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Sabor do Amor - Capítulo 5 PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fátima   
Sáb, 05 de Setembro de 2009 22:42

Capítulo V


A família Albuquerque chegou pontualmente. O Sr. Matias e sua família os receberam com cordialidade e alegria. Os convidados foram conduzidos até a sala de música da casa, onde Georgiana estava com sua mãe.

O pequeno grupo de músicos contratados pelos pais do Sr. Matias já tocavam os primeiros acordes, era composto por dois violinistas e um violoncelo, deixando o ambiente agradável e suave.

A Sra. Matias, uma mulher extremamente sofisticada e educada, mas ao mesmo tempo, muito bondosa e humilde em atitudes, ouvia atentamente as sandices da Sra. Albuquerque que falava sem parar, sobre assuntos frívolos, tais como: As roupas da moda e os chapéus do momento.

O Sr. Matias e o Sr. Albuquerque conversavam sobre a já anunciada crise do café, pois era um fato. E ambos estavam preocupados, em especial o Sr. Albuquerque por se encontrar a beira da falência, mas na conversa omitiu este triste fato.

Georgiana, Lizzy, Jane e o Sr. Carlos Matias, estavam conversando em um lugar mais reservado da sala, falavam sobre música e poemas. Georgiana aproveitou a oportunidade para compartilhar as impressões das meninas Albuquerque sobre as aulas de literatura.

- Estão gostando das aulas do Sr. Darcy?

- Muitíssimo Srta. Matias. Confesso que não tenho o dom da leitura como minha irmã, mas depois das aulas passei a ler mais, principalmente os livros de poemas sugeridos pelo Sr. Darcy, ótimos por sinal. – respondeu Jane.

- E a Srta. Elizabeth. Qual sua impressão?

- As aulas realmente são muito boas. Tem sido muito proveitoso para nós Srta. Matias. – Respondeu friamente.

- Por falar em Darcy, ele está atrasado. – Carlos falou olhando em seu relógio de bolso.

- O Sr. Darcy! – Elizabeth falou surpresa, mas depois corrigiu. – Ele virá ao jantar?

- Ele me garantiu que viria. Em um momento tão especial da minha vida eu jamais poderia deixá-lo de fora, afinal somos praticamente irmãos.

- Claro. – Falou completamente envergonhada por sua atitude.

Foi então que todos viraram para a entrada da sala. Darcy adentrou a sala timidamente, em uma visão geral achou tudo muito formal para seus padrões, não que ele não soubesse como se portar, pois isso ele devia ao pai de seu amigo, que lhe dispensou a mesma educação que seus filhos. Mas aquele tipo de ambiente o inibia um pouco, para ele era desconfortável. Carlos foi até o amigo, e com um abraço cordial e caloroso o cumprimentou.

- Darcy que bom que você chegou. Já estava ficando preocupado homem!

- Desculpe-me Carlos, mas tive alguns problemas que me atrasaram. – Mentiu.

- O que importa é que você está aqui. Venha se juntar a nós, eu e as senhoritas estávamos justamente falando das suas aulas.

Darcy consentiu e olhou na direção do grupo. Georgiana e Jane sorriram para ele, enquanto Elizabeth continuou com os olhos para o chão, certamente ela estava querendo evitá-lo. Mesmo contra a sua vontade ele acompanhou Carlos e se juntou ao grupo, após os cumprimentos, Carlos conhecido por seu típico bom humor, resolver gracejar com o amigo.

- William, pelo visto todas as jovens da região se rendem ao seu encanto poético.

- Carlos eu apenas dou minhas aulas profissionalmente, e de certo, elas se encantam pela beleza dos poemas. – Falou envergonhado.

- De certo... De certo caro amigo. Minha irmã está gostando muito das aulas assim como minha noiva e sua irmã. Não é verdade Srta. Elizabeth?

- Claro. O Sr. Darcy é um excelente professor, não posso o mesmo dizer como pessoa, pois não nos conhecemos, não é mesmo Sr. Darcy?

