Sabor do Amor
Capítulo I
O vento balançava os cabelos negros de Elizabeth. O animal já estava dando tudo de si, mas aquilo não a assustava, ao contrário, um grande sorriso iluminava sua face movida pela adrenalina daquele momento. Ao longe, só se ouvia os gritos desesperados de Jane, sua irmã, pedindo que ela parasse de correr daquele jeito. Mas, apesar dos protestos de sua irmã e sua família, Elizabeth gostava da sensação de liberdade que aquilo lhe proporcionava*, sentir o vento em seu rosto e seus cabelos, ouvir a respiração ofegante de seu belo alazão, a imagem ao seu redor passando a toda velocidade; tudo alimentava seu espírito aventureiro.
Elizabeth Albuquerque era a filha mais nova dos Albuquerque, era uma jovem de dezenove anos, pele branca e intensos cabelos castanhos. Seus olhos levemente grandes e intensamente negros realçavam ainda mais sua beleza.
Quando finalmente parou no estábulo da casa, avistou sua irmã, que vinha ainda distante. Começou a desfazer a montaria retirando a sela e os arreios, apesar dos protestos de Francisco, que era responsável pelos cavalos da fazenda. E, mais uma vez, em meio a milhares de discussões neste sentido, Elizabeth apenas respondia: “Oras Francisco! Você bem sabe que no meu cavalo só eu toco, eu e ele somos um só”.
Finalmente Jane chegou ao estábulo, auxiliada por Francisco desceu do cavalo, seguiu na direção de sua irmã e com as mãos na cintura começou a repreender mais uma vez Elizabeth. Jane era a filha mais velha dos Albuquerque. Com vinte e um anos, era a mais bela das duas: pele branca, cabelos loiros e cacheados, olhos azuis e lábios rosados.
- Queria entender o que se passa na sua cabeça, minha irmã. Tens noção do perigo em que se coloca ao correr desse jeito?
- Jane, você exagera em sua preocupação, eu não corro tanto assim. E, além disso, eu e Alazão nos conhecemos muito bem. Não é mesmo, garoto? – Falou, afagando a crina do cavalo e o beijando em seguida.
- Cansei de falar com você, a sua teimosia é incrível, Elizabeth Albuquerque.
- Da próxima vez prometemos ir mais devagar. Ou você terá que correr mais para nos alcançar. – Falou, rindo.
- Impossível, minha querida irmã. Eu não tenho a sua loucura. E não conseguiria cavalgar de calças como você faz. Um dia ainda matará nossa mãe de desgosto, ela sempre fica nervosa ao te ver vestida assim, e você sabe que os nervos dela não agüentam tanto.
- Tenho esperança de ainda conviver com eles mais dezenove anos da minha vida. Ela se acostuma Jane.
As duas riram com vontade. Elizabeth, então, pegou o braço de Jane e seguiram rumo à entrada principal da casa. Quando já estavam prestes a entrar, foram abordadas por Maria, a filha da cozinheira da casa que foi criada com algumas regalias diante de sua classe inferior, e era muito querida pelas meninas Albuquerque por terem quase a mesma idade e terem sido criadas juntas.
- Graças a Deus que encontrei vocês antes de entrarem.
- O que houve Maria? – Elizabeth perguntou curiosa.
- É que a madrinha me mandou ir procurá-las porque seu noivo, Jane, o Sr. Carlos Matias, acabou de chegar e veio acompanhado pela irmã dele, a Srta. Georgiana.
- Deus, ele não pode me ver assim! Meus cabelos devem estar desalinhados, devo estar horrorosa. Liz, por favor, me ajuda.
- Calma Jane, eu tenho certeza de que apaixonado por ti como está o Sr. Matias, certamente a achará linda de qualquer jeito.
- Você é uma ótima irmã, mas eu vou entrar pelos fundos e me arrumar. Maria, por favor, entre e avise à mamãe que descerei logo. E você, Liz, vem comigo.
Elizabeth não teve como negar, pois foi praticamente arrastada pela irmã. Após alguns minutos, elas finalmente desceram ambas arrumadas, o que agradou muito à sua mãe, a Sra. Joana Albuquerque, que, ao ver Elizabeth de vestido, agradeceu aos céus por ela ter tido bom senso e tirado as calças para receber as visitas.
