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Quando lhe falta o que ambiciona, o verdadeiro filósofo contenta-se com o que tem.(Jane Austen)

Home Fátima Sabor do Amor - Capítulo 14
Sabor do Amor - Capítulo 14 PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fátima   
Sáb, 05 de Setembro de 2009 23:02

Capítulo XIV

 
Darcy sentiu o impacto de um forte soco em seu ombro esquerdo quase o derrubar. Com alguma dificuldade tentou se segurar em pé. Não sentia nada, dor ou algo relacionado, mas seu corpo estava cada vez mais pesado. Então seus olhos encontraram o reflexo do horror dos olhos de Elizabeth, ela lançou um olhar desesperado para o ombro, só então Darcy tomou conhecimento que seu ombro estava coberto pelo sangue.

Tudo estava ficando escuro, mas podia ouvir claramente os gritos desesperados de Elizabeth chamando seu nome. Agora tudo girava ao seu redor, as imagens ficando cada vez mais borradas, já não tinha mais controle sobre seu peso, suas pernas fraquejaram jogando-o para trás...

A água gelada do começo da manhã causou um grande desconforto em seu corpo já enrijecido pela dor que agora era latente. Enquanto sentia seu corpo submergir, lutava desesperadamente para manter seus olhos abertos, mas a correnteza era mais forte e o arrastava com ferocidade. Darcy queria lutar, desejou estar ao lado de sua amada e consolá-la, dizer que iria ficar tudo bem, mas talvez agora, tudo já estivesse perdido, terminado. Os chamados foram ficando cada vez mais distantes mais fracos... Os borrões mais distorcidos, mais escuros...

Os gritos desesperados de Lizzy ecoavam por todo o lugar. As lágrimas de agonia e desespero banhavam todo o seu rosto e em meio a soluços, tentava desesperadamente chegar mais perto do corpo caído na água, sendo arrastado pela correnteza.

Em um impulso decidiu se jogar na água em uma tentativa louca de salvar seu grande amor, e quando estava prestes a fazê-lo sentiu braços fortes a segurando. Debateu-se o quanto pôde, mas ele era muito mais forte, e seu desespero e sofrimento já não lhe davam força suficiente. Quando percebeu que já não podia mais, que seus esforços seriam inúteis, deu vazão a dor, deixou seu corpo cair na terra molhada, já não chorava, inconscientemente gritava, apertando seu tronco com seus braços, tentando se agarrar em algo para não enlouquecer.

Ao levantar seus olhos e encontrar um assustado, mas frio Sr. Braga sentiu seu sangue ferver em suas veias. Como ele podia agir daquela forma distante depois de ter atirado em alguém. Reunindo toda a raiva que estava arrebentando seu coração, falou estridente:

- Seu monstro! 

- Vamos embora agora antes que alguém nos veja. – [i] Falou gaguejando, visivelmente nervoso. [/i]

- Eu não vou a lugar nenhum com você. Você matou meu amor. – [i] A voz de Lizzy mal podia ser ouvida em meio aos soluços. [/i]

- A culpa disso tudo é sua, se não tivesse me desobedecido... Ah! Eu avisei que não iria permitir ser passado para trás... Vamos agora, alguém pode ter ouvido o barulho do tiro. – [i] Agora sua voz era carregada de raiva. [/i]

Há passos largos ele já estava junto a Lizzy, e pegando-a pelos braços com violência a arrastou pela trilha. Aquilo tinha fugido do seu controle, ele não pretendia ter atirado, mas se deixou levar pela raiva, e agora era tarde. Enquanto pensava em como acalmaria Elizabeth, resolveu que mandaria alguns homens de confiança limpar a área e sumir com o corpo, antes que a correnteza o levasse para o vilarejo mais próximo.

A dor dentro do peito de Lizzy era maior que suas forças. Um grande buraco em seu peito a consumia. Enquanto tinha seu corpo arrastado, tinha seus olhos fixos na água, com esperança de ver Darcy saindo da água... Tudo agora estava morto junto com ele, sua vida, seus sonhos... Tudo era vazio e escuro. Sentiu seus olhos ficando cada vez mais escuros, até que não mais sentiu o chão sob seus pés.