Darcy não teve tempo de responder o comentário sarcástico de Lizzy, pois uma criada entrou anunciando que o jantar estava sendo servido. Todos se dirigiram a mesa, já acomodados, Darcy sentou ao lado do Sr. Albuquerque e de frente para Lizzy.

Durante o jantar Darcy pôde conhecer e conversar bastante com o Sr. Albuquerque, eles simpatizaram-se de imediato. Tudo o que Darcy ouvira falar dele, apenas se confirmava. Conversaram sobre vários assuntos, principalmente sobre a fazenda Pinhal, pois Darcy deixou claro sua admiração pelo lugar.

O Sr. Albuquerque por sua vez achou Darcy extremamente simpático, agradável e inteligente. Como não teve filhos, apesar da cumplicidade com Lizzy, sempre sentiu falta de um filho para conversar coisas de homens, com linguagem de homens.

Lizzy apenas observava o entrosamento de seu pai com Darcy, por vezes se pegava flagrada por ele os observando. Se o seu pai soubesse como ele é orgulhoso e esnobe, não lhe trataria tão bem. – pensou.

Após o jantar, os músicos começaram a tocar uma música, de imediato Carlos convidou Jane para dançar. Outros seguiram seu exemplo, O Sr. Matias chamou sua filha, já que sua esposa estava obrigada a destinar sua atenção para a Sra. Albuquerque. Lizzy que gostava muito de dançar, resolveu convidar seu pai.

- Lizzy querida, sinto-me cansado esta noite. Sabe como é Sr. Darcy, já não tenho idade para essas coisas. - Disse voltando-se para Darcy.

- Imagine Sr. Albuquerque, o Senhor ainda é um homem na altura de suas forças.

- Não tente me iludir meu jovem... – Brincou – Mas, creio que o Senhor poderia dançar com minha filha.

- Papai, não há necessidade!... Não vamos incomodar o Senhor Darcy não é? Eu não morrerei se não dançar.

- Tenho certeza que será um prazer para ele, afinal, qual homem em sã consciência não se orgulharia de dançar com você.

- Não será nenhum incomodo Senhorita.

Darcy falou para por um fim aquela situação. Estendeu seu braço que foi aceito por Lizzy. Ele a conduziu ao salão improvisado, e completamente sem jeito passou sua mão esquerda pela cintura dela, e com sua mão direita segurou firme na mão dela. O toque naquela pele macia o fez estremecer, aquela jovem despertava nele sentimentos e sensações nunca antes sentidas. Mantendo certa distância começaram a dançar.

Lizzy se mantinha com os olhos fixos para o chão, não conseguia encara-lo. Sentiu um arrepio lhe percorrer todo o corpo ao sentir a mão esquerda dele tocando em suas costas. Como alguém que lhe despertava admiração e sentimentos nobres, era um grosseiro e mal educado?

- Não precisava ter se sacrificado ao dançar comigo Sr. Darcy.

- Não foi nenhum sacrifício Srta. Albuquerque, acredite... Na verdade eu estava esperando uma oportunidade para lhe falar.

- Não imagino qual assunto.

- Por favor, Srta. Albuquerque...

- Está bem, mas não creio que aqui seja o melhor lugar para conversarmos.

- Concordo. Mas amanhã na sua casa durante a aula será impossível... Perdoe-me de antemão, mas preciso lhe falar em particular.

Lizzy de inicio reprovou aquele pedido, mas ao encarar aqueles olhos azuis profundos, seu coração sentiu que ela podia confiar nele. Não sabia explicar, mas confiaria sua vida a William Darcy, tinha plena consciência de que o que estava prestes a fazer era arriscado e inapropriado, mas diferente do que faria em situação semelhante, resolveu seguir seu coração. Certificando-se de que ninguém os ouvia, falou baixinho.

- Amanhã... Trinta minutos antes da nossa aula, estarei esperando o Senhor na cachoeira, lá poderemos conversar sem interrupções.

- Obrigado. Eu prometo que serei breve. 

Em um canto da sala, a Sra. Albuquerque os observava e dirigindo-se a sua acompanhante, a Sra. Matias, resolveu investigar mais sobre o professor de suas filhas.

