perguntou sem graça.
- Um pouco. – respondi mais controlada. – Não estou entendendo nada.
- Char, aquela semana foi inesquecível para mim. Lembro de cada dia, todos os detalhes.
- Ok! Mas espero que lembre também que na segunda-feira na universidade você me falou que foi apenas curtição e que não queria se envolver nem estragar nossa amizade. Estou enganada? – meu tom de voz foi acusador.
- Infelizmente não está. Não sabe o quanto me arrependo por ter agido feito um idiota.
- Jack, não acho que seja uma boa hora para me falar estas coisas.
- Eu sei, desculpe. Só queria que soubesse como me sinto. E mais importante, quero saber como se sente.
- Acho que não quer não. – respondi em meio a um meio sorriso.
- Quero sim. – ele reafirmou sorrindo enquanto olhava para o mar.
- Bom, vamos lá então. Estou muito confusa em relação ao meu casamento; estou tendo um dia péssimo e reencontro um ex-namorado muito especial para mim. Como acha que estou me sentindo? Minha cabeça é uma confusão só.
- Sinto muito por ser o causador disso.
- Não esquenta. Acho que cheguei naquela fase de repensar minha vida e tomar decisões.
- Como fez com seu emprego?
- Ah! – afundei o rosto nas mãos. – Nem me lembre que fiz isso. Mas quer saber? Acho que fiz o que era certo. Já não estava mais feliz lá. Aliás, não sei em que área da minha vida sou feliz.
- Nossa! Quase senti pena de você. – ele brincou me fazendo sorrir. – Levanta. – ordenou já levantando e puxando minha mão.
- Aonde vamos? – perguntei curiosa.
- Lembrei de uma coisa que fizemos da ultima vez que estivemos aqui. Quero ver se ainda está lá. – respondeu enquanto corríamos pela areia.
- O que é? – realmente não lembrava o que era.
- Não acredito que esqueceu! Quando chegarmos lá você vai ver.
Quando paramos na praça próxima ao cais as lembranças vieram imediatamente. Em apenas uma troca de olhar ele soube que eu havia lembrado e caminhamos até a velha e sobrevivente árvore.
- Está quase da mesma forma que deixamos. – ele falou analisando o pequeno coração com nossos nomes gravados.
- Achei que já tivesse sido apagado. – sussurrei em meio às lembranças.
- A árvore não é tão má quanto você. Não acredito que não lembrava disso nem das promessas que fizemos aqui.
- Minha memória é bem inteligente. Esqueço rápido o que me machuca.
- Char... – ele tentou falar, mas eu o impedi.
- Deixa isso no passado, Jack.
- Tem certeza de que é isso o que você quer? – ele perguntou se aproximando perigosamente.
- Com você na minha vida novamente já não tenho certeza de nada, mas já vi este filme antes e o final não é tão feliz. As coisas são diferentes agora.
- Não quero te deixar em uma situação desconfortável.
- Então se afasta um pouco e me deixa pensar. – pedi me afastando. Caminhei até a beira da praia e ouvi os passos dele me seguindo.
- Acha que podemos ter outra chance? – ele perguntou após alguns minutos parados de frente para o mar e em silêncio.
- Tenho uma vida construída agora. – respondi cheia de dúvidas.
- Mas você não está feliz. – ele frisou tentando segurar minha mão, mas eu a puxei.
- Estou confusa. Tudo está confuso, mas isso não quer dizer que não ame meu marido. – enfatizei ao lembrar do Collins.
- Não estou dizendo que você não o ame, mas se não tem dúvidas sobre o seu casamento por que está aqui comigo? – fiquei olhando ele segurar meus ombros enquanto gentilmente me fazia encara-lo. – Por que?
- Eu não sei. – respondi completamente zonza.
