Citações

Há pessoas que por mais que se faça por elas, menos fazem por si mesmas. (Jane Austen)

Destino - Capítulo 6

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Capítulo VI


No dia seguinte David acordou com uma tremenda dor de cabeça, certamente causada pelo excesso de vinho na noite passada, seus pensamentos estavam desordenados. Olhou para o relógio e já passava das 10h da manhã, levantou apressado e após um gostoso banho desceu. O café já havia sido recolhido, pois Eleanor era muito rígida em relação aos horários das refeições, David já tinha se acostumado, por isso foi direto para a cozinha fazer seu desjejum.

- Bom dia Sr. Russel!

- Bom dia Eleanor, desculpe o atraso para o café da manhã.

- Imagine senhor. Vou colocar a mesa para o senhor...

- Não se incomode, quero apenas uma fruta, uma maçã talvez. Os hospedes já foram?

- Logo cedo senhor.

- Ah! E a Srta. Miller?

- A menina acorda com os pássaros, já deve estar fuçando por aí.

- Acho que vou fazer o mesmo. Até mais tarde Eleanor!

David saiu devorando a maçã que pegou na cozinha, deu uma volta pelo jardim, andou mais um pouco até avistar uma antiga construção nos fundos da casa, achou estranho, pois era o único prédio que não estava tão conservado, parecia até um pouco abandonado. Caminhou até lá cheio de curiosidade e para sua decepção quando chegou viu que estava trancado, tentou forçar a porta, se assustou ao ouvir a voz de Emily atrás de si.

- Eu tenho certeza de que você é um homem forte David Russell, mas facilitaria se usasse isso. – falou rindo enquanto mostrava a chave.

- Sabe que eu adoraria saber de onde tira esse seu bom humor logo de manhã! O que será que tem aí dentro?

- É o que vamos descobrir assim que você sair da frente.

- Onde conseguiu a chave?

- Onde mais? Com Eleanor, claro, há dias que eu quero vir aqui e ela me deu a chave.

- Mas ela não disse o que é, o quem tem aí?

- Parece que se trata de um ateliê de pintura, os criados limpam com freqüência e está do mesmo jeito de quando foi construído. Bem, vamos entrar que já estou morrendo de curiosidade.

Emily fez um sinal e David saiu logo da frente abrindo caminho para que ela abrisse a porta. Quando entraram ficaram completamente extasiados, seus olhos nem piscavam diante do que viam. Era uma espécie de Chalé, uma cabana na verdade, mas tudo era extremamente aconchegante, havia uma pequena lareira no centro da sala, alguns sofás e cadeiras ambos do século XVIII, um velho armário onde estavam vários potes de tintas e pinceis ao fundo uma grande cama. No chão havia vários quadros com diversas paisagens, frutas, e outros desenhos, velhos cavaletes encostados em uma parede, e um grande lustre no teto. Emily permaneceu em silêncio, apenas admirando a originalidade daquele lugar, David por sua vez apenas conseguiu exclamar:

- Caramba!

- É tudo o que pode dizer? Caramba!

- E o que quer que eu diga?

- Alguma palavra que se equivalha a isso tudo.

- A arquiteta aqui é você, não eu.

- David é incrível como o tempo parece ter parado neste lugar.

- Isso é verdade.

- E isso tudo me fascina, às vezes me sinto em outra época, e o mais engraçado é que eu me sinto bem aqui, quer dizer, é como se eu sempre tivesse vivido aqui. E estar aqui está sendo uma verdadeira escola para mim, acordar e dormir respirando história, toda essa arquitetura, é incrível.

Emily disse isso enquanto se jogava em um dos sofás que estavam na sala, David a seguiu e sentou ao seu lado.

- Eu também me sinto assim aqui e é estranho, pois odeio ficar sem ter o que fazer, acho que foi por isso que nunca tirei férias.

- O que você faz David? ... Nossa é tão engraçado isso, estamos convivendo aqui há uma semana e não sabemos nada um do outro. Então, o que faz da vida?

- Sou advogado.

- Você tem cara mesmo de advogado.

- Mas por quê? – perguntou David rindo.

- Sei lá, é que você tem argumentos pra tudo, típicos dos advogados... Atua em qual área?

- Emily minha vida não tem nada de extraordinário, então que tal mudarmos de assunto? E você, além de gostar de consertar coisas velhas o que faz?

