Capítulo 11
Trilha Sonora
The Way you look at me – Christian Bautista
O nascer do sol no domingo que se seguiu prenunciava um dia glorioso. Jane havia voltado bem mais tarde e não consegui esperá-la acordada para conversarmos, mas não pretendia despertá-la tão cedo só para isso, assim arrumei minhas coisas e saí devagarzinho do quarto sem fazer barulho. Quando desci para tomar café, meu pai estava acordado e eu o saudei com um abraço:
− Não vai ficar conosco hoje? − Ele me perguntou, decepcionado ao me ver com bagagem.
− Tenho um compromisso, pai. – Eu me sentei e tomei um café com pouco açúcar e uma torrada. Ainda me sentia um pouco constrangida ao me lembrar de sua expressão quando eu estava ao lado de Darcy.
− Estou realmente perdendo minha garotinha. Mal chegou e já vai embora...
− Vou para Derbyshire com William Darcy e...
− Vi os olhares que vocês trocaram ontem à noite. Só espero, Lizzie, que ele a mereça. Odiaria perdê-la para alguém que não a merecesse.
− Serei sempre sua garotinha, pai. Nada e ninguém vai nos afastar, eu prometo! Além disso, ainda não é nada sério, estamos só nós conhecendo...
− Ainda não é sério... – Meu pai ecoou minhas palavras frisando a primeira. – Mas pelo jeito como pronuncia o nome dele, logo deve ficar ...
Enquanto ele falava, ouvi o som de um carro chegando. Era William. Peguei minhas bolsas e meu pai acompanhou-me à porta:
− Bom Dia, Elizabeth!. Bom Dia, Sr. Bennet. – Darcy estava sério como de costume, mas seus modos eram muito gentis e ele foi especialmente respeitoso com meu pai.
− Bom Dia, Dr. William − Meu pai então lhe prosseguiu como se lhe contasse um segredo. − Cuide bem dela, Lizzie é meu maior tesouro.
- Fique tranquilo, Sr. Bennet, ela é igualmente preciosa para mim.
Olhei para ele um pouco espantada pelo modo como havia falado. Meu temperamento era bem mais extrovertido, e mesmo assim na maior parte do tempo eu achava necessário conter os sentimentos que nutria por ele, mesmo que estivessem à flor da minha pele. Ele, por outro lado, que era normalmente muito mais reservado do que eu, inesperadamente despejava palavras como aquela que me deixavam sem poder de reação.
− Onde está Georgiana?
− Eu a deixei na estação de trem. Podemos ir? Pemberley fica distante umas três horas, e seria melhor chegarmos em tempo para o almoço.
Entramos no carro e eu estava um pouco nervosa pela ansiedade em relação ao que me aguardava. William, por sua vez, estava com o rosto iluminado.
− Parece tão contente... – Eu disse. − Não é muito comum vê-lo assim tão...tão.. – Eu não sabia como definir o seu estado de espírito, mas ele estava solto e descontraído como eu nunca o havia visto antes.
- Feliz?
- Não é só isso, há mais algum coisa...
Minha mãe diria que seu olhar revelava segundas intenções e eu não poderia negar que esperava que assim fosse...
- Finalmente vamos poder conversar a sós e sem interrupções. Como agora... Só isso já seria motivo suficiente para minha alegria, concorda?
Ele sorriu para mim e daquele jeito parecia apenas um menino. Não conversamos muito mais do que isso até chegarmos a Pemberley, fazendo comentários ocasionais sobre a paisagem ou sobre nosso trabalho. O clima entre nós era um misto de camaradagem e ao mesmo tempo de certa tensão da minha parte pelo que esperava acontecer mais tarde.
Da rodovia principal passamos a uma estrada menor, ainda pavimentada, que nos levou aos limites da propriedade. Fiquei extasiada por algum tempo com a visão da imponente mansão. Situada no lado oposto de um vale se constituía em uma imensa e bela construção em pedra, ladeada por montes cobertos de densa e alta vegetação. Uma corrente de água natural vinda de uma das montanhas desaguava em um lago que contornava parte dos bem cuidados jardins da casa principal. Todo o conjunto era de uma beleza incomparável, tanto pela força e plasticidade das formas arquitetônicas como pela harmonia com a natureza que as circundavam. Porém, mais do que isso, Pemberley emitia uma vibração diferente que era difícil descrever em palavras. Imaginei como Darcy devia amar aquele lugar.
