David achou aquela voz doce e muito sensual, abriu um largo sorriso ao pensar na beleza por trás daquela voz, e devagar foi virando. Quando seus olhos se encontraram ele não acreditou no que viu, ou melhor, em quem viu. Aquilo só poderia ser um pesadelo, o que aquela mulher fazia ali parada a sua frente? Algo estava errado e ele precisa esclarecer o mais rápido possível. Emily parece ter tido a mesma idéia e em uma só voz eles falaram:
- Você!
- O que você está fazendo aqui? – David perguntou incrédulo.
- Eu é quem pergunto o que você está fazendo na minha propriedade, certamente veio se desculpar por sua grosseria e...
- Você disse sua propriedade?
- Quer que eu soletre? É claro que é minha casa. Mas responda o que quer aqui, se for o que estou pensando, eu não desculpo, pois eu nunca fui tão destratada em toda a minha vida. Você não teve educação não meu filho? Sim porque agir da forma como você agiu, só um ogro mesmo.
- Acabou? – Perguntou David impaciente.
- É, acabei! – disse ela meio sem jeito.
- Vou responder às suas perguntas. Primeiro não, eu não vim pedir desculpas tendo em vista que você é que me deve umas. Segundo, eu fui muito bem educado, obrigada. E terceiro, essa aqui é minha casa.
- O quê? Como assim sua casa?... Ai Meu Deus! David Russell?
- Emily Miller?
- Isso só pode ser uma pegadinha. Você está de brincadeira comigo, não está?
- Vai demorar muito para a ficha cair? Eu não tenho o tempo todo se é que me entende.
- Desculpem! O Sr. Adams acaba de chegar.
Eleanor interrompeu aquela discussão meio encabulada. O Sr. Adams adentrou a sala sorridente, mas logo o desfez ao perceber o clima de tensão que pairava na sala. Após as saudações todos seguiram na direção ao escritório.
- Pelo que vejo vocês já se conhecem?
- Infelizmente sim. – Disse Emily emburrada.
- Bem... Então isso facilita muito o meu trabalho. Como sabem seu tio deixou toda a propriedade para os dois em partes iguais, além da casa a propriedade possui algumas terras que estão arrendadas e isso é a fonte de renda de Pemberley, é com esse dinheiro que os empregados e as contas são pagas.
- Sr. Adams, eu tenho uma pergunta.
- Claro Srta. Miller. Quantas quiser.
- Eu tenho que ficar realmente dois meses inteiros olhando para cara deste senhor?
- Ah! E por acaso você acha que isso é o grande sonho da minha vida? - David falou sarcástico.
- Respondendo a sua pergunta Srta. Miller. Eu receio que sim, afinal essa é uma das condições do seu tio. Para que possam receber suas partes terão que permanecer por dois meses inteiros aqui.
- E se eu não quiser isso? Quero dizer, eu não fico nem mais um minuto nesta casa com este homem desagradável. Nem que isso me custe a minha parte na herança.
- Ótima idéia! Pode ir, acredite eu chorarei muito a sua partida.
- Srta. Miller se fizer isso, se for embora a sua parte passará para o Sr. Russell imediatamente. E isso serve para o senhor também.
- Acredite Sr. Adams eu não tenho a menor intenção de ir embora daqui. Mas se a Srta. Miller não quer ficar o que poderemos fazer não é mesmo?
- Eu não fico nem mais um segundo olhando para essa sua cara, seu... seu... ogro!
Emily saiu batendo a porta do escritório, ela nunca poderia conviver com um homem grosso daqueles, era demais pra ela. Encostou-se na porta, sua respiração estava ofegante de raiva, aquele tal de David sabia deixá-la irritada. Quando se preparava para ir para o quarto algo passou por sua cabeça, ela era Emily Miller Darcy e nenhum fulaninho a tiraria do sério, e se ele queria guerra, iria ter. Abriu a porta do escritório novamente e foi na direção de David que se encontrava sentado em uma poltrona, colocou as mãos em cada “braço” da poltrona, abaixou um pouco, seu rosto ficou a poucos centímetros do rosto dele e com uma voz desafiadora falou:
- Mudei de idéia Sr. Russell. Eu não vou a lugar algum e acredite-me também sou boa de guerra. E no final de dois meses vamos ver quem vai embora!
Agora voltada para o Sr. Adams que assistia a tudo tão perplexo quanto David que não conseguiu esboçar nenhuma reação, ela falou:
- Sr. Adams queira me perdoar por minha atitude a pouco, mas agora lhe garanto quero minha parte mais do que nunca, agora virou uma questão de honra. Passar bem Sr. Adams, infelizmente não posso dizer o mesmo ao senhor.
