Citações

Não podemos exigir que um rapaz despreocupado seja sempre prudente e circunspecto. Muitas vezes é apenas a nossa vaidade que nos engana. (Jane Austen)

Entre o Céu e a Terra - Capítulo XV (FINAL)

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Capítulo 15 (FINAL)

O chamado pelo bipe era para outro paciente em coma que havia piorado. Mas o que mais eu esperava? Que Elizabeth de repente tivesse se levantado e estivesse consciente e andando pelo quarto?  Como médico eu sabia que as coisas não aconteciam desta forma, por mais que eu desejasse e que ela fosse jovem e saudável. Mas embora não acontecesse em um passe de mágica ou por um milagre, provavelmente porque tais coisas de fato não existam, Elizabeth se recuperou, ainda que lentamente. Depois de alguns dias, ela abriu os olhos, mais um pouco e começou a fazer movimentos mais coordenados e ao final daqueles dias longos e difíceis felizmente não houve sequelas, nem para ela nem para a gravidez.

Assim que ela já estava mais consciente, aproveitei uma oportunidade em que estávamos a sós e a pedi em casamento. Não era o lugar mais romântico para este tipo de pedido, mas eu não queria ter que esperar por um lugar especial e ocorrer outro imprevisto. A caixinha com as alianças estava constantemente comigo e o tão esperado “SIM” soou tão perfeito aos meus ouvidos que a beijei apaixonadamente, correndo o risco de ser apanhado de surpresa por quem entrasse para visitá-la. Quando me ergui, Caroline passava pela janela envidraçada, e creio que ela soube então que definitivamente deveria abandonar qualquer ilusão a meu respeito.  Mais tarde ela foi para os Estados Unidos com Wickham, com quem soube que ela mantinha um relacionamento estável desde então, ainda que sem casamento e sem filhos, ele se tornando um cirurgião de muito sucesso em Los Angeles.

Lizzie me disse que sua percepção daquele período foi de que se encontrava em uma espécie de limbo de inconsciência, não se recordando de nada, nem mesmo de algo semelhante a um sonho, exceto pela recorrente visão que tinha de uma ampla e bela construção de paredes brancas em meio a árvores e um lindo jardim com um lago, que lhe pareciam familiares.  Eu sorri, mas me abstive de comentários.  Como dizia

Shakespeare, há muito mais entre céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia... Assim que ela teve alta, nos casamos em uma cerimônia íntima em Pemberley, com a presença dos amigos mais próximos e das famílias.

 

 

**************************

Trilha Sonora:

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Kim - A FELICIDADE é...

 

De manhã me lembro de você

Não tem jeito nenhum de esquecer

Dos teus olhos, teu jeito, tua voz,

Do Amor que habita em nós

Deus me fez pra te amar

Eu sei... Que a felicidade é...

Hoje eu quero poder construir

Um Castelo de sonhos pra nós

Pra que a gente pudesse fugir

Com o nosso tesouro a sós

Sei que Deus fez você pra mim

Sei sim... Que a felicidade é...

 

 

 

Em frente à janela de nosso quarto se descortinavam os imensos labirintos do majestoso jardim de Pemberley. Perdido em meus pensamentos, eu observava a bruma da manhã e o orvalho que molhava as aléias iluminadas pelo sol que nascia e ao olhar para o despertador, fiquei surpreso em ver que ainda não havíamos chegado a seis horas.

− Will, o que está fazendo em pé a esta hora? Volte para perto de mim. – Lizzie me pediu ainda com os olhos entreabertos e uma voz suplicante.

− Seu pedido é uma ordem!

Eu me deitei, ela se aninhou em meu peito e eu a beijei suavemente.

− Sempre fica com o pensamento distante quando estamos em Pemberley...

− Estava me lembrando dos dias em que você ficou desacordada.  Pareceu uma eternidade!  Quando finalmente soube que você abriu os olhos, saí às pressas pelo hospital para vê-la e só então acreditei que você estava tão viva quanto eu.

− Aconteceu o mesmo durante meu parto... Não se afastou de mim nem por um momento e acho que se pudesse, nem deixaria outro médico cuidar de mim... Quase fui forçada a pedir que o tirassem do centro cirúrgico, você se lembra, não é?

− Não foi bem assim... − Respondi com um sorriso ao me lembrar de meu papel de pai naquela ocasião, tão ansioso e descontrolado como qualquer outro, apesar de toda minha experiência clínica.

− Como não?

− Eu só estava tentando garantir que tudo corresse bem, não queria ver minha esposa correndo nenhum risco...  A gestação de gêmeos sempre exige mais cuidados.

− Você estava era tão ansioso que queria fazer o trabalho do Cooper. Mas ver suas lágrimas no momento que eles nasceram... Quando os levou para me mostrar, Will, você ficou tão bobo...

