Capítulo IX
David corria pelos corredores de Pemberley com o coração aos pulos, ele não sabia ao certo o que era, mas sentia que Emily precisava dele, que ela estava em perigo. Quando finalmente chegou ao quarto dela viu que ela não estava e pior que sua cama ainda estava arrumada o que significava que ela não tinha nem deitado lá, uma grande aflição tomou conta dele, sem querer acordar os criados ele resolveu procurar em outros cômodos da casa, mas para sua tristeza Emily não estava em lugar algum. Quando o desespero já começava a tomar conta de seu ser uma súbita sensação, como se fosse um estalo, a história do andar fechado veio a sua mente, só poderia ser Emily estava tão empenhada a encontrar aquela bendita chave, talvez ela tivesse encontrado e ido até lá. David saiu correndo em direção a porta que levava ao andar fechado e quão grande foi sua surpresa ao ver a porta aberta, sem pensar muito entrou rapidamente enquanto chamava por Emily enquanto subia as escadas nem se deu conta de que alguém trancava a porta por fora...
A escuridão tomava conta do ambiente David se odiou por ter esquecido uma lanterna ou algo que o ajudasse naquela hora, chamou o nome de Emily algumas vezes, até ouvir o gemido dela, com muita dificuldade ele foi se guiando apenas pelos gemidos, até chegar até ela.
- Emily você está bem?
- David graças a Deus que você está aqui. – Ela falou abraçando-o.
- Você está machucada?
- Não... Acho que não, minha cabeça dói um pouco.
- venha, vamos sair daqui.
David colocou Emily em seus braços enquanto iam em direção a saída, desceu os degraus devagar temendo cair já que não estava enxergando nada, quando finalmente chegaram na porta e ao tentar abri-la, Emily se assustou com o chute que David deu na porta e seu grito de raiva.
- O que houve?
- A porta está trancada.
- Não pode ser.
- Onde está a chave? Está com você?
- Não, eu deixei na fechadura quando entrei e...
- Droga, então estamos presos aqui.
- Mas quem faria uma coisa dessas?
- Eu não faço a menor idéia.
- O que faremos agora?
- Eu não sei... Vou te deixar lá em cima e desço para pedir socorro, gritar, até alguém aparecer.
- David eu não quero ficar sozinha lá em cima, além do mais ninguém vai ouvir você, os empregados dormem no térreo da casa e por mais barulho que você faça jamais eles vão ouvir.
- Tem razão! Então é melhor subirmos e esperamos o dia amanhecer.
Diante da afirmativa de Emily os dois subiram, caminhado em meio ao escuro David encontrou uma espécie de sofá, acomodou Emily em seguida sentou ao seu lado. Ficaram algum tempo em silêncio até que Emily falou:
- Pode falar David!
- Falar o que?
- O que eu tenho certeza que está engasgado na sua garganta e que com toda a certeza do mundo você tem razão.
- O que deu na sua cabeça vir aqui uma hora dessas? Eu sabia que você era meio maluca, mas não a tal ponto.
Diante do silêncio de Emily ele continuou.
- Você não pensou que poderia ser perigoso? Que sua vida estaria em risco? Pelo amor de Deus Emily veja onde estamos agora por causa dos seus impulsos. – David falou quase gritando.
- Eu sinto muito, fui imprudente e me arrependo de ter vindo aqui David, tudo o que mais queria era sair daqui, esquecer tudo o que vi...
Emily mal conseguiu terminar de falar, pois as lágrimas corriam por sua face, um pranto de arrependimento e confusão tomou conta dela naquele momento. David se sentiu o pior dos homens, sempre odiou ver mulher chorando, aquela cena foi muito dolorosa para ele, pois lembrou das inúmeras vezes que presenciou e acalentou o choro de sua mãe. Meio sem jeito ele a abraçou e sentiu seu corpo estremecer quando Emily se aninhou em seus braços, enquanto afagava seus cabelos tentava conforta-la com palavras.