A Sra. Reynolds foi muito gentil e nos recebeu amavelmente, e entendi o porquê de William tratá-la com tanta consideração. O relacionamento entre eles era quase como mãe e filho. Depois do almoço, subi ao confortável quarto mobiliado no estilo Regência que me havia sido reservado e não resistindo à noite parcialmente em claro, acabei dormindo um pouco. Acordei no meio da tarde, um pouco assustada ao perceber onde estava, quando uma rajada de vento entrou pela janela que eu havia deixado aberta. Desci as escadas da casa, observando que seria necessário ficar ali mais alguns dias para de fato conhecê-la, tal era seu tamanho. Encontrei uma empregada que me levou até a biblioteca onde William estava. Entrei sem fazer barulho e o encontrei distraído ao laptop, mas ele pareceu pressentir minha presença e voltou-se quando me aproximei para surpreendê-lo:
− Fui a seu quarto convidá-la para caminharmos pelos jardins, mas você não respondeu, então deduzi que estivesse descansando.
− Sinto muito, acabei dormindo. – Respondi gaguejando. Não havia motivo, mas eu me sentia um pouco envergonhada por ter caído no sono daquela maneira, mas isso se tornara comum depois de iniciada minha vida de residente com os horários irregulares dos plantões.
− É bom que esteja descansada, porque para esta noite temos outros planos. − Ele disse isso com uma expressão enigmática no olhar, levantando-se e caminhando em minha direção.
− Planos? – Repeti sem muita noção do que dizia pela proximidade do corpo dele com o meu que lançava fagulhas á minha pele e instintivamente recuei um passo de onde eu estava antes.
− Curiosa, Drª. Elizabeth? – Ele me abraçou possessivamente e sussurrou ao meu ouvido. − Não tenha nenhum receio... É sempre tão impetuosa e destemida.
− E o senhor, Dr. Darcy, é absolutamente imprevisível...
Não resistimos mais à proximidade de nossos lábios e nos beijamos com intensidade e urgência.
− William... – Eu estava sem ar pelo beijo arrebatador.
- Calma, Elizabeth.. − Ele passou a mão em meu rosto, afastando uma mecha de meus cabelos que caía sobre meus olhos. − Há tantas coisas para dizer, mas não sei ainda por onde começar e se você está preparada para ouvir. Com certeza você me achará um louco.
- Então comece pelo começo.
Ele se afastou um pouco subitamente.
- Agora não, Lizzie.... Melhor subirmos e nos arrumarmos para o jantar
Subi e tomei uma ducha demorada, e continuei sentindo os lábios de William tocando os meus, com o coração disparado como uma adolescente com os hormônios em ebulição. Enquanto ainda acabava de me arrumar ouvi uma batida suave a porta. Abri, pensando que era empregada anunciando que o jantar estaria pronto, mas para minha total surpresa, era William com os cabelos desalinhados, usando uma camisa social preta por fora de uma calça risca de giz, um sorriso largo e os olhos azuis que me hipnotizaram. Eu me esqueci de respirar com aquela visão. A verdade é que eu não precisava mais ser seduzida por ele, mas se isso ainda não houvesse acontecido, eu teria me rendido naquele momento. Ele estava sexy e deslumbrante.
− Pronta? − Ele me perguntou.
− Para quê? − Perguntei ansiosa, sem saber exatamente se ele se referia à refeição ou aos demais planos que fizera para a noite.
− Para jantar ... − Ele respondeu com um sorriso sugestivo.
Descemos as escadas e para minha surpresa não jantaríamos em casa. Ele havia feito reservas em um restaurante acolhedor e eclético em Matlock, onde fomos recebidos por um maitre que já o conhecia e nos conduziu a uma sala privativa e aconchegante.
Fizemos os pedidos que rapidamente foram atendidos, mas mesmo assim foi um jantar demorado, pois conversamos bem mais do que tocamos na refeição. Falamos de coisas triviais e de lembranças da infância e eu percebia que os olhos dele brilhavam de um modo diferente naquela noite. Quando terminamos o jantar ele tomou minha minhas mãos entre as suas e olhando fixamente em meus olhos, usou daquele tom tão seguro de si que impressionava seus pacientes ao lhes falar:
− Elizabeth, não quero tê-la como um caso ou precisar me esconder pelos corredores do hospital para poder falar com você. Quero que todos realmente saibam que estamos num relacionamento mais sério.
