Citações

Quando as pessoas se decidem a adotar um tipo de conduta que sabem errada, sentem-se injuriadas quando se espera algo melhor da parte delas.(Jane Austen)

Entre o Céu e a Terra - Capítulo IX

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Capítulo 09

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Collide - Howie Day

 

O restante do jantar dos Lucas se tornou muito aborrecido depois que fui obrigado a me afastar de Lizzie para cumprir minhas funções de membro do Conselho do Hospital.  Enquanto conversava com outros médicos, trocávamos olhares e eu a observava de longe, conversando com Charlotte ou com a irmã, ou dançando uma ou outra vez com algum convidado e nestas ocasiões foi difícil me conter para não deixar meu interlocutor falando sozinho e separá-la de seus parceiros de dança. Afinal depois daquela festa nosso envolvimento se tornara público para todos, e embora preferisse continuar a ser discreto, eu não mais me importaria com mais nada  que os outros pensassem.

 

Quando consegui me desembaraçar de minhas obrigações e me aproximar dela, Elizabeth disse que precisava ir embora. Era bem tarde e eu me ofereci para acompanhá-la a sua casa, mas ela tinha vindo em seu próprio carro.

 

− Imaginei que tivesse vindo com Wickham...  − Eu disse com certo despeito.

 

− Não, apenas nos encontramos no estacionamento... − Ela respondeu, certamente percebendo meu ciúme.

 

Levei-a até o estacionamento e nos beijamos ardentemente mais uma vez antes que ela se fosse e eu a avisei que a seguiria com meu carro até que chegasse em casa em segurança. No domingo que se seguiu, achei que se ligasse para ela estaria pressionando-a demais, além de saber que ela trabalharia à noite. Assim, aguardei ansioso a terça-feira para nos encontrarmos no hospital em um plantão comum.

 

Havia um estranho clima entre nós depois de tudo que acontecera, mas sabíamos que não era possível conversar sobre aquele assunto no ambiente de trabalho e de certo modo isso era um alívio, embora eu precisasse me controlar para não pensar em seu corpo de encontro ao meu outra vez...

 

− Elizabeth, você gostaria de assistir uma cirurgia esta manhã? − Perguntei de súbito.  Foi a primeira coisa que me veio a mente.

− Sim... Claro.

Ela me respondeu como se tivesse sido apanhada de surpresa pela minha pergunta inesperada.

− Muito bem... − Respondi, soando com uma frieza que eu não pretendia.

− Está me convocando porque eu disse que você era machista e preferia outros residentes a mim? – Ela havia se colocado na defensiva.

− Não a estou convocando. Estou convidando.  E realmente quero que participe desta cirurgia, embora não seja eu a operar, mas estarei no centro cirúrgico.  É um caso que deve interessá-la, o paciente é uma criança de dez anos diagnosticada com um tumor no cérebro, e como você disse que pretendia se especializar em neurocirurgia, achei que gostaria de poder auxiliar.

Os olhos dela brilharam, e vi um leve sorriso em seus lábios.

− Estou surpresa de que se lembre de que desejo me especializar em neurocirurgia.

− Ficaria ainda mais surpresa se soubesse de quanta coisa me lembro sobre você. − Estas palavras saíram de minha boca sem pensar, e me arrependi logo depois.

Ela me olhou intrigada.

– O que disse?

− ... Chegamos.  − Eu fingi que não havia escutado sua pergunta e por um triz consegui escapar de maiores explicações ao deixarmos o elevador.

 

Entramos no centro cirúrgico e tudo já estava pronto para começar. Nos preparamos para acompanhar a intervenção e Elizabeth observava concentrada todos os movimentos precisos que eram feitos numa cirurgia tão delicada. Seus olhos estavam fixos na incisão e em tudo que era comentado, se parecendo muito comigo em meu início de carreira.  Via-se nela claramente o desejo enorme de ser uma excelente neurocirurgiã.

