Quase quatro dias já haviam se passado desde o estranho sonho de Emily, apesar de não compreender o sonho, ela achou por bem esquecer o ocorrido. A convivência com David estava o que poderia chamar de tranqüila, pois se resumia apenas a raros e rápidos cumprimentos, o que a aliviou bastante, não que ela sentisse a mesma raiva de quando se conheceram, mas tanto ela quanto ele serem cabeças-duras, nenhum dava o braço a torcer.
Emily passava todo o seu tempo colhendo informações para sua tese sobre construções antigas, e seu estado de conservação. Ela percorria cada cômodo daquela imensa e bela casa, Pemberley era o que se poderia chamar de palácio real, isso a deixava feito uma criança que acabara de ganhar o prêmio dos seus sonhos. Mas depois de percorrer toda a casa, ela percebeu que o último dos cômodos dos cinco existentes permanecia fechado, o que lhe soou estranho, pois percebeu que nem os empregados entravam lá para limpar, mas qual o motivo de tanto mistério?
Um dia antes do almoço sem ter muito que fazer, pois chovia forte e caminhar estava totalmente fora de questão, Emily foi até a cozinha para sondar o motivo de um andar inteiro estar fechado. Encontrou Eleanor dando as últimas ordens para as cozinheiras.
- Bom dia Eleanor!
- Oh! Emily, deseja alguma coisa?
- Não, só vim aqui conhecer finalmente a cozinha, que por sinal é belíssima.
- Isso é mesmo, me dar um imenso prazer em cuidar dela e do resto da casa, é tudo tão lindo. Como vai o seu trabalho? A sua te... te...
- Tese. – Completou Emily rindo.
- Isso mesmo. Como vai a sua tese?
- Está indo muito bem Eleanor, cada canto desta mansão exala história e é um prato cheio para minha tese. E sabe o que mais me chama atenção? É que apesar de já ter tido tantos donos ela continua assim, como se tivesse parada no tempo.
- Eu também estranhei isso quando vim de Londres para ajudar meus pais que já trabalhavam aqui, há muito tempo atrás eu ainda era uma menina. – Eleanor falou com certa nostalgia.
- Então você deve conhecer todos os segredos desta casa, não é Eleanor?
- Segredos? Na entendi.
- Em minhas pesquisas pela casa percebi que o último andar está fechado, a porta que dá nas escadas que levam a ele está trancada. E notei inclusive que nenhum empregado entra lá, nem ao menos para limpar. Você sabe o porquê disso Eleanor?
- Menina essa é uma pergunta que há muito tempo eu deixei de fazer.
- Como assim?
- Desde que pus meus pés aqui em Pemberley que aquele andar está fechado, e quando perguntava isso aos meus pais, eles me davam a mesma resposta que lhe darei agora. – Ela fez uma pausa, sentou na cadeira mais próxima e olhando fixamente para Emily continuou. – Há muito anos, ouso dizer que há mais de um século que ele está fechado, mas ninguém sabe dizer ao certo o motivo ou o que contem lá, isso é um mistério que nem os herdeiros ao longo desses anos sabiam.
- Isso é impossível Eleanor!
- Acredite, ninguém sabe! Lembro-me muito bem de quando era criança e meus pais e outros empregados mais velhos comentavam sobre o tal andar. São muitas as lendas sobre isso, mas não passam de lendas.
- Quais? Conte-me Eleanor!
- Agora não posso, preciso tomar conta das coisas menina. Você acha que é uma tarefa fácil tomar conta de tudo isso?
- Mas Eleanor...
- Sossegue menina, eu terei muito tempo para lhe contar tudo. Agora me deixe terminar se não este almoço não vai sair e o Sr. Adams trará visitas para o almoço lembra?
- É verdade, esqueci. Vou me arrumar.
Emily correu na direção do seu quarto, esquecer completamente que haveria convidados do Sr. Adams para o almoço.
David já estava prestes a sair do quarto quando ouviu barulho de carros e resolveu olhar pela janela, percebeu que desceram, além do Sr. Adams, um jovem rapaz e uma linda ruiva, que como se tivesse percebido que estava sendo observada olhou para a janela, David se sentiu completamente mortificado por ter sido pego em uma situação tão constrangedora. Tomou um grande susto quando um empregado da casa bateu na porta do quarto para avisar da chegada dos convidados.
Já na sala David foi recebido com muita cordialidade pelo Sr. Adams que tratou logo de apresentar os convidados. Primeiro apresentou ao Sr. Dillan Daves, ele era jovem, com longos cabelos castanhos e com uma cara que não inspirou muita confiança. Em seguida, o Sr. Adams apresentou a irmã dele a Srta. Caren Daves, ela era uma mulher muito atraente, não era muito bonita, mas extremamente sexy, tinha os cabelos vermelhos e encaracolados, os olhos verdes e grandes que combinavam perfeitamente com sua pele branca e seu sorriso encantador. David cumprimentou os dois e em seguida iniciaram uma conversa amigável.
