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Podem existir sintomas mais otimistas? Não é a desatenção que nos rodeia a própria essência do amor? (Jane Austen)

Sabor do Amor - Capítulo 4

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Capítulo IV

O sol mal havia surgido, os seus raios ainda despontavam tímidos ao alvorecer, Lizzy já caminhava por entre o pequeno bosque da fazenda, na verdade mal conseguiu dormir, estava realmente preocupada e apreensiva com a situação de sua família.

Caminhar era um exercício que lhe fazia muito bem, sempre que estava triste, angustiada, caminhava para esquecer os problemas. Quando se deu conta que todos na casa já deviam estar acordados, resolveu voltar e ouvir os imensos sermões da Sra. Albuquerque por causas dessas caminhadas matinais.

Entrou em casa e foi direto para a sala de jantar. Ao vê-la, sua mãe logo começou reclamar, para evitar as mesmas discussões, Lizzy resolveu não responder ou se justificar. E se acomodou em uma cadeira próxima a Jane se servindo de seu café.

- Senhor meu marido, a culpa disso é toda sua. – resmungou a Sra. Albuquerque.

- Mas do que estou sendo acusado agora?

- Se não tivesse criado Lizzy como um homem não estaríamos tendo essas discussões. Onde já se viu? Essa menina vive no meio do cafezal como se fosse um trabalhador da fazenda, monta vestida com calças e ajuda você nas contas da fazenda. Meus nervos ainda vão explodir.

- Minha querida, Lizzy é bem feminina. O que posso fazer se ela sempre se interessou pelas coisas da fazenda? O que queria filhas com cérebro, mas que não usam? – Falou fazendo Jane e Lizzy rirem.

- Francamente! Tal pai, tal filha. Ainda bem que Jane é mais parecida comigo.

- Sinto muito por isso Jane. – Brincou o Sr. Albuquerque.

- Joaquim! Essa conversa já rendeu muito. Vamos Jane termine logo seu café, não podemos chegar tarde para a escolha da renda do seu vestido. Sabe que Madame Juliet não gosta de atrasos.

- Jane e nossa aula? O Sr. Darcy chegará logo.

- Sinto muito Lizzy. Já havíamos marcado uma hora com Madame Juliet, e eu esqueci completamente.

- E Lizzy ficará sozinha com o professor? – quis saber o Sr. Albuquerque.

- Lizzy peça a Maria para lhe fazer companhia. – Ponderou Jane.

- De maneira alguma, Maria irá conosco. Cancele a aula de hoje Lizzy.

- Não!... Mamãe o Sr. Darcy vem de tão longe, e seria uma desfeita fazê-lo perder a viagem. Podemos ter nossa aula no jardim, o dia está agradável e assim seremos vistos pelos criados. O que acha papai?

- Faça como quiser meu anjo. Eu também vou sair, preciso ir até a cidade, tenho uma reunião com o Sr. Farias.

- Ultimamente tem se reunido com freqüência com o banqueiro Senhor meu marido. Algum problema financeiro? Oh! Não pode ser logo agora que temos o casamento de nossa querida Jane pela frente.

- Acalme-se mulher. Pode continuar gastando o nosso dinheiro já que isso lhe faz tanto bem. São apenas negócios de rotina. Se quiserem ir de carro comigo, é melhor se apressarem, já estou atrasado.

Lizzy olhou para o seu pai, que lhe lançou um olhar cúmplice, diante disso ela apenas baixou a cabeça e viu todos partirem. Ela se sentia péssima por ver o pai com tantos problemas, mas fazendo um grande esforço em prol da felicidade de Jane. Perdeu completamente o apetite, foi até seu quarto, pegou um livro e desceu para o jardim, lá ficou a espera do professor.

Lizzy sentou em uma das cadeiras que ficavam em uma parte coberta do jardim. Não sabia explicar, mas estava ansiosa pela aula, a paixão com a qual o Sr. Darcy declamou aquele poema a fez se encantar ainda mais pela literatura, pelos poemas.