Após Emily ter se acalmado David sugeriu conversarem sobre alguma coisa para passar o tempo, mais animada e se sentindo protegida Emily começou a falar sobre sua vida, seu trabalho, seus amigos, sua vida em Nova York, sua família e por fim sobre Arthur MacCoy...
-... Então é isso, essa é minha vida.
- Me diz uma coisa, você escolhe idiotas do tipo do Arthur MacCoy a dedo ou tem alguma seleção especial? – David falou rindo.
- David! Acho que tenho um imã para idiotas, veja o Dillan Daves. – Os dois riram juntos... – Agora é sua vez David.
- Minha vez?
- É me conte um pouco sobre você, seus amigos, sua família.
- Não acho uma boa idéia.
- Vamos David eu contei tudo, agora é você, temos uma longa madrugada pela frente, não tenho pressa.
- Ok! Por onde começo? Deixa-me ver... Nasci em Londres, tive uma infância normal, humilde, mas normal. Meus pais morreram há alguns anos, e agora moro com meu irmão Edward. Viu não há nada de interessante, eu falei.
- Isso não é justo, David! Você pode mais do que isso, vai.
- Você não desiste nunca?
- Hum hum! Você sempre quis ser advogado ou seguiu a mesma profissão do seu pai?
- Meu pai advogado?! Até que seria uma boa para ele ao menos defenderia a si mesmo.
- David se não quiser falar tudo bem.
- Não se preocupe, acho que me fará bem falar sobre isso... Meu pai era um simples operário de uma fabrica, a nossa vida era muito difícil, cheia de privações, mas éramos felizes sabe? Lembro dos nossos natais, festas em família, às vezes não tínhamos muito, mas o suficiente para sermos felizes. Mas meu pai achava pouco, ele sempre reclamava que minha mãe aceitava a falta de luxo muito fácil, e depois de um tempo começou a ficar sempre mal-humorado, brigando com todos em casa...
- David...
- Tudo bem. Teve uma época que ele começou a chegar em casa com mais dinheiro do que o normal passou a usar roupas caras, saía muito à noite, às vezes passava noites ou até dias sem vir em casa, e quando minha mãe o questionava ele brigava, gritava e mandava-a aproveitar a vida boa. Em pouco tempo estávamos em uma casa maior, com carro, e cada vez mais minha mãe desconfiava das atitudes dele, depois de alguns anos e já com uma vida estabilizada descobrimos que ele estava metido em negócios escusos, sujos, sabe Emily isso matou minha mãe, a partir daí ela não teve mais alegria, foi ficando cada vez mais triste. Ela era linda Emily, certamente a mais bela mulher que eu já vi em toda a minha vida, mas toda essa tristeza definhou sua beleza e vivacidade.
- Eu realmente sinto muito David.
- Eu sei, e agradeço por isso. Foi triste vê-la se entregando a uma depressão, e você sabe o que foi pior? Ver que meu pai não estava disposto a deixar o dinheiro, a fortuna, o luxo, o conforto, pela vida da única pessoa que mais o amou nesse mundo. Depois da morte dela ele começou a jogar, beber ainda mais, até morrer a três anos, acho que foi remorso por tudo o que ele fez a ela... Eu nunca quis nada que fosse fruto daquele dinheiro sujo, mas minha mãe acreditava que eu seria um brilhante advogado, e por isso em seu leito de morte pediu para que eu estudasse para ter minha vida, minha independência, por isso tive que aceitar o dinheiro para os meus estudos. Mas eu juro que vou devolver cada centavo ao meu irmão Edward, não sei como depois do fiasco da minha última causa.
- então...
- É foi por isso que entrei de cabeça naquela causa, mas como você viu não deu muito certo. Minha mãe deve estar muito triste pelo que me tornei.
- Shi! Não diga isso, tenho certeza que sua mãe sente um orgulho imenso por você e eu também, e tudo o que ela queria não era apenas que você fosse o brilhante advogado David Russell, mas que você fosse feliz.
- Será que algum dia eu serei ao menos feliz?
