Capítulo 14
Have you ever been in love - Celine Dion
Você já esteve apaixonado?
Você poderia tocar a luz da lua
Quando seu coração está disparando estrelas
Você está segurando o paraíso em seus braços
Você já esteve tão apaixonado?
Você já caminhou no ar?
Já sentiu que estava sonhando?
Quando você nunca pensou que poderia
Mas poderá ser tão bom
Você já esteve tão apaixonado?
Você já esteve tão apaixonado?
Você poderia tocar a luz da lua
Quando seu coração está disparando estrelas
Você está segurando o paraíso em seus braços
Você esteve tão apaixonado? Esteve?
O tempo que eu passei esperando
Por algo que foi enviado pelo céu
Quando você encontrar, não deixe ir embora
Eu sei
Você já fez uma oração
E descobriu que ela foi respondida?
Toda minha esperança foi restaurada
E eu não estou procurando mais
Você já esteve tão apaixonado? Esteve?
Algum lugar em que você nunca viveu
Algum lugar em que você irá ficar
Quando finalmente encontrar o significado
Você já se sentiu assim?
O tempo que eu passei esperando
Por algo que foi enviado pelo céu
Quando você encontrar, não deixe ir embora
Eu sei
Por que você esteve tão apaixonado? Tão apaixonado...
Você poderia tocar a luz da lua
Você pode até alcançar as estrelas
Não importa se perto ou longe
Você já esteve tão apaixonado?
O ano começou melhor do que o previsto. Na verdade, eu diria que começou maravilhosamente melhor do que o previsto, principalmente porque agora eu tinha certeza de que eu e William sentíamos um pelo outro algo muito além de uma mera atração física. Quando voltamos à Londres, nosso relacionamento no hospital não foi mais segredo para ninguém e Heather me confidenciou que para ela não fora uma novidade, pois sempre desconfiara do jeito como nos olhávamos e dos confrontos que surgiam entre nós dois. Quando contei a William que pretendia me transferir para outro hospital onde realmente pudesse me dedicar à especialidade que desejava, vi contrariedade em seu semblante, mas ele não disse nada a não ser sugerir que eu antes tentasse me integrar à equipe de neurocirurgia do próprio Remembrance.
Eu não me pronunciei de imediato contra a idéia, mas temia me oferecer para aquela função e ser vista como alguém que recebia favores por estar em um relacionamento com um dos integrantes do conselho hospitalar. Felizmente o convite para ingressar na equipe acabou partindo de um dos neurocirurgiões presentes às operações em que eu participara e que sabia do meu interesse, e William, surpreso, garantiu que não tinha interferido em meu favor. Aceitei a proposta, aliviada por saber que ela era uma resposta ao meu esforço e não a uma indicação pessoal de quem quer que fosse.
Algumas semanas depois, em uma festa na casa de Tio Gardiner, Charles e Jane acabaram se encontrando outra vez. Mesmo depois das duras respostas que Jane lhe dera, ele ainda parecia apaixonado, seguindo-a com o olhar durante toda a festa. Eu sabia que Jane ainda o amava, apesar de tudo, e fiquei feliz quando os vi conversando mais tarde. Depois daquele dia eles começaram a se reaproximar lentamente, e Charles, mais confiante agora, não media esforços para demonstrar o quanto a queria perto dele.
Alguns meses depois, a primavera já começara, e embora eu não mais trabalhasse na emergência, continuava no Remembrance, agora fazendo residência em neurocirurgia antes de me tomar uma participante efetiva da equipe.
Meu relacionamento com William se solidificava no companheirismo e na cumplicidade cada vez mais fortes entre nós. Fazíamos planos para o futuro, mas não falávamos em casamento. Eu não estava com pressa para que isso acontecesse, pois desejava antes me concentrar em minha carreira. Mas intimamente começava a sonhar com a privacidade de um lar onde nós dois pudéssemos estar juntos depois das duras jornadas de nossos trabalhos, e me perguntava se William pensaria o mesmo que eu.
Charlotte e Collins haviam marcado casamento e os Lucas não cabiam em si de felicidade por ver sua única filha se casar. A cerimônia se realizaria em Rosings, pois Lady Catherine tinha tanto apreço por Collins que ofereceu a propriedade. Collins, por não costumar contrariá-la, e Charlotte por adorar a ideia de se casar em uma propriedade antiga, prontamente concordaram com a ideia.
Finda a cerimônia íntima e singela em que eu e Darcy fomos padrinhos, decidimos ir para Pemberley descansar durante o restante do fim de semana prolongado. Durante o caminho, eu estava absorta em meus pensamentos, quando William quebrou o silêncio.
− Por que está tão calada, Lizzie? Algum problema?
− Não é nada. Só estou um pouco cansada.
