Entre o céu e a Terra
Capítulo 12
Trilha Sonora
Long Night - The Corrs
Noite Longa
Nada importa agora que você se foi
Você não me entendia tão bem quanto dizia
Não via que eu podia viver sem você,
Que não era tão difícil continuar a viver sozinha
Mas eu estou só novamente,
Pensando que você nunca dirá
Que estará em casa novamente
E esta será uma longa noite,
E será fria sem os seus braços
E eu me sinto ansiosa e amedrontada,
E esta será uma longa noite,
E eu sei que perderei essa batalha
Uma vez nos apaixonamos
E eu achei que eu seria a única.
Mas eu estou sozinha novamente,
Pensando que você nunca mais vai aparecer
Que não estará em casa novamente.
E esta será uma longa noite,
E será fria sem os seus braços
E eu me sinto ansiosa e amedrontada,
E esta será uma longa noite,
E eu sei que perderei esta batalha
Estou perdida em seus braços,
Perdida em seus braços
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A volta para Londres foi angustiante. Eu havia chorado uma boa parte da viagem. Uma vez em casa eu já me sentia mais tranquila mas continuava tão infeliz quanto antes. Foi uma longa noite, piorada pelo fato de eu estar só, embora fosse bem melhor que Jane não me visse naquele estado pois isso só pioraria seu estado de espírito.
Ela chegou de Longbourn no dia seguinte e logo notou meus olhos, tão inchados quanto os seus. Eu comentei concisamente que Darcy e eu também havíamos discutido, e logo era Jane quem tentava me consolar. Eu consegui arrancar um sorriso dela antes de sair para trabalhar ao propor que a solução mais prática para nós seria nos afastarmos da atmosfera estranhamente romântica do Remembrance Hospital para uma instituição geriátrica cheia de velhinhos, longe de homens bonitos como Charles e William.
Como tudo que tem que dar errado vai dar, o meu primeiro turno seria o mesmo de William Darcy. Quando eu cheguei, ele já se preparava para assumir o turno, pontual e rigoroso como sempre, embora seu semblante estivesse abatido e houvesse uma inédita barba malfeita em seu rosto naquele dia, o que parecia indicar que ele também fora afetado pelo que nos acontecera na véspera.
Apesar de impressionada pela aparência dele, não me senti capaz de alimentar nenhum tipo de piedade, pois fora ele quem havia errado. E o pior era que eu me sentia culpada por ter deixado as coisas chegarem tão longe, a despeito de minhas intuições sobre ele, e pelo fato de que o abalo que tínhamos sofrido em nossa vida pessoal agora se refletiria em nossa vida profissional. Sem dúvida aquele não era um começo para minha residência médica.
Por mais que tentássemos evitar, a tensão entre nós era visível para todos, embora ele procurasse se manter mais afastado de mim do que o normal tentando evitar que isto interferisse no trabalho da equipe. Cheguei a esperar por algum tipo de retaliação, mas quando olhei as escalas de cirurgias da semana percebi aliviada que estava incluída nela em condições de igualdade com meus colegas de estágio.
Quando afastei meu olhar do quadro de avisos, Darcy me observava com um olhar profundo que eu correspondi com uma expressão fria de aprovação por ele não ter me discriminado na escala.
Conforme os dias se passaram só se confirmou minha impressão de que uma reaproximação entre eu e Darcy era uma possibilidade muito remota, e eu mergulhei ainda mais na rotina de trabalho, procurando me esquecer de que ele estava por perto e acho que ele tentou fazer o mesmo, pois parecia que dormia no hospital estando presente a praticamente todos os plantões.
Ainda naquela semana, em um plantão noturno, uma mulher no estágio final de gestação foi encaminhada para a emergência enquanto alguém chamava o obstetra.
William estava terminando de atender um paciente quando Heather, a enfermeira chefe, foi comunicar-lhe que não havia conseguido localizar nenhum dos dois obstetras previstos para serem acionados naquela noite. Um residente tinha verificado a pressão da gestante, que estava muito alta para seu estado. Após determinar que ela fosse medicada, Darcy pediu que continuassem procurando por um obstetra.
O tempo que se esperou para que a medicação fizesse efeito mostrou que a situação não se modificara e um pediatra, um anestesista e os demais profissionais necessários que foram chamados estavam a postos no centro cirúrgico. Mas o único obstetra que se conseguira fazer contato por telefone estava fora de Londres naquele dia. A mulher não era da cidade e naturalmente estava muito nervosa, assim como o marido, que parecia a imagem da aflição ao seu lado.
− Dra. Elizabeth. – Darcy veio em minha direção convocando-me. – Preciso que me assista no centro cirúrgico, a situação desta paciente está ficando complicada. E não há nenhum outro residente no momento que eu posso chamar, sinto muito.