 

Apesar da operação complicada e exaustiva, tudo transcorreu bem, e eu particularmente fiquei aliviado pela pequena paciente ter resistido.  Nos trocamos, pois ainda tínhamos o restante do turno a cumprir e durante o resto da manhã atuamos em alas diferentes da emergência. Precisava achar uma meio para que ela entendesse a profundidade de meus sentimentos, mas meu temperamento reservado dificultava qualquer ação mais ousada de minha parte.  O modo como eu me declarara a ela no jantar dos Lucas já me exigira muito esforço. Mas por outro lado eu havia feito grandes progressos e me sentia muito mais à vontade do que antes ao lado dela e esperava que ela também se sentisse do mesmo modo em relação a mim.

 

Como eu não deveria misturar assuntos pessoais com os profissionais, precisaria esperar um intervalo ou outra ocasião mais propícia para conversar com ela.  Um intervalo, era isso... Tentaria conversar com ela na hora do almoço, pensei ao olhar para o relógio após ter encaminhado todas as urgências que haviam surgido e perceber que faltavam poucos minutos para minha pausa. Procurei Lizzie pela emergência e ela não estava lá.  Provavelmente já teria ido almoçar.

 

Cheguei ao refeitório que se encontrava ainda um pouco vazio naquela hora. Sentada numa mesa ao canto estavam Elizabeth ao lado de Jane, e a frente das duas o outro residente daquela temporada, Thomas Weston e, novamente, George Wickham, sempre ele por perto. Eu hesitei e parei por alguns instantes antes de entrar, sem que eles me vissem, e tentei racionalizar meu ciúme. Era natural Lizzie se relacionar com o residente que era seu colega, e até mesmo com Wickham, que também era relativamente novo no hospital. A verdade era que nós, os mais antigos e graduados na casa, e eu principalmente, costumávamos nos sentar longe dos novatos quando estávamos no refeitório. Uma voz feminina interrompeu meus pensamentos:

 

− Analisando sua escolhida, William? – Caroline sussurrou ao meu ouvido, enquanto eu observava o grupo rir descontraído de algo engraçado que havia sido dito por Elizabeth que também ria de si mesma.

 

Ela parecia tão jovem e alegre, e apesar da diferença de idade entre nós não ser tão grande assim, eu me senti muito mais velho do que ela.

 

– Não quero parecer despeitada, mas não esperava algo tão previsível de sua parte. Namorar uma residente? Francamente, Will... – Caroline continuou falando baixinho, com um meio sorriso irônico e Charles que a acompanhava também se aproximou e observou o grupo.

 

- Você por aqui? Pelo visto está progredindo, já está conseguindo sair da Emergência para almoçar em paz - Ele disse.

- Hoje o dia está tranquilo.

 

Eu falei com uma cara de poucos amigos que Charles com certeza nem percebeu pois olhando para Jane nos convidou:

 

- Vamos nos sentar perto do pessoal...

 

Não havia dúvida de que ele se referia ao grupo onde Elizabeth estava, porque não conhecíamos bem os outros poucos presentes esparsos pelo refeitório. Caroline provavelmente não concordava nem um pouco com a sugestão, mas não disse nada, então depois de nos servirmos nos sentamos os três bem próximos da longa mesa onde eles estavam.

 

Thomas mostrou-se ligeiramente constrangido com nossa aproximação, Jane sorriu timidamente para Charles e Wickham, com toda sua petulância habitual, elogiou sorrindo a aparência de Caroline, a quem mediu de alto a baixo com os olhos, e fez algum comentário espirituoso sobre os nobres se juntarem aos plebeus, referindo-se, evidentemente a mim, o que me irritou e me fez mastigar a comida sem dizer uma palavra após me sentar.  Eu não estava para gracinhas e queria que ele percebesse isto. Elizabeth me olhou significativamente e eu lamentei a distância que me impedia de sentar ao lado dela. Charles que só tinha olhos para Jane, parecia ignorar completamente meu estado de espírito e tudo o mais que se passasse ao seu redor, quando subitamente levantou-se e tocando em um copo com a colher chamou a atenção de todos:

 

− Uma vez que estamos todos reunidos quero para convidá-los para Netherfield no próximo fim de semana, quando será meu aniversário. - Charles falou tão animado quanto um adolescente. – Alugamos a casa especialmente para esta ocasião, e os pais de Jane e suas irmãs também foram convidados. – Ele olhou apreciativamente para ela.