***********************************__________*************************

A expressão assustada da Sra. Albuquerque ao ver o Sr. Braga adentrar a casa com sua filha mais nova desacordada em seus braços, foi seguido de vários gritos histéricos. O Sr. Albuquerque rapidamente ordenou que seu criado chamasse o médico da cidade, enquanto o Sr. Braga acomodava Lizzy em sua cama.

Em menos de uma hora o médico já estava cuidando de Lizzy. Enquanto na sala ao lado do quarto, todos esperavam ansiosos pelo diagnóstico. O Sr. Albuquerque caminhava impaciente, até que parando em frente ao Sr. Braga, que estava sentado próximo a Sra. Albuquerque consolando-a, resolveu esclarecer algumas dúvidas.

- Então Sr. Braga, conte-me como encontrou minha filha? – [i] A desconfiança era visível em seu tom de voz. [/i]

- Ora Senhor meu marido, isso não é hora para interrogatórios, temos que ser gratos ao Sr. Braga por ter trazido a nossa Lizzy para casa... Oh! Menina tola, eu sempre avisei que era para evitar esses passeios pela fazenda, mas ela me ouviu?... Meus pobres nervos.

- Eu só quero saber como ele chegou até ela. E o que realmente aconteceu.

- É claro... O senhor tem toda razão em estar preocupado... Eu vim procurar minha noiva logo pela manhã e fui informado que ela havia saído para um passeio. Assim como a Sra. Albuquerque eu também me preocupo com esses passeios... -[i] Adotando um semblante de tristeza, típico de um bom ator. [i] – E eu estava certo não é mesmo, vejam o que aconteceu...

- E o que realmente aconteceu?

- A srta. Elizabeth já havia me dito que gostava muito de ir à cachoeira, então supus que a encontraria lá... Quando cheguei lá, já a encontrei desacordada na água, temo que ela tenha caído.

- Oh! Deus! – [i] Choramingou a Sra. Albuquerque. [/i]

- Tudo ficará bem, vamos rezar para isso. [i] – Falou o Sr. Braga, agora se colocando ao lado da futura sogra. [/i]

O Sr. Albuquerque resolveu não mais questionar, mas sentia que havia algo errado naquela história. Após alguns minutos, o médico saiu do quarto, imediatamente, todos estavam ao seu redor.

- Então Dr. Xavier, como está minha Lizzy? – [i] O Sr. Albuquerque perguntou aflito. [/i]

- Não se preocupe Sr. Albuquerque, foi apenas um susto, ela está bem.

- O que ela tem? – [i] Foi à vez da Sra. Albuquerque falar. [/i]

- Ela teve um desmaio, talvez tenha se assustado com algum animal, o que a fez provavelmente cair na água.

- Podemos vê-la?

- Podem entrar, mas não façam barulho, pois agora ela está dormindo, dei um calmante para que ela pudesse descansar.

O Sr. Albuquerque entrou seguido de sua esposa, quando o Sr. Braga intencionou segui-los, foi interrompido pelo médico, que pediu para conversarem a sós por um minuto.

- Dr. Xavier o que houve?

- Perdoe minha indiscrição Sr. Braga, mas como médico não há muitos segredos que eu não fique a par, principalmente desta natureza.

Jorge Braga sentiu seu estômago revirar, um medo súbito tomou conta de todo o seu ser. Certamente o medico se referia ao acontecido, Lizzy deve ter contado tudo a ele. Em uma fração de segundos vários pensamentos passaram por sua cabeça, recobrando todo o seu autocontrole, perguntou em um sussurro.

- Segredo?... Não estou entendendo.

- Sr. Braga, isso é mais comum do que parece ser, venho lidando com isso mais do que gostaria e se resolvi falar a sós com o senhor, é por não querer causar nenhum constrangimento aos Albuquerque, que são meus amigos de longa data e pessoas responsáveis.

- Doutor, está me deixando nervoso.

- A srta. Albuquerque desmaiou por algum motivo que não saberia explicar, mas algo contribuiu muito para esse desmaio.

- E o que seria?

- Ela está grávida.