A última frase dele e seu olhar orgulhoso parecia querer explicar que só me chamara por absoluta falta de opção, ratificando que ele passara a me evitar tanto quanto podia.
− Nós vamos fazer uma cesariana?
− Sim, algum problema? − Seu tom educado mas ligeiramente irônico era o mesmo que ele usava para chamar nossa atenção quando percebia algo errado. – Sei que não é a nossa área direta de atuação, mas uma das primeiras lições que se recebe em um pronto-socorro é que precisamos estar prontos para tudo...
- Não há problema nenhum, mas...
- Ótimo. Pode encaminhá-la para o centro cirúrgico e tente acalmá-la. Irei em seguida.- Eu o olhava atônita, mas nada falei, me limitando a seguir suas ordens firmes.
Ele me disse uma vez que me observara enquanto acalmava um paciente, porém isso não aconteceria mais, pois evitávamos nos olharmos. Nós não éramos nem de longe mais os mesmos e eu me entristeci por nos sentirmos assim, mas não consegui deixar de me lembrar, com certo ressentimento, que eu não fora a culpada. Enquanto conduzia a paciente, Darcy se dirigiu a Heather pedindo que continuasse tentando localizar um dos obstetras, para que chegassem a tempo do parto. Estranhamente ele não parecia muito á vontade para assumir aquela cirurgia que, apesar de não ser de sua especialidade, era corriqueira. Fui para o centro cirúrgico e enquanto me aprontava, William e o pediatra, Dr. Marshall, entraram juntos para fazer o mesmo. Pedi licença e entrei na sala onde a mulher estava sendo preparada para a anestesia. Fiquei ao seu lado, tentando tranquilizá-la, e quando Marshall e ele entraram, senti-me observada pelas costas, calculando que William prestava atenção à nossa conversa.
− Srª. Miller, fique tranquila, seu bebê vai nascer saudável, acredite. Vocês estão em boas mãos, Dr. William é um excelente cirurgião.
- Este é o nome dele? – A mulher perguntou curiosa.
- Sim, por quê?
- Esse é o nome que eu e meu esposo escolhemos para nosso filho. Era o nome do pai dele.
- Então vocês já sabem o sexo do bebê. Será um menininho, e com certeza com este nome será muito lindo – Eu agora me aproximava do ouvido da parturiente na intenção de não deixá-lo ouvir o que eu lhe falava.
Depois que ela já estava mais calma, sob a supervisão direta do anestesista, começamos a cirurgia. Eu já estava ao lado de William, juntamente com o pediatra e os outros profissionais. Percebi que se houvéssemos esperado mais um pouco, teríamos sérios problemas. Mas como um médico experiente, Darcy teve a percepção de que aquele caso necessitava de urgência, pois se não tivesse tomado esta decisão e houvesse protelado o atendimento, talvez a vida do bebê corresse perigo, tal era o quadro que se apresentava.
O choro forte da criança assim que ele o retirou do ventre de sua mãe, me fez estremecer de emoção e quando Darcy segurava aquele pequeno ser nas mãos, antes de passá-lo ao pediatra, tive a impressão de que algum fato de sua vida voltou-lhe a lembrança, porque duas pequenas lágrimas rolaram discretas pelas extremidades de seus olhos. E pensei que talvez fosse isso um dos motivos que ele não ficasse muito à vontade em fazer este tipo de cirurgia. Ele percebeu ter deixado transparecer sua emoção, ao ver minha admiração em vê-lo daquela maneira. Então me pediu que segurasse o bebê, enquanto cortava o cordão umbilical, e eu numa reação espontânea sorri de emoção.
− Gostou da experiência, Drª. Elizabeth? - ele me falou um tanto secamente, tentando disfarçar o que eu já havia percebido.
− Não é a primeira vez que assisto a este tipo de cirurgia, Dr. William, mas sempre é como se fosse. É emocionante participar de um nascimento – Eu falei com um sorriso espontâneo. – E não há nada de errado em alguém demonstrar isso.
Disse isso baixinho para ele, que me lançou um olhar em que eu podia ler tantas emoções ao mesmo tempo, que me senti tentada a esquecer de tudo que dera errado entre nós e dizer que eu ainda estava apaixonada por ele, apesar de tudo. Mas ao invés disso apenas tomei a criança que o pediatra me trazia para entregá-la à mãe.
− Vamos, William, venha conhecer sua mãe. – O menino se aconchegou por algum tempo à mãe, que embora um tanto anestesiada se emocionou muito mais do que todos ao ter o filho em seus braços. Depois disso o bebê foi levado para que começássemos a suturar a mãe, quando Cooper, o obstetra, entrou apressado no centro cirúrgico pedindo desculpas pelo atraso, ao que William respondeu da maneira característica que usava quando contrariado, que já estava terminando.