Elas cumprimentaram os convidados gentilmente, pois gostavam da companhia deles. O Sr. Carlos sempre muito agradável, com seu bom humor e gentileza habitual possuía uma conversa fácil e muito animada, conseguia ver bondade e amabilidade em todos, assim como Jane.
Carlos Matias era um jovem de vinte e quatro anos, herdeiro junto com sua irmã da fortuna dos Matias. Era ruivo, tinha cabelos cacheados e olhos verdes. Já a Srta. Georgiana, era mais tímida e retraída, porém não deixava de ser gentil, educada e agradável. Era ainda muito jovem com seus quinze anos, mas já era dona de uma grande beleza: possuía cabelos loiros e lisos e assim como o irmão olhos verdes.
Após as saudações iniciais, Elizabeth, percebendo a ausência de seu pai, ofereceu- se para ir até o escritório chamá-lo. Ao entrar, percebeu que ele estava analisando os livros caixa da fazenda. Tinha o semblante carregado, o que não passou despercebido por Elizabeth, que há alguns dias notara o pai distante e nervoso.
Ao notar a presença da filha mais nova, Alberto Albuquerque fechou rapidamente o livro e, disfarçando, sorriu para a filha.
- Minha querida Elizabeth, o que a traz aqui?
- Vim avisar que o Sr. Matias e sua irmã estão na sala nos visitando.
- E por que não me avisaram antes?
- Eles chegaram há pouco... O que estava fazendo?
- Nada, apenas observando as contas da fazenda.
- Posso ver papai? Há algum tempo o senhor não me deixa mais ajudá-lo com a fazenda.
- Não! – Falou assustado. – Minha querida, você é jovem e precisa fazer coisas da sua idade, não perder seu tempo ajudando seu pai com números chatos... Agora, é melhor irmos antes que o noivo de sua irmã pense que não me alegro com sua presença.
Elizabeth não acreditou na desculpa dada por seu pai, mas achou melhor segui-lo, em outra oportunidade conversaria com ele sobre o assunto. Já na sala, todos conversavam animadamente, pois, assim como sua família, o Sr. Albuquerque apreciava muito o futuro genro. Além de ser um bom partido por possuir uma fortuna considerável, era um homem de caráter. E sempre que se encontravam conversavam sobre muitas coisas, inclusive os negócios.
- Então, Sr. Albuquerque, é bem provável que haja uma reviravolta no mercado do café, mas temos que ter esperanças.
- Oh! Por favor, parem com esses assuntos de café. Vamos falar de coisas mais agradáveis.
- Meu irmão, eu temo que já esteja anoitecendo e devemos partir. – Georgiana falou quase que inaudível.
- É claro. Não vi o tempo passar.
- Não os deixarei partir de maneira alguma. Sr. Albuquerque devemos convidá-los para o jantar.
- Claro minha querida. Sr. Matias, eu ficarei honrado se ficarem para o jantar. Receberemos dois convidados, o banqueiro da cidade, o Sr. Farias, e seu neto recém-chegado da capital.
- Não queremos atrapalhar, Sr. Albuquerque.
- Não será nenhum incomodo e sim um prazer.
- Se é assim, aceitaremos com prazer.
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Chegada a hora do jantar, todos estavam reunidos na grande sala de estar. O Sr. Albuquerque e o Sr. Matias conversavam sentados em um canto da sala, a Sra. Albuquerque dava as últimas ordens aos empregados sobre o jantar, pois queria tudo impecável. Já Elizabeth e Jane se deleitavam com a maestria com que Georgiana tocava piano.
Os convidados chegaram à hora combinada. O Sr. Farias sempre sisudo e por vezes antipático, cumprimentou friamente a todos e em seguida apresentou seu neto, o jovem Jorge Braga, recém formado em Direito. De imediato, Jorge chamou a atenção de todos por sua beleza: alto, magro, cabelos e olhos castanhos e um belo sorriso que cativava a todos. Mas Elizabeth não conseguiu deixar de notar que ele era esnobe; percebeu isso através dos seus modos e pelo pouco que conversaram.
Após as conversas iniciais, todos se dirigiram à mesa de jantar, que estava impecavelmente bela e farta. O jantar transcorreu calmo e cheio de conversas animadas.
- Então, Sr. Braga, resolveu deixar a agitação e glamour da Capital para vir a este fim de mundo?
- Sra. Albuquerque, isso não estava nos meus planos, mas meu avô necessitava da minha presença e não tive como negar. Mas espero aproveitar a sociedade de Campinas.