Um brilho especial surgiu no rosto de Elizabeth ao dizer estas palavras.

− Eu apenas demonstrei toda a emoção que senti, seguindo a sugestão que uma médica uma vez me deu quando precisamos fazer uma cesariana de emergência... Lembra?

Eu a beijei apaixonadamente desta vez.  O mais difícil de acreditar entre nós dois é que a cada dia que eu acordava ao lado de Lizzie me sentia atraído por ela como se fosse a primeira vez em que estávamos juntos.

− Sete anos de casados e o seu aniversário na mesma semana... Bons motivos para comemorarmos... – Elizabeth era muito boa em se lembrar de datas, ao contrário de mim, que nem havia me recordado de que havia uma festa prevista para aquele dia.

− Preferia uma comemoração mais íntima. Sem convidados.  Só nós e as crianças e depois, só nós dois...

Agora eu queria bem mais do que beijá-la e comecei a acariciar seu corpo.

− Podemos ter nossa comemoração particular e mais tarde recebermos nossos convidados... Afinal, são praticamente a família e uns poucos amigos mais chegados.

− Está bem. – Respondi conformado. – Desde que nós possamos ficar juntos agora...

Eu tornei a beijá-la, provocando-a ao aumentar o ritmo das carícias.

– Espere... Eu tenho algo para lhe dar... – O olhar de Lizzie tinha uma expressão de quem pretende fazer uma surpresa.

− Um presente?

− Bom, antes de mais nada, precisamos fazer uns exames

− Exames?

− Precisamos saber como está seu coração, sua respiração... − Lizzie falava sensualmente ao meu ouvido enquanto esticava o braço procurando às cegas o estetoscópio na gaveta da cabeceira, que conseguiu apanhar e usou para me auscultar.

− E o que a doutora está achando dos meus batimentos cardíacos?

Ela deixou o aparelho de lado e começou a fazer sensuais movimentos com os lábios sobre meu peito e meu pescoço.

− Espere, William, você está bem? Seu coração está tão acelerado... – Ela disse sorrindo.

− Estou ótimo! Só sofro desse mal quando estou perto de minha esposa. Mas também sou médico e gostaria de ouvir seu coração, minha cara Drª. Elisabeth Benett.

Colei meu ouvido ao seus seios que depois beijei demoradamente, sentindo-a abandonar-se aos meus braços.

− Dra. Elizabeth, não imagina como me deixa louco... – Eu arremessei o estetoscópio que estava sobre a cama para algum lugar do quarto, enquanto a enlaçava e acariciava com meu corpo, meus lábios e minhas mãos.

− Lizzie...  – Sussurrei seu nome antes de nos amarmos ardentemente naquele início de manhã, e depois voltamos a dormir mais um pouco, abraçados um ao outro.

Acordamos um pouco mais tarde, e as carícias ainda estavam latentes entre nós, mas antes que pudéssemos continuar o que antes havíamos começado, batidas na porta entremeadas a vozes infantis nos interromperam, e sem que pudéssemos proferir qualquer palavra, o quarto foi invadido pelos pequenos, que pularam sem a menor cerimônia em cima de nossa cama.

− Mamãe, Papai! −  gritaram em uníssono, Melissa e Joseph, nos abraçando e beijando.

Melissa tinha cabelos escuros e lisos, e profundos olhos azuis, igual a mim. Joseph era a versão masculina de Lizzie, cabelos escuros lisos ondulados e  olhos castanhos escuros e cheios de brilho como os da mãe.

− Parabéns, papai, este é nosso presente para você. − Disseram os gêmeos, me entregando uma caixa de presente.

− Nós fizemos juntos.  − disse Joseph orgulhoso.

− O que será? Estou curioso. – Afaguei os cabelos das duas crianças e olhei para Lizzie sorrindo.

Ao abrir a caixa de presente, me deparei com um desenho  infantil que retratava a nossa família completa.

− Está vendo, pai. − disse Melissa. - Somos nós quatro: eu, você, mamãe e Joseph, de  mãos dadas, e aqui atrás é a nossa casa.

Eu tinha certeza de que aquele era o presente mas valioso que eu já recebera em toda minha vida. Os abracei e beijei na testa, agradecendo o presente e informando que emolduraria e faria um quadro para colocá-lo em meu escritório. E cumprimentei-os dizendo que os dois eram verdadeiros artistas.

Os pequenos ficaram satisfeitos e sorriram um para o outro. Lizzie parecia tão emocionada quanto eu com a cena singela, e me abraçou e depois beijou as crianças.

Ela tivera a ideia de dar a Joseph o nome de meu pai e a Melissa o nome de  minha mãe. Havíamos combinado que ela também escolheria o nome de nosso terceiro filho, mas ainda não havíamos decidido quando  aconteceria.