- William... – Senti a necessidade ser absolutamente sincera. – Tenho medo de estarmos indo rápido demais. Nos conhecemos há pouco tempo... Mas ao mesmo tempo, nestes últimos dias pude refletir e ter certeza de que sinto por você o que nunca senti por ninguém antes ...
- Elizabeth, como eu esperei ouvir isso de você...
Dizendo isso, ele levou minhas mãos aos seus lábios e as beijou intensamente. Antes de ir embora, ainda ficamos por um bom tempo nos olhando sem nada dizer, apenas nossos olhos se comunicavam. Dentro do carro, antes de sairmos, nos beijamos mais uma vez. Parecia que o tempo havia parado durante aquelas horas e finalmente não havia mais nenhuma barreira entre nós.
Chegamos a Pemberley, subimos as escadas abraçados e quando alcançamos meu quarto ele me tomou no colo e me deitou suavemente na cama onde nos beijamos com suavidade e ternura, seus lábios percorrendo todo meu pescoço e indo até o lóbulo de minha orelha. Sua mão pousou em meu joelho de onde, lentamente, foi subindo para a parte interna de minha coxa. Eu gemi com o seu toque e nosso beijo se aprofundou ainda mais. Acariciei as suas costas sob a camisa, enquanto continuávamos, sem pressa, degustando cada suspiro, cada gemido, cada prazer que estarmos tão próximos nos proporcionava. Não havia porque resistir e eu me abandonei aos braços do homem a quem amava. Ele seria meu, assim como eu seria dele.
William interrompeu o beijo para tirar minhas sandálias e beijar meus pés descalços, passando para minhas pernas, estimando cada centímetro, sem deixar qualquer pedacinho negligenciado, e quando se aproximou de minhas coxas pude acariciar seus cabelos revoltos. Ele ergueu-se para encontrar o fecho de meu vestido que rapidamente foi aberto e jogado em algum lugar do quarto. Depois me olhou novamente, paralisado por alguns instantes:
− Precisa de ajuda, doutor? – Eu perguntei maliciosa.
− Lizzie, não sabe o quanto é incrivelmente bonita...
Fiquei de joelhos sobre o colchão de frente a ele, e acariciei seus ombros largos e suas costas, livrando-o da camisa e aproximando minha boca para beijar seu corpo másculo com ternura. Deixando escapar gemidos de prazer, William tocou meus cabelos, afastando-me dele para que nos beijássemos outra vez, e depois pôs-se a percorrer meus seios, meu ventre e minhas coxas com seus lábios e eu estremeci ao sentir o contato de sua língua sobre os recantos mais íntimos de meu ser.
Espasmos sucessivos percorreram meu corpo e enterrando os dedos em seus espessos cabelos negros, o puxei de encontro ao meu ventre em desespero, gritando de prazer e William voltou a dar atenção aos meus seios, despertando-me novos tremores. Mais uma vez, minha mente vagou pelo espaço infinito, entregando-me às exigências do desejo que renascia. William sussurrou frases desconexas ao meu ouvido e eu comprimi suas costas musculosas, chamando-o para dentro de mim.
Ele atendeu, ofegante, àquele convite irresistível. Nos movíamos agora em um único ritmo, os corpos sedentos, na ânsia de nos tornarmos um só. Eu arqueei meus quadris, nossos corpos vibrando na angustiante busca do prazer. À medida que o clímax se aproximava, eu senti o calor de William invadir-me e juntos atingimos a satisfação plena que nosso desejo mútuo, antes contido, agora exigia. Em um último abraço, nos beijamos, exaustos. Ainda nos amamos por mais tempo durante a noite que se seguiu, até que adormecemos, vencidos pelo cansaço.
Despertei ao sentir o leito vazio ao meu lado. Procurei por William e ele estava de roupão na sacada do quarto observando o horizonte ao amanhecer, e me aproximei para abraçá-lo. Nos beijamos mais uma vez e ele enlaçou minha cintura e apontou para um ponto mais distante do jardim:
− Está vendo aquele ponto do labirinto no jardim? Eu sempre me escondia por lá quando brincava com meu pai...
− Há muitas lembranças para você aqui, William.
− E haverá mais uma agora... A desta noite que passamos juntos... Lizzie, eu ainda preciso conversar com você sobre...
− Não precisa explicar mais nada... – Coloquei minha mão sobre seus lábios para que não falasse. − Vamos apenas deixar que as coisas aconteçam naturalmente, está bem?
