Capitulo 07
Não seria um “encontro” de verdade, era apenas um happy hour entre colegas de trabalho, mas parado ali diante de Lizzie eu estava tão nervoso que parecia um adolescente, sem saber como agir. Fiz um gesto apontando para meu carro, abri a porta do carona para ela, que visivelmente contrariada entrou, já que Charles e Jane abertamente propuseram que ela fosse comigo. Depois que entrei, nossos olhares se encontraram e ambos ficamos constrangidos. Consegui reunir o que me restara de coragem e tentei me justificar enquanto ligava a ignição:
- Sinto muito, não foi minha intenção embaraçá-la...
A percepção de que eu compreendia e reconhecia como ela se sentia a fez sorrir levemente. Ao recordar-me de minhas lembranças mais antigas de nós dois juntos, por um momento fiquei triste e senti novamente o ímpeto de abraçá-la, mas precisei me conter, pois com certeza ela me acharia um louco e fugiria.
- Não há porque ficarmos... constrangidos. – Ela respondeu hesitante parecendo ter dificuldade em achar a palavra para concluir a frase.
- Claro. – Concordei rápido demais, enquanto dava a partida e lhe lançava outro olhar.
Lizzie pareceu não entender minha expressão e ficou levemente corada. Mas já que havia começado, eu teria que ir até o fim. Estava na hora de começar a demonstrar o que eu sentia por ela. Rodamos por um tempo em absoluto silêncio, e achei que seria eu quem deveria quebrar o gelo.
- Posso lhe chamar pelo seu nome fora do hospital? - Perguntei, tentando puxar alguma conversa.
- Dr. Darcy...
- William, por favor, não precisa me tratar tão formalmente fora do ambiente de trabalho. - Eu a interrompi tentando amenizar a situação e mostrar-lhe que apesar de tudo eu não era o monstro que ela estava imaginando.
- Dr. Dar... quero dizer William... Sim, pode me chamar pelo meu primeiro nome. Não há problema algum para mim também. - ela falou ainda meio reticente.
- Elizabeth... – Pronunciar seu nome fazia com que ela parecesse mais próxima de mim. - Não quero estragar sua noite. Se você estiver se sentindo sem graça por minha presença, eu a deixarei com Charles e sua irmã e inventarei alguma desculpa, sem problemas...
- Você não vai estragar nada, desculpe se passei esta impressão. Estou cansada e na realidade preferia ter ido para casa, mas Jane e Charles insistiram tanto que acabei aceitando sair com eles.
Eu realmente não sei se ela estava sendo sincera ou não queria entrar em conflito comigo dentro do carro. Mas mesmo assim, ela também estava procurando deixar o clima um pouco menos tenso entre nós, o que já era algo positivo.
Eu continuava seguindo Charles, que parecia ter algum destino certo que não me revelara. Depois de mais algum tempo em silêncio, foi a vez dela falar:
- Seu carro é muito confortável.
Nenhum de nós dois parecia estar á vontade dentro do veículo naquele momento, mas o Volvo era de fato bem moderno e espaçoso.
- Eu o comprei depois que me recuperei. Antes dirigia um Audi.
Ela ficou silenciosa e pensativa por mais alguns instantes e subitamente disse estas surpreendentes palavras:
- Já nos conhecíamos antes de nos encontrarmos no hospital...
Seria possível? Novas esperanças me animaram outra vez e eu já pretendia iniciar meu relato sobre nosso breve passado juntos quando ela prosseguiu:
- Eu cheguei ao local de seu acidente logo depois que ocorreu. Estava escuro e seu rosto estava sujo de sangue, mas depois de Heather ter me explicado como se acidentou e de você ter mencionado o carro eu estou me lembrando de tudo com mais clareza...
Seu olhar pensativo parecia retornar àquela noite. Não fora o que eu esperava, mas era uma incrível coincidência que devia ter algum significado!
- Então era você... – Eu também retornei em pensamento àquela noite. – Não consegui ver o seu rosto, mas me lembro de sua voz.
Será que tudo que havíamos passado antes era apenas fruto do meu subconsciente abalado com a mulher que me salvara? Ainda assim estávamos frente a frente, e o fato é que eu queria me expressar e demonstrar todo amor que sentia por ela, mas não poderia contar sobre nossos “momentos” reais ou irreais juntos, se assim fossem.
- Eu preciso agradecer a você... Se não conversasse comigo, não teria ficado consciente antes da ambulância chegar.