- Sra. Matias, ao que vejo vocês tem o Sr. Darcy em auto-estima.

- Oh! Isso é verdade. Eu e Vicente temos a William como a um filho. Gostávamos muito do seu falecido pai.

- Eu entendo. Mas mesmo formado, ele se dedica a dar aulas, ser um simples professor.

- Depois que ele se formou, conseguiu um bom emprego na capital, mas depois da morte do seu pai, ele se optou, contra a vontade de Vicente, por voltar para tomar o lugar do pai.

- Então ele trabalha na fazenda?

- Sim. Ao lado de Carlos, administra a fazenda. Mas como tem paixão pelos livros, sempre que há tempo vago, dá aulas... William é um homem muito honrado Sra. Albuquerque, mesmo tendo todas as possibilidades que nós oferecemos, ele tem o objetivo de trabalhar e comprar suas terras.

- Realmente admirável... – Falou a Sra. Albuquerque com desdém.

A noite seguiu tranqüila. Lizzy e Darcy depois da dança não mais se falaram, apenas se olhavam vez por outra. Depois de muita diversão, todos voltaram para suas casas.


********************************____**********************************

Lizzy estava ansiosa, a todo instante olhava para a trilha que dava acesso a cachoeira. Maria apenas a observava de longe, pois combinaram que quando o Sr. Darcy chegasse, ela se afastaria deixando os dois à vontade, mas sem se distanciar muito.

A cabeça de Darcy era um turbilhão de pensamentos, se odiava por ter se apaixonado pela bela Srta. Elizabeth Albuquerque, sim ele estava apaixonado, demorara a entender sua reação ao vê-la ao lado do neto do banqueiro, demorou a entender seus sentimentos, mas agora sabia que sentia algo por ela. Mas como sabia, ela era comprometida com ele, e jamais exporia seus sentimentos a ela, pediria desculpas pelo dia anterior e dali em diante se relacionaria apenas como professor-aluna.

Ao avistar a cachoeira, Darcy não conseguiu esconder sua admiração pela beleza do local. Realmente era um lindo lugar, onde a natureza exibia toda a sua exuberância. Sentada em uma pedra próxima a água, estava Elizabeth, ela estava linda, em um vestido azul que combinava perfeitamente com o azul da água, seus longos cabelos castanhos lhe caindo pelas costas sob um chapéu branco lhe davam o aspecto de uma deusa, uma deusa das águas. Completamente fascinado por aquela visão, nem percebeu quando ela virou-se para vê-lo.

- Desculpe se a assustei Senhorita, não foi minha intenção.

- Eu é que estava distraída.

- Mas uma vez, peço que me perdoe por fazê-la passar por esta situação, como disse, serei breve.

- Pode falar Sr. Darcy, aqui ninguém irá nos incomodar.

- Um lindo lugar por sinal, eu estou encantado.

- É meu lugar favorito de Pinhal, venho aqui desde menina.

- Srta. Albuquerque... Eu quero que me desculpe pela forma como agi ontem. Sei que fui grosseiro e orgulhoso.

- Sr. Darcy...

- Eu preciso lhe dizer isso Senhorita... As suas palavras me abriram os olhos para minhas atitudes. Quero que saiba que não sou o que transpareci ontem, é que sentimentos maiores me fizeram agir de tal forma.

- Sentimentos?

- É... Quero que me desculpe, por favor. – Darcy falou percebendo o deslize que acabara de cometer.

- Sr. Darcy, eu confesso que fiz um mau juízo do Senhor ontem, achei que tinha me enganado com sua pessoa, mas não guardo mágoa, afinal eu também tenho culpa, deveria ter me imposto diante da atitude do Sr. Braga e não o fiz.

- Eu a entendo. A Srta.  Não poderia ir de encontro ao seu noivo, estava apenas tentando justificar sua atitude e...

- Como disse? – Lizzy perguntou surpresa.

- Falei algo que a feriu? – Darcy perguntou preocupado.

- Acha que eu e o Sr. Braga temos algum compromisso?

- Perdoe-me, mas foi o que me pareceu.

- Está enganado Sr. Darcy. O Sr. Braga e eu somos apenas conhecidos.