Eu não queria que nenhum detalhe complicasse aqueles momentos tão simples e perfeitos e por isso calei sua boca com outro beijo, e tornamos a nos amar mais uma vez naquela manhã. Mais tarde, depois de um generoso desjejum organizado pela Srª. Reynolds, pudemos fazer a caminhada por Pemberley que Darcy havia planejado. Ele conhecia cada detalhe da propriedade, embora ela fosse administrada por seu primo, e terminamos com uma visita ás maravilhosas obras de arte que a família havia colecionado por gerações.
Eu me sentia flutuar, incrivelmente feliz, e gostaria de poder ficar com ele por ali ainda muitos dias... talvez para sempre. Mas a vida real continuaria em meu plantão matutino do dia seguinte. Por isso depois do almoço tardio precisaríamos ir embora. Eu arrumei outra vez minhas coisas, um tanto triste com a partida, mas pensando comigo que depois da conversa no restaurante e de tudo o que acontecera as coisas estavam mais transparentes e definidas entre eu e Darcy, e poderíamos nos ver normalmente durante a semana, como dois namorados normalmente fariam. Namorados? Eu não conseguia encaixar esta palavra para Darcy... Sorri com a ideia. Ele era mais do tipo amante ou marido, não um mero namorado. Ia descendo quando o celular tocou, e fechei a porta e deixei a pequena mala outra vez no chão para atendê-lo. Era Jane.
− Olá, minha irmã, como estão as coisas?
− Está tudo bem, Lizzie. Mamãe está preocupada em saber se você chegou bem, se já está indo para Londres. Claro que também já fica sonhando com o seu casamento, e por isso me obrigou a ligar, desculpe se estou atrapalhando...
− Não está, Jane, já estou me preparando para ir embora...
− Mais alguma coisa que queira dizer ... ?
Desde crianças tínhamos profunda afinidade e eu sentia que havia algo errado pela voz de Jane, mas talvez pudesse ser porque mamãe ou mais alguém estivesse ao lado dela e não pudesse estar muito á vontade para falar.
− Foi maravilhoso, Jane, é tudo que posso dizer de estar com William aqui. Acho que estou apaixonada mesmo – Completei baixinho, com medo que as paredes escutassem...
− Fico feliz por você, minha irmã.
Novamente percebi algo errado em seu tom de voz.
- O que houve, Jane? Está tudo bem com você?
Depois de alguns instantes de silêncio hesitante, Jane balbuciou que sim.
− E Bingley? Já lhe pediu em casamento?
Sempre brincávamos sobre qualquer namorado que tínhamos nos pedir em casamento desde o primeiro encontro, por conta das ideias fantasiosas de nossa mãe quando sabia de algum deles. Mas Jane em resposta começou a chorar ao telefone e eu senti sua dor, ainda que estivesse distante fisicamente, sem que ela precisasse dizer esclarecer mais nada.
− Ah, Jane... Eu sinto muito...
Deixei que ela chorasse mais um pouco para desabafar, para só então pedir alguma explicação.
− Mas o que houve? Ele parecia tão apaixonado por você...
− O pior é que também não consigo compreender o que aconteceu. Ele me tratou de forma muito distante desde que cheguei à festa. Parecia diferente... parecia outra pessoa. – Jane, que tão raramente demonstrava suas emoções, falava entre soluços. – Ele alegou que precisava dar atenção aos convidados... Mais tarde, quando você já estava indo embora, ele me procurou para conversarmos. Disse que não estava seguro do que eu sentia por ele, ou do que ele sentia por mim, que seria melhor darmos um tempo a nossa relação para saber o que sentíamos de verdade...
Jane continuava a chorar, e eu sentia vontade de estrangular Bingley por tê-la feito sofrer.
− Mesmo depois disso, não pude ir embora, pois precisava esperar que mamãe se cansasse da festa para ir com ela e papai. Se eu contasse que havia algo errado para alegar que precisava ir antes, isso só pioraria as coisas. Foi uma tortura, Lizzie, ficar naquela festa, sozinha, depois disso. Eu só queria poder ficar sozinha para chorar.
Tendo desabafado, agora Jane não mais soluçava, mas eu mentalmente podia imaginar as lágrimas ainda escorrendo de seu belo rosto. Algumas pessoas mereciam sofrer, mas não minha irmã, provavelmente um dos melhores seres humanos que eu já conhecera em minha vida. O que teria havido para Bingley agir daquela forma?
