Capítulo 08
Quando acordei no dia seguinte, tudo que acontecera na noite anterior ainda me parecia surreal, mas um sentimento de euforia enchia meu peito por nos termos aproximado mais rápido do que eu esperava. Eu me sentia excitado como se tivesse quinze anos outra vez, mas já não me apegava às memórias dos dias vividos ou imaginados em Blue Sky, preferindo evocar diante de meus olhos a encantadora imagem da mulher que dançara para mim na noite anterior. Pensei em ligar para ela, mas decidi esperar mais um pouco, pois ainda era cedo e talvez ela não tivesse acordado.
Naquele fim de semana eu estaria livre de plantões, assim como os demais médicos mais antigos do Remembrance, por causa do jantar na Casa dos Lucas, mas eu não sabia se Lizzie gostaria de ir comigo. Seria um encontro profissional, embora fosse realizado na residência da família Lucas. Eles estavam entre os principais membros eméritos do hospital e haviam organizado o jantar como uma comemoração do aniversário anual da instituição, que existia desde a Segunda Guerra Mundial.
- William, o que houve? Porque você está com essa cara de bobo?
Georgiana havia acordado e se sentava à mesa para tormarmos café da manhã.
- O quê, G.? – Eu voltei à realidade.
- E parece que também está meio surdo... O que aconteceu? Você não é de sorrir a esta hora da manhã, sempre acorda mal-humorado... Só melhora um pouco quando toma o primeiro gole de café.
Eu sorri do comentário de Georgie. Apesar de ter me disciplinado a acordar e dormir a qualquer hora da noite e do dia depois de alguns anos trabalhando em plantões, era um
fato notório para quem me conhecesse que eu acordava intratável pela manhã.
- Mas afinal, ultimamente você anda fazendo tanta coisa esquisita que nada mais é de se estranhar... – Ela prosseguiu tomando um gole de suco e esperando que eu reagisse de alguma forma ao que ela dissera.
Eu hesitei um pouco, mas sentia necessidade de compartilhar o que sentia e achei que minha irmã, mesmo sendo mais jovem, seria uma confidente apropriada.
- Posso contar G., mas prometa que não vai rir de mim, e nem me achar louco...
- Parece pior do que eu imaginava. Mas pode falar, vou tentar não rir. Quanto a não o achar louco, nada posso prometer.
- Eu achei Elizabeth Bennet. A minha Elizabeth!
Georgiana ficou sem ação, balançou a cabeça, abriu e fechou a boca rapidamente. Ela estava analisando o que acabara de ouvir.
- O quê? Você achou a mulher que viu nos seus sonhos? - Georgiana falava sem parar, não acreditando no que tinha ouvido de mim. - Pessoa física, que anda, fala, se mexe, tudinho? Ou quer dizer ela é fruto da sua imaginação? Como ela é de verdade?
- Calma Georgiana, quantas perguntas... – Sorri para minha irmã, e contei alguns detalhes sobre nosso primeiro encontro e nosso trabalho no hospital e sobre nosso encontro na noite anterior, omitindo alguns detalhes mais íntimos que não julguei próprio comentar com ela.
– Estou curiosa para conhecê-la pessoalmente. Embora depois do que você já me contou eu sinta como se a conhecesse um pouco. Quando vai convidá-la para sair outra vez?
Eu precisava reconhecer que também estava inseguro sobre como ela reagiria a uma reaproximação minha depois do final de nosso último encontro. Esperava que ela compreendesse a minha atitude, mas não estava certo se ela encararia minha recusa em ficar com ela na noite passada como uma rejeição.
- Não tenho certeza, G. Pensei em ligar para ela hoje, mas à noite precisarei ir ao jantar dos Lucas, o que não seria exatamente um encontro romântico. Além disso, nem sei se ela estará ou não trabalhando neste fim de semana...