- Ei, não fale assim do meu trabalho. Sou restauradora por paixão. É gratificante você deixar algo tão importante para a nossa história igual quando foi construído, é uma sensação incrível...

- Você deve gostar mesmo disso, pois seus olhos brilham quando fala do seu trabalho.

- É minha vida. E você, gosta do seu trabalho?

- Será que você não desiste nunca?  Eu sou advogado e pronto.

- Ok! Não quer falar Sr. Mistério, tudo bem.

- Não é mistério, só não tem nada interessante pra falar e muito menos à magia do seu trabalho... Emily ontem quando você subiu...

- Sim, o que tem?

- Você... Você voltou à sala?

- Eu? Não, acho que nunca dormi tão bem quanto ontem à noite, caí na cama feito uma pedra, mas por quê?

- Nada, por nada, bobagem minha.

- Eu hein!... Olha só esses quadros! Nossa eu amo esse lugar. Anda vem ver.

- Já estou indo.

Diante da negativa de Emily, David teve a certeza de que tudo não passara de um sonho. Os dois ainda ficaram um tempo no ateliê, nem perceberam que já era hora do almoço, só se deram conta quando Eleanor veio chama-los. Emily não perdeu a oportunidade e foi logo perguntando.

- Eleanor, que lugar maravilhoso. Você sabe a quem pertenceu?

- Já vem você menina! Bem, o que ouvir falar é que esse lugar foi construído há muitos anos, foi um presente de um dos donos de Pemberley para sua esposa, ao que me parece foi quando ela estava grávida. Agora vamos deixar de histórias e vamos almoçar.

- Sim Sra.!

Brincou David fazendo continência o que arrancou gargalhadas de Emily. O resto do dia se passou sem grandes novidades, enquanto David estudava as contas de Pemberley, Emily continuava sua excursão pela propriedade.

À noite após o jantar eles estavam sentados na sala de estar e Emily teve a idéia de assistir TV, David que estava lendo seu livro continuou tudo estava tranqüilo até que o apresentador do programa falou o nome de David. Emily no mesmo instante olhou para ele, que neste momento deixara o livro cair em seu colo e estava pálido, Emily sem saber o que estava acontecendo falou toda animada.

- Vejam só, o Sr. Russell é tão famoso que está até na TV. Quero um autografo, por favor.

- Emily desliga essa TV agora.

- De jeito nenhum, quero ver o que vão falar do Advogado David Russell.

 -Emily eu estou pedindo... Certamente deve ser alguma bobagem.

- Então se é bobagem não tem problema nenhum a gente ver não é?

David em um impulso infantil e desesperado foi na direção de Emily na tentativa de pegar o controle da TV, o que foi inútil, pois Emily foi mais safa e escapou dando boas risadas da situação. Foi então que a voz do apresentador do jornal começou sua narrativa:

“Depois do escândalo do caso de corrupção da sua empresa o SR. Matarazzo decretou falência na suas empresas, e segundo ele toda culpa disso foi de seu defensor, o renomado advogado David Russell que após o escândalo não foi mais visto em Londres. Fontes seguras nos garantem que ciente de sua incompetência David Russell saiu da cidade na tentativa de abafar o escândalo, o que será impossível. Analistas garantem que depois deste escândalo dificilmente ele recuperará sua credibilidade profissional.


Emily completamente estarrecida e arrependida olhou penalizada para David que agora estava triste e cabisbaixo, com o olhar fixo no chão, como se quisesse sumir. Emily não sabia o que falar se David estava humilhado daquele jeito a culpa era de sua teimosia e infantilidade, diante de tudo isso a única coisa que ela podia fazer era se desculpar.

- David, eu... Eu sinto muito.

- Está satisfeita? Queria um bom motivo para se divertir hoje? Aí esta Srta. Miller, já o tem. Com sua licença.

David falou aquelas palavras com um semblante duro, pesado, saiu da sala quase correndo indo para o seu quarto. Emily depois de acordar do efeito daquelas palavras duras, foi atrás dele. Quando chegou lá viu que a porta estava fechada, pensou em voltar, talvez devesse deixar para conversarem no dia seguinte, mas precisa ao menos se desculpar, com a voz embargada, bateu na porta e começou a falar.

- David, sou eu Emily, abra a porta, por favor. – Diante do silêncio, ela resolveu tentar mais uma vez.