De fato, nas últimas semanas eu sentia que minha resistência andava diminuída, atribuindo o constante cansaço ao ritmo intenso de trabalho. Naquele dia em especial eu sentia meu ventre um tanto dolorido, provavelmente devido à possível proximidade de meu irregular ciclo menstrual, mas esperava que aquele breve descanso em Pemberley pudesse me recuperar para o início de mais uma semana.
William me olhou de lado, deu um sorriso e levantou levemente a sobrancelha, soltando uma das mãos do volante com o qual guiava o carro em baixa velocidade pela estrada vazia, para acariciar meu rosto e ajeitar uma mecha de meu cabelo atrás da orelha. Eu estava contente em retornar àquele lugar tão especial para ele e que também se tornara especial para mim, e repassava em minha mente as reviravoltas de nosso relacionamento até chegarmos àqueles momentos de paz e felicidade em que nos encontrávamos.
Quando chegamos, William saiu com a Srª Reynolds para resolver algumas pendências da propriedade e eu fiquei no quarto entregue à sonolência que ultimamente me dominava, e onde preferi continuar quando ele me avisou que precisava ir à cidade. Mas depois de algum tempo considerei que não devia me entregar daquela maneira à preguiça e decidi sair um pouco ao ar livre para cavalgar, atividade a que vinha me dedicando em minhas estadias em Pemberley. Apesar de não ser ainda muito experiente, eu já me sentia segura para sair sozinha em um animal mais manso, e o cavalariço prontamente selou uma égua bem tranquila à qual eu já estava acostumada.
Fui me afastando lentamente através dos jardins de Pemberley, alcançando uma área mais descampada e propícia para trotar um pouco mais rápido. O verde da vegetação e o azul entrevisto no céu um pouco nublado, apesar do dia seco e agradável, eram agradáveis de contemplar. Quem sabe um dia poderíamos morar ali definitivamente? Talvez quando estivéssemos aposentados, pensei sorrindo com a ideia de William e eu como velhinhos tranquilos sentados em cadeiras de balanço em uma das varandas de Pemberley.
Subitamente o sol surgiu em sua plenitude naquela manhã, e eu, que havia esquecido de colocar óculos escuros, apertei os olhos instintivamente por alguns instantes. Devo ter me contraído sobre a égua de alguma modo que a fez acelerar o trote, e quando abri os olhos para tentar contê-la, percebi que uma árvore com galhos imensos estava em nosso caminho e que o animal seguia rapidamente naquela direção, pretendendo passar por baixo dos ramos que atingiriam quem a estivesse cavalgando, sem parecer inclinada a obedecer meu comando para frear. Minha ansiedade em decidir se insistiria em conter o animal ou se pularia dele parece ter se comunicado à égua que galopou sem me dar tempo de escolher entre uma ou outra coisa. Com o impacto sofri uma queda e caí desacordada.
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Eu havia preparado todos os detalhes com a Srª Reynolds para pedir Lizzie em casamento naquele dia, incluindo um jantar muito especial, mas antes precisei ir à cidade para buscar as alianças encomendadas a um tradicional ourives da família. Felizmente Lizzie havia preferido não ir, não havendo assim risco de se estragar a surpresa, e as alianças estavam prontas a tempo, com uma metade de um coração em diamantes gravado na dela e a outra metade na minha, representando cada um de nós dois como partes de um todo indivisível. Minha mente vagou em um inevitável deja-vu de meu último sonho com Lizzie antes de acordar do coma, quando eu lhe fizera um pedido de casamento e a expectativa de sua resposta me deixava tenso, apesar de minha perspectiva positiva quanto a isso depois de meses de nosso relacionamento.
Imagem das alianças:
http://aliancas.reisman.com.br/wp-content/uploads/2010/10/aliancas_eterno_amor.jpg
Quando cheguei a Pemberley, avistei um cavalo selado e sem cavaleiro vagando em torno do estábulo, e me preocupei porque era naquela égua que Lizzie vinha aprendendo a cavalgar. Quando levei o animal ao cavalariço ele ficou surpreso ao vê-lo, explicando que fora Elizabeth quem partira com a égua há algum tempo. Eu tomei um cavalo mais veloz e galopei na direção que ele indicou como provável caminho que Lizzie havia tomado, encontrando-a caída debaixo de uma árvore, um filete de sangue escorrendo de sua testa.
Por mais treinado que eu fosse para me defrontar com aquele tipo de situação, era completamente diferente quando se tratava de alguém a quem eu amava. Verifiquei aliviado que ela ainda tinha pulsação e que sua respiração estava normal, tentando reanimá-la sem sucesso. Além de um provável traumatismo craniano, aparentemente não havia fraturas graves, mas eu não iria removê-la em um cavalo ou nem mesmo em um carro. Liguei imediatamente para o resgate aéreo do Remembrance, pedindo que viessem buscá-la, e depois liguei para a Srª Reynolds explicando o ocorrido. Os serviços médicos próximos a Pemberley eram bem precários e eu sabia que um helicóptero seria o meio mais rápido para que ela fosse bem atendida, mas os longos minutos que se passaram até que a aeronave chegasse pareceram ser os mais longos de minha vida.