Emily disse enquanto fulminava David com o olhar. Muito dona de si saiu do escritório deixando dois homens surpresos e sem entenderem absolutamente nada. Com um sorriso vitorioso ela se dirigiu ao quarto, quando estava nas escadas foi surpreendida por Eleanor.
- A senhorita vai subir? O jantar será servido agora.
- Eleanor se eu comer na mesma mesa que aquele senhor. Eu juro que vou vomitar. Prefiro dormir com fome.
- Quer que eu leve seu jantar em seu quarto?
- Faria isso Eleanor? Eu lhe agradeceria, pois estou faminta.
- Claro Senhorita. Levarei em seguida, assim que servir o jantar dos demais.
David e o Sr. Adams foram avisados sobre o jantar, quando chegaram à sala de jantar David percebeu logo a ausência de Emily, mas não questionou nada, comeram sem tocar mais no assunto.
Após o jantar o Sr. Adams se despediu e partiu rumo a Londres, David ficou um pouco mais na sala e em seguida foi para o seu quarto, tentou dormir o que foi em vão, o dia havia sido muito agitado, na verdade sua vida naquele momento estava muito agitada, pensou em tudo o que estava acontecendo e então se lembrou de sua mãe, ela certamente amaria aquele lugar, Pemberley era certamente o que para ela era o ideal de paz e tranqüilidade, foi pensando em sua mãe que David finalmente adormeceu com um lindo sorriso nos lábios.
Emily comeu com vontade a refeição maravilhosa trazida por Eleanor, afinal ela estava faminta, caminhar com um monte de malas e com aquele salto, só em lembrar-se disso ela reafirmava toda a sua raiva por David Russell, que homem grosso, mal educado. E além de tudo isso ainda por cima era um convencido, um esnobe, mas se ele estava pensando que a venceria estava muito enganado, ela iria mostrar quem era Emily Miller. Acabou dormindo de tanta raiva.
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Fazia uma bela manhã em Pemberley, os raios de sol entravam pela enorme janela indo na direção do rosto de Emily que a contragosto se espreguiçou na enorme e confortável cama, abriu os olhos bem devagar, levantou mais preguiçosa ainda sentando na cama, só então observou a beleza do quarto, aquela decoração era maravilhosa, abriu um imenso sorriso ao lembrar que iria adquirir uma boa experiência para o seu trabalho explorando aquela casa que parecia ter parado no tempo. Tomou um bom banho, escolheu uma roupa leve, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e desceu para tomar seu café da manhã. Ao descer não encontrou David o que lhe deu um grande alívio, encontrá-lo de manhã cedo certamente lhe tiraria o seu bom humor, sentou-se à mesa e sorriu com satisfação quando Eleanor entrou na sala.
- Bom dia Eleanor!
- Bom dia Srta. Miller! Dormiu bem?
- Dormi maravilhosamente bem. E Eleanor, por favor, me chame de Emily sim.
- Como preferir. Deseja mais alguma coisa para o seu café?
- Imagine Eleanor, está mais que perfeito, obrigada.
- O Sr. Miller acordou bem cedo e foi cavalgar.
- Ah! - Emily falou em um tom de desdém.
- E o que vai fazer hoje Emily? Com um dia tão lindo é até pecado você ficar em casa.
- Acho que vou dar uma volta, fazer uma caminhada, pois ainda não tive oportunidade de conhecer a propriedade, nas condições que cheguei nem observei nada.
- Ótima escolha, Pemberley tem vários lugares maravilhosos para se conhecer, tenho certeza que você vai adorar. Agora vou deixá-la comer em paz.
Enquanto Eleanor se afastava Emily pensava por onde começaria sua caminhada. Ao atravessar o enorme jardim, Emily olhava admirada a quantidade de flores que tinha ali, e como eram bem cuidadas. Em seguida foi em direção ao bosque, o clima estava agradável, não fazia calor e uma leve brisa vez ou outra tocava seu rosto. Caminhou por horas sem nem se dar conta que o tempo estava passando, cada vez admirando mais a beleza e o encanto daquele lugar, quando finalmente sua barriga lhe dera indícios de que já era hora do almoço se levantou do chão e começou a caminhar de volta para a casa, enquanto andava não percebeu a aproximação de David, quando finalmente ouviu seus passos olhou para trás assustada.
- Você me assustou! – Esbravejou Emily.
- Desculpe senhorita. Não foi minha intenção.
- Sabe, o meu dia estava tão bom, mas é só você aparecer para o meu mau humor aflorar.