- David, por favor, eu não poderia imaginar, só quero me desculpar. Sinto muito.

David ouviu os passos de Emily se afastando, a última coisa que queria era ouvir alguém dizer que sentia muito, que alguém sentisse pena dele, já fora humilhado o suficiente, sabia que vários advogados perdiam causas todos os dias, mas ele apostara tudo neste caso, jogou todas as suas fichas e perdeu, era o caso do século, todos os meios de comunicação noticiavam a todo o momento, e apesar de ter sido alertado a não pegar o caso, David movido pelo desejo de não depender do dinheiro sujo do seu pai, viu ali a sua grande chance. Certamente o Sr. Matarazzo estava cumprindo sua ameaça e acabando de uma vez por todas com sua carreira. Olhou o céu pela janela e pensou em sua mãe, certamente ela estaria decepcionada, sempre acreditou que seu filho seria bem sucedido e agora deveria estar envergonhada pelo fracasso que ele havia se tornado. Deitou na cama e mais uma vez desde a morte da sua mãe lutou contra as lágrimas, fechou seus olhos e tentou dormir, rolou na cama várias vezes até ser vencido pelo cansaço.

Emily estava se sentindo a pior das mulheres, como ela pôde fazer aquilo? Odiou-se por ter sido tão inconseqüente, e sentia-se pior quando lembrava da suplica de David para que ela desligasse a TV, tudo estava indo tão bem, mas ela tinha que estragar tudo, na verdade ela sempre estragava tudo. Após tomar seu banho deitou na cama e dormiu.

Sonho

“Emily se assustou ao perceber que estava em pé em frente à janela do seu quarto, vestia roupas antigas como da outra vez”. Tomou um susto maior ainda quando ouviu o barulho de chaves abrindo a porta do seu quarto, se agarrou às cortinas como se buscasse nelas proteção, e foi com tamanha surpresa que viu David, quer dizer, o homem que parecia David, o mesmo da outra vez, estranhamente ela não sentiu medo, e sim um carinho enorme. Ele andava devagar com um sorriso encantador nos lábios e com as mãos para trás, como se escondesse algo. Foi quando duas pessoinhas surgiram de traz dele, eles vestiam suas roupas de dormir e traziam uma flor nas mãozinhas, o homem trazia um buquê de orquídeas brancas.

- Vamos crianças entreguem as flores para a mamãe. – Ele pediu.

- Mamãe é pa senhola, papai disse que a senhola ta tiste, é vedade?- perguntou o menino.

Emily pensou no que responder aquilo tudo era uma loucura, mas diante daqueles olhinhos suplicantes, se abaixou na altura deles e falou:

- Eu estava querido, mas só em ver vocês, fiquei muito feliz.

Os dois a abraçaram forte, fazendo com que ela perdesse o equilíbrio e caíram sentados no chão, eles não conseguiram segurar a risada, o homem que olhava tudo muito divertido, pegou as crianças e rindo falou:

- Vamos crianças agora já está na hora de dormir.

- Não papai, podemos dormir aqui?

- William sabe que não, dêem um beijo na mamãe e vão dormir.

Eles beijaram Emily no rosto, foi um beijo cheio de amor e ternura e entre risinhos saíram do quarto acompanhados pela babá que os esperava na porta. Após a porta se fechar o homem veio na direção de Emily fazendo-a estremecer completamente, pegou em sua cintura fazendo-a levantar, ficaram próximos seus rostos ficaram quase colados e então ele falou em um sussurro.

- Lizzy me perdoe, eu odeio quando brigamos. Juro que não sabia que Caroline Bingley iria agir daquela forma, sabes muito bem como ela é eu não tive culpa. Diga que me perdoa, por favor!

- É, eu... Eu perdôo.

- Não sabe o alívio que destes a minha alma neste momento. E perdoe-me por usar as crianças, é que conhecendo o seu gênio Sra. Darcy tive medo de ser recebido por uma chuva de objetos.

Disse ele sorrindo, então Emily se inebriou completamente naquele sorriso que o deixava ainda mais sexy, e como se ele tivesse lido seus pensamentos capturou seus lábios num beijo faminto, Emily pensou em se soltar, mas foi vencida pelo desejo e a magia daquele beijo. Ela não mais pensava em nada, só em se entregar aquele homem que fazia seu coração disparar, nunca em sua vida se sentiu tão amada e protegida. Ele a colocou nos braços e a deitou na cama, Emily estava prestes a se entregar por completo, ele ficou em pé apenas olhando para ela, Emily fechou seus olhos e depois de um longo suspiro os abriu novamente e quão grande foi sua surpresa ao ver-se sozinha e de volta a realidade.