- Não se iluda meu jovem, não encontrará nada comparado à Capital... Entretanto, ouvi dizer que a última moda entre a boa sociedade paulistana é a contratação de professores de poesias para as jovens, é verdade?
- Sim, me parece que poemas viraram moda entre as jovens.
- Um desperdício, isso sim! Onde já se viu? As jovens deveriam se preocupar em serem mais prendadas com a casa do que perder tempo com poesias. – Resmungou o Sr. Farias.
- É realmente incrível que nos tempos de hoje o senhor ainda pense que nós mulheres somos seres irracionais que servem apenas para procriar e alimentá-los. Se não sabe, Sr. Farias, temos cérebro, igual a vocês homens. – Elizabeth não se conteve, deixando todos constrangidos.
- Ora, vovô, um pouco de cultura não fará nenhum mal. – Jorge brincou, aliviando a tensão e fazendo todos rirem, com exceção de Elizabeth.
- Certamente, Sr. Braga, pena que aqui neste lugar atrasado não contamos com isso.
- Perdão, mas a senhora está enganada, Sra. Albuquerque. Minha irmã Georgiana está tendo aulas de leitura de poemas.
- Não me diga Sr. Matias! Isso é maravilhoso! Senhor meu marido, seria ótimo se pudéssemos contratar um professor para nossas meninas. O que acham?
- Eu adoraria mamãe. Adoro poemas e seria bom se tivéssemos aulas de literatura. Não é, Elizabeth?
- Sim, Jane. Sou amante de uma boa leitura e conhecer um pouco mais sobre poemas me deixaria muito feliz.
- Então me permitam indicar o professor de minha irmã, o meu bom amigo William Darcy.
- Ele é estrangeiro? Possui um nome diferente. – Quis saber o Sr. Albuquerque.
- Na verdade, os pais dele são ingleses, mas ele nasceu aqui no Brasil. Seu pai, o falecido Sr. Darcy, trabalhou muitos anos para minha família e meus pais gostavam muito do William e então custearam os seus estudos; ele se formou em Literatura. Depois da morte de seu pai ele voltou a morar conosco e agora dá aulas de literatura e ajuda meu pai na administração dos negócios.
- Pelo que entendi, trata- se de um amigo seu, Sr. Matias. Ou entendi errado?
- Entendeu perfeitamente bem, Sr. Braga. William e eu crescemos juntos, e o tenho com muita estima.
- Muito me admira que um homem na sua posição mantenha esse tipo de relações.
- Não me envergonho de minha amizade com William, Sr. Braga. Ao contrário, me orgulho muito por ter um bom amigo, pois o que admiro em um homem é a firmeza do seu caráter, e isso eu garanto que ele possui.
- Que bom que pense assim, Sr. Matias, isso só comprova a sua generosidade. – Foi a vez de Elizabeth intervir. – Então, papai, nós poderemos ter aulas com o Sr. Darcy?
- Se é da vontade de vocês não vejo por que não. Sr. Matias marcarei uma hora com seu amigo para acertarmos os detalhes... Bom, se nos dão licença, eu e o Sr. Farias vamos até o escritório tratar de algumas questões.
Todos se dirigiram à sala de estar, menos os dois cavalheiros que foram para o escritório. Jane e Carlos sentaram-se em um canto da sala para conversarem mais à vontade; enquanto Elizabeth, Georgiana, e Jorge Braga conversavam amenidades até que a Sra. Albuquerque chamou Georgiana com a desculpa de saber um pouco mais sobre suas aulas de literatura, mas sua verdadeira intenção era de deixar Elizabeth e Jorge sozinhos, afinal ele era um excelente partido para sua filha mais nova.
- Então Srta. Albuquerque, o que posso esperar de minha estadia aqui?
- Bem, Sr. Braga, não temos o glamour, como diz minha mãe, da capital, mas temos reuniões e jantares muito agradáveis. Bons passeios pelos campos...
- Ah! Uma coisa eu já posso afirmar: acho que poderei me divertir. Aqui tem belas jovens e muito agradáveis. Seria muito da minha parte solicitá-la me apresentar ao lugar?
- Ficarei honrada em lhe acompanhar sempre que possível.
- Que bom... Pelo que soube, o noivo de sua irmã é um dos homens mais ricos da região.
- Ouso dizer que sim.
- Pena que não se comporte como tal.
- O que quer dizer?
- Eu acho inaceitável que um homem com sua posição tenha por amigo o filho de um empregado.