Ele tinha razão; eu estava muito confusa e agora tentava responder a mim mesma, o que me fez ir ate aquela praia com ele. Revê-lo me deixou eufórica e reascendeu algo em mim que há muito tempo estava adormecido, e é claro que minha atual situação conjugal ajudou a retomada do meu encantamento pelo Jack. Mas antes de fazer qualquer coisa que viesse a me arrepender e não ter coragem de me encarar no espelho, eu precisava ser mais racional do que já fui um dia.
Ele esperava de forma angustiada uma resposta e eu ainda organizava meus pensamentos. Olhei para ele de forma carinhosa enquanto acariciava seu rosto.
- Jack. Sabe que o que sentia por você era muito forte.
- Era? – a pergunta saiu triste.
- Nunca fui tão apaixonada por alguém em toda a minha vida. Eu era louca por você, completamente apaixonada.
- Então – ele pareceu ter esperanças novamente – Um sentimento assim não acaba, pode adormecer, mas nunca acaba.
- Então – ele pareceu ter esperanças novamente – Um sentimento assim não acaba, pode adormecer, mas nunca acaba.
- Jack. – o fiz parar de falar e me encarar – Este não é um sentimento bom, ao contrario, é muito ruim.
- Como? – a confusão estava estampada no rosto dele.
- Paixão é um sentimento perigoso que só nos faz sofrer. Sabe, é você ser dependente da outra pessoa, não conseguir enxergar os defeitos dela e muito menos perceber que tudo é um engano, que só você se entrega ao sentimento.
- Nem toda paixão é assim.
- A nossa foi exatamente assim. – sorri tristemente – Sofri demais e demorei para me libertar, mas aí o Collins apareceu e pude experimentar outro tipo de sentimento: o amor.
- Char, eu posso te dar este amor.
- Jack! Amor não acontece assim de uma hora para outra. A convivência, as pequenas atitudes, tudo isso faz o amor nascer.
- Entendo...
- Sabe, o Collins sempre esteve ao meu lado quando precisei, naqueles momentos em que você acha que não vai agüentar e olha para o lado esquerdo da cama e la está a pessoa que prometeu estar com você até que a morte os separe.
Ele nada disse, apenas se afastou um pouco colocando as mãos nos bolsos do casaco enquanto encarava o mar novamente. Eu fiz o mesmo e continuei com meu pensamento, não para ele entender, mas para que eu lembrasse o motivo de amar meu marido.
- Lembro que durante os três primeiros meses da minha primeira gravidez eu enjoei o Collins e ele sem reclamar passou a dormir no quarto de hospedes e evitava que eu o visse. Ou durante os dois partos em que ele estava ao meu lado na sala e eu o vi chorando ao ouvir o chorinho dos nossos filhos. E teve uma vez também que eu tive pneumonia e ele não saia do quarto. O homem que sempre diz que eu sou a mulher mais linda do mundo quando acordo descabelada pela manhã; que sempre me beija quando sai e quando chega do trabalho. – concluí com os olhos úmidos.
- Acho que não posso competir com isso. – ele falou sorrindo tristemente.
- É. Às vezes ele me deixa maluca quando bagunça todas as suas roupas quando vai pegar apenas uma camisa ou quando deixa a toalha molhada em cima da cama. – sorri enxugando algumas lágrimas – Tem também a mania irritante dele de deixar tudo aberto, ele não consegue fechar nem o tubo do creme dental. Mas eu o amo e não posso fazer isso com ele.
- Eu sei. – ele concordou com a voz rouca.
- Jack? – o chamei fazendo-o virar o rosto para mim. – Eu quero ir para casa.
Durante todo o trajeto ficamos em silêncio. Realmente havia sido uma tarde incrível e ao mesmo tempo confusa, mas agora eu finalmente tinha tirado todas as dúvidas que eu sentia em relação a minha grande paixão do passado e principalmente ao meu grande amor do presente.
- Obrigada pelo passeio, eu adorei. – falei quando chegamos ao estacionamento da cafeteria onde meu carro havia ficado.
- Eu também me diverti muito. Foi muito bom te rever.