Ao longe o avistou. Como sempre a simplicidade de suas vestes, não lhe tirava a postura imponente. Os cabelos estavam desalinhados devido ao vento forte da região. Em poucos minutos ele já estava no jardim.

- Bom dia Srta. Elizabeth.

- Bom dia Sr. Darcy. Gostaria de lhe informar que minha irmã teve um compromisso importante, em relação aos preparativos do casamento.

- Ah! Entendo. Então presumo que devo voltar amanhã.

- Pensei que poderia dar aula a mim. – Lizzy falou timidamente.

- Se assim desejar Senhorita, ficarei muito feliz.

- Ótimo, podemos ficar aqui no jardim. O dia está lindo e é mais apropriado, já que estou sozinha em casa.

- Certamente.

Darcy lhe lançou um sorriso e sentou em uma cadeira próxima a ela. Enquanto retirava seu material da bolsa, notou que ela estava com um livro em suas mãos. Reconheceu de imediato como sendo o famoso livro do escritor inglês William Shakespeare, Romeu e Julieta.

- Está gostando do livro Srta. Albuquerque?

- Como?

- Percebi que está lendo Romeu e Julieta, está gostando?

- Muito. Este autor é fabuloso.

- Sim. Shakespeare escreve sobre o amor como ninguém. E está sua obra-prima é sem dúvida uma das mais belas estórias de amor já escrita. Apesar dos obstáculos enfrentados por eles.

- Sr. Darcy, sou da opinião que quando queremos algo de todo o nosso coração, nós devemos lutar até o fim, independente dos obstáculos. 

- Eu concordo com a Senhorita. Eles são personagens muito fortes, com atitudes firmes e apaixonadas.

- Pena que amor assim, capaz de enfrentar tudo só existe nos livros.

- Não acredita que as pessoas possam lutar por um amor verdadeiro Srta. Albuquerque? – Darcy fez uma pausa, em seguida olhando fixamente nos olhos de Lizzy continuou. – Se eu estivesse no lugar do Romeu, completamente apaixonado e igualmente correspondido, faria igualmente, independente de quaisquer oposições.

Elizabeth enrubesceu completamente, aqueles olhos azuis profundos tinham o dom de fazê-la perder as palavras. Estavam envoltos naquele momento estático, quando ao longe ouviram um grito desesperado. Viraram-se na direção dos gritos, só então Lizzy reconheceu o pequeno Moisés, filho de um casal que trabalhava no cafezal da família.

- Senhorinha Lizzy!

- O que houve Moisés?

- Minha mãe está passando mal, a Senhorinha tem que ajudar.

- Acalme-se Moisés. Onde está seu pai?

- Ele foi à cidade com o patrão.

- Está bem. Onde ela está?

- Está lá em casa. Ela mandou pedir ajuda.

- Vamos lá agora mesmo. – Lizzy falou enquanto saia apressada, sem lembrar-se do Sr. Darcy.

- Srta. Albuquerque posso acompanhá-la?

- Não precisa se incomodar Sr. Darcy.

- Não é incomodo algum, faço questão. Por favor.

Lizzy assentiu e eles seguiram rapidamente até a charrete, pois a casa dos Silva ficava na vila dos trabalhadores, distante da casa grande. Darcy subiu o pequeno Moisés na charrete e delicadamente segurou a mão de Lizzy ajudando-a a subir, em seguida subiu e começou a guiar a charrete, orientado por Lizzy.

Quando finalmente chegaram, Moisés desceu correndo e entrou apressado em casa seguido por Lizzy e Darcy. Lá encontraram a Senhora Antônia, a mãe do menino, deitada na cama, com uma fisionomia carregada de dor.

Lizzy correu em sua direção, tocou na testa dela medindo sua temperatura, em seguida pediu para que Darcy pegasse um copo de água para aquela mulher. Darcy completamente atrapalhado, foi até a cozinha, procurou e depois de alguns minutos entrou no quarto com a água. Lizzy agradeceu e deu a Antônia. Depois de passados alguns minutos, a mulher já se sentia melhor, então Lizzy pode conversar com ela.

