Capítulo III
- Lizzy! Acorde.
- Maria! O que foi?
- Não acredito que se esqueceu da aula de literatura! Lizzy, você já está atrasada. Sua irmã e o professor já estão no escritório do padrinho só esperando por você.
- Eu não acredito! Maria, eu dormi demais. Anda, ajude-me a me arrumar, por favor. Jane deve estar muito brava.
- Nunca vi Jane brava, mas impaciente ela está.
Maria ajudou-a a se vestir e arrumar seus cabelos. Elizabeth estava mortificada, esquecera completamente da aula.
Na noite anterior mal vira Jane, que foi monopolizada por sua mãe. A Sra. Albuquerque precisava contar as novidades sobre a sociedade de Campinas, que soube durante sua visita a Sra. Adelaide. Quando Elizabeth estava subindo para se recolher ouviu apenas Jane gritando da sala: Não esqueça a nossa primeira aula amanhã logo cedo, por favor, não vá dormir demais Lizzy! Mas agora já era tarde, ela estava atrasada e nada mais lhe restava a não ser pedir desculpas.
Desceu as escadas rapidamente e ao se aproximar da porta do escritório, parou e controlou sua respiração que estava ofegante por ter praticamente corrido até lá. E com uma aparente calma abriu lentamente a porta, viu sua irmã Jane sentada em uma poltrona perto da janela, e um homem que estava em pé, de costas, admirando a paisagem enquanto conversava com Jane.
********************************____**********************************
No escritório, Jane já não sabia mais o que conversar com o Sr. Darcy, afinal eles já tinham falado sobre absolutamente quase tudo. A Sra. Albuquerque apenas o analisava por completo.
Elizabeth iria ouvir umas boas, pensou Jane. Como esquecera a aula dessa maneira? Lizzy precisava ser mais responsável. Ao perceber que, assim como ela, ele também estava pouco a vontade com aquele silêncio, resolveu intervir.
- Tenho certeza que minha irmã não irá demorar Sr. Darcy.
- Não se preocupe Srta. Albuquerque, eu não tenho pressa.
- É... É que ela deve ter esquecido da nossa aula, e peço desculpas por ela.
- Ela é uma irresponsável, isso sim. – resmungou a Sra. Albuquerque.
- Mamãe! Ontem ela teve um dia cansativo, além de um pequeno incidente, mas logo ela se juntará a nós. Afinal, ela esta muito animada para nossas aulas.
- Espero que ela compartilhe do seu interesse pela Literatura.
- Ouso dizer que Lizzy tem mais paixão pela literatura que eu, Sr. Darcy.
- Isso é verdade, professor. Minha filha só vive com os livros para cima e para baixo, vive no mundo dos livros.
- Fico muito feliz, Sra. Albuquerque.
Darcy deu um sorriso simples, pois aquela conversa da Sra. Albuquerque já o estava aborrecendo. Todos tiveram sua atenção tomada ao ouvirem a porta se abrindo. Ao reencontrar a dona daqueles belos olhos negros Darcy sentiu sua respiração parar, não conseguiu evitar. Olharam-se fixamente, esquecendo de tudo o que lhes cercavam.
Lizzy ficou paralisada ao rever aquele homem que lhe ocupara os pensamentos na noite anterior. Seria ele o professor de literatura? Era coincidência demais. Recuperando seu autocontrole dando um tímido sorriso cumprimentou a todos.
- Bom dia! Desculpem o atraso.
- Ah! Aí está você minha filha, sempre atrasada.
- É que eu havia esquecido mamãe, mas já estou aqui, não estou?
- É isso mesmo, já podemos começar a aula. Lizzy venha, quero que conheça o Sr. William Darcy, nosso professor de Literatura.
Lizzy caminhou até eles ainda em choque pelo reencontro. Estendendo-lhe a mão, que foi aceita por Darcy, ele delicadamente beijou-lhe a mão enquanto falava:
- Como vai Senhorita. Espero que esteja tudo bem, depois de ontem.
- Estou muito bem Senhor, tudo não passou de um pequeno incidente, obrigada.
- Pelo que entendi vocês já se conhecem. Mas de onde? – Quis saber a Sra. Albuquerque.
- O Sr. Darcy me ajudou ontem, quando tropecei em uma pedra aqui perto de casa mamãe.