 

Caroline trocou um olhar muito significativo comigo, dizendo, sem palavras, que não aprovava o fato do irmão ir tão rápido com aquele romance e eu não pude deixar de concordar com ela.  Já havia assistido Charles se apaixonar e decepcionar inúmeras vezes e decididamente não poderia mais adiar a conversa que precisávamos ter sobre aquele assunto, antes que fosse tarde demais.  Embora Jane parecesse uma pessoa muito madura e equilibrada, não parecia sentir por ele metade do que ele sentia por ela.  Lembrei-me ainda da família Bennet, que conhecera ao procurar por Elizabeth, e da tagarelice e frivolidade da mãe e das irmãs, recordando-me de que se eu fosse mesmo ter um relacionamento sério com Lizzie também precisaria tolerá-las.

 

O convite foi aceito por todos e os arranjos para a viagem começaram a ser acertados, ao menos para aqueles que não estivessem em seus plantões.  Felizmente eu agora me dava o direito de reduzir os meus compromissos aos fins de semana, cumprindo a promessa de trabalhar menos que fizera a Georgiana, a quem também levaria para o fim de semana em Netherfield. Recordei-me mentalmente da escala dos plantões e deduzi que Lizzie também estaria livre.

 

Havíamos acabado de comer, e não faltava muito para o intervalo terminar.  Lizzie se despediu e levantou primeiro para sair e eu a acompanhei pelo corredor.

 

− Drª. Elizabeth, gostaria de continuar a conversa que ficou pelo meio neste fim de semana − eu a abordei abruptamente, indo direto ao assunto, porque nos restava pouco tempo.

 

− Agora? Aqui?

 

- Eu pretendia que tivesse sido no refeitório, mas...

 

Deixei implícito que havia gente demais antes onde nós estávamos.

 

- Teremos outras oportunidades

 

Ela estaria evitando ficar à sós comigo?

 

− Você não está fugindo de mim, está? – Eu me colocava cada vez mais numa condição de vulnerabilidade frente a ela.

 

- Não tenho motivo nenhum para isso e também quero terminar aquela conversa – os seus olhos agora me tranquilizaram, pois diziam e prometiam muito mais do que suas palavras. − Mas decididamente preferia que não fosse agora ...

 

Havíamos parado para conversar e os colegas que antes nos acompanhavam passavam por nós agora, Caroline com expressão contrariada.

 

- Está bem... Ao menos gostaria de saber: fui redimido de minhas atitudes machistas?

- Desculpe, porém você mereceu minha reclamação. Mas que tal agora esquecermos o passado? Desde que eu não seja mais preterida nas escalas de cirurgias, podemos selar nosso tratado de paz. – Ela disse com um sorriso.

 

Eu não pretendia exatamente deixar o passado para trás, embora não pudesse dizer isso a ela ainda. Pretendia, ao invés disso, reviver os momentos maravilhosos que vivera ao lado dela, tivessem sido estes reais ou imaginários.  E mais do que isso, eu sonhava em construir um futuro ao seu lado, embora reconhecesse o quanto isto ainda fosse precipitado.  Estava sendo mais sensato ao analisar o relacionamento de Charles do que o meu... Mas o que importava é que ainda havia muito tempo pela frente e ela agora estava ao meu alcance.  Eu esperaria pacientemente o aniversário de Charles para conversarmos com toda a calma que precisávamos.