Na saída conversamos com o esposo da Srª. Miller e lhe comunicamos que tudo correra bem. Então William virou-se para mim dizendo.
− Agora podemos voltar para a emergência, Drª Elizabeth. – Eu fiquei ali parada olhando para ele, detestando o tom distante que ele usava para pronunciar meu nome.
− Tem algo a me dizer, Drª. Elizabeth? – Ele parecia surpreso de que eu ainda não tivesse ido embora.
- Sim, tenho.
− Estou ouvindo – Ele respondeu muito sério.
− Pensa em ser pai um dia, Dr. William? Era fácil perceber a emoção que sentiu quando o menino nasceu, por que esconde estes sentimentos?
Eu havia decidido dizer isso a ele, mesmo correndo o risco dele não me responder ou de achar que era uma pergunta pessoal demais, ainda agora depois que nós ... Bem, eu não poderia afirmar que houvera de fato um “nós” verdadeiro entre nós dois, porque nossa convivência não fora tão longa, mas sem dúvida fora muito intensa.
− Só pretendo ser pai um dia, Drª. .Elizabeth, se for com a mulher que amo. – Olhando dentro de meus olhos, sua voz era um misto de emoção e pesar pela nossa atual situação, mas repentinamente seu tom de voz tornou-se frio e indiferente. − Mas minha vida pessoal não importa agora, temos ainda um plantão à cumprir...
Mesmo com toda aquela dureza que ele fazia questão de demonstrar, eu tinha descoberto que ele era um homem sensível, e pude perceber isso até nesse momento.
Nenhum dos dois tinha coragem ainda de pedir perdão ou de perdoar. Estávamos cada um com o coração machucado, do tipo de ferimento que a medicina não tinha como curar. Ele me pediu licença e saiu, deixando-me para trás enquanto dirigia-se para a emergência.
No caminho, Wickham estava conversando com Caroline. Ele ainda tentava conquistá-la, e estranhei vê-la pelos corredores, ao invés de estar como geralmente ficava, trancada na administração. Ao ver William passando, eu que estava mais atrás pude perceber que ela esticou o pescoço na tentativa de chamar-lhe e ele simplesmente não lhe deu atenção. Ela já tinha percebido o clima tenso entre nós, e acredito que ainda alimentava esperanças de voltarem a ter algo mais do que tiveram no passado. Troquei um olhar com Wickham que assumiu uma expressão irônica e ao mesmo tempo enciumada. Para ele não se tratava apenas de uma conquista, era fácil perceber que ele realmente gostava dela, por menos que ela o merecesse. Era como nos versos do poeta: Wickham que amava Caroline, que amava William, que amava... Elizabeth? Talvez, pensei, ao chegar em casa exausta e adormecer com a imagem de seu olhar deixando transparecer sua emoção durante aquele parto ... Talvez eu pudesse perdoá-lo.
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Dr. Darcy era conhecido como o terror dos residentes, famoso por testar seus jovens estagiários até atingirem seu limite e frequentemente desistirem de trabalhar com ele. Tio Gardiner dizia que embora isto parecesse um tanto perverso, era necessário, pois para se trabalhar em uma emergência, mais do que em outras áreas da medicina, a hesitação e a insegurança custavam vidas. e a meta era não admitir erros. Mas eu havia descoberto que o temido Dr. Darcy era exigente sim, mas antes de tudo ele exigia de si mesmo.
Nos próximos dias ele iria para Edimburgh participar de um curso como parte de suas pesquisas de doutorado, que agora focavam a experiência que ele viveu quando esteve em coma, durante sua iminência de morte. O mais estranho é que Tio Gardiner também me contara que William ao voltar do coma, chamara por uma Elizabeth e isso me deixara muito intrigada, mas aparentemente poderia ser por se lembrar, inconscientemente de que fora eu a lhe dar os primeiros socorros.
Nossos olhares ainda se cruzavam com certa frequência ao nos encontrarmos na mesma ala da emergência. Estávamos ainda apaixonados um pelo outro, mas ele insistia em se anestesiar dessa dor trabalhando, a ponto de pouco parar para um intervalo. Eu queria poder me aproximar dele, mas eu também tinha meus motivos para não fazê-lo. Assim ficamos até que chegou seu último plantão antes da viagem, quando houve uma reunião com a equipe para oficializar o nome do cirurgião que iria substituí-lo por este período. Preferi acreditar que me sentiria mais aliviada com esta distância, mas conforme os dias foram passando percebi o enorme vazio que a ausência dele me causava.