- Não vejo nada de mal nisso. E isso só mostra quão generoso o Sr. Matias pode ser. Admiro esse sentimento em um homem, Sr. Braga, e minha estima por meu futuro cunhado só fez aumentar ao saber de tal fato.
- Certamente, Senhorita... Vejo que mostra sua opinião com certa firmeza.
- Isso o incomoda? Será que pensa como seu avô, que somos escravas dos homens? – Perguntou, indignada.
- Eu não usaria essas palavras, Senhorita. E, por favor, perdoe meu avô. Como vê, é um homem que vive de tradições. Ao contrário dele, aprecio uma jovem de opinião e culta; uma mulher assim é capaz de despertar as mais intensas paixões em qualquer homem.
- Elizabeth! Poderia ir até o escritório pegar aquelas partituras novas para a Srta. Matias?
- Claro mamãe. Com licença, Sr. Braga.
Elizabeth agradeceu aos céus por sair dali. Por mais que o Sr. Braga se esforçasse para ser gentil e agradável, ela sentia algo em seu coração que acusava alguma coisa contra ele.
Ao chegar à porta do escritório, ouviu a voz do seu pai alterada. Pensou em voltar, mas, ao perceber que poderia ser algo grave, resolveu ficar.
- Sr. Albuquerque, já tive consideração e paciência em excesso, mas quero que compreenda que negócios são negócios. Não posso segurar suas dívidas por mais tempo, terei que executá-las.
- Sr. Faria, eu lhe peço mais um prazo, um mês é tudo o que peço. Tenho certeza que os preços do café vão aumentar e então terei liquidez para pagá-lo. Não posso perder minha fazenda, o que será de minha família?
- Um mês! Apenas um mês é o que tem para levantar a quantia necessária ou executarei suas dívidas. E lhe asseguro que faço isso apenas em consideração ao seu histórico no banco, sempre foi um homem honrado e cumpriu seus pagamentos, mas não lhe darei mais nenhum prazo, Sr. Albuquerque.
- Obrigado, Sr. Farias.
- Agora já vou.
- Eu o acompanho.
Elizabeth, completamente estarrecida, teve que pensar rápido para que não fosse descoberta. Respirou fundo buscando transparecer tranqüilidade e voltou rapidamente para a sala.
- Elizabeth, onde estão as partituras que lhe pedi?
- Ah! Sinto muito mamãe, é que a porta do escritório estava trancada e eu não quis incomodá-los.
- Aí vêm eles! Pode deixar que eu mesma busque.
- Jorge, se despeça de todos e vamos embora. Espero por você lá fora.
- Claro vovô. Eu já estou indo.
Constrangido pela atitude do avô, que saiu sem se despedir, Jorge cumprimentou os Matias, Jane, o Sr. Albuquerque e por ultimo se dirigiu à Elizabeth.
- Até logo, Srta. Elizabeth. Espero ter o prazer de desfrutar da sua companhia em um passeio amanhã.
- Cla... Claro. – Falou sem pensar.
- Ótimo, então passarei aqui amanhã pela manhã. Boa noite. – Disse, beijando-lhe a mão.
- Boa noite.
Logo após a saída deles, os Matias se despediram e partiram. Jane e a Sra. Albuquerque se recolheram enquanto o Sr. Albuquerque tomava mais um cálice de licor. Cheia de duvidas e indagações, Elizabeth foi até ele decidida a saber o que realmente estava acontecendo, o que visivelmente estava atormentando o seu pobre pai.
- Papai, nós precisamos conversar.
- Hoje não, meu bem, estou cansado e vou me recolher.
- Mas papai...
- Amanhã, Elizabeth, amanhã. Boa noite, meu anjo. – Disse, beijando-lhe a testa como fazia todas as noites.
Elizabeth acompanhou a figura derrotada de seu pai subindo as escadas. Ficou ainda um tempo na sala, não tinha sono. O que ouviu na biblioteca lhe tirou toda e qualquer paz e tranqüilidade.
Resolveu fazer algo que não era certo, porém era necessário. Foi até o escritório de seu pai e começou a analisar os livros caixa da fazenda. Então, completamente assustada com o que viu, exclamou: Deus é pior do que pensei! Deixou seu corpo cair sob uma poltrona, pois não dominou suas pernas. Como a situação chegou àquele ponto? Por que seu pai não pediu ajuda? Sem mais se conter, chorou.
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