− Não fique triste, Jane, ele não a merecia, foi simplesmente isso que aconteceu... E melhor descobrir isso agora do que depois de ter investido muito mais neste relacionamento.
Eu não era boa em consolar as pessoas, porque o que eu melhor conseguia fazer nestes casos era relativizar o que aconteceu.
- Além do mais, como sempre diz mamãe, há muitos homens solteiros em boas condições financeiras que devem estar necessitados de uma boa esposa.
Fazer piadas também não resolveria muito, mas o que eu dissera era parcialmente verdade. Jane era jovem, bonita e não foram poucos os pretendentes que apareceram em sua vida, diferentemente da minha. Mas ela também era bem mais frágil emocionalmente do que seu temperamento reservado deixava supor, e eu, que era sua irmã, sabia que ela havia se apaixonado por Bingley, por menos que ele a merecesse. Me despedi dela com um aperto no coração, ansiosa por conversar com ela pessoalmente em Londres.
Quando desci para partirmos, depois de entrarmos no carro, Darcy percebeu minha expressão carregada e perguntou o que havia acontecido:
− Seu amigo Bingley... – Eu disse com mal disfarçada ironia, que não pude evitar. – Ele dispensou minha irmã, sem maiores explicações.
Darcy, surpreendentemente, não pareceu surpreso.
− Ele comentou alguma coisa com você? – Perguntei desconfiada.
− Ele não comentou nada comigo, Lizzie. Lamento que não tenham se acertado.
− Lamenta, mas não acha estranho... O que é mais estranho ainda.
− Acho que ela não gostava dele tanto quanto ele gostava dela, Lizzie. Sinto muito dizer isso, porque ela é sua irmã, mas...
− Ela é uma pessoa muito reservada, Darcy, algo que você deveria entender ... Jane raramente demonstra o que sente, até mesmo para mim que sou sua irmã mais chegada.
− Ao contrário do restante da família, devo observar. – O tom de sua voz era de mera constatação mas ele havia se colocado numa posição defensiva e sua crítica velada á minha mãe e às minhas irmãs mais novas me incomodou. − Mas você deve concordar que isso deixa um homem inseguro... Ainda mais alguém com o perfil impulsivo de Charles. – completou ele.
Minha ira contra Bingley começou a se estender a Darcy pelos seus comentários e preferi não falar nada por alguns minutos. Mas depois não resisti e continuei:
− Terá sido você a dizer isso com Charles?
− Não posso negar que disse a ele o que pensava do assunto.
− Quando fez isso? − Darcy ficou em silêncio. – Quando?
Eu insisti levantando minha voz.
− Ontem, Lizzie. Sei que posso magoá-la ao dizer isso, mas me recuso a mentir. Não me sinto culpado de nada, porque qualquer decisão caberia exclusivamente a ele.
− Por que precisava interferir? É por que precisa controlar tudo e todos? – Agora eu tinha tanta raiva de Darcy como tinha de Bingley, talvez mais ainda e sentia vontade de socar o painel do carro a minha frente.
− Pare o carro!
− O que houve, Lizzie?
− Pare o carro, eu já disse!
A estrada estava deserta, e William freou bruscamente. Eu não sabia sequer onde estava direito, mas saí do carro e peguei minha mala e saí caminhando. Eu não voltaria a Londres junto com ele. Doía demais deixá-lo depois de tudo que acontecera entre nós, em especial depois daquele fim de semana, mas naquele momento eu só conseguia desprezá-lo. Eu não conhecia afinal quem era William Darcy, era o que descobrira. Meus instintos estavam certos.
− Onde pensa que vai?
− Vou para Londres... Mas sem você!
− Não pode sair dessa maneira, é perigoso.
− Pois será perigoso se eu ficar a seu lado, do jeito que estou me sentindo. Vá embora!
Darcy estava assustado com minha reação e percebeu que eu não voltaria atrás. Entrou no carro e me seguiu lentamente por mais algum tempo, tornando a me chamar de vez em quando, mas logo consegui tomar uma condução pública para uma cidadezinha próxima onde peguei um trem para Londres. Quando não vi mais o carro dele, não consegui conter as lágrimas, apesar de não estar arrependida do que havia feito. Mas a vida real havia chegado ainda antes que meu plantão começasse no dia seguinte de manhã, bem mais cedo do que eu esperava.
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