- Will... – Georgiana sentou-se mais perto de mim e encarou-me com determinação. –Seus olhos brilham ao dizer o nome “Elizabeth”. Nunca o vi assim por causa de ninguém. Não jogue fora sua chance de ser feliz. Você precisa ligar para ela, ou ela achará que o que aconteceu ontem não teve importância para você
Eu nunca fora muito bom em entender a alma feminina e era sempre bom ouvir a opinião de uma mulher nestes assuntos.
- Está bem, Georgie. Ligarei mais tarde.
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Logo depois do almoço, achei que já havia me contido bastante, respirei fundo e liguei para Lizzie. Eu tinha o número dela por motivos profissionais. Costumávamos compartilhar uma lista com os telefones de todos os membros da emergência para alguma eventualidade, mas achei que não haveria nada demais em utilizá-la:
- Alô? – Respondeu uma voz feminina diferente da dela. Era a irmã.
- Olá, Jane. Quem fala é Darcy, como vai?
- Tudo bem, Dr. Darcy.
Ela não disse mais nada para facilitar a continuidade da conversa. Tomei mais coragem e continuei
- Eu ... poderia falar com Elizabeth, sua irmã?
Claro que era irmã dela, quem mais poderia ser!
- Um minuto, já vou chamá-la.
Depois de alguns instantes que pareceram durar uma eternidade, ouvi a voz dela:
- Alô...
- Alô, Elizabeth, como vai?
Senti a hesitação dela em falar comigo do outro lado da linha.
- Estou bem, e o senhor?
Aquele “senhor” dito de modo tão formal me desanimou um pouco, mas eu não poderia desistir agora.
- Muito bem. – Depois de mais alguns momentos de silêncio constrangedor consegui prosseguir. – E você, dormiu bem?
Naquele contexto, a pergunta era mais sugestiva do que eu pretendera, mas novamente não me ocorrera nada mais criativo para dizer.
- Na verdade, acordei com uma tremenda dor de cabeça... – Ela confessou - Mas já estou bem melhor. - Era um modo indireto dela fazer menção ao que acontecera antes. - Desculpe o trabalho que lhe dei de me trazer em casa... Eu estava um tanto alterada...
Agora ela se mostrava visivelmente constrangida. Será que se lembrava de tudo?
- ... Bebi um pouco mais do que estou acostumada. – Ela gaguejou um pouco enquanto tentava se explicar. - Na verdade não tenho o hábito de ingerir nenhuma bebida alcoólica, então não preciso beber muito para que faça diferença...
Eu podia apenas imaginar o seu rosto enrubescido ao dizer estas palavras do outro lado da linha. Como eu desejava estar perto dela de novo!
- Não .. aconteceu nada a mais entre nós... além do ... – Ela continuou.
- Não aconteceu mais nada, fique tranquila.
Eu jamais me aproveitaria dela, mas preferia não comentar isso em termos mais explícitos. Ouvi um mal disfarçado suspiro de alívio da parte dela.
- Você está na escala de plantão deste fim de semana? – Continuei tentando disfarçar nosso mútuo embaraço em falar da noite passada.
- Somente domingo à noite. Mais tarde, irei ao jantar dos Lucas.
Eu não poderia convidá-la, pois ela já estaria lá.
- Eu também vou ao jantar. Então poderemos nos ver hoje à noite...
- Sim... – Ela respondeu.
- Posso apanhá-la em sua casa?
Eu queria deixar claro para ela que havia ligado para convidá-la a estar comigo naquela noite, fosse onde fosse.
- Não se preocupe, irei em meu próprio carro. ... – Ela hesitou um pouco antes de continuar – E não pretendo beber outra vez. – Seu riso cristalino agora soou bem mais descontraído e nós nos despedimos, sem mais nada a dizer.
Mais tarde, ou nem tão mais tarde assim porque ansioso como estava preferi sair de casa mais cedo do que o previsto, cheguei à casa dos Lucas, que ainda se ocupavam dos últimos retoques para o jantar. Charlotte, sua simpática e única filha, me recepcionou à porta.