Emily abriu os olhos assustada, aquele sonho novamente, aquilo já estava ficando estranho, mas o que aqueles sonhos queriam dizer?  Cheia de indagações e sem a menor condição de voltar a dormir, Emily foi até a varanda e ficou admirando a bela noite em Pemberley.

********************____**********************************************

Emily não conseguiu dormir, então levantou mais cedo que o normal, caminhou um pouco e quando voltou para o café David já estava sentado à mesa, ao perceber a chegada de Emily ele apenas olhou e continuou com os olhos fixos no seu prato. Uma angústia tomou conta de Emily, ela precisava tomar uma atitude e seria agora.

- Vai continuar me ignorando é?

- Eu não estou ignorando você, só apenas sei tudo o que você vai falar e não quero ouvir só isso.

-Então foi por isso que você veio pra cá? Pra fugir dos problemas?

- Eu não fujo dos meus problemas! – David se exaltou.

- E o que está fazendo agora? – Emily gritou mais alto.

- O quer me dizer, Que sente muito? Acredite você não sente mais do que eu, a minha carreira esta arruinada.

- Eu não ia dizer isso. Eu jamais te ajudaria a sentir pena de si mesmo.

- Ah e o que sugere a Sra. Emily sabe tudo? – David falou com ironia.

- Eu apenas ia lhe dizer que estou do seu lado! E que ao contrário do que todos acham, eu tenho certeza absoluta de que você vai dar a volta por cima. Confio em você.

Aquelas palavras desmontaram David completamente, ele não esperava ouvir aquilo dela, eles ficaram um tempo se olhando fixamente, até serem interrompidos por Eleanor, que aparentemente muito abalada foi logo falando:

- Desculpem-me!

- Imagine Eleanor, pode falar. – falou Emily

- Eleanor o que houve? Parece que chorou. – Perguntou David realmente preocupado.

- Eu vim pedir autorização para visitar um amigo, é que acabei de saber que seu estado de saúde se agravou, os médicos já perderam as esperanças... Oh! Pobre Sr. Dalton. – Eleanor recomeçou a chorar.

- É claro que pode ir Eleanor, nem precisava vir nos avisar.

- Obrigada menina.

- Eleanor eu acompanho você. – Se ofereceu David.

- Não será necessário Senhor

- David tem razão, iremos com você e não adianta discutir.

Os três entraram no carro de David, pois o Sr. Dalton estava internado em um hospital na cidade próxima. No caminho Eleanor explicou que o Sr. Dalton era um antigo empregado do tio deles, na verdade eles eram amigos de infância, pois os pais do Sr. Dalton já trabalhavam para os pais dele. O Sr. James Darcy só confiava no seu amigo, era a sua sombra e conhecedor de todos os seus segredos. Depois da morte do velho Darcy o Sr. Dalton não teve mais saúde, e há menos de um mês foi internado devido a uma séria crise.

Ao chegarem ao hospital foram direto para o quarto que ele estava, Eleanor entrou sozinha enquanto Emily e David ficaram no lado de fora esperando. Ao ver a velha amiga o Sr. Dalton esboçou com muito esforço um sorriso.

- Eleanor, que bom que você veio.

- Não fale Sr. Dalton, não pode se esforçar.

- Querem me proibir até de falar, imagine isso!

- É para o seu bem, seu teimoso.

- E minha amada Pemberley, como está?

- Do mesmo jeito que você deixou velho amigo.

- Não sabe como sinto falta de respirar o ar puro de lá... E os novos donos, os herdeiros, já chegaram?

- Oh! Sim, já estão lá há uma semana.

- Tomara que eles cuidem bem de Pemberley, eles não sabem como aquele lugar é valioso, sagrado.

- Eles estão lá fora, gostaria de vê-los?

- Claro, mande-os entrar.

Eleanor atendeu ao pedido do amigo, foi até lá fora e chamou os dois. Quando o Sr. Dalton olhou para eles deixou muito evidente a surpresa estampada em seus grandes olhos arregalados, e completamente surpreso exclamou:

- Não pode ser!
 

 

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