Emily ao descer as escadas já ouvia o sorriso falso de mulher, isso já acendeu o seu sinal de alerta, pois desde pequena tinha plena confiança no seu sexto sentido. Quando finalmente se juntou aos outros e após as apresentações ela pôde confirmar Caren Daves era o que poderia chamar de interesseira e vulgar. Todos seguiram para a mesa, o almoço transcorreu tranquilamente, entre as extremas atenções de Dillan a ela e de sua irmã a David, o que para esse era a coisa mais normal do mundo. “certamente ele deve estar se achando o último biscoito do pacote, como ele é convencido” pensou Emily.
Após o almoço já no escritório onde todos estavam reunidos, o Sr. Adams começou a ler o testamento. Quando finalmente terminou passou a fazer as observações finais.
- Bem como acabei de ler, Pemberley e quase todas as suas terras passará para o Sr. David Russell e para a Srta. Emily Miller. Já para o Sr. Daves ficarão duas propriedades menores que fazem parte da herança.
- Mas no caso dele, ele poderá vender a sua parte na herança?
- Aqui não há nenhuma objeção quanto a isso Sr. Russell.
- Mas por que só ele pode vender? Quer dizer, eu a Srta. Miller seremos obrigados a ficar presos a Pemberley para sempre?
- Sim, a menos que um ou outro abra mão da sua parte. Bem, agora que todos estão cientes da divisão eu devo ir. Preciso preparar a documentação da posse, lembrando que será apenas no final do prazo estipulado pelo tio de vocês.
- Então acho que nós também devemos ir querida irmã. – falou Dillan.
- Mas está chovendo tanto Dillan, não será perigoso voltarmos nestas condições? - Caren falou enquanto olhava para David.
- Acho que vocês podem ficar conosco até amanhã. Há vários quartos na casa, mas claro se a Srta. Miller não se opuser.
David falou olhando para Emily, que sem alternativa apenas concordou, mas ela não sabia o porquê, mas aquela gente não lhe inspirava confiança. Após a partida do Sr. Adams que alegou não poder ficar por questões de trabalho urgentes, Eleanor a pedido de David encaminhou os hospedes aos quartos.
Durante todo o resto da tarde os irmãos Daves ficaram em seus respectivos quartos, David resolveu ir até a biblioteca que era grande e aconchegante para terminar de ler uns livros aos quais vinha se dedicando nos últimos dias. Emily teve a mesma idéia e sem saber que David estava ali, entrou. Ao vê-lo fez menção de voltar, mas foi surpreendida pelo chamado dele.
- Srta. Miller! Não precisa sair só por minha causa.
- Não... era por sua causa, quer... quer dizer, não quero atrapalhar sua leitura.
- Não irá atrapalhar, confesso que já estou cansado de não ter nada para fazer.
- Confesso que eu também. – Emily falou arrancando risadas dos dois.
Um silêncio constrangedor tomou conta de ambos, nenhum sabia por onde começar qualquer assunto, até que David tomou a iniciativa.
- Srta. Miller, quero muito lhe pedir desculpas pela forma grosseira como agi e venho agindo com a Srta. desde que nos conhecemos.
- Imagine, eu é quem devo me desculpar, afinal fui eu quem começou tudo provocando aquele acidente.
- Não, eu é quem não aceitei as suas desculpas.
- Bom se você então admite que é um ogro, eu acho que posso admitir que sou uma barbeira no trânsito. – Os dois riram gostosamente com o comentário.
- Então estamos quites? – David perguntou estendendo a sua mão.
- É uma trégua? – Emily perguntou estendendo a sua.
- É acho que sim.
- Bem agora vou subir, para me preparar para o jantar.
- Ah! Claro o jantar. Eu vou logo em seguida.
Como David ainda continuava segurando a mão de Emily, ela olhou para as mãos e riu, ele muito encabulado deu um sorriso sem jeito e soltou. “Você é um idiota David Russell” esbravejou.
O jantar transcorreu sem nenhum acontecimento especial, pois Caren Daves monopolizava toda a conversa falando de sua maravilhosa vida de atriz, mesmo ela alegando que fazia sucesso em seu país, Emily desconfiava de tudo o que ela falava, e por vezes segurava o riso quando percebia que a mentira estava de mais.
Após o jantar enquanto Caren praticamente se jogava em cima de David no sofá, Emily foi até a varada, tomar um pouco de ar. Olhou para trás e se deu conta que Dillan vinha em sua direção, procurou manter seu autocontrole e com o mais belo sorriso que tinha o recebeu.