Ela sorriu, agora abertamente.
- Fico feliz que tudo esteja bem agora...
Fiquei aliviado quando chegamos ao local que Charles havia escolhido ao constatar que o clima entre nós era bem melhor do que quando havíamos saído do hospital e comecei a achar que aquela noite inesperada poderia ser bem-sucedida para os meus planos de me aproximar dela. Deixei o carro com o manobrista e entramos em um restaurante novo que eu ainda não conhecera. Charles disse que o local era ótimo, com dois ambientes, bar e restaurante, onde poderíamos jantar, e no subsolo, uma danceteria. Ainda não era muito tarde e nós nos sentamos no bar. Charles era todo Jane, e não se importava com mais nada e ninguém, enquanto eu e Lizzie estávamos calados, cada um envolto por seus próprios pensamentos.
- Estamos em greve de palavras? – Perguntei a ela, tentando descontrair o ambiente outra vez.
- Não. Simplesmente não estou pensando em nada. - Ela respondeu enquanto degustava um vinho branco.
- Impossível. - Eu disse. – Sempre estamos pensando em algo.
- Sim. – Ela sorriu. - Na verdade, eu estava me lembrando de um plantão durante esta semana em que...
- Elizabeth, não vamos pensar nisso agora, acabamos de sair do Hospital, vamos esquecer um pouco o trabalho.
Fiquei boquiaberto com a frase que acabava de proferir. Este seria eu mesmo? Desde quando eu não queria falar de trabalho? Acho que estava sendo influenciado pelo momento e as frases realmente saiam de minha boca sem autorização de meu cérebro. Pensei por um momento que Georgiana ficaria orgulhosa de mim, se me visse agora e isto me lembrou de avisá-la que ia demorar mais um pouco. Lizzie me observou conversando rapidamente com ela através do celular e quando terminei ela me perguntou:
- Tem apenas uma irmã, Dr. Dar...?
- ... William ou Will, por favor. Sim, tenho apenas uma irmã, Georgiana. Nossos pais morreram quando éramos crianças ainda.
- Imagino o quanto devem ser próximos. Eu venho de uma família bem maior, somos cinco irmãs e mesmo assim sentimos muita falta quando estamos distantes.
Lembrei-me de quando conheci a família dela em Longbourn, mas preferi não comentar nada sobre este assunto ainda. Ia perguntar um pouco mais sobre ela, quando outros colegas do hospital chegaram ao bar, e entre eles Caroline. Como eu prometera a Georgie, eu havia conversado com ela. Esclarecera que nosso relacionamento nunca passaria do que sempre fora, e que eu não desejava prendê-la a um futuro sem as perspectivas que ela merecia.
Ela se mostrara madura ou ao menos fingira indiferença, mas se afastara de mim e não mantínhamos o mesmo nível de amizade de antes. Talvez por isso tenha achado estranho quando ela fez um sinal para o pequeno grupo de que fazia parte para que viessem diretamente para nossa mesa.
- Olá, pessoal. – O cumprimento de Caroline se dirigia a todos, mas seus olhos se fixavam em mim e em Lizzie, que ficou constrangida diante daquele exame.
No grupo de Caroline estavam duas novas enfermeiras que eu conhecia apenas de vista, um dos seus colegas da equipe administrativa e também George Wickham, um jovem cirurgião plástico, com quem eu antipatizava por que no passado tivera um relacionamento com Georgiana que não fora adiante, e a deixara muito triste. Eu não podia acusá-lo de ter agido de má-fé com ela, apesar de sua fama de conquistador, mas não conseguia deixar de alimentar uma grande má-vontade com o jovem médico em ascensão, que além de tudo era o meu oposto por seu temperamento extrovertido.
Ele, como os demais, observou divertido a reação de Caroline ao me ver, e após um curto silêncio constrangedor, todos se cumprimentaram e acabamos numa grande roda barulhenta de conversa que me impediu de me aproximar mais de Lizzie como planejava antes. Caroline nada dizia, mas continuava nos examinando de quando em quando.
Talvez desejando ter mais intimidade, Charles levantou-se de sua cadeira com Jane:
- Vamos lá para baixo dançar. Vocês vêm?
O convite era endereçado a todo o grupo. Eu e Lizzie nos olhamos por um momento e eu hesitei.