- Eu também acho que foi ótimo este reencontro, assim finalmente pudemos resolver as coisas entre nós.
- Sabe, nunca pensei que diria isso um dia, mas estou morrendo de inveja do Collins. – ele falou timidamente nos fazendo sorrir.
- Adeus, Jack. – falei o abraçando fortemente.
- Adeus, Char. Seja feliz e se não der certo, talvez eu ainda esteja esperando.
Eu não soube o que responder e simplesmente sorri. Fiquei olhando ele entrar no carro e após sua partida fui direto para minha casa.
Enquanto dirigia não conseguia não sorrir ao pensar que, apesar dos problemas, eu era muito abençoada pela família que tinha. Talvez eu desejasse que o Collins fosse mais romântico, ou mais sensível e tivesse um metro e oitenta de altura, olhos azuis e cabelos lisos ao invés de crespos, mas ele definitivamente era minha cara metade.
Sabe, uma amiga minha sempre diz que nunca estamos satisfeitos com o que temos e para justificar isso, preferimos não enxergar as qualidades e aumentar em 100% os defeitos. Me concentrei tanto em ver o que o Collins fazia de errado que esqueci tudo o que ele já fez e o que faz de bom; de quanto ele é engraçado e me faz rir; até mesmo da forma linda que ele me olha quando terminamos de nos amar.
Quando parei o carro de frente a nossa casa vi que as luzes estavam acesas apesar do avançar das horas; já passava das nove da noite. Caminhei rapidamente até chegar à porta, onde respirei fundo antes de entrar.
Minha família estava na sala. Collins estava sentado em sua poltrona contando estórias enquanto meus dois filhos adormeciam no sofá.
- Oi. – ele falou ansioso ao me ver.
- Oi. – respondi envergonhada e sem saber o que dizer.
- Os meninos dormiram. – finalmente ele observou. Conhecendo bem meu marido, acho que os meninos já estão dormindo há algum tempo ele nem tinha percebido.
- É. – respondi sorrindo diante daquela cena.
- Eles tomaram banho e jantaram. Michel reclamou um pouco dos legumes, mas comeu tudo. Ah! E eu tentei pentear os cabelos da Anne como você faz, mas acho que não ficou muito bom. – era visível que ele estava nervoso, sem saber como agir, como se quisesse apenas me abraçar.
Sem esperar mais, corri até ele que logo ficou de pé. Eu o abracei com tanta força que o assustei, mas carinhosamente ele devolveu o abraço enquanto acariciava meus cabelos.
- Char, me desculpe por hoje de manhã.
- Não, está tudo bem. Eu é quem devo me desculpar.
- Então estamos quites. – ele sorriu enquanto me beijava apaixonadamente.
Como era bom estar em casa, estar nos braços dele novamente...
- Collins – comecei a falar quando o beijo cessou – Eu larguei o emprego.
- Eu sei, eu sei. Está tudo bem. – ele me tranqüilizou.
- Eu fiquei tão zangada e depois eu fui...
Quando estava prestes a contar tudo o que aconteceu, ele me silenciou com um beijo e depois me olhou de forma carinhosa e decidida.
- O importante é que você está aqui agora.
- Mas... – tentei protestar, mas ele impediu novamente.
- Depois conversamos, agora quero que suba tome um banho e depois desça para jantarmos. Eu mesmo cozinhei. – ele falou todo orgulhoso.
- Você cozinhou?! – indaguei já imaginando a bagunça que estava a minha cozinha. – Quão brava eu vou ficar quando entrar na cozinha e ver a bagunça que você fez?
- Um pouco. Mas eu prometo que te ajudo a limpar desta vez. Eu enxugo a louça que você lavar. – ele respondeu com cara de menino travesso. – Eu te amo, Char. Vamos ficar bem, sempre ficamos. – sussurrou me abraçando.
- Vamos sim. – respondi enterrando meu rosto no pescoço dele. – Eu te amo.
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