Citações

Não quero que as pessoas sejam muito gentis; pois tal poupa-me o trabalho de gostar muito delas.(Jane Austen)

Entre o Céu e a Terra - Capítulo IV

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Trilha sonora

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Nick Lachey - What’s Left of me

 

O Que Restou de Mim

 

Assisto minha vida passar

Na visão de trás do espelho

Retratos paralisados no tempo

Vão se tornando mais nítidos

Não quero desperdiçar mais um dia

Preso na sombra dos meus erros

yeah

 

Porque eu quero você

E eu sinto você

Espalhando-se debaixo da minha pele

Como a fome

Como uma queimadura

Para achar um lugar que eu nunca estive

Agora estou despedaçado

E estou perdendo força

Não sou metade do homem que eu pensei que seria

Mas você pode ficar com

O que restou de mim

 

Estou morrendo por dentro

Aos poucos

Sem rumo

Mas perdendo a cabeça

Em círculos que não acabam

Fugindo de mim mesmo até

Que você me dê uma razão pra continuar de pé

 

Porque eu quero você

E eu sinto você

Espalhando-se debaixo da minha pele

Como a fome

Como uma queimadura

Para achar um lugar que eu nunca estive

Agora estou despedaçado

E estou perdendo força

Não sou metade do homem que eu pensei que seria

Mas você pode ficar com

O que restou de mim

 

Caindo rapidamente

Mal consigo respirar

Dê-me algo em que acreditar

Diga-me que não é tudo da minha cabeça

 

Leve o que restou desse homem

Torne-me completo novamente

 

Porque eu quero você

E eu sinto você

Espalhando-se debaixo da minha pele

Como a fome

Como uma queimadura

Para achar um lugar que eu nunca estive

Agora estou despedaçado

E estou perdendo força

Não sou metade do homem que eu pensei que seria

Mas você pode ficar com

Tudo o que restou de mim

Yeah, yeah, yeah

O que restou de mim

 

Eu estou morrendo por dentro, veja

Estou perdendo a cabeça

Perdendo a cabeça

Estou simplesmente correndo em círculos o tempo todo

Você vai levar o que restou?

Você vai levar o que restou?

Você vai levar o que restou?

De mim

Simplesmente correndo em círculos o tempo todo

Você vai levar o que restou?

Você vai levar o que restou?

Você vai levar o que restou?

Levar o que restou de mim...

 

 

Capítulo 4

Quando acordei outra vez me sentia mais forte do que antes.  Não havia ninguém por perto e decidi explorar o lugar onde estava, descobrindo que já era capaz de me sustentar de pé sozinho.  Fui abrir a porta para ver se havia alguém no corredor e não vi ninguém. Pensei que gostaria de ver Elizabeth, ou melhor, Lizzie outra vez. Onde ela estaria?

Ao abrir a porta descortinou-se um cenário inesperado a minha frente, um amplo e comprido corredor, com paredes claras e janelas enormes que davam para um jardim muito bem cuidado.  Perguntei-me se estaria em um hotel ou em uma clínica, concluindo que precisaria me lembrar de perguntar isso a Lizzie quando a encontrasse.  Continuei a caminhada, ainda que lentamente, e cheguei ao jardim, que visto mais de perto era especialmente belo, com um lago de águas cristalinas a frente da construção e enormes árvores ao longe no que parecia ser o início de um bosque.

Só então percebi que não estava sozinho, havia algumas pessoas caminhando tranquilamente ao meu redor, umas sozinhas e outras em pares ou até mesmo em grupos, entre elas Elizabeth Bennet, que ao me ver abriu aquele mesmo sorriso que me desarmava.  Ela estava conversando com duas pessoas, um jovem e uma moça vestidos em tons suaves de azul e verde claros. Ao longe, percebi que ela ao me ver, se despedia deles e vinha em minha direção.

- Bom dia, William!  Que maravilha vê-lo de pé tão rápido! Como está se sentindo?

Lizzie, como sempre, sorria.  Seus olhos castanhos amendoados e inteligentes brilhavam e seu cabelo caía suavemente em cachos escuros e longos ao redor de seu rosto.  Ela realmente parecia pertencer a algum sonho, daqueles do qual você não quer acordar, e não à realidade.   Perdido em meus pensamentos, percebi que eu não respondera e ela ainda aguardava uma reação minha.

- Eu estou me sentindo bem...  Um tanto confuso, mas estou bem. – Respondi hesitante, ainda hipnotizado pelo sorriso dela.

- Vejo que já está explorando os arredores. – Ela piscou um olho, como se estivesse fazendo vista grossa para a travessura de uma criança. - Gostou do que viu?

- Sim, muito.  – Nós dois estendemos de novo o olhar à bela paisagem a nossa volta, antes de olharmos um para o outro outra vez.