- Tenho certeza que sim, você merece ser muito feliz David, apesar de um chato e ogro, no fundo, bem no fundo é um cara legal.
- Ow! Isso foi um elogio? – David falou rindo
- É acho que foi...
Os dois riram gostosamente e nem perceberam devido a escuridão que seus rostos estavam muito próximos. David sentiu o hálito quente e a respiração ofegante de Emily, um arrepio passou por todo o seu corpo, um magnetismo muito grande os envolveu naquele momento, os risos foram cessando aos poucos, e aproximação cada vez maior, eles estavam prestes a se entregarem aquela forte atração, quando seus lábios estavam quase se tocando Emily se afastou nervosa.
- Acho melhor dormirmos um pouco, o dia já vai amanhecer.
- É... É melhor mesmo.
- Está frio aqui, estou congelando.
- Infelizmente nesse escuro não teremos como encontrar um cobertor, o que... O que podemos fazer é esquentarmos um ao outro, mas se você não quiser tudo bem...
- Acho que não temos outra opção.
Dizendo isso Emily foi se aproximando de David, quando seus corpos se tocaram uma corrente elétrica passou pelo seu corpo, ambos estremeceram, não sabiam ao certo se por causa do frio, ou pela aproximação. Depois de alguns minutos de agitação e vencidos pelo cansaço, dormiram.
[i] sonho...
Emily abriu os olhos e percebeu que estava deitada na grama, ouviu risadinhas de crianças, levantou assustada então se deu conta de que estava tendo mais um daqueles sonhos estranhos. O dia estava ensolarado, olhou atrás de si então viu as crianças do sonho anterior correndo em sua direção e aquele homem que parecia com David vindo logo depois, era como se estivessem brincando de pega-pega. Quando as crianças chegaram perto dela saltaram em seus braços.
- Mamãe nos ajude, papai vai nos pegar! – gritou o menino enquanto ria e dava gritinhos.
- Pala papa! – Gritou a menina em meio a gargalhadas.
Quando finalmente o homem ao alcançou abraçou os três fazendo assim com que todos caíssem na grama, Emily se deixou contagiar pelo clima maravilhoso e se permitiu rir e brincar também...
- Mamãe o papai nos levou para ver o rio, a Vitória teve medo, ela é medrosa mamãe.
- Eu sou pincesa da mamãe e do papai. – A menina falou em tom de vitória.
- Mamãe diz a ela que ela é uma medrosa!
- Querido não pode falar assim com sua irmã, vamos fazer assim você é nosso homenzinho corajoso e sua irmã por ser menor e mais frágil é nossa princesinha.
O homem falou fazendo Emily se sentir aliviada, pois ela não sabia o que iria responder.
- Vem Vitória, vou te mostrar as frutas que papai trouxe, eu estou com fome mamãe posso?
- Claro meu anjo.
William levantou rápido e foi logo seguido por sua irmã na direção da sesta de frutas que estava mais a frente. Emily riu ao ver aquela cena.
- Obrigado Lizzy. – Ele falou surpreendendo-a.
- Não... Não entendi.
- Eu disse obrigado por me dar uma família tão linda, eu nunca me imaginei brincando assim com meus filhos, você sabe a forma como fui criado e a solidão que senti depois da morte dos meus pais, mas você me ensinou a ser amigos dos meus filhos. Eu te amo cada vez mais e te amarei sempre.
Ele a beijou com ternura, em um beijo cheio de cumplicidade e agradecimento. Emily sentiu seu corpo estremecer, a muito já não conseguia resistir ou lutar com aquelas situações. Ele a olhou fundo nos olhos e com um sorriso iluminador levantou para se juntar as crianças enquanto dizia..
- Vou logo lhe avisando Sra. Darcy, quero mais filhos, uns dez no mínimo.
Emily riu com a expressão matreira no rosto dele, deitou novamente na grama e fechou seus olhos... [/i]
Emily abriu seus olhos então percebeu onde estava, estava muito frio, então ela abraçou David ainda mais forte.