Enquanto esperava, eu segurava as mãos e tomava o pulso de Lizzie a curtos intervalos, recostando o corpo dela contra o meu com cuidado para tentar aquecê-la de alguma forma. Já no helicóptero monitoramos seu corpo com a aparelhagem e colhemos sangue a ser examinado assim que chegássemos ao hospital, pois apesar de tudo indicar que fora um acidente ocasionado pela cavalgada, era praxe obrigatória serem eliminadas outras possíveis razões.
Recorri a todo meu autocontrole para me manter em condições de não passar o encargo de cuidar dela para ninguém mais. Meu diagnóstico inicial foi confirmado, sem outras sequelas mais graves evidentes e tudo que era tecnicamente possível foi feito. Os ossos do crânio protegem o cérebro, que mesmo assim pode ser afetado por algum tipo de ruptura interna e em função disso as consequências de um traumatismo craniano variam da recuperação completa à morte. Além disso, uma importante informação havia surgido nos exames de sangue, contribuindo para agravar a consternação de todos: Lizzie estava grávida!
− William... – Charles falou baixinho ao meu ouvido. – Precisa descansar um pouco... Já fez tudo o que podia. Aliás, todos fizeram tudo o que podiam. Agora só nos resta esperar... E talvez, para quem tem fé, orar.
Lizzie já estava no hospital há mais de vinte e quatro horas e eu ainda não havia dormido. O restante da família dela havia chegado de Longbourn e desde então sua mãe também não havia arredado pé do quarto, revezando-se com ela as irmãs e o pai. Resolvi ir para a ala de descanso do plantão e tentar dormir um pouco, ainda que não acreditasse que fosse capaz disso.
Trilha Sonora:
By Your Side - Tenth North Avenue
Por que tem feito tanta força?
Por que não toma posse do que já tem de graça?
Por que está chorando?
Deixe-me levantar o seu rosto
Só não vire as costas
Por que está procurando por amor?
O que mais você procura, como se eu não fosse suficiente?
Pra onde você vai, criança?
Conte-me para onde você vai fugir
Para onde você vai fugir
E eu estarei ao seu lado, onde quer que você precise,
no meio da noite, sempre que você chamar
E por favor não lute
Contra estas mãos que estão te segurando
Com minhas mãos que estão te segurando
Olhe para estas mão e para mim
Elas fecharam a sepultura naquela noite
Quando vieram sobre mim os pecados do mundo
Então eu pude tomar você e lhe dar vida
E eu ainda quero lhe dar vida
Porque eu te amo
Eu quero que você saiba
Que eu te amo
E que eu nunca vou deixar você
Desde criança eu deixara de acreditar em Deus e não tinha mais o hábito de orar. É certo que em momentos como os que eu passara ao sair do coma não havia como evitar me sentir agradecido a alguma força superior, mesmo que não estivesse certo de sua existência. Porém em situações limites como aquela em que eu me encontrava, com a vida da mulher que eu amava e de um filho meu em risco, tudo parecia possível.
A vida era tão frágil... Pela manhã eu planejava um dos dias mais felizes de minha existência e agora... Eu desejava com toda minha alma poder acreditar que mais do que as condições fisiológicas e os esforços médicos pudessem contribuir para que ela sobrevivesse. Adormeci um sono agitado balbuciando interiormente algo que poderia ser considerado uma oração, pedindo a Deus apenas que Lizzie e meu filho se salvassem.
[i]Estávamos de novo em Blue Sky. Ao longe avistei Lizzie que agora estava restabelecida e parecia feliz. Eu me perguntei como isso poderia acontecer se há pouco ela estava prostrada no leito do hospital, mas minha mente entorpecida pelo cansaço não conseguia raciocinar direito e eu me limitei a caminhar para alcançá-la.
− Lizzie... – Eu disse seu nome hesitante e emocionado.
Ela me olhou surpresa, parecendo não me reconhecer.
− Lizzie, sou eu, William ...
− Sinto muito, mas eu não me lembro de você. De onde nos conhecemos?
− De onde? É difícil explicar, Lizzie, mas acho que nos conhecemos desde sempre, ainda que você não consiga se lembrar.
Seu olhar de estranheza me desanimou de iniciar a narrativa de como a princípio eu sonhara com ela para depois vir a conhecê-la pessoalmente. Mas eu me senti mais tranquilo em observar que ela estava bem.
− Não se preocupe, William. Tudo vai dar certo ... – Uma outra voz indistinta me dizia, sem que eu percebesse de onde se originava – Apenas descanse ...
Eu me abandonei à paz que aquelas palavras me proporcionavam e tornei a adormecer para mais tarde ser despertado pelo bipe que me chamava com urgência à ala onde Lizzie estava internada.[/i]
LAST_UPDATED2