Novamente a profunda sensação de bem estar que sentia ao lado dela me invadiu.  Ainda queria perguntar muitas coisas, principalmente o motivo de eu estar ali, em isolamento, mas a magia daqueles instantes ao seu lado era tão grande que eu temia estragá-los e me calei. Eu não me recordava do acidente ainda, e para explicar minha presença naquele lugar deduzia que houvesse sofrido um colapso nervoso ou estivesse sob o efeito de drogas que estivessem me provocando alucinações.  Afinal, a outra opção seria eu ter morrido. E esta hipótese não era provável, pensei com ironia. Meu corpo todo ainda doía, e não pregavam as religiões que era o espírito apenas que sobrevivia após a morte do corpo?

O caso é que fossem reais, fossem imaginários, eu desejava viver aqueles momentos por inteiro e decidi que tudo o mais ficaria em segundo plano, por isso não disse mais nada, apenas sorri de volta para minha encantadora enfermeira.  Quem me conhecesse, riria só em me ver daquele jeito, porque eu pouco costumava sorrir para qualquer um, ainda mais me desmanchando daquele jeito frente a uma mulher.

Lizzie tomou meu braço, convidando-me a continuar caminhando:

- William, vamos conhecer Blue Sky.

- Blue Sky? - Perguntei confuso. Achei que era um estranho nome para uma instituição médica.

- Blue Sky é o nome da propriedade, porque aqui sempre temos dias ensolarados, ou seja, é “Azul da cor do céu” levado ao pé da letra.

- É muito bonita, Lizzie. Só perde, talvez, para Pemberley.

- Pemberley?

- Passei minha infância em Pemberley. Um dia, quem sabe, você possa vir a conhecê-la...

A ideia de me encontrar com ela depois que tudo aquilo acabasse podia ser prematura, mas já era muito atraente para mim. Senti que Lizzie havia ficado pensativa como quem se recordasse de algo, mas rapidamente ela respondeu:

- Sim claro, seria um prazer conhecer sua casa, “Pemberley”.

Eu já a conhecia, de certa forma, afinal ela frequentara meus sonhos assiduamente, mas ficamos ainda mais próximos nas semanas que se seguiram. Caminhávamos juntos, andávamos de barco, e Lizzie me apresentava os recantos mais secretos de Blue Sky. Era intrigante como ela me conhecia tão bem.  Quando eu estava longe dela, meus pensamentos iam ao seu encontro.  O que estaria fazendo? De quem mais estaria cuidando, pensava com ciúmes.  Lizzie povoava meus sonhos, até mesmo quando estava acordado...

Talvez tenham sido os dias mais estranhos da minha vida, mas ao mesmo tempo eu não sentia nenhum desejo de partir, muito pelo contrário. Tanto o lugar como a presença constante de Elizabeth a meu lado eram reconfortantes.  Nada de celular ou bipe tocando, ou problemas para resolver. Exceto a falta de meus amigos e de minha família, parecia o paraíso, pensei, não sem uma ponta de desconfiança que preferi ignorar.

 

****************

Obviamente eu já vira muitos pacientes em coma, mas não conseguia imaginar como seria estar neste estado até passar por ele. O que os livros de medicina nos ensinam não são capazes de descrever o que alguém experimenta de forma concreta.  Cientificamente, o coma é um estado de inconsciência e quanto mais grave a lesão, mais profundo o grau desta inconsciência. Na verdade é uma forma do nosso corpo se defender do trauma que sofreu, economizando energia para manter os sistemas vitais funcionando, apesar de tudo.

 

Mas quanto mais o tempo se passa, normalmente mais se complica a situação do paciente.  E já iam quatro semanas após minha entrada como paciente no Remembrance Hospital devido àquele acidente, tempo limite para que eu não entrasse em estado de coma profundo ou vegetativo, ou mesmo viesse a óbito.

 

Além de Bingley, que vinha me ver sempre que podia, era frequente alguém dentre meus familiares e amigos estar presente, mesmo que não pudessem entrar na UTI, onde eu era mantido devido à gravidade de minha situação

 

- As atividades cerebrais se reduziram, Bingley. – O Dr. Gardiner que me acompanhava diariamente, informava Charles, em termos técnicos, que meu estado passava de grave a gravíssimo.

 

- O que mais é possível fazer para reverter este quadro, Dr. Gardiner? - Charles perguntou ansioso.

- Estamos empregando toda a tecnologia que temos, mas quando se está neste ponto os avanços dependem mais do paciente do que de qualquer técnica avançada de que a medicina possa dispor.   É como se fosse colocado em teste se a pessoa em questão deseja de fato sobreviver, ou simplesmente está bem onde quer que esteja. Na realidade, meu caro Bingley, tudo sempre