- O senhor dança, Dr. Darcy? – O seu tratamento cerimonioso agora tinha um tom de brincadeira. Seu rosto estava corado e ela parecia perceber que Caroline disputava um jogo de olhares com ela e não havia se intimidado.
- Não se eu puder evitar... – Respondi no mesmo tom de brincadeira - Mas posso abrir exceções.
Descemos as escadas sob o olhar frio de Caroline, e chegamos à danceteria. Enquanto me afastava ouvi Wickham comentar sarcasticamente com Caroline:
- Acho que foi derrotada no primeiro round ... Mas posso ser o seu prêmio de consolação.
Ele se levantou e estendeu a sua mão convidando-a a dançar e ela o seguiu um tanto contra a vontade.
A pista de dança era no meio do salão e já estava lotada, e a música era intensa e alta. No canto esquerdo estava o DJ, e mais ao fundo viam-se sofás onde alguns conversavam e outros casais sentados trocavam carícias. O ambiente era escuro, mas viam-se globos brilhantes que giravam em movimentos frenéticos, e luzes coloridas que ricocheteavam o local. Estava me habituando a escuridão, quando começou a tocar uma musica extremamente sensual, e Lizzie chegou próximo a meu ouvido e começou a acompanhar a letra:
Trilha Sonora:
Beyonce – Sweet Dreams
Doces Sonhos
Todas as noites quando eu vou para minha cama
Tenho esperança de que talvez
Eu vá ter uma chance de vê-lo
Quando fechar meus olhos
Eu estou perdendo a minha cabeça
No meio de um conto de fadas
Você pode segurar minhas mãos
E ser meu guia?
Nuvens cheias de estrelas cobrem o céu
E eu espero que chova
Você é a canção perfeita
Que tipo de sonho é esse?
Você pode ser um doce sonho
ou um lindo pesadelo
de qualquer maneira, eu não quero acordar de você
doce sonho, ou um lindo pesadelo
alguém me belisque
seu amor é bom demais pra ser verdade
Meu prazer proibido,
Eu não vou a lugar nenhum
Enquanto você está aqui
Eu flutuo no ar
Porque você é meu
Você pode ser um doce sonho
Ou um lindo pesadelo
De qualquer maneira, eu não quero acordar de você
Eu falo de você quando faço minhas orações
Eu tenho você em todos os meus pensamentos
Você me deixa fora de mim
Eu gostaria que quando eu acordasse você estivesse lá
E então envolver seus braços em volta de mim de verdade
E me diga que vai ficar ao meu lado
Nuvens cheias de estrelas cobrem o céu
E eu espero que chova
Você é a canção perfeita
Que tipo de sonho é esse?
Você pode ser um doce sonho
Ou um lindo pesadelo
De qualquer maneira, eu não quero acordar de você
Doce sonho, ou um lindo pesadelo
Alguém me belisque
Seu amor é bom demais para ser verdade
Meu prazer proibido,
Eu não vou a lugar nenhum
Baby, enquanto você está aqui
Eu vou flutuar no ar
Porque você é meu
Você pode ser um doce sonho
Ou um lindo pesadelo
De qualquer maneira, eu não quero acordar de você
Tatuei seu nome em meu coração
Para que fique gravado para sempre
Nem a morte pode nos separar
Que tipo de sonho é esse?
Você pode ser um doce sonho
Ou um lindo pesadelo
De qualquer maneira, eu não quero acordar de você
Doce sonho, ou um lindo pesadelo
Alguém me belisque
Seu amor é bom demais para ser verdade
Meu prazer proibido,
Eu não vou a lugar nenhum
Baby, enquanto você está aqui
Eu vou flutuar no ar
Porque você é meu
Você pode ser um doce sonho
Ou um lindo pesadelo
De qualquer maneira, eu não quero acordar de você
De qualquer maneira, eu não quero acordar de você
De qualquer maneira, eu não quero acordar de você
Acenda as luzes!
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- Will não consigo ficar parada com esta música, gostaria de me acompanhar?
Eu fiquei em êxtase, ela estava tão próxima de mim e queria dançar comigo... Senti seu hálito quente e fresco saindo de sua boca e indo de encontro a minha orelha e nuca. Quebrando todas as barreiras existentes entre EU e a DANÇA, aceitei prontamente:
- Como se dança isso? - Perguntei.
- Siga-me. - Ela disse.