− Chegaram outros presentes, mas nós queríamos dar o nosso primeiro ... – Joseph anunciou dando um sorriso banguela do primeiro dente de leite que perdera.  − Tia Georgiana mandou este aqui, mas disse que era para abrir só na hora da festa... Mas podemos abrir agora?

Sem que houvesse tempo para nos opormos, o pequeno artefato de papelão ondulado e papel de seda foi rapidamente desembrulhado pelas crianças que encampavam os presentes como se fossem seus.  Era um DVD que rapidamente foi inserido no aparelho que ficava em nosso quarto.

De início surgiu a imagem de Georgiana. Deduzi que muito provavelmente o vídeo personalizado fora realizado com ajuda de seu noivo, Brandon, que era um jovem e promissor cineasta.  Ela começava dizendo que o vídeo era um presente não apenas dela, mas de todos os nossos amigos e nossa família.  As crianças ficaram entusiasmadas com a expectativa de verem os tios, avós, primos e amigos desfilando pela tela, e quase não nos deixaram ouvir o que era dito.  Georgiana, com sua habitual extroversão contava com graça de como eu fora mais seu pai do que irmão, dizendo que na verdade eu conseguira ser as duas coisas ao mesmo tempo.  Percebi então desde o início que não seria muito fácil assistir àquele vídeo sem denunciar minhas emoções.  Talvez fosse melhor mesmo assistir agora para depois conseguir vê-lo em público, durante a festa, com mais compostura.

A seguir havia um depoimento de minha Tia Katherine, que relembrou alguns acontecimentos de minha infância e emocionada como poucas vezes eu a tinha visto, disse o quanto tinha orgulho de mim e da família que havíamos construído. Era um grande acontecimento ouvi-la falar daquela maneira, considerando que ela havia feito forte oposição ao meu casamento com Lizzie, só rendendo-se à realidade quando os fatos eram incontestáveis.  Mas esta era Tia Katherine, e eu devia a ela o amparo a mim e minha irmã quando nos tornamos órfãos e lhe seria eternamente grato por isso.

Fitzwilliam e Anne foram os próximos a dizerem mais palavras carinhosas.  Anne havia se transferido para Oxford para estudar, e seu relacionamento com Fitzwilliam se consolidou cada vez mais, apesar das constantes viagens dos dois para estarem juntos. Agora moravam juntos em Rosings, e por incrível que pudesse parecer, minha Tia Katherine não só havia se acostumado com a ideia dos dois juntos como se mostrava uma avó muito dedicada para o bebê de meses que havia nascido daquela união.

Charlotte e Collins, que haviam deixado Rosings e agora também moravam em Londres, também nos enviavam seus cumprimentos. A filha deles, Julie, estudava com Melissa, que deu gritinhos de alegria por ver a amiga falando. Repetia-se com as filhas a grande amizade que havia entre as mães.

Os pais de Lizzie e suas irmãs nos cumprimentaram com sua habitual tagarelice de família grande, à qual eu havia me acostumado após convivermos com mais regularidade.  Atualmente só Kitty ainda morava com eles e era visível que eles sentiam falta de mais filhas em casa.  Lydia se casara com um jovem oficial da Marinha e fora morar em uma das ilhas do Canal, enquanto Mary se tornara uma bem-sucedida executiva em Londres, e ainda estava solteira.

Jane e Bingley foram os próximos.  O casamento deles acontecera um ano depois do nosso, pois Jane realmente decidira testar a persistência de Charles, como Lizzie costumava brincar com o cunhado.  Mas ao que parecia pelos olhares apaixonados que continuavam a trocar e dois filhos depois, John e Peter,  havia valido a pena.  Meus melhores amigos, Charles e Fitzwilliam, tiveram tanta sorte quanto eu.

Olhando para Lizzie que assistia a tudo deliciada, mas não parecia surpresa, entendi que ela havia preparado o vídeo juntamente com Georgiana.  Aliás, foi ela própria a dizer isso no vídeo.  Com simplicidade e aquele belo sorriso pelo qual eu me apaixonara ainda antes de conhecê-la, ela disse que me amava e esperava amar sempre...  Muitas fotos de minha infância e outras minhas com Lizzie, com as crianças e com toda a família passaram pela tela, fazendo meus olhos se turvarem e minha garganta apertar.

Pensando em tudo que nos aconteceu nos últimos tempos, chego á conclusão de que talvez eu estivesse errado quanto a milagres. Eles existem, porém estão nas coisas simples e naturais da vida como acordar a cada manhã e poder ser feliz ao lado de quem se ama. E assim tenho tentado viver desde então, agradecido por cada dia que recebo a mais para viver, sejam eles concedidos por uma força superior, sejam eles simplesmente frutos do acaso que nos faz estar vivos neste planeta.

 

 

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