Não tinha ânimo para sair nos meus dias livres e nos plantões muitas vezes me pegava aguardando que ele entrasse pela emergência com aquele seu jeito autoritário, ou suas respostas diretas com os pacientes. Eu estava ainda muito ligada a ele, e me perguntava, se ele ainda pensava em mim. Nos dias que se passaram, houve momentos que pensei em ligar para Georgiana, e perguntar-lhe se tinha notícias de William, mas meu bom senso sempre me lembrava que eu pareceria desesperada e seria inconveniente.
Mas existia Jane, e eu não poderia esquecer que sua dor fora causada em parte por William e em parte pelo próprio Charles, a quem eu na realidade creditava a maior parcela da culpa, por ser tão fraco a ponto de não saber o que realmente sentia por ela.
Por isso, mesmo com meu coração machucado pelos meus próprios sentimentos, eu ainda tentava reunir forças para animá-la, o que implicaria em adiar uma tentativa de reaproximação com William, ao menos por enquanto.
Depois da partida de William, a emergência do Remembrance pareceu ficar mais estressante e tumultuada, como se faltassem muitos médicos e não apenas um. Parecia até que o bom andamento do setor era impulsionado pela maneira como ele conduzia os atendimentos e orientava os residentes, a despeito do esforço de seu substituto.
Antes do fim do ano, eu e Jane resolvemos passar um fim de semana livre em Longbourn. Achei que rever meu pai, me traria novas forças para continuar. Eu tinha combinado com Jane não comentar nada do que havia acontecido em nossas vidas. Principalmente com nossa mãe. Não seria uma notícia que lhe traria alegria e também era um assunto que no momento nós duas preferíamos deixar em um canto de nossas vidas.
Meus pais ficaram muito alegres em nos ver de novo em casa. Afinal já estávamos as vésperas do Natal, e embora estivesse previsto que eu passaria esta data em plantão no Remembrance, pelo menos Jane ficaria junto com a família. Minhas irmãs continuavam as mesmas de sempre, Mary concentrada em seus livros e Kitty e Lydia nos colocando em dia com sua vida social, bastante agitada para os padrões provincianos de Longbourn.
Nosso primo Collins chegou a Longbourn, para visitar meus pais. Eu não o via há bastante tempo e observei que ele se expressava de um modo um tanto estranho. Parecia que ainda vivia no século XVIII. Ele se tornara um professor e historiador eminente e sua vocação era pesquisar antigas construções e tudo que se relacionava a história do país. Contou-nos que atualmente trabalhava na mansão de Lady Catherine de Bourgh, uma construção que remetia a alguns séculos de herança. Mas ele também nos relatou, para espanto da maioria, exceto de minha mãe, que sua real intenção em visitar Longbourn, era escolher entre as filhas de seu primo, uma esposa, conselho que lhe fora dado pela ilustre dama onde ele fazia suas pesquisas. E para minha maior surpresa ele se interessara por mim! Depois de um grande susto e da proposta repentina e nada romântica que me fizera, expliquei-lhe que não tinha desejo de me relacionar com ninguém por enquanto.
Mas a vida tinha mesmo estranhos caminhos e o destino provou que mesmo um homenzinho pomposo como Collins também poderia inspirar uma paixão. Charlotte Lucas chegara de Londres para descansar alguns dias em nossa casa antes das festividades do fim de ano. E apesar de Collins aparentemente não ter nenhum atrativo físico, sua erudição e o modo dele se portar fascinaram Charlotte, que era uma professora de Literatura aficcionada por obras históricas e por isso se tornara especialista nos romances do período da Regência, como os de Jane Austen, dos quais eu também gostava, embora com menor vigor do que ela.
Senti o clima de romance que se instalara entre os dois. E de certa forma me alegrei, por pelo menos alguém conseguir começar um romance que parecia ter um futuro mais promissor do que o meu ou o de Jane. Ao final daqueles dias, Collins aproveitou a oportunidade e convidou a mim e a Charlotte para festejar o Ano Novo em Rosings Park, onde ele morava e trabalhava. Charlotte olhou para mim praticamente implorando com os olhos para que eu aceitasse o convite, pois só assim poderia ter uma oportunidade de estar com Collins mais uma vez. Então mesmo que já tivesse feito planos de passar o fim de ano em Longbourn, o olhar suplicante de Charlotte, me fez aceitar o convite de Collins. Nada indicara que um novo ano pudesse começar de modo mais feliz para mim se eu fosse para lá, mas afinal pelo menos eu ajudaria minha melhor amiga, desta forma. E enquanto isso tentaria me esquecer daqueles profundos olhos azuis que continuavam a me perseguir na hora de dormir.
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