Ela me puxou pela mão, e por um momento não a reconheci, embora provavelmente as doses de vinho que ela havia bebido durante o jantar fossem os responsáveis por esta reação. Ela se soltou completamente no ritmo da música, dançando de uma forma que me fazia perder o fôlego. Fiquei hipnotizado com seus movimentos: ela requebrava e em alguns momentos tomava minha mão para fazê-la rodopiar, com os olhos fechados, e eu a observava com afinco, mesmo debaixo somente da claridade das luzes e dos poucos refletores.
Enquanto eu escutava a música que falava de “sonhos”, percebi como a letra descrevia o que eu havia sentido e passado nesses últimos tempos, e o mais intrigante era que a ouvia ao lado da mulher dos meus sonhos, que se tornara real. Elizabeth me puxou para um pouco mais perto e eu a abracei, e nossos olhos se encontraram, uma eletricidade percorreu todo o meu corpo e pareceu-me que ao dela também, e eu a beijei. No início apenas exploramos os lábios um do outro com cuidado, para depois nos abandonarmos à sensualidade que nos dominou, esquecendo-nos de onde estávamos e de quem nós éramos. Quando a música acabou, como num transe, ela afastou-se de mim repentinamente.
- Desculpe-me acho que me empolguei demais com a música. - Ela falou, um pouco constrangida mas ainda sorridente.
- Eu gostei... muito.
Ela sorriu de novo, porém disse.
- Acho que bebi um pouco mais do que estou acostumada. Acho melhor ir para casa...
- Ainda é cedo - Objetei. – Mas se quiser ir embora eu a levo.
Estávamos os dois ainda flutuando naqueles sentimentos que descobríamos juntos e eu gostaria de prolongar aquela noite ao máximo. Entretanto, mais afastada, Caroline ainda não conseguia parar de olhar de relance para nós enquanto dançava com Wickham. Eu imaginei vê-lo sussurrar para ela:
- Segundo round perdido... Melhor prestar atenção a outras pessoas, não acha?
Ela parou de nos olhar e o encarou furiosa, mas ele não se intimidou e continuou sorrindo com aquele ar ligeiramente cafajeste que tanto agradava ás mulheres. Wickham, como todo bom vivant, nunca se mostrara apaixonado por ninguém, e eu sabia que era exatamente este tipo que mais atraía as mulheres. Mas estaria ele realmente gostando de Caroline? Era bem possível, considerando que estivesse investindo sobre ela quando claramente ela mostrava que preferia estar comigo. Pela primeira vez eu achei que teria algo a agradecer a Wickham.
Voltamos para nossa mesa onde agora só estavam Charles e Jane, ele novamente a olhando encantado. Não pude deixar de observar outra vez que ela não externava seus sentimentos de forma tão transparente quanto ele, mas perdido em minhas recentes emoções não dei muita atenção a isto, anotando mentalmente apenas que depois deveria conversar com ele sobre o assunto.
Nos despedimos e eu levei Elizabeth para casa. No caminho ela falava sobre vários temas aleatórios, desde as lojas e restaurantes pelos quais passávamos até comentários pitorescos sobre nossos colegas de trabalho. Ela ria e sorria, levemente embriagada e eu apenas a olhava, desejando que demorássemos a chegar para continuar ouvindo sua voz. Quando chegamos eu a ajudei a subir pelos degraus do antigo prédio onde ficava o apartamento que ela dividia com a irmã e ao alcançarmos a porta, ela a abriu com alguma dificuldade e depois encostou-se ao batente, com uma expressão enigmática. Aquela atitude poderia ser considerada um convite para que eu entrasse, mas eu resolvi me controlar diante de seu estado alterado.
Mesmo assim, não resisti a tomá-la em meus braços e beijá-la com a paixão que não pude demonstrar plenamente em público. Meus lábios queimavam os seus e minhas mãos contornaram as curvas suaves de seu corpo que se abandonava lânguido aos meus carinhos. Porém o que eu desejava para nós deveria durar muito mais do que só uma noite e eu não queria que ela se arrependesse de qualquer coisa que houvesse feito naquela ocasião. Por isso, por mais difícil que fosse, precisava me afastar.
- Até logo, Lizzie. – Eu me despedi, ainda abraçado a ela, que me interrogou com o olhar, mas nada disse quando fui embora.
Eu ainda teria que ser mais persistente para alcançar meu objetivo, porém a noite havia terminado melhor do que quando começou. Um raio de felicidade começava a brilhar em minha vida.
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