- Sente-se melhor Antônia?

- Estou sim Senhorita. Sinto muito por meu filho tê-la incomodado com isso, mas ele ficou assustado e foi buscar ajuda. Queira me desculpar.

- Antônia você não tem que se desculpar por nada. Moisés fez muito bem em me avisar. Hoje mesmo falarei com meu pai, e amanhã um médico virá lhe examinar.

- Não precisa Senhorita, estou bem melhor.

- Claro que não está. Há quanto tempo vem sentindo essas dores?

- Há algumas semanas.

- Então está decidido, o médico virá o mais rápido possível.

- Obrigada. A Senhorita é um anjo.

- Não sou anjo Antônia, apenas ajudo da melhor maneira. Agora descanse e não faça esforços. Mais tarde mandarei alguém aqui para lhe ajudar. Cuide-se.

- Muito obrigada. Ah! E ao Senhor também moço, lhe sou muito agradecida.

- Imagine senhora, não fiz nada. Siga os conselhos da Srta. Albuquerque e cuide-se e cuide também desse garotão aqui.

Darcy afagou os cabelos de Moisés que estava sentado ao seu lado. Eles se despediram dos dois e seguiram em direção a charrete. Darcy mais uma vez a ajudou a subir, sorrindo Lizzy lhe agradeceu. Em seguida ele subiu e devagar seguiu o caminho de volta a casa grande. Enquanto voltavam Elizabeth sentiu a necessidade de agradecer.

- Sr. Darcy. Quero lhe agradecer por ter me acompanhado.

- Eu quem agradeço, por ter me deixado acompanhá-la Senhorita. Espero ter ajudado.

- Ajudou muito.

- Senhorita Albuquerque, me permite dizer algo?

- Sim.

- Fiquei feliz e surpreso ao ver como tratou aquela mulher.

- E por que a surpresa Sr. Darcy? Como eu deveria tê-la tratado?

- Perdoe-me se estou sendo inoportuno. Mas uma moça na sua posição dificilmente ajudaria uma camponesa igual à Senhorita fez.

- O Senhor acaso reprova minha atitude?

- Em absoluto. Ao contrário, minha admiração pela Senhorita só aumentou. – Darcy falou sem pensar, e ao se dar conta do que falara, tentou contornar a situação. -... Quero dizer isso mostra quão nobre e bondosa a Senhorita é, e isto é admirável.

- É uma pena que não tivemos nossa aula hoje. – Lizzy falou, na tentativa de mudar de assunto.

- De fato.

Um silêncio tomou conta dos dois, que constrangidos olhavam para a paisagem enquanto se aproximavam da casa. Então Darcy resolveu quebrar o silêncio.

- Está fazenda é muito bonita Srta. Albuquerque.

- Pinhal é realmente linda. Aqui temos paisagens maravilhosas. O Senhor precisa conhecer.

- Adoraria. Amo a natureza, o cheiro da terra.

- Eu também. Não consigo imaginar minha vida longe de tudo isso.

- Seus olhos brilham ao falar deste lugar. Realmente deve ser muito especial para Senhorita.

- Faria qualquer coisa para manter este lugar Sr. Darcy. Além de ser o lar de minha família, é o lar de muitas pessoas que trabalham para nós.

- Pelo que ouvi, seu pai é um ótimo patrão. Trata todos com respeito e igualdade, e pelo que percebi na Senhorita hoje, confirmo o que ouvi.

- Realmente, meu pai é muito querido e respeitado por todos que trabalham na fazenda.

- Ainda não o conheço, mas já o admiro... Bem chegamos.

Darcy parou a charrete, desceu e dando a volta foi ajudar Elizabeth a descer.