Não muito depois chegaram alguns convidados, entre eles Charles e Caroline, que me tratou com frieza, logo se afastando para conversar com outras pessoas. E logo após chegou Lizzie, acompanhada de ... Wickham? O que ele estaria fazendo ao lado dela? O ciúme me corroeu como ácido ao observar que ela sorria diante de algum comentário dele.
Caroline aproximou-se de mim e observando a chegada dos dois, sussurrou ao meu ouvido:
- Nem todos desejam exclusividade, William... Aliás, como você mesmo disse várias vezes, este tipo de relacionamento convencional não combina com você.
Ela se afastou com um sorriso sarcástico, me deixando entregue a emoções desencontradas que me agitavam interiormente. Elizabeth não havia me visto e se movia à vontade com George Wickham, que a conduzia pelo braço, através do salão já bem movimentado. Eles se aproximaram de uma mesa onde estava Charles e Jane e eu aproveitei para me aproximar.
A contrariedade que sentia sequer me permitiu cumprimentá-los de modo mais agradável do que um seco “boa noite”. Elizabeth me olhou um pouco surpresa pelos meus modos, mas nada disse e sentou-se ao lado da irmã em uma das mesas redondas e ornamentadas que os Lucas haviam organizado para o caprichado jantar. Wickham ficou em pé olhando para mim como se estivesse se divertindo com a situação. Se na noite anterior eu interiormente o agradecera por se ocupar de Caroline, agora estava a ponto de esmurrar aquele sorriso irônico e cafajeste que normalmente ostentava em seu rosto, lembrando-me de todos os motivos que tinha para antipatizar com ele.
Ele saboreou minha fúria por alguns instantes, mas logo pediu licença e se misturou aos demais. Senti afrouxar um pouco a tensão que me imobilizara e me sentei, enquanto Lizzie me olhou como se contemplasse um homem totalmente diferente do que conhecera na noite anterior, e perguntou abertamente:
- Há algum problema entre você e Wickham.
- Nada demais. – Respondi laconicamente, bebericando um gole de uísque para me recuperar.
Charlotte Lucas se aproximou para cumprimentar a todos e Lizzie se levantou e se afastou com ela, sem que eu pudesse impedi-la. Charles disse algo que nem ouvi, provavelmente tentando desanuviar o ambiente, e eu fiquei sentado por mais algum tempo, mas Elizabeth não voltou. Pedi licença a Charles e decidi circular pelos ambientes para encontrá-la. Lizzie ria de alguma coisa ao lado de Charlotte e o único meio educado em que consegui pensar para interrompê-la foi convidando-a para dançar, embora desejasse muito mais do que apenas dançar com ela.
- Me concederia a honra da próxima dança, Srta. Elizabeth? – Eu tentei ser um pouco engraçado, convidando-a de forma tão convencional, mas costumava ser um fracasso quando tentava fazer qualquer tipo de humor.
- Certamente, Sr. William Darcy. – Ela pareceu apreciar minha nova disposição e me estendeu uma das mãos.
TRADUÇÃO - Me Apaixonar de Novo
Parece com fogo que queima no meu coração
Cada segundo que passamos separados
Eu preciso de você por perto
Para cada dia que começar
Eu não vou deixar você sozinha
Há algo em você
Eu olho nos seus olhos
E tudo o que eu procuro eu pareço encontrar
Todo esse tempo está me matando por dentro
Eu preciso do seu amor na minha vida
Refrão:
Eu quero gastar o tempo até ele se acabar
Eu quero me apaixonar por você de novo
Como fizemos no nosso primeiro encontro
Eu quero me apaixonar por você de novo
Nós brigamos, ninguém ganhou
E agora temos uma montanha para superar
Você não pode voltar atrás
O passado está dito e feito
Eu preciso de nós para continuar
Refrão ( bis)
Você vai tentar de tudo
Você nunca achou que fosse dar certo antes
Quando você vive, quando você ama
E dá tudo de si para as pessoas
Você sempre se rende um pouco mais
Baby, "nada" não quer dizer nada
A menos que você esteja aqui para dividir comigo
Eu posso respirar, eu posso sangrar
Eu posso morrer em meu sono
Porque você sempre está nos meus sonhos
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Eu a conduzi ao salão agora lotado e para minha sorte estava tocando uma música que nos permitiu dançar juntos com mais calma. Sua mão queimava a minha e eu abria e fechava a outra mão livre para tentar desfazer a tensão. Eu a abracei e senti o calor de seu corpo responder ao meu. Queria beijá-la outra vez, mas achei que era cedo demais.