 

*********************

 

O restante da semana em que tivemos plantões em comum, agi com mais cautela, evitando procurá-la pelo hospital, inclusive deixando de ir para o refeitório no mesmo horário que ela. Eu pretendia deixar que ela sentisse falta de minha presença e quem sabe até me procurasse. .

 

Finalmente chegou o dia do aniversário de Bingley. Eu estava ansioso por chegar à Netherfield, embora não desejasse passar todo o fim de semana por lá. E se tudo desse certo, já estava em meus planos levá-la para conhecer Pemberley, embora ela ainda não soubesse. Já havia inclusive ligado para a Srª Reynolds, dando instruções detalhadas para que tudo estivesse preparado para quando nós chegássemos.

 

Sexta-feira à noite, estávamos preparando nossas malas para a irmos a Netherfield, Georgiana, entusiasmada com a viagem e ansiosa por conhecer a famosa Elizabeth Benett que povoava meus sonhos e pensamentos. Lembrei-me do dia em que adentrei o refeitório e vi o grupo onde se encontrava Lizzie sorrindo de forma desanuviada e considerei que ela muito provavelmente devia me achar enfadonho.  Enquanto eu concluía estes pensamentos, Georgiana chegou ao meu quarto:

 

- Will, cada dia você está pior, agora anda até suspirando sozinho. - Ela disse em tom sarcástico.

 

− Georgie... Como você classificaria meu comportamento? – Diante do olhar surpreso de Georgiana, precisei me explicar. – Socialmente falando, eu quero dizer...

 

Eu fiquei um pouco aborrecido porque ela deu sonoras gargalhadas antes de conseguir se recuperar para responder.

 

− É o que estou dizendo, meu irmão está muito mudado...  Desde quando se preocupa com a opinião dos outros sobre você? Já sei... Não são os outros, é “alguém” em especial. – Ela concluiu piscando.

 

− Georgie, você é bem mais jovem do que eu e exatamente por isso gostaria de saber o que acha...  Sei que conviver comigo não é muito fácil e que não sou extrovertido como Bingley ou Wickham, por exemplo.  Lizzie é muito diferente de mim neste aspecto, e às vezes penso que... – Impaciente respirei fundo, sem conseguir colocar em palavras minha ansiedade.

 

­− William, você certamente não é a pessoa mais sociável do mundo, e sabe muito bem disso. Mas não deve se preocupar em mudar para agradar a ninguém, nem a Lizzie, isto não combina com você.   Ao invés disso, relaxe um pouco mais e seja você mesmo... Seja sincero com ela.  Não se esconda atrás do medo de dizer o que sente. Se ela o ama de verdade, vai amá-lo exatamente do jeito que você é.  Assim como nós o amamos, meu irmão.

 

Ela me abraçou e eu fiquei emocionado. Era impressionante como mesmo tão jovem e por vezes inconsequente, Georgiana fosse tão sensata algumas vezes.

 

− Mas ... uma coisa preciso reconhecer. – Georgie prosseguiu voltando ao seu ritmo habitual. – Precisa de roupas novas! Mais casuais, menos parecidas com jalecos para trabalhar...  E eu, por acaso também não tenho roupa para a festa do Charles. – Completou ela com um ar aparentemente cândido, mas de quem na verdade já tinha planejado tudo. - Que tal irmos às compras?

 

Sob estes argumentos fui arrastado por ela a um shopping center, certamente um dos programas que eu mais detestava, pois nunca fui dado a perder meu tempo fazendo compras.  Sempre que precisava de roupas ou ia a uma loja de departamentos e adquiria rapidamente algumas peças bem práticas ou ligava para Pierre, que fora o responsável por meu guarda-roupa mais formal desde que eu começara a estudar em Eton, e ele me atendia prontamente, já conhecendo meu estilo sóbrio.