- Achei que tivesse sido o Sr. Braga quem lhe ajudou Lizzy. –Jane se surpreendeu.
- Não Jane, foi o Sr. Darcy, mas no momento não tivemos a oportunidade de sermos apresentados.
- Fico feliz que tenhamos nos encontrados em uma ocasião melhor.
- Bem, acho que podemos começar a nossa aula, não é mesmo Sr. Darcy? – Jane falou.
- Certamente Srta. Albuquerque.
- Então vou me retirar. Não me leve a mal meu jovem, mas não tenho mais paciência nem idade para essas coisas de poemas. Deixarei vocês à vontade e logo mais mandarei que sirvam um lanche.
Dizendo isso a Sra. Albuquerque saiu do escritório. Jane e Lizzy se acomodaram em um confortável sofá, enquanto Darcy sentou em uma poltrona que ficava de frente para as duas. Assim a aula começou, Darcy começou a explanar sobre a literatura estrangeira e nacional e seus grandes autores, passando por suas obras e biografia. Jane se mostrou bem interessada em tudo o que ele falava, mas não mais que Lizzy, que tinhas os olhos brilhantes, degustando cada palavra que ele dizia. Perto do final da aula, Lizzy propôs que ele declamasse um poema de sua preferência, assim ele o fez, e pondo-se de pé falou:
- Bem, um dos meus poemas prediletos é do importante escritor Português do século XVI, Luiz Vaz de Camões, este é talvez o seu poema mais conhecido, espero que gostem.
“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?“
Quando finalmente ele terminou Jane e Lizzy visivelmente emocionadas o aplaudiram, devido à paixão e sentimentos que ele colocou em cada palavra. Lizzy chegou a enxugar uma lágrima que começava a brotar de seus olhos.
- Realmente um lindo poema Sr. Darcy. – Jane falou
- Fico feliz que tenha gostado Srta. Albuquerque. E quanto a Srta. Elizabeth, espero que tenha apreciado?
- Como poderia não ter apreciado Sr. Darcy? Este poema define na opinião do autor toda plenitude do amor, inclusive o bem e o mau que nos proporciona.
- Acaso pode o amor causar algum mal Srta. Elizabeth?
- Oh! Creio que sim. Quando é um amor impossível, certamente nos causa dor e sofrimento.
- Entendo... Bem acho que já terminamos por hoje, espero vê-las na próxima aula então. Adeus.
- Adeus Sr. Darcy. Já estamos ansiosas pela próxima aula, não é mesmo Lizzy?
- Claro.
- Eu o acompanho até a porta Sr. Darcy. – Se ofereceu Jane.
- Obrigado. Adeus Srta. Elizabeth.
Sorrindo Darcy novamente lhe beijou a mão e saiu. Lizzy pôde sentir o doce perfume dele em sua mão, foi até a janela e ficou observando ele se afastar aos poucos, enquanto admirava o porte elegante dele ao caminhar, apesar da simplicidade de suas roupas e sua falta de fortuna e posição, o Sr. Darcy tinha uma postura digna de um Cavalheiro da alta sociedade. Foi surpreendida com a entrada de Jane no escritório.
- Como não me contou que havia conhecido o Sr. Darcy?
- Jane eu não o conheci, apenas nos encontramos rapidamente e convenhamos em uma situação nada favorável a apresentações.
- E o que achou dele?
- É certamente um excelente professor.
- Sabe que não me referi a isso minha irmã.
- Jane!
- Onde está o professor careca e barrigudo? – Jane riu
- Está bem, confesso que exagerei.
- Então confesse também, que achou o Sr. Darcy bonito.
- Ele é realmente bonito, mas não o suficiente para me tentar.
- O que? Lizzy, o Sr. Darcy é um homem muito bonito, ele tem uma beleza diferente, européia eu acho.
- Se o Sr. Matias houve você falando assim Srta. Jane Albuquerque.
- Ele não temerá, pois sabe que eu o amo profundamente.
- Eu sei e todos em Capinas sabem do seu grande amor pelo Sr. Carlos Matias. Será que um dia eu terei a mesma sorte que você? Encontrar um homem digno do meu amor, assim como você encontrou.
- Eu tenho certeza que sim Lizzy. Você é uma linda mulher, tem um coração generoso, e é muito inteligente, qual homem em sã consciência não cairia de amores por você? Já arrebatou o coração do Sr. Braga.