- É que eu pensei... E não há nenhuma possibilidade de um compromisso? – Perguntou olhando fixamente nos belos olhos negros dela, com o coração cheio de esperanças, mas percebendo que mais uma vez havia se entregado, falou. – Desculpe, não tenho direito de lhe perguntar isso.

Lizzy sentiu que já não mais controlava sua respiração, parecia não sentir suas pernas. Aqueles olhos tinham o dom de fazê-la se perder. Percebendo o constrangimento dele, lhe lançou um sorriso encorajador e falou timidamente.

- Não... Não há nenhuma possibilidade Sr. Darcy. Jamais me comprometeria com um homem sem amá-lo e ainda nutrindo sentimentos por outra pessoa. 

Darcy sentiu uma grande alegria lhe invadir. Retribuiu-lhe o mesmo sorriso e quando estava prestes a se declarar, foi interrompido por Maria, que viera chamar Lizzy para irem, pois já estava na hora da aula.

Lizzy fez uma reverência e sorrindo se despediu dele. Darcy ficou observando ela se afastar. Estava feliz, apesar dela não ter lhe dado esperanças claras de que lhe correspondia, sentiu-se aliviado pelo fato dela não estar comprometida com Jorge Braga. Seu alivio e alegria, eram tão grandes, que ele teve vontade de mergulhar naquelas águas convidativas, mas recompondo-se, lembrou que ainda precisava dar suas aulas. Sorrindo, pegou sua bolsa e seguiu na direção da casa dos Albuquerque.

************************************____******************************

Lizzy adentrou a sala completamente corada devido à caminhada apressada para chegar à casa a tempo. Jane e a Sra. Albuquerque estavam na sala e ao vê-la, estranharam seu estado, completamente cansada. Jane ficou apenas a observando enquanto sua mãe a repreendeu.

- Onde estavas Lizzy? Já está quase na hora da sua aula. 

- Eu... Eu estava caminhando um pouco mamãe, o dia está lindo e convidativo a um passeio.

- Você e sua mania de viver andando por aí. Minha querida, assim você jamais encontrará um marido. A menos que cometa o desatino de se interessar por um dos trabalhadores do seu pai... Por Deus! Lizzy você tem juízo de fazer uma coisa dessas comigo, seria minha morte.

- Mamãe! Eu apenas fui dar um passeio. E se eu me interessasse por um dos empregados da fazenda, acaso a Senhora me viraria as costas?

- Isso é algum tipo de brincadeira Elizabeth Albuquerque? Não repita isso nunca mais. O que, quer ver a desgraça da nossa família?

- Mamãe, ela estava apenas brincando não é mesmo Lizzy?

- Vou até o meu quarto me recompor antes que o Sr. Darcy chegue. – Falou sem responder, em seguida subindo para o seu quarto.

- Essa menina ainda vai me matar Jane! O que farei sem você aqui minha querida Jane?  

- Mamãe a Senhora sabe como Lizzy gosta de brincar. Não é Senhora mesmo quem diz que ela tem o humor o papai? Então, acalme-se. Jane falou na tentativa de evitar o chilique que sua mãe certamente faria.

Após uns quinze minutos Lizzy desceu. Chegando a biblioteca encontrou Jane e Darcy conversando. Entrou e cumprimentou Darcy polidamente, se esforçando para não deixar transparecer que já haviam se visto antes.

A aula transcorreu normalmente, enquanto Jane e Lizzy liam alguns poemas que Darcy trouxera, ele sentou em uma cadeira distante delas e começou a escrever algo, o que deixou Lizzy muito curiosa. Ao final da aula, ele decidiu fazer algo.

- Se as Senhoritas me permitem, sei que prometi ler um trecho da obra de Shakespeare, mas devido a algo que ouvi esta manhã no caminho para cá, resolvi declamar um poema belíssimo do poeta brasileiro Álvaro Azevedo, posso?

- Claro Sr. Darcy. – Jane respondeu.