- Elizabeth...- Eu falei tocando as pontas de seus dedos. - Acho que poderíamos nos conhecer melhor, caso aquele beijo tenha significado alguma coisa para você.
- Dr. Dar... William... Ainda estou sobre o impacto do que aconteceu ontem, foi uma situação inesperada... Não pense que ajo sempre desta forma...
- De que forma? – Eu realmente não havia entendido o comentário dela.
Ela relutou em me explicar, mas sem alternativa foi obrigada a responder:
- Não costumo beijar ou ir além disso quando acabo de conhecer alguém...
Nada respondi e a aconcheguei em meus braços outra vez, desejando que a música demorasse por muito tempo ainda. O que ela dissera queria dizer que eu não era apenas mais um em sua vida, e isso era encorajador o suficiente para mim.
Do outro lado, Charlotte pareceu fazer um sinal de aprovação a Lizzie que não passou despercebido para mim. Teria ela conversado sobre nós com a irmã ou com a amiga? Fiquei imaginando que tipo de comentário ou pensamento ela teria sobre mim...
“ O Chefe da Emergência? É muito profissional. Tanto que o Sr. Compenetrado me chamou de razoavelmente bonita, e disse que seríamos somente colegas de trabalho e nada mais.”
Fora um grande azar ela ter ouvido aquele meu comentário tão infeliz, embora ela não o tivesse mencionado entre nós ainda. Eu acariciei seus cabelos e tentei imaginar que ela pudesse me ver de modo um pouco diferente, mais próximo do que eu era de verdade.
“Ele não tem nada a ver comigo. Somos como água e azeite. Embora ele me deixe confusa. E não posso negar que é um homem bonito, sobretudo aqueles intensos olhos azuis.”
Eu não era propriamente vaidoso, mas confiava que minha aparência de estereótipo romântico, cabelos escuros, alto e de olhos azuis, não desagradasse às mulheres. Porém não tinha, a exemplo de pessoas como Wickham, habilidade para me relacionar ou impressionar as pessoas, principalmente as que não conhecia tão bem. Talvez fosse esta uma das coisas que me irritava nele, inconscientemente. Lembrando-me disso uma onda de ciúme tomou-me outra vez e meu corpo se enrijeceu.
- O que há entre você e George Wickham? – Me vi perguntando, sem mais nem menos, me afastando um pouco dela.
Ela pareceu surpresa e um tanto contrariada.
- Nada demais. – Ela ironicamente deu a mesma resposta que eu havia lhe dado, sem esclarecer coisa alguma, e eu tentei controlar minha irritação antes que minha possessividade a afastasse. – Mas saiba que não antipatizo com ele, ao contrário do que observei em você. – Ela me desafiou.
Eu fiquei em silêncio, pois se abrisse minha boca acabaria confessando meus ciúmes e eu sabia que ainda não tinha esse direito sobre ela.
- É sua vez de dizer algo agora, Dr. Darcy. – Ela prosseguiu.
- O que deseja ouvir, Drª Bennet? – Retruquei um pouco sombriamente. – Sempre conversa enquanto dança? – Meus olhos percorreram seu corpo, sugerindo que havia melhores alternativas para nós do que apenas conversar ou dançar.