- Você também não é a melhor companhia.
- Já começaram as ofensas. Vou voltar para casa.
- Srta. Miller! Por favor, espere.
- Nossa o ogro sabe ser educado. Quem diria!
- Já vi que com você não tem diálogo.
David saiu e deixou Emily sozinha o que a irritou profundamente, definitivamente seria muito difícil conviver com aquele homem tão carrancudo, perdeu a fome por completo, entrou em casa e subiu direto para o seu quarto, apesar dos protestos de Eleanor. Deitou em sua cama e acabou adormecendo vencida pelo cansaço.
A melodia perfeita que saia do piano acordou Emily, já era quase noite, ela não podia acreditar que havia dormido tanto. Levantou e olhou a sua volta e viu que o quarto estava iluminado por velas, teria faltado luz talvez, - pensou. Decidiu levantar para saber o que havia acontecido, só então sentiu o peso da roupa que vestia, se olhou no espelho diante da cama e ficou assustada como o que viu. Estava com um vestido típico do século XIX, ficou confusa, afinal o que estava acontecendo? Saiu do quarto seguindo a direção da música que continuava ecoando por toda casa, percebeu que vinha da sala de música, que ela não conhecia, mas estranhamente sabia onde ficava. A porta estava entre aberta e ao olhar pelo espaço viu um homem sentado ao piano, ele vestia roupas antigas como as suas, ficou ainda mais confusa, nada daquilo fazia sentido, estava tão envolta em seus questionamentos que nem percebeu que havia sido notada, aquele homem agora vinha em sua direção. Emily abriu ainda mais seus olhos ao perceber a semelhança impressionante daquele homem com David Russell, era incrível, mas era o David, só que com roupas de época, seu cabelo estava um pouco maior, quase na altura dos ombros. Ao chegar perto dela, ele abriu um largo sorriso e lhe estendeu a mão.
- Querida, vejo que já se sente melhor! Fiquei tão preocupado com você. Se sente bem não é?
- Eu... é, estou bem.
- Venha sente-se aqui. As crianças sentiram sua falta no almoço e eu também.
Crianças? Como assim? Emily estava completamente zonza com tudo aquilo, quando estava prestes a falar, ouviu o barulho da porta se abrindo e por ela entraram duas crianças pequenas, um menino que aparentava uns cinco anos e a menina parecia ter três, elas entraram correndo e pularam no colo dela, uma criada entrou em seguida.
- Perdoe-me senhora. Mas eles queriam muito vê-la! Desculpe-me Sr. Darcy!
- Não precisa se desculpar Anne. Vitória e William sabem que não devem entrar dessa forma nos lugares.
- Desculpe papai! – As crianças falaram de uma só vez.
- Mamãe você tá dodói? – Perguntou a menina enquanto acariciava os cabelos de Emily.
- Eu... Eu estou bem querida.
- Papai podemos tocar para a mamãe, pra ela se sentir melhor! – William falou dando pulinhos de alegria.
- Acho que está na hora de você se prepararem para o jantar. Vão com Anne agora, depois tocaremos para a mamãe.
A contragosto as crianças beijaram Emily e aquele homem e saíram. Emily estava estranhamente sem ação, algo a impedia de falar, de contestar, era como se ela estivesse ali apenas para observar. Após a saída das crianças ele olhou para ela com o olhar carregado de ternura, sentou ao seu lado, pegou suas mãos e com muito carinho começou a falar:
- Lizzy. Eu agradeço todos os dias a Deus por ter uma família tão linda como a nossa. Eu a amo por muitos motivos, e um deles são nossos filhos maravilhosos.
Ele falou enquanto se aproximava lentamente do rosto dela, aquilo a perturbou muito, ele estava prestes a beijá-la, seus rostos estavam tão próximos, ela podia até sentir o hálito quente dele, quando seus lábios quase se tocaram, Emily se ergue rapidamente e falou a primeira coisa que lhe veio à mente.
- Também vou me preparar para o jantar.
Saiu quase correndo dali, com o coração aos pulos, completamente acelerado. Andava com passos guiados, como se soubesse exatamente para onde estava indo, entrou pela porta que estava a sua frente e percebeu que estava no mesmo quarto que havia saído. Sentou na cama, tudo estava confuso, de repente tudo começou a girar e a luz se apagar completamente dos seus olhos...
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Emily acordou em um sobressalto, estava suada e confusa. Olhou o quarto e respirou aliviada ao perceber que tudo havia sido apenas um sonho, um sonho bem real, mas apenas um sonho.
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