Então olhando fixamente nos olhos de Lizzy, porem vez por outra, olhando também para Jane para disfarçar, Darcy começou a declamar o poema Como se ama o calor e a luz querida.
[i] Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:
Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! Nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas. [/i]

Quando terminou, em seus olhos a emoção transparecia. Encoberto pelo poema, Darcy declarou todo o seu sentimento por Elizabeth. Sempre fora um homem contido e reservado, principalmente no que dizia respeito aos seus sentimentos, mas com Elizabeth Albuquerque ele sentia-se diferente, como se fosse um adolescente descobrindo o primeiro amor.

Lizzy completamente emocionada por ouvir tão belas palavras saindo da boca daquele homem que atormentava seus sentimentos e pensamentos. Seu coração estava descompassado, sentiu que corara.

- Esplendido Sr. Darcy! – Falou Jane entusiasmada, arrancando os dois daquele momento mágico.

- Obrigada Srta. Albuquerque. – Falou tentando se recompor.

- O poema já é lindo, e ficou ainda mais belo com os sentimentos que o Senhor colocou na declamação. Realmente lindo, não é mesmo Lizzy?

- Si... Sim, realmente belíssimo Sr. Darcy.

- Neste poema eu afirmo que o autor se declarava a um grande amor. E para declamá-lo com tal paixão, tem-se que está igualmente apaixonado. – Observou Jane.
 
Darcy e Lizzy ficaram completamente envergonhados diante do comentário de Jane. Pois estava claro para ambos que havia um forte sentimento se formando entre eles, faltava apenas uma palavra, algo que os aproximasse.

Darcy comunicou que estava de partida. Jane se ofereceu para acompanhá-lo, Lizzy desta vez não se opôs, pois devido às emoções de todo o dia, sentia que não dominava seus sentimentos, preferiu ficar na biblioteca.

Darcy foi até ela e olhando em seus olhos, com as mãos trêmulas, pegou em a mão dela em seguida beijou-a, enquanto discretamente entregava-lhe um pequeno bilhete. O que deixou Elizabeth muito surpresa, mas se contendo apenas o cumprimentou. Após a saída deles, ainda surpresa, Lizzy correu até a janela da biblioteca que ficava de frente para a entrada da casa, viu sua irmã se despedindo dele, e como se ele tivesse notado que estava sendo observado, olhou para a janela, e ao vê-la lançou-lhe um grande sorriso, apesar de ter sido flagrada, Lizzy retribuiu sorriso, enquanto segurava o pequeno bilhete contra o peito.

Lizzy saiu da biblioteca em direção ao seu quarto, passou por Jane apressadamente, nem ouvindo o que esta estava a lhe falar. Fechou a porta do quarto, foi até sua cama e com o coração acelerado, a respiração ofegante, com as mãos tremulas, começou a abrir o papel. Primeiro olhou a beleza da letra, em seguida conseguiu sentir o cheiro dele, o mesmo cheiro que ela sentiu quando ficaram próximos. Não mais se contendo de curiosidade, começou a ler o bilhete...

[i] Srta. Albuquerque,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta
De noite cantando, — mais doce que a frauta
Quebrando a solidão,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travessos; — causando tormento,
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! Sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto umedece
Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquilo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
Às vezes do céu
Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se veste
De pranto co'um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.
Espero que goste deste poema do escritor brasileiro Gonçalves Dias, pois ele exprime como me sinto...
William Darcy. [/i]
Lizzy já não mais segurava as lágrimas, que banhavam todo o seu rosto, cessando em seu sorriso. Aquela era a mais linda declaração de amor que recebera. Então ele também compartilhava do mesmo sentimento que ela. Trouxe o papel até o peito e o abraçou com força, jogando-se na cama, sentindo uma alegria que lhe inundava a alma.


Darcy caminhava sem pressa, apenas contemplando a beleza estonteante da paisagem. Um misto de sentimento tomava conta de seu ser, receio por ter entregado o bilhete a ela, afinal ela não havia confessado claramente nenhum sentimento por ele, mas algo em seu coração falava mais alto, a esperança de ser correspondido em seus sentimentos, e isso o deixava feliz. Nada tinha a fazer, a não ser esperar até a próxima aula, que seria na semana seguinte.
 

 






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