- Não. – Ela respondeu com ironia – Prefiro ser anti-social e mal-humorada. - Afinal, quem é na verdade William Darcy? – Ela agora parecia falar mais para si própria agora do que para mim. – Ouço tantas opiniões diferentes a seu respeito... Há momentos que seu olhar é frio como gelo, mas em outros é tão profundo que me diz muitas coisas sem palavras. E sinceramente fico sem saber o que pensar...
Nós paramos de dançar e por algum tempo parecia existirmos só nós dois ali, e mais ninguém. Eu a beijei, primeiro com suavidade e depois apaixonadamente, mas o ruído dos aplausos quando a pequena orquestra terminou a música nos interromperam. Sem dizer nada, apenas fiz um sinal em direção aos belos jardins dos Lucas e a levei pela mão naquela direção.
Chegamos ao extenso e exuberante jardim da antiga construção na qual existia alguns caramanchões não muito iluminados que davam alguma privacidade para os apaixonados que ali quisessem se refugiar de olhares mais indiscretos.
Caminhamos silenciosos por entre as aléas e procurei me afastar do ruído da música, para ficarmos o mais distante possível, pois pretendia que não fôssemos incomodados por ninguém.
- Bem, aqui estamos, o que quer de mim? - Ela falou em tom suave.
- Diga-me você … O que vê em meu olhar agora?
- Eu... eu... estou confusa, não sei bem o que pensar.
- Elizabeth... - Eu pronunciei chegando cada vez mais próximo de seus lábios.
- William... Acho melhor voltarmos para a festa antes que...
Ela tentou se afastar, e num ímpeto a tomei em meus braços sem deixar que ela completasse a frase, a beijei com maior intensidade, e ela rendeu-se incondicionalmente ao momento. Tanto meu corpo quanto o dela demonstravam claramente a forte ligação que nos unia.
- Venha comigo. - Puxei-a pelo braço para sairmos dali antes que alguém nos visse.
- Para onde? - Ela perguntou.
- Não importa. Você vem?
Ela me olhou por alguns instantes com a respiração ofegante e o rosto corado, e parecia indecisa.
- Talvez estejamos indo rápido demais...
Em seu olhar vi tanto desejo quanto certamente havia no meu, mas ela tinha medo. E desde que eu a reencontrara havia planejado não assustá-la. Mesmo assim protestei:
- Mas antes você...
Arrependido, interrompi rapidamente minhas palavras que também faziam referência à noite em que ela bebera demais. Mas era tarde, seu corpo se enrijeceu e ela se afastou.
- Sinto muito se teve uma impressão errada de mim, embora saiba que eu mesma, e mais ninguém, seja a responsável por isso. Mas acho que já expliquei isso antes.
Pior ainda, ela agora estava envergonhada do que fizera por causa do que eu disse.
- Não entenda mal, eu...
Malditas palavras! Como explicar para ela o quanto eu a desejava desde sempre? O quanto a amava?
Seria difícil sem contar tudo que acontecera comigo. Respirei fundo e prossegui:
- Não é o que está pensando. Na verdade eu sinto como se a conhecesse há muito tempo … Quando eu olho para você é como se...
Examinei seu rosto, a procura de algum sinal de reconhecimento, ainda que inconsciente, mas ela aparentemente desconhecia por completo o que eu dizia.
Tomei a sua mão, andamos mais um pouco e nos sentamos em um dos gazebos. Eu a abracei e beijei com ternura antes de continuar, mas ela agora se mostrava tímida em meus braços..
- Embora julgue não me conhecer tão bem, já deve ter ouvido falar muito de mim no hospital - Eu disse com um pouco de ironia e ela assentiu com um meio sorriso.
- Então já deve saber que sou um cínico por natureza e um cético por escolha. - Foi a minha vez de sorrir. - Mas mesmo assim, reconheço que alguns acontecimentos desafiam nossa compreensão.
Seu olhar de estranhamento demonstrava que ela não compreendia que rumo eu queria dar àquela conversa.