 

Mas Georgiana provavelmente estava certa, porque eu sequer me lembrava da última vez em que havia feito compras.  E sua alegria ao escolher roupas novas para mim, com as quais eu concordava ou não, ainda que ela protestasse na segunda hipótese, era o bastante para compensar meu sacrifício.  Depois de comprarmos ainda um presente para Bingley, ela percorreu avidamente as vitrines escolhendo um vestido de noite. Como não sou exatamente um exemplo de paciência e muito menos um expert em roupas femininas, depois da milésima prova diferente de Georgiana estava disposto a dizer que qualquer vestido estaria maravilhoso para poder pagarmos a conta e irmos embora, ainda que ela viesse vestida com um saco de aniagem.

 

Porém desta vez ela escolheu um tomara-que-caia sinuoso e fluido em um tom de rosa escuro que me tirou o fôlego.  Realmente minha irmãzinha havia se tornado uma mulher, e eu nem dava por isso.

 

− Você está linda, Georgie. – Eu disse com sinceridade.

 

Ela sorriu para mim e eu imaginei nossos pais nos vendo naquele momento e em como eles deveriam estar satisfeitos com nossa amizade, e por um momento senti falta deles.  Enquanto Georgiana completava a compra escolhendo os acessórios corretos para o vestido, me distraí imaginando a belíssima visão de Lizzie vestindo uma roupa destas.  Eu mal podia esperar para vê-la outra vez.

 

********************************************************

 

O dia seguinte chegou e com ele a festa de aniversário de Charles Bingley em Netherfield Park, onde ficamos hospedados. Eu e Georgiana descemos de braços dados para o salão principal.  A propriedade era muito ampla e agradável, e tudo tinha sido muito bem organizado, provavelmente por Caroline, que circulava aqui e ali dando os últimos retoques.  Sua irmã Louisa Hurst, que também tinha vindo com seu marido para a festa, a seguia tentando ajudar em algo que ainda estivesse faltando acertar, mas a conhecida eficiência de Caroline não havia deixado praticamente nada de fora que pudesse requerer seu auxílio.

 

Embora os convidados não fossem tão numerosos, a comemoração havia sido organizada em grande estilo, com as mesas cuidadosamente dispostas e ornamentadas e os garçons em uniformes elegantes a postos para o início da reunião sob um enorme toldo no jardim. Outra tenda menor havia sido instalada como pista de dança, com um DJ tocando as músicas eletrônicas habituais das festas mais chiques, mas que não me agradavam muito na verdade, me levando a concluir que estava mesmo ficando mais velho, e pensei com ironia ao ver como o ritmo acelerado parecia agradar a Georgie.

 

Os primeiros convidados não tardaram a chegar e entre eles avistei o Sr. e Srª. Benett, com suas filhas, de quem me lembrava de minha última viagem a Longbourn.  Logo me aproximei para cumprimentá-los e para apurar as razões de Lizzie aparentemente não ter vindo com eles. Assim que fomos apresentados, a Srª. Bennet me examinou cuidadosamente por algum tempo e disse com ar intrigado:

 

− Eu me lembro do senhor... Há uns dois meses esteve em Longbourn procurando por minha filha...

 

− A senhora tem uma ótima memória. – Disse eu tentando ser simpático e ganhar tempo para apresentar a explicação que havia imaginado de modo convincente  − Sua filha me socorreu quando sofri um grave acidente há algum tempo atrás e eu desejava agradecer, mas não tinha seu endereço.

 

Esta foi a melhor justificativa que consegui arranjar, embora não fosse verdadeira, e pareceu coerente para todos, menos a Charles e Georgiana, que me olharam de modo significativo, sorrindo discretamente. Mas como explicar tudo a quem nem me conhecia ainda?  Era uma mentira inocente, mas tinha certo fundamento, embora eu só houvesse sabido quem me socorrera pela boca da própria Elizabeth. Por sorte ela não estava presente, ou eu teria que esclarecer os detalhes e certamente acabaria me traindo.

