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Qualquer ser humano está cercado por uma multidão de espiões involuntários. (Jane Austen)

Sabor do Amor - Capíltulo 11

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Capítulo XI


Os grossos pingos da chuva que caía naquela manhã, batiam violentamente na janela. Lizzy revivia com tristeza tudo o que ocorreu na noite anterior, jamais esqueceria o olhar de desprezo que Darcy lhe lançou, ele a odiava e isto a estava matando. Diante da noite horrível que passara, tendo que posar de noiva apaixonada enquanto seu coração sangrava, Lizzy descobriu que possuía dentro de si uma fortaleza.

Sabia que o que a esperava aquela manhã não seria fácil. Pensou em não descer para a aula, mas sabia que seria uma atitude covarde, e mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar a situação.


Darcy tinha os olhos fixos no teto do seu quarto. Passara a noite toda em claro, ora chorando, ora sentindo raiva de todos, principalmente de si mesmo. Como foi tolo, se deixando enganar daquela maneira, acreditou e amou aquela mulher mais do que ela merecia e agora pagava o preço por ter sido tão idiota. O que o fez pensar que Elizabeth Albuquerque se casaria com ele, um simples professor e que não passava de um pobretão. Precisava por um fim a tudo aquilo, tinha que se afastar de tudo o que lhe fizesse sofrer.

Estava se arrumando para sua aula quando ouviu batidas incessantes na porta, em seguida ouviu a voz de seu amigo Carlos. Pensou na melhor maneira de não dar explicações pelo que aconteceu, pois certamente este era o motivo que trazia seu amigo tão cedo a sua casa.

- Darcy desculpe vir tão cedo, mas estava muito preocupado com você meu amigo.

- Estou bem, Carlos. Agradeço sua preocupação.

- Darcy, eu o conheço desde que éramos crianças e eu sei que tem algo errado... Acha que achei normal o que aconteceu ontem à noite na casa dos Albuquerque, e a forma como você saiu de lá?

Darcy continuou se arrumando, permanecendo em silêncio, pois na verdade não sabia exatamente o que falar para o amigo. Dando um longo suspiro, virou-se para Carlos procurando a melhor forma de tocar no assunto.

- Carlos, eu sei que tenho muita coisa para explicar, mas peço que tenha um pouco de paciência... Quando a ferida sarar eu prometo que lhe conto.

- Eu quero apenas te ajudar Darcy. E vejo claramente que você não está bem, que está sofrendo...

- Eu vou sobreviver meu amigo... Não sei como farei isso, mas prometo que sobreviverei. Agora me deixe ir que estou atrasado.

- Tudo bem... Tudo isso tem relação com o anel não é? Vejo que não o entregou você estava tão decidido... - Carlos falou olhando para a pequena caixa de veludo que estava sobre a escrivaninha.

- Ah! O anel... Ele não tem serventia nenhuma agora. - Falou com certa melancolia na voz.

- Como assim?

- Não haverá mais pedido de casamento Carlos, eu fui um completo idiota.

- Darcy... Eu sinto muito. Se quiser podemos recuperar o relógio.

- Carlos, depois discutiremos o que fazer com o anel, não tenho ânimo nem cabeça... Agora preciso enfrentar a realidade e ir trabalhar, só Deus sabe quanto isso me custará.

- Darcy, eu só quero que saiba que eu sempre estarei ao seu lado, e quando quiser conversar é só me procurar.

- Eu sei disso meu bom amigo.  –falou enquanto recebia um solidário abraço do amigo.

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Lizzy estava ansiosa, olhava incessantemente pela janela do escritório. Sabia que seria muito difícil, mas tinha que tentar falar com Darcy, tentar se explicar, ao menos pedir perdão. A imagem daquele olhar cheio de raiva e decepção de quando se viram pela ultima vez, torturou sua longa noite de insônia. Ela sabia que tinha feito tudo errado, mas precisava ao menos do perdão dele para viver em paz.

Jane apenas observava a inquietude da irmã. Sentia-se triste em presenciar o sofrimento de Lizzy, mas nada poderia fazer, pois ela não se abria. Sua intuição lhe dizia que havia algo estranho no noivado da irmã, e não sossegaria enquanto não descobrisse a verdade.