- Como nós dois, por exemplo.... Não acha que o fato de ter sido você a me socorrer no dia em que sofri o acidente e depois nos encontrarmos em uma cidade do tamanho de Londres desafia toda a lógica?
Eu escolhia as palavras com muito cuidado.
- Coincidências acontecem... - Ela comentou um pouco reticente.
- Não... - Protestei. - Não desta forma, Elizabeth. Não diante do que sinto por você. Do que sempre senti, desde que sonhava com seu rosto, sem sequer conhecê-la.
Eu havia deixado escapar o que ainda não pretendera dizer naquele momento. Mas guardar tudo comigo estava estraçalhando meu coração. Afinal, como dissera Georgiana, eu precisava assumir os riscos de amá-la e demonstrar o que sentia:
- Sonhar comigo? - Ela retrucou surpresa. - Isto é muito romântico, e não posso deixar de ficar lisonjeada, mas ainda não entendi onde quer chegar, Dr. Darcy.
Acho que ela pretendeu que o tratamento formal soasse como uma brincadeira, mas fiquei um pouco triste por ter percebido que antes de ser um homem simplesmente, era para ela, antes de mais nada, o profissional que era seu superior no ambiente de trabalho.
- Não sou um bom poeta, Lizzie. - Eu queria abraçá-la de novo, mas ainda a sentia mais distante do que antes. - Não estou usando uma metáfora. Eu realmente já a conhecia de meus sonhos, bem antes de encontrá-la fisicamente.
Pronto, eu dissera a verdade. Bem, nem toda a verdade, mas a que era possível dizer agora. Não sabia que efeito isto teria sobre ela, mas ao menos me sentia profundamente aliviado daquele segredo. Olhei para ela ansioso pela sua reação. Ela estava pensativa e silenciosa, contemplando meu rosto como se fosse capaz de ver através dele.
- Sei que é difícil aceitar isto como fato. - Continuei - Mas acho que com o pouco que conhece de mim saberá que não inventaria esta história. O que eu digo é apenas a verdade, embora eu também não saiba como explicar algo assim racionalmente.
Pelo seu semblante, passado o impacto inicial, ela agora parecia ter absorvido melhor minha revelação:
- Também não costumo acreditar neste tipo de coisa, mas diria que ...
Enquanto ela dizia isto, uma voz vindo em nossa direção nos interrompeu. Eu porém não me importava com mais nada ao meu redor, apenas Elizabeth existia naquele momento. Mas Charles nos lembrava que a festa continuava, mesmo sem a nossa presença.
- Darcy? Sinto muito, mas estamos sendo chamados para a homenagem ao Conselho.
Ele me chamava ainda de longe, provavelmente ciente de que eu não saíra do salão sozinho, mas no silêncio do jardim eu era capaz de compreender claramente cada palavra que ele pronunciava, assim como Elizabeth., que se levantou, sem concluir o que dizia, e tomou a minha mão para que voltássemos à casa, embora antes me abraçasse.
- De qualquer modo, William - Ela agora pronunciara meu nome lentamente, como para demonstrar que se sentia mais próxima de mim. - Gostei muito de ouvir o que disse com tanta sinceridade. Embora ainda não sinta que o conheça há tanto tempo, como você diz me conhecer, já posso dizer que começo a saber quem realmente é William Darcy.
Ela se inclinou na ponta dos pés, porque eu era bem mais alto do que ela e me beijou, num misto de afeto, desejo e paixão ao qual eu correspondi com intensidade. Porém logo a voz de Charles tornando a me chamar nos obrigou a interromper aquele momento. Eu ainda a detive pela mão dizendo:
- Ainda precisamos terminar esta conversa.
- Sim. - Ela respondeu. - Teremos outras oportunidades.
Seu sorriso se iluminou, e o olhar dela era um misto de travessura e sensualidade. Naquele momento eu sabia que havia vencido uma batalha. Elizabeth estava vindo para mim.