- Acho que o céu esta prestes a desabar de tanta chuva. – Ele tentou puxar assunto.
- Aqui sempre chove tanto assim?
- Nesta época do ano chove bastante, e às vezes chega a nevar.
- Nossa!
- Se vai ser a nova dona de Pemberley terá que se acostumar com o nosso clima. Pretende morar aqui, abandonar Nova York?
- Ainda não pensei nisso. Não gosto de planejar muito minha vida.
- Sei, você parece tão certinha, organizada.
- Isso não quer dizer que eu não seja.
- Isso é verdade. – Ele riu
- Dillan pelo que soube você cresceu aqui.
- Sim, na verdade eu nasci aqui e só saí para estudar em Londres, fui estudar Administração para ajudar seu tio com Pemberley, mas infelizmente ele se foi antes do seu sonho se realizar sabe.
- Sei. Então você esta querendo me dizer que o meu tio gostaria que você administrasse Pemberley?
- Ele dizia que esse era o seu grande sonho.
- Então por que ele deixou tudo pra nós e não para você? – Emily perguntou com um tom desafiador.
- Também não entendi, pois ele dizia que como não tinha herdeiros e me considerava seu filho, deixaria tudo para mim, mas do nada mudou de idéia.
- E isso o deixa triste?
- Não, em absoluto! Eu adorava seu tio, após a morte do meu pai passei-o a considerar meu pai. E acato muito feliz a decisão dele, sei que teve um bom motivo.
- Claro, você é tão compreensivo Dillan. Isso é admirável.
Emily falou num tom quase debochado, pois não acreditava em uma só palavra do que acabara de ouvir. Voltou para a sala e se juntou a David e Caren, após mais um pouco de conversa Caren e Dillan resolveram ir dormir, David e Emily continuaram na sala. Então Emily resolveu dividir suas suspeitas com David.
- O que achou deles Sr. Russell?
- Primeiro me chame de David, por favor. E quanto a eles, não sei, acho que são boas pessoas. Mas pelo que percebi você não pensa o mesmo.
- Não sei dizer, mas não confio neles.
- Bobagem Emily, desculpe posso te chamar assim?
- Claro.
- Acho que você está apenas cismada. Sabia que ele era o herdeiro disso tudo antes do nosso tio mudar de idéia?
- Soube agora por ele. E você não acha isso muito estranho? Quer dizer, era para no mínimo ele nos odiar.
- Emily nem todo mundo é ruim assim!
- Talvez você tenha razão. Acho melhor ir dormir, você não vem?
- Vou depois. Até amanhã.
- Até amanhã. – Quando Emily ia chegando às escadas se voltou para ele e perguntou de repente.
- David!
- Hum?
- O nome Lizzy lhe diz alguma coisa?
- Lizzy?... Não me é completamente estranho, mas não sei onde ouvi. Mas por que você perguntou?
- Nada, esquece. Boa noite!
Emily subiu as escadas praticamente correndo, deixando David agora pensativo, aquele nome não lhe era completamente estranho, mas ele não lembrava dele. Serviu mais uma taça de vinho e ficou tentando lembrar-se de onde conhecia alguma Lizzy...
David acordou assustado ao perceber que estava recebendo beijos por seu rosto, deu um pulo do sofá e ficou observando o olhar assustado daquela linda mulher que estava a sua frente. Esfregou os olhos e percebeu que era Emily, ao menos parecia ela, só que quando olhou novamente percebeu que ela estava diferente, com os cabelos negros, presos em uma longa trança, seus olhos eram negros e vivos, e neste momento assustados, ele só conseguiu dizer:
- Desculpe!
- Desculpe a mim meu amor se o assustei. É que não resisti ao te ver dormindo aqui na sala, você como sempre estava lindo.
- Emily?
- Como? Darcy você está bem? Está acordado?
- Eu... estou.
- Vem, vamos para o nosso quarto, tenho uma surpresa pra você.
- Eu...
- Anda Darcy! Não vai me deixar mais tempo sentindo frio naquela imensa cama sozinha, vai?
- Vá na frente, eu vou logo em seguida.
- Tem certeza que está bem meu amor?
- Claro... Estou ótimo.
- Então estarei esperando você no quarto, temos que aproveitar enquanto as crianças dormem, desde que elas nasceram não tivemos muito tempo pra nós.
- Eu irei logo.
David ficou paralisado, apenas observando aquela mulher se afastar. Aquilo tudo era uma loucura! Quem era ela? Crianças? E por que ela o chamava de Darcy? Balançou a cabeça e deitou novamente no sofá, fechou fortemente os olhos como se quisesse acordar de algum sonho...
David abriu os olhos e percebeu que estava só, então começou a entender tudo, ele certamente devido ao vinho acabou pegando no sono e sonhado. Levantou e ainda anestesiado foi para o seu quarto.
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