- Jane por Deus! Depois de ontem, posso afirmar com toda certeza que o ultimo homem que amaria seria o Sr. Braga.
- Está bem Lizzy. Vou sair com mamãe, vamos providenciar algumas coisas do casamento na cidade. Não quer vir conosco?
- Ficará chateada se eu não for Jane?
- Sabe que não. Sei o quanto é cansativo e maçante sair com a mamãe para fazer compras. Deixe que desta vez eu faça o sacrifício sozinha.
- Você é um anjo Jane. Preciso falar com papai, é importante.
- Algo grave? Pois tenho notado ele triste e distante ultimamente.
- Não há nada errado. Vou falar com ele sobre algumas coisas do cafezal que vi ontem durante o passeio. Pode ir tranqüila.
Jane se despediu da irmã com um beijo no rosto e partiu. Após a saída da irmã e da mãe, Lizzy foi à procura de seu pai, caminhou por toda a casa e não o encontrou. Decidiu procurá-lo no jardim e como também não o encontrou, resolveu perguntar a Francisco que passava pelo jardim naquele momento. Foi informada que seu pai estava em sua cabana de caça já algum tempo.
Preocupada Lizzy foi até lá, bateu na porta apreensiva, pois não sabia como abordar um assunto tão delicado. Ao ouvir a voz do pai pedindo para que entrasse, Lizzy abriu a porta e então viu o pai sentado em uma poltrona, com seu velho cachimbo. Olhou para a pequena mesa que ficava ao lado da poltrona viu muitos papéis espalhados, alguns pelo chão. Foi andando devagar até ele, e quando estavam frente a frente, o beijou ternamente na cabeça, e então lhe sorriu enquanto falava:
- Procurei o Senhor por toda a casa meu pai. Por que está aqui?
- Queria pensar um pouco minha filha, só isso. Onde estão sua mãe e Jane?
- Elas foram até a cidade comprar algumas coisas para o casamento de Jane.
- O que seria da Sra. Albuquerque sem as compras? Funciona como um bálsamo para ela. - brincou fazendo Lizzy rir também.
- Papai, nós precisamos conversar.
- Lizzy, nós podemos conversar outra hora?
- Não meu pai, não poderá fugir dos problemas para sempre.
- Como eu queria poder fugir minha querida.
- Eu vi os livros-caixas da fazenda e sei que estamos com problemas financeiros sérios papai. Até quando vai sozinho sustentar esta carga?
- Lizzy não há razão para se preocupar, logo a situação irá se reverter.
- Papai, eu vi os números, não estamos bem. Acho que o Senhor deveria expor os problemas da fazenda para mamãe e Jane, afinal o casamento de Jane trará muitos gastos e não podemos papai, sabe disso.
- Querida não quero que pense nisso. Tenho tudo sob controle e dentro de alguns dias honrarei as nossas dívidas.
- E como fará isso? De onde virá tanto dinheiro?
- Ainda sou o homem desta casa Elizabeth Albuquerque! – Falou exaltado, mas se acalmando em seguida. – Meu anjo, eu lhe garanto que darei um jeito em tudo isso, apenas confie no seu velho pai, está bem?
- Está bem papai. Mas por favor, não se acanhe em conversar comigo. Lembre-se que eu sempre estive e estarei ao seu lado.
- Eu sei querida, eu agradeço. Agora me deixe sozinho está bem?
- Claro.
Lizzy depositou um beijo carinhoso na cabeça do pai e saiu. Seu coração estava apertado, apesar das palavras do pai, sabia que ele no fundo estava triste, derrotado. Pensou em contar ao menos a Jane, para que assim ela reduzisse os custos do casamento, mas sabia que se fizesse isso seu pai jamais a perdoaria.
Alberto Albuquerque sempre foi um homem admirado por sua competência no poderoso mundo do café, e passando por essa séria crise, era normal que ele se sentisse triste e deixasse seu orgulho falar mais alto, afinal ele era o poderoso Barão do café. A crise era geral, após ver as dívidas do pai, Lizzy procurou ficar a par de tudo o que estava acontecendo, então temeu ainda mais, pois vários fazendeiros estavam à falência, uns até cometendo suicido. Balançou a cabeça várias vezes na tentativa de afastar tais pensamentos, mas decidiu ficar de olho em seu pai.