Elizabeth começou a descer devagar, mas deu um passo em falso e escorregou. Em um reflexo Darcy a segurou pela cintura, de maneira que seus corpos ficaram colados, seus rostos ficaram perigosamente próximos. Darcy sentiu o cheiro que exalava dos cabelos de Elizabeth. Esta por sua vez se deixava envolver por aqueles olhos fascinantes e lábios convidativos. Percebendo a loucura que estava prestes a cometer, Darcy se afastou completamente desconsertado. Não sabia o que falar naquele momento, faltavam palavras para ambos, constrangidos mal conseguiam se olhar.

O barulho de um carro chamou a atenção de ambos. O carro parou próximo a eles, então Jorge Braga desceu e se pôs ao lado de Elizabeth beijando-lhe a mão.

- Senhorita Albuquerque, que prazer revê-la.

- Igualmente Sr. Braga. – Lizzy falou sem jeito.

- Rapaz, tire esta charrete da frente da casa, quase não consigo estacionar meu carro. Não se fazem empregados como antigamente. – Jorge falou voltando-se para Darcy.

- Sr. Braga, este é o Sr. Darcy, nosso professor de Literatura. – Lizzy veio em socorro de Darcy, que estava visivelmente contrariado.

- Oh! Queira me desculpar. É que como não conheço os criados da fazenda, o confundi com um. – Falou olhando para as roupas de Darcy.

Darcy não respondeu, e muito menos olhou para Jorge. Olhou para Lizzy, e com o olhar carregado de raiva, falou secamente.

- Se me permitem, devo ir agora. Amanhã voltarei para nossa aula Srta. Albuquerque.

- Senhor Darcy espere!... Não deseja beber algo? Um suco talvez?

- Não se incomode comigo Senhorita, meu trabalho por hoje terminou, volto amanhã.

- Senhorita Albuquerque, eu aceito com prazer o suco. Vamos?

Jorge falou, dando-lhe o braço. Lizzy aceitou a contragosto, então seguiram em direção a casa, ela lançou um ultimo olhar para Darcy, mas ele se manteve de costas recolhendo suas coisas.

Darcy estava irritado, uma raiva tomou conta dele. Como uma moça tão doce, simples e delicada, poderia se comprometer com um homem esnobe como aquele? Talvez ela fosse igual a ele. Sentiu seu rosto queimar de tanta raiva, deixou sua bolsa cair no chão, quando baixou para pegar, viu um lenço branco com bordados de flores no chão. Pegou e então viu que havia algo escrito nele, então leu: [i] Elizabeth Albuquerque [/i]. Certamente havia caído quando ela escorregou da charrete. Trouxe o lenço para perto do seu rosto, e então o cheirou, sentiu o doce perfume de Elizabeth, pensou em devolver, mas desistiu. Guardou em seu bolso e partiu.

 Elizabeth conduziu o Sr. Braga para o jardim, alegando o fato de estar sozinha em casa. Pediu à criada que trouxesse um suco para os dois, e em seguida se juntou a ele. Ficaram um tempo em silêncio, saboreando o lanche que foi servido. Jorge estranhou aquele silêncio e teve a certeza de que algo estava acontecendo, resolveu investigar.

- Srta. Albuquerque aprecio sua boa conversa, mas este silêncio me dá a entender de que há algo errado.

- Impressão sua Sr. Braga.

- Por favor, me chame de Jorge, afinal estamos nos dando tão bem que podemos dispensar a formalidade.

- Eu não me sentiria a vontade Senhor, afinal nos conhecemos há alguns dias.

- Mas sinto como se nos conhecêssemos há muito tempo, temos tanto em comum.

- Oh! Acha mesmo Sr. Braga? – Lizzy falou com certa ironia.

- Está gostando das aulas de literatura?

- Muito. O Sr. Darcy é um excelente professor.

- Deve ser. Mas acho que o Senhor seu pai não deveria tê-la deixado sozinha com esse talzinho.

- Sr. Braga, não entendo onde está querendo chegar.