O Sr. Braga sentiu o peso da notícia como um soco em seu estomago. Primeiro ficou com raiva de Lizzy e do bastardinho, como aquela rameira fez aquilo com ele, engravidando de um professorzinho pobretão, era muita humilhação para um homem em sua posição. Mas como sua mente sempre trabalhou mais rápido que suas emoções, viu um grande trunfo em suas mãos, usaria esse fato como uma arma para conseguir o silêncio de Elizabeth. Com um sorriso sedutor em seus lábios, olhou para a expressão incerta do Dr. Xavier, então falou:

- O senhor fez muito bem em falar comigo antes... Não vamos querer que os meus futuros sogros se perturbem com isso agora.

- Certamente Sr. Braga. O senhor tem a garantia do meu silêncio, só peço que apresse um pouco as coisas, pois ela já está com quatro semanas e certamente não vai tardar para que a barriga apareça.

- Claro... Claro. Muito obrigado por sua discrição Doutor.

- Não por isso Sr. Braga, como disse isso já está virando rotina em meu trabalho... Bem agora se me der licença eu preciso ver outro paciente. Até mais ver Sr. Braga.

Após a saída do médico, o Sr. Braga entrou no quarto e ficou observando os cuidados da Sra. Albuquerque para com sua filha, O Sr. Albuquerque não estava no quarto, tinha saído para comprar alguns remédios para a filha. Elizabeth já estava acordada, tinha os olhos tristes, como se estivesse se segurando para não chorar na frente da mãe e dos criados. Quando seus olhos se encontraram ele pôde sentir que ela não mais suportaria fingir e iria acabar contando tudo. Completamente amedrontado, ele decidiu agir.

- Sra. Albuquerque eu gostaria de falar um minuto a sós com minha noiva... Sei que estou sendo inconveniente, mas prometo não me demorar ou cansá-la. Mas infelizmente o assunto não pode esperar.

- Imagine Sr. Braga fique o tempo que precisar... Eu tenho mesmo que providenciar algumas coisas na cozinha para Lizzy.

A Sra. Albuquerque deu um beijo na testa da filha e em seguida saiu do quarto. Lizzy tinha os olhos cheios de lágrimas, a raiva e o desprezo que sentia por aquele homem eram latentes em seu rosto pálido. Enxugando as lágrimas com as costas da mão, falou com a voz firme e fria como um gelo.

- Se veio aqui me pedir para não denunciá-lo, quero que saiba que perdeu sua viagem. Assim que tiver a oportunidade irei contar tudo ao meu pai, quero vê-lo apodrecendo na cadeia onde é seu lugar.

- Acho que a senhorita não fará isso. - [i] Falou com ironia. [/i]

- E o que vai fazer para me impedir? Matar-me também? – [i] Lizzy quase gritou. [/i]

- Baixe o tom da sua voz! Está querendo que alguém nos ouça?

- Dane-se tudo Sr. Braga... Não tenho mais nada a perder, o senhor me tirou tudo aquilo que eu mais amava... Não suportarei mais suas ameaças, o nosso trato acabou no momento em que m... – [i] Agora as lágrimas brotavam dos seus olhos como um manancial. [/i]

- Se eu fosse a senhorita mudava de opinião... – [i] Falou enquanto se aproximava da cama. [/i]

- Nada me fará mudar de opinião seu assassino.

- Ah! É?... Então me diga como irá criar o seu bastardinho?

- O q... O que disse?

- O que ouviu. O Dr. Xavier me garantiu que a senhorita carrega um bastardinho em seu ventre... Onde ficará toda essa sua pose quando for tida como mãe solteira, e ainda pior, uma adultera... Garanto que qualquer juiz me absolveria... Um noivo traído que mata o amante da noiva em busca de justiça. Perfeito não acha?

Lizzy ainda estava tentando absorver tudo aquilo. Realmente seu corpo havia sofrido algumas mudanças ultimamente. Seu seio mais volumoso, sua cintura mais larga, então lembrou que sua menstruação estava atrasada. Não... Não... Isso não podia estar acontecendo, grávida e agora sozinha... As lágrimas agora eram mais evidentes, um pequeno gemido de dor e desespero saiu de sua garganta.
 
- O que quer de mim?

- É obvio. Como sou um homem muito compreensivo eu a perdoou minha querida noiva... Continuaremos com o noivado e eu assumo o bastardinho como sendo meu filho. Em troca, quero o seu silêncio sobre o que aconteceu esta manhã. É um trato justo não acha?