− Elizabeth chegará daqui a pouco com os Gardiner. – Respondeu o Sr. Benett, como se lesse meus pensamentos.

 

Charles nunca parecera tão apaixonado por Jane Benett como naquela noite. Diante de toda a estrutura montada para a festa pensei que ele pudesse já estar pensando em anunciar um noivado na ocasião e fiquei preocupado.  Depois que a família Benett se afastou, ele se manteve à porta aguardando a chegada dos demais convidados e eu o chamei para conversarmos por alguns minutos, deixando a cargo de Caroline, Louisa e seu sonolento marido receberem quem mais chegasse.

 

− Charles, são poucas as pessoas a quem posso chamar de amigo, e certamente você é uma delas. – Comecei a difícil conversa com esta introdução. – E uma das mais difíceis funções dos amigos é nos dizer a verdade.

 

Bingley ficou um pouco assustado, mas não disse nada.

 

− Sinto muito por tocar neste assunto com você, mas se não achasse que fosse necessário, tenha certeza de que me calaria, mesmo porque não é de meu hábito intrometer-me na vida de quem quer que seja.

 

− Diga logo o que quer dizer, Will, pelo amor de Deus! – Charles respondeu com ansiedade, passando a mão pelo cabelo nervosamente.

 

Eu normalmente não era mesmo de preâmbulos, e isto devia estar preocupando Bingley mais ainda, mas não via como entrar no assunto sem antes prepará-lo de alguma forma para o que eu diria:

 

− É sobre Jane... −

 

Seu olhar surpreso demonstrou que não esperava que fosse este o assunto de nossa conversa.

 

- Ela não gosta de você. Não do mesmo jeito que você gosta dela, Charles. Talvez continue levando este relacionamento a frente mesmo depois que eu diga isso, mas eu precisava dizer assim mesmo. Sinto muito.

 

Charles não disse nada, apenas me olhou como se não acreditasse que eu tivesse sido capaz de dizer aquilo.  Depois seu rosto avermelhou-se de cólera e ele me respondeu com intensidade:

 

- Como pode dizer uma coisa dessas? Quem acha que é para se sentir no direito me dar conselhos? Sabe tão pouco destas coisas, Will... Qual relacionamento já teve até hoje que pudesse chamar de Amor?

 

Foi minha vez de ficar calado.  Seria inútil eu argumentar enquanto ele estivesse sob o impacto da emoção. E era verdade que só agora passara a conhecer ao que de fato era o Amor.

 

- E sabe do que mais? – Ele agora se aproximou com o dedo em riste e eu temi que ele tentasse me agredir, tão agitado havia ficado. – Não é o dono da verdade, William Darcy!  Não está na emergência do hospital nem sou um dos seus pacientes, que ouvem sua voz como se fosse um deus... Eu sei o que sinto! E sei o que Jane sente por mim...  E espero que nunca mais toque neste assunto outra vez, se realmente se considera meu amigo, como disse antes.

 

Ele concluiu sua resposta com um toque de ironia nas últimas palavras e se afastou pisando forte e ainda ofegante ao tentar se controlar. Talvez Charles ficasse algum tempo sem falar comigo por causa daquela discussão e infelizmente ela ocorrera no dia de seu aniversário. Mas conhecendo-o bem, eu também sabia que o principal motivo para que ele reagisse desta forma fora suspeitar de que minha opinião correspondesse à verdade. Caberia a ele agora analisar os fatos e tirar suas conclusões, pensei com um pouco de pesar, mas com a consciência aliviada.

 

Quando adentrei o salão, Lizzie chegava junto com os Gardiner e eu me esqueci de tudo o mais pela visão estonteante de seu rosto emoldurado pelos seus cabelos em um suave e elegante penteado e de seu corpo moldado sensualmente por um vestido branco ligeiramente transparente, embora este muito mais insinuasse do que mostrasse.  Para mim a noite começaria naquela hora.

 

 

 

 

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