- Como não Srta. Albuquerque. Quero dizer que extremamente inapropriado uma moça ficar sozinha com um cavalheiro na ausência do pai, principalmente esse tipo de gente, sem posses, berço ou qualquer tipo de educação.

- Então seria melhor o Senhor partir. Sim, porque afinal de contas estamos a sós também, e como o Senhor mesmo falou, é extremamente inapropriado.

Elizabeth falou completamente indignada enquanto de colocava de pé. Jorge Braga ficou visivelmente desconsertado com a atitude dela, mas, apenas se limitou a levantar e falar:

- A Senhorita está coberta de razão. Perdoe-me o infortúnio, voltarei em outra oportunidade, pois espero vê-la em breve. Passar bem Senhorita Albuquerque. – Falou beijando-lhe a mão.

- Adeus Sr. Braga.

Jorge fez uma reverência com a cabeça e seguiu em direção ao carro, já dentro do automóvel, acenou com a mão e partiu.

Elizabeth ficou apenas observando a partida de Jorge Braga. Agradeceu aos céus por ter se livrado de companhia tão odiosa. Sua família sempre possuiu fortuna e prestigio, mas ela nunca conseguiu aceitar que o dinheiro tornasse as pessoas tão esnobes.

Lembrou-se do olhar duro do Sr. Darcy ao partir. Odiou-se por sua atitude, como pôde ser tão fraca e deixar que o Sr. Braga o humilhasse daquela maneira. Certamente ele estava com muita raiva dela. Por um instante pensou: Mas por que a opinião do Sr. Darcy em relação a ela a importava tanto? Afinal a relação deles era apenas professor-aluno. Mesmo assim, se sentiu no direito de se desculpar com ele pela grosseria do Sr. Braga.


********************************____**********************************

Darcy chegou à entrada da fazenda de Carlos completamente irritado. Lembrou da atitude bondosa de Elizabeth para com aquela pobre mulher, e pensou como uma jovem capaz de tamanha bondade poderia se relacionar com alguém tão esnobe como aquele Senhor, pensou: O que esperava Darcy, eles são do mesmo circulo social, certamente devem ser iguais. Estava tão envolto em seus pensamentos que nem viu seu amigo Carlos se aproximar.

- William onde estás com o pensamento homem?

- Carlos! Desculpe não o vi se aproximar.

- Deveras que não viu. Veio da casa dos Albuquerque?

- Sim.

- Estou indo até lá, pois amanhã teremos um jantar aqui em casa. Será apenas para poucos convidados, apenas nossas famílias, e fazemos questão da sua presença.

- Eu acho que não poderei ir.

- William eu não aceito uma resposta negativa.

- Mas Carlos, eu não sou da família...

- Este é o momento mais importante da minha vida. Estou prestes a me casar com a mulher que amo, e quero meu melhor amigo ao meu lado, mais que meu melhor amigo, o irmão que eu não tive. E papai se ofenderá se você não for.

- Está bem Carlos, me convenceu, estarei lá.

- Ótimo. Agora preciso me apressar, pois vou almoçar com eles.

*********************************___**********************************

Lizzy passou todo o dia triste, sem ânimo. Foi com muita alegria que recebeu seu futuro cunhado, pois ela não poderia deixar sua frustração pelo ocorrido transparecer. Durante o almoço Carlos e os Albuquerques acertaram os últimos detalhes do jantar que seria oferecido na casa do Sr. Matias, por se tratar de um jantar mais íntimo, seria apenas para a família dos noivos.

Assim o dia se passou. Jane, Lizzy e a Sra. Albuquerque resolvendo algumas providências para o casamento, enquanto o Sr. Albuquerque, como fazia a algum tempo, trancado na biblioteca.

No dia seguinte, Lizzy foi a primeira a acordar, tomou seu café na cozinha, estava muito ansiosa. As horas se arrastavam, pegou o livro que estava lendo e foi para a sala de estar, porem não conseguiu se concentrar, ela precisava se desculpar com o Sr. Darcy, afinal ela não o defendeu como deveria.

Quando finalmente conseguiu se concentrar em sua leitura, Jane foi até seu quarto, pois o professor já estava esperando-as na biblioteca. Lizzy sentiu seu coração acelerar, tentou controlar sua respiração e seu nervosismo.

Ao chegar à biblioteca viu o Sr. Darcy sentado em uma poltrona, ao vê-la, ele se limitou a uma reverência com a cabeça, em seguida baixando seus olhos para o livro que tinha nas mãos, deixando claro que estava magoado.

A aula seguiu com certo clima de desconforto, mas para alívio de ambos, Jane não percebeu nada. Darcy falou um pouco sobre o famoso escritor William Shakespeare, e seus poemas famosos. Ao final da aula, como sempre fazia, ele recitou um trecho de um poema de Shakespeare.

[i] Eu aprendi...
...que ignorar os fatos não os altera;

Eu aprendi...
...que quando você planeja se nivelar com alguém, apenas esta permitindo que essa pessoa continue a magoar você;

Eu aprendi...
...que o AMOR, e não o TEMPO, é que cura todas as feridas;

Eu aprendi...
...que ninguém é perfeito até que você se apaixone por essa pessoa;

Eu aprendi...
...que a vida é dura, mas eu sou mais ainda;

Eu aprendi...
...que as oportunidades nunca são perdidas; alguém vai aproveitar as que você perdeu.

Eu aprendi...
...que quando o ancoradouro se torna amargo à felicidade vai aportar em outro lugar;

Eu aprendi...
...que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito;

Eu aprendi...
...que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorrem quando você esta a escalando

Eu aprendi...
...que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer.
(Boa noite, Amor) [/i].

Quando ele terminou de declamar o poema, inconscientemente, ele estava olhando fixamente nos olhos de Lizzy, como se cada palavra do poema, fosse direcionado a ela. Alheia ao que estava acontecendo, Jane falou:

- Que belo poema Sr. Darcy.

- Realmente Srta. Albuquerque, um belo poema de fato. Shakespeare neste poema, a meu ver quis dizer a alguém que ele é mais do que pensam talvez alguém o tenha destratado ou até mesmo lhe tratado com preconceito... – Ele falou olhando para Lizzy, que nada falo então ele continuou. - Acho que por hoje é só, devo ir.

- Eu o acompanho Sr. Darcy. – Jane se ofereceu.

- Eu o acompanho Jane! – Lizzy falou de repente, mas percebendo a surpresa de Jane, tratou em completar... - É que vou até o estábulo dar uma olhada no alazão, aproveito e acompanho o Sr. Darcy.

- Está bem Lizzy. Então, até a próxima aula Sr. Darcy.

Darcy retribuiu com um sorriso, e como de praxe deu passagem para que Lizzy fosse à frente acompanhando-a em seguida.

Quando já estavam fora da casa, Darcy fez uma reverência e fez menção de partir, mas para sua surpresa Lizzy o interrompeu.

- Sr. Darcy! Gostaria de lhe falar por um momento.

- Sim.

- Poderia me acompanhar até o jardim, é que quero que tenhamos privacidade.

- É que já estou atrasado e...

- Por favor!

- Está bem.

Começaram a caminhar lado-a-lado, e mais uma vez percebendo o silêncio dele, Lizzy começou o diálogo, que vinha ensaiando durante algum tempo.

- Sr. Darcy, quero pedir desculpas ao Senhor pela grosseria do Sr. Braga ontem.

- Não precisa se incomodar Srta. Albuquerque. – Falou secamente.

- Mas eu quero. Sei que ele foi completamente desagradável e preconceituoso, e quero que, por favor, me desculpe.

- Eu não tenho o que desculpá-la Senhorita. Ele apenas achou que pelo fato de eu ser pobre e vestido de maneira simples, seria apenas um criado. O que ele não se enganou, pois de fato sou um empregado de seu pai. No que ele me desrespeitou? Ele me fez um favor de me dizer qual o meu lugar.

- Por favor, não fale assim...

- Essa conversa não tem fundamento Senhorita. Eu não posso me dar o luxo de me zangar por ouvir a verdade. Se for só isso, preciso ir agora, tenho outra aula agora.

- Se não ficou zangado, por que mal me dirigiu a palavra lá dentro? Declamou aquele poema? E por que está me tratando desta forma, tão grosseira?

- Perdoe-me Senhorita se a destratei, não foi intencional. Peço que, por favor, não leve em consideração a minha falta de educação, é que venho de uma família pobre e sem educação. – Suas palavras estavam carregadas de rancor e ironia.

- Ser pobre Sr. Darcy não é nenhum defeito, mas certamente o orgulho, é um defeito que trai qualquer ser humano, tornando-o igual aos que lhe ofendem. Achei ter conhecido um cavalheiro ontem, mas hoje estou diante de alguém tão esnobe quanto o Sr. Braga... Adeus!

Lizzy deu-lhe as costas e saiu, quase correndo, deixando um Darcy completamente sem palavras, cabisbaixo e envergonhado de sua atitude.

*************************************___******************************

Já estava quase na hora do jantar na casa dos Matias, Lizzy segurava o belo pingente que escolhera para aquela ocasião, olhava sua imagem no espelho, mas precisamente dentro dos seus olhos, lembrando de tudo o que acontecera desde o dia anterior. Estava decepcionada, o Sr. Darcy havia se mostrado um homem bom, prestativo, divertido, agradável, no episódio do socorro a Antônia, mas pela manhã, parecia ser outro homem, um homem orgulhoso, preconceituoso, rancoroso e pior, muito teimoso.

Deu um longo suspiro, na tentativa de esquecer tudo aquilo, principalmente a discussão de logo cedo. Passando a escova pelos cabelos, terminou de se arrumar.  Ciente de seu atraso, já estava prestes a descer quando Jane entrou em seu quarto.

- Lizzy, mamãe já está com os nervos à flor da pele... Nossa! Você está maravilhosa Lizzy.

- Não exagere Jane, estou normal.

- Seus olhos estão tristes, não perguntarei o motivo, mas você está muito linda Lizzy.

- Eu te amo Jane!

- Eu sei, todos me amam... – Brincou arrancando um tímido sorriso de Lizzy. Eu também te amo minha irmã.

- Vamos descer antes que mamãe venha nos buscar.

- Vamos... Lizzy, acaso notou que o Sr. Darcy estava estranho hoje?

- Na... Não Jane, eu não percebi nada, impressão sua.

- Ele estava diferente sim, mais calado. Parecia irritado não sei, e o poema que ele declamou, é lindo, mas parecia que ele estava desabafando algo com aquele poema, não acha?

- Jane eu não acho nada. E vamos logo, pois a casa do Sr. Matias é um pouco longe, e será uma desfeita se chegarmos atrasadas.

- Está bem vamos, mas que ele estava estranho, isso estava.

***************************************____***************************

Darcy deu uma ultima engraxada nos sapatos, ajeitou a gravata e finalmente se olhou no espelho. Não era vaidoso, mas tinha que admitir estava muito elegante. Sua vontade era não comparecer ao jantar, pois não queria encontrar com Elizabeth Albuquerque e pior com Jorge Braga, que como noivo dela, certamente estaria presente. Olhou para sua mesa de cabeceira e viu o lenço, ficou um tempo olhando-o, então lembrou daqueles lindos olhos negros, aquele sorriso encantador e a bondade e simplicidade explicita em seu olhar. Precisava tirá-la da cabeça, tinha que não pensar nela, mas como convencer seu coração disso? Sentia algo por ela, algo muito forte, então resolveu que mesmo se não pudesse tê-la, tentaria ao menos manter a cordialidade. Decidiu que na primeira oportunidade pediria desculpas a ela.

 

 

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