- Você é um monstro. O que quer de mim? Por que não me deixa em paz?

- Não estou acostumado a não ter o que quero... Além do mais, esse casamento será muito vantajoso para mim... Então o que me diz?

Lizzy não teve forças para responder, tudo era muito dolorosa, a imagem de Darcy ferido sendo arrastado pela água, agora a notícia de uma gravidez. Ela apenas concordou com a cabeça enquanto olhava o sorriso triunfante de seu carrasco.

********************************_____*********************************

Era uma manhã normal para Alexandra e seu esposo Otávio. Como sempre faziam foram pescar no rio que ficava atrás do pequeno xale onde moravam. A agitação da capital fez com que a família rica da alta sociedade paulistana optasse por uma vida mais tranqüila, vindo morar em Campinas, mas precisamente no campo, perto da imponente fazenda Pinhal. E onde o médico Otávio Matias poderia descansar do seu ritmo de trabalho acelerado.

Otávio preparava o material para a pesca, enquanto Alexandra admirava o balet da correnteza da cachoeira morrendo no rio. Aquilo sempre a acalmava, quando presenciava esse espetáculo da natureza e a alegria de sua família por estar morando naquele lugar, sentia que havia feito à escolha certa.

Como era de costume ela entrou na água, ficando na margem do rio brincando com as mãos sobre a água. Otávio às vezes a olhava divertindo-se, era nítida a paixão que sentiam um pelo outros após tantos anos de convivência. De repente Alexandra avistou algo sendo arrastado pelas águas, ela estreitou os olhos tentando identificar o que era. Até que levando a mão a boca escondeu um grito.

Um corpo aparentemente sem vida descia pelo rio. Otávio percebendo a agitação de Alexandra correu até ela, abraçando-a forte.

- Você está bem?

- Deus! Otávio tem um homem morto ali.

- Você ficará bem se eu te deixar aqui por um segundo?

- Não, você não pode ir lá, não Otávio.

- Alexandra, está tudo bem amor. Eu preciso ir até lá. – [i] Falou com firmeza na voz, enquanto segurava o rosto da esposa com as mãos. [/i]

Após o consentimento de Alexandra, Otávio caminhou com cuidado a te o corpo, e quando chegou mais perto, percebeu que o homem respirava com dificuldade. Rapidamente e com cuidado puxou até a margem do rio, pedindo imediatamente a ajuda de Alexandra, que mesmo tremula o seguiu.

- Eu o conheço Alexandra... É o Sr. Darcy, já o vi algumas vezes acompanhando o Sr. Matias nas reuniões dos plantadores de café.

- Ele está ferido, mas quem será que fez isso?

- Eu não sei, mas quem quer que tenha feito isso, ainda pode estar procurando por ele. Vamos levá-lo para casa. Eu mesmo posso cuidar dele, tenho tudo o que preciso em casa. Tudo bem?

- Claro Otávio.

Eles colocaram com cuidado Darcy em seu carro e seguiram para casa. Mesmo sem saber o que realmente havia acontecido com aquele pobre homem, mas Otávio pelas poucas vezes que o via, tinha a sensação de que deveria salvar a vida dele.

*******************************____***********************************


A noite trazia consigo uma leve brisa que balançavam os cabelos de Elizabeth, o dia havia sido cheio de emoções tristes. Agradeceu aos céus por finalmente sua mãe ter deixado ela sozinha.

De frente a grande janela, Lizzy absorvia tudo o que tinha passado. As lágrimas ainda não haviam cessado. A imagem de Darcy ferido e caindo no rio aumentavam a sua dor, a nova chantagem do verme do Sr. Braga a deixara ainda mais presa a seu triste destino.

Acariciou seu ventre, e passado o susto da notícia inesperada, uma alegria tomou conta do seu ser. Ela havia perdido o grande amor da sua vida, mas ele havia lhe deixado um fruto, uma criança que o tornaria ainda mais inesquecível em seu coração.

Lizzy sabia que teria que defender seu filho das maldades e indiferença do Sr. Braga, mas faria isso com todas as suas forças, pois ele era a única coisa que restara de seu grande amor. Com uma grande tristeza em seus olhos, ela deixou toda a sua dor se esvair, chorando a saudade que lhe acompanharia para sempre.
 

 






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