Quando a criada anunciou a chegada de Darcy, Lizzy sentiu seu coração acelerar, controlou sua respiração enquanto o via entrando pela porta do escritório. Ele trazia um semblante sério, as saudou de maneira formal, e começou a retirar os livros da bolsa. Neste momento a Sra. Albuquerque veio fazer companhia as filhas.

- Lizzy, seu noivo acaba de mandar um recado. Disse que precisou resolver alguns assuntos com o avô no banco e não poderá vir esta manhã. Que homem mais agradável, é visível como está apaixonado por você.

- Obrigada mamãe.  – Lizzy falou constrangida.

- Como está sua mão Sr. Darcy? Lamentável o pequeno acidente de ontem. – A Sra. Albuquerque quis saber realmente preocupada, mas alheia a toda a situação...

- Está melhor Sra. Albuquerque, agradeço sua preocupação.

Dizendo essas palavras, Darcy começou a dar sua aula. O clima era tenso, ele passou toda a aula com os olhos fixos no livro evitando assim olhar para Lizzy, todos na sala estavam desconfortáveis, com exceção da Sra. Albuquerque.

 Após a explanação sobre a vida e obra do autor Álvares de Azevedo, Darcy deu a aula por encerrada, para surpresa de Jane e Lizzy que sempre esperavam pela declamação de um poema. Surpresa também ficou a Sra. Albuquerque, que sempre ouvira as filhas comentarem com entusiasmo a maneira apaixonada e única que ele declamava os poemas.

- Sr. Darcy! Sempre ouvi os melhores elogios quanto a sua maneira apaixonada de declamar os poemas. Acaso hoje não terei este prazer de ouvi-lo?

- Perdoe-me senhora... É que não preparei nenhum poema para hoje. – mentiu.

- Assim o Senhor me desaponta Sr. Darcy! Vim assistir sua aula apenas para comprovar a veracidade de tantos elogios. Vamos, declame qualquer um.

- Claro Sra. Albuquerque...

Na verdade Darcy não tinha ânimo para declamar poemas, a única coisa que queria era sair dali imediatamente, a presença de Lizzy ainda o machucava, por diversas vezes durante a aula teve vontade de ir até ela e perguntar o porquê de tanta crueldade, por que brincara com seus sentimentos daquela maneira?

Folheou o livro que reunia alguns poemas de Álvares de Azevedo, até que seus olhos pousaram exatamente em um que traduzia com exatidão tudo o que sentia naquele momento, tudo o que desejava dizer para Elizabeth. Hesitou um pouco em declamar aquele poema, mas a revolta em seu coração falou mais alto. Colocando-se de pé, olhou fixamente para Lizzy, tentando desesperadamente controlar suas emoções, começou a declamar o poema, Por que mentias?

Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e se minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?

Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro... Leviana sem dó, por que mentias?

Inconscientemente, Darcy tinha os olhos fixos em Lizzy, os punhos serrados pressionando a escrivaninha. Os olhos marejados e com a voz embargada continuou.
Sabe Deus se te amei! sabem as noites
Essa dor que alentei que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!
Vê minha palidez - a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias...
Pousa a mão no meu peito! Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?
A ultima frase saiu quase como um como um gemido, enquanto sua mão esquerda batia forte no peito. Lizzy fazia um grande esforço para não deixar as lágrimas caírem ali mesmo, na frente de todos. Através daquelas palavras, e da forma sofrida que ele declamou aquele poema, ela teve a certeza que ele a odiava.
Jane, que há algum tempo desconfiava de um possível envolvimento da irmã com o Sr. Darcy, agora teve a certeza. Mas preferiu ficar quieta e esperar a melhor oportunidade para esclarecer tudo com Lizzy, mesmo por que o clima no escritório era tenso.
A Sra. Albuquerque completamente alheia a tudo o que estava acontecendo, começou a aplaudir de forma eufórica, quebrando o clima carregado que pairava sobre todos.
- Esplendido Sr. Darcy. Maravilhoso... O que achou Jane?
- Realmente foi maravilhoso mamãe. – Jane falou nervosa vendo que Lizzy estava prestes a desabar.
Darcy sentiu que agiu de forma errada, por mais que seu coração estivesse sangrando, não poderia ter extravasado sua dor daquela maneira. Concluiu que não poderia mais dar aulas para Lizzy, tinha que se afastar e apagar para sempre a lembrança de Elizabeth Albuquerque.
- Eu agradeço Sra. Albuquerque... O Sr. Albuquerque está em casa? Gostaria de lhe falar.
- Claro Sr. Darcy, ele deve estar em sua cabana de caça, ultimamente ele não sai de lá.
- Eu poderia ir até lá?
- Sim, venha eu o acompanho.
Darcy guardou rapidamente suas coisas e ao passar por Lizzy e Jane cumprimentou-as formalmente, mas não conseguiu não olhar para Lizzy, que visivelmente angustiada lhe lançou um olhar de súplica. Ele teve vontade de questioná-la ali mesmo, mas, mais uma vez se conteve.
Quando a porta do escritório se fechou, Lizzy deixou toda a sua dor se esvair. Jane em um impulso maternal, a abraçou forte, tentando passar força para a irmã que mais parecia um bicho assustado... Após um tempo, Lizzy parecia ter se acalmado. Jane a encarou, tinha que saber o que estava acontecendo com sua irmã.
- Lizzy eu preciso saber o que está havendo para poder te ajudar.
- Jane eu estou bem.
- A quem quer enganar? A você mesma minha irmã? Lizzy o Sr. Darcy deixou muito claro aqui que está havendo alguma coisa. Temos que agradecer aos céus por nossa mãe ser tão desligada, eu não quero nem imaginar o escândalo que ela faria se descobrisse que houve alguma coisa entre vocês.
- Não se preocupe Jane, se houve alguma coisa entre nós no passado. Ficou evidente que não há a menor possibilidade de voltar a acontecer.
- Lizzy... Não entendo esse seu noivado repentino se é tão claro que vocês se amam e pobre Sr. Darcy, está sofrendo visivelmente. O que realmente está havendo minha irmã?
- Não há nada Jane... Somos de mundos diferentes, só isso. Qual futuro eu teria me casando com o Sr. Darcy? Ele não tem nada, é pobre e sem família. –  Ela falou em uma tentativa de ser convincente, mas seu coração estava sangrando.
- Essa não é você Lizzy. Desde quando se preocupa com dinheiro ou status?
- Aprendi a ser realista Jane... Quero te pedir um grande favor... Nunca mais vamos tocar neste assunto, o Sr. Darcy e eu, nós acabamos definitivamente, ficou para trás, em um passado que nunca mais poderá voltar.
- Não sei o que está fazendo com sua vida minha irmã, mas quero que saiba que está jogando fora a sua felicidade.
- Eu sei muito bem o que estou fazendo Jane... Agora me sinto sufocada, preciso de um pouco de ar. Vou caminhar um pouco. 
Lizzy saiu a passos largos do escritório, finalmente depois de tantos dias sob a vigilância do Sr. Braga, poderia conversar com Darcy, sabia que não podia contar o real motivo do seu noivado, pois certamente ele iria querer livrá-la daquela carga então sua família poderia perder a fazenda. Mas ao menos iria tentar pedir perdão, vê-lo de perto, sentir seu cheiro, ouvir sua voz...
Ela caminhava de um lado para outro do pequeno jardim, estava ansiosa pelo reencontro, sentia-se apavorada também, pois não sabia qual seria a reação dele, certamente não seria das melhores, tendo em vista a forma como lhe cuspiu aquelas palavras através do poema.
Finalmente ouviu o barulho da porta da cabana se abrir, ouviu uma pequena conversa entre ele e seu pai, onde o Sr. Albuquerque pedia para que Darcy o esperasse se trocar, pois ele estava a caminho da cidade para uma reunião com o banqueiro. Era a oportunidade que ela precisava para conversar com ele.
Darcy veio caminhando devagar, sentia um grande alívio depois de ter conversado com o Sr. Albuquerque, agora estava livre e ao menos não mais a veria diariamente. Estava indo na direção de um dos bancos do jardim para esperar o Sr. Albuquerque quando avistou Lizzy a sua espera. Sua primeira reação foi virar-se para tomar outro caminho, mas foi impedido pelo apelo dela.
- Por favor, precisamos conversar.  – Ela suplicou, segurando a mão dele.
- Srta. Albuquerque, peço que, por favor, solte minha mão... Agora a Senhorita está noiva e não fica bem sermos visto sozinhos. – Falando isso ele se afastou.
- Por Deus, pare de agir como se não me conhecesse!
- Eu não a conheço! – Ele falou elevando a voz. – Achei que a conhecia, mas hoje vejo quanto fui idiota.
- Não fale assim.
- O que ainda quer de mim? Humilhar-me ainda mais. Quer ter mais um motivo para ficar rindo de mim enquanto pensa: Pobre coitado achou mesmo que eu o amava. Darcy tinha toda a revolta em suas palavras, seus olhos agora estavam encharcados pelas lágrimas.
- Essa não sou eu, e você sabe bem disso.
- Então quem é você?... Eu direi quem é Elizabeth Albuquerque... É alguém tão insensível que finge amar alguém só para satisfazer seus caprichos de menina rica e mimada... É alguém que atropela os sentimentos de um homem, brincando com ele... Alguém que fez meu coração sangrar a ponto de me fazer perder a fé nas pessoas e no amor... Esta é a Senhorita de verdade.
- Pare pelo amor de Deus... - Lizzy agora tinha o rosto banhado pelas lágrimas. – Eu sou aquela que tantas vezes foi feliz só pelo fato de ver o seu sorriso... Sou aquela que se entregou a você com amor...
Lizzy em um ato de desespero o abraçou fortemente, ainda chorando, continuou a falar:
- Sou eu, apenas eu. Diga que pode me sentir... Que acredita que meu amor é verdadeiro... Que eu sou real e que isso é real.
Darcy pode sentir o doce cheiro que emanava dos cabelos e pele de Elizabeth. Fechou fortemente os olhos, pois sentia que não mais resistiria tê-la mais uma vez em seus braços o fez por um momento esquecer tudo, quis beijá-la, amá-la mais uma vez... Mas a realidade o puxou de volta, sua cabeça girava cheia de dúvidas e angustia. Tirando as mãos dela de sua cintura, e segurando-as com toda força, sentiu seu coração encher-se de raiva e tristeza, as lágrimas já não mais podia ser contidas.
- O que está pretendendo com tudo isso, me torturar mais?... Eu já estou sofrendo o suficiente. Faz idéia de como me senti naquele maldito jantar? Achei que fosse morrer, eu estou morrendo... Por que fez aquilo? Por que me deixou Lizzy?
- Eu... Eu não posso explicar...  Perdoe-me.
Darcy soltou as mãos delas de uma vez, e se colocando de costas para ela, falou secamente, enquanto enxugava o rosto com a palma das mãos.
- Eu sei o motivo. A minha falta de dinheiro ou posição pesou bastante em sua decisão, a impressão que tive da Senhorita quando a conheci apenas se confirmou. É tão esnobe quanto seu noivo, como meu pai sempre me disse: A água sempre corre para o mar... Eu que fui tolo por acreditar que um dia a Senhorita se casaria comigo, um simples professor, filho de um criado e que nunca terá o dinheiro que o Sr. Braga possui... Muito bem Srta. Albuquerque, eu tenho que lhe agradecer por deixar tão claro para mim, qual meu verdadeiro lugar... Só me resta pedir a Deus todas as noites que apague a Senhorita do meu coração para sempre.
Lizzy não teve tempo para responder. A voz do Sr. Albuquerque ecoou pelo jardim. Rapidamente ela enxugou o rosto, na tentativa desesperada de se recompor, Darcy fez o mesmo. Mas o Sr. Albuquerque pareceu notar que algo estava errado.
- O que está acontecendo aqui? – Perguntou desconfiado.
- É que... É que eu estava contando para a Srta. Albuquerque que não darei mais aulas para ela e sua irmã.
Lizzy mal conseguiu acreditar no que ouvia, ele tinha ido falar com seu pai, para pedir demissão. Então ele estava mesmo disposto a esquecê-la para sempre. Percebendo que seu pai, não estava acreditando naquela estória, resolveu reforçar a mentira.
- Fiquei triste pela notícia meu pai, o Senhor sabe como amo literatura, e realmente será uma pena que o Sr. Darcy não possa mais lecionar para nós.
- Sei... Bem Sr. Darcy, já podemos ir. 
Darcy mal se despediu, cumprimentou-a de forma fria e partiu seguido por um desconfiado Sr. Albuquerque.
Lizzy acompanhou tudo com uma grande tristeza. Resolveu não voltar para casa, em um impulso, decidiu ir até o lugar que outrora foi palco de uma entrega de verdadeiros amantes...
************************************____******************************

O Sr. Albuquerque desceu do carro batendo a porta fortemente. Ao entrar em casa se deparou com Jane e a Sra. Albuquerque sentadas na sala. Sua mulher ao ver que ele estava nervoso tratou logo de saber o que havia acontecido.
- Onde está Lizzy?
- Ela está em seu quarto. O que está acontecendo Senhor meu marido?
- Chame-a. Diga que quero falar com ela no escritório agora.
- Está bem, mas o que houve.
- Eu quero Elizabeth em meu escritório agora.
O som da pesada porta do escritório foi ouvida. Apreensiva, a Sra. Albuquerque foi chamar a filha que estava terminando de se vestir. Relatou tudo para Lizzy, o nervosismo do pai e que este desejava lhe falar.
Lizzy desceu apreensiva. Enquanto descia, ouvia as perguntas da mãe, sobre o que ela tinha aprontado desta vez... Parou em frente à porta do escritório tentando buscar coragem para enfrentar o pai. Será que Darcy havia contado a ele sobre tudo o que aconteceu? Várias perguntas passavam por sua cabeça agora, mas para saber o que realmente havia acontecido precisava entrar.
Ao vê-la, o Sr. Albuquerque, que tinha uma expressão muito aborrecida, não falou nada, apenas indicou uma cadeira próxima a sua. Lizzy sentou e ficou de frente para o pai.
- O Senhor mandou me chamar meu pai?
- Lizzy, sabe que recebi um bilhete do Sr. Farias e tive uma reunião hoje à tarde com ele?
- Não meu pai, eu não sabia.
- O engraçado nisto tudo, é que ele me chamou para me dar as boas novas de que havia conseguido um empréstimo que eu havia solicitado há algum tempo.
- Mas esta é realmente uma notícia maravilhosa meu pai. Assim Pinhal poderá ser salva.
- Eu não terminei Lizzy!
- Desculpe-me.
- Este mesmo empréstimo me foi negado há algumas semanas. E agora milagrosamente, o Sr.Farias me diz que pensou melhor  e convenceu o conselho do banco para que liberassem este empréstimo para mim. Não acha isso estranho Lizzy?
- Não o estou entendendo, papai.
- Ora, vamos lá Lizzy! Sempre a admirei por sua inteligência e astúcia... Um dia após o seu repentino noivado com o neto dele, o empréstimo foi liberado... Acaso isso tem haver com seu noivado minha filha?
- Claro que não papai!... Acaso o Senhor está insinuando que eu me vendi ao Sr. Braga, em troca deste empréstimo? – Ela falou nervosa.
- Eu ficaria muito triste se isso fosse verdade meu anjo. – Agora ele tinha certa melancolia na voz.
- Papai o Sr. Braga não tem conhecimento da nossa situação, posso garantir... E estamos noivos por outros motivos meu pai, acredite em mim.
- Eu não sei mais no que acreditar Lizzy... Sempre ouvi você fazer seus inflamáveis discursos sobre a mulher ter o direito de se casar por amor, e... E só em pensar que minha pequena está se casando por qualquer outro motivo que não seja amor, isso me corta o coração.
- Papai, eu estou feliz... Não se preocupe comigo, estou muito bem... Amo o Sr. Braga.  – Falou sentindo repulsa pelo simples fato de pronunciar essa mentira.
- Eu espero que você realmente esteja feliz minha pequena... Sabe que eu morreria para ver você e sua irmã felizes, não sabe?
- O Senhor não vai precisar morrer para nos ver felizes. Nós já estamos...
Lizzy abraçou o pai fortemente, sentiu um alívio por ter contornado aquela situação. Era evidente que seu pai iria desconfiar dos reais motivos do noivado, mas ela precisava ser firme, pois a felicidade e segurança de sua família estavam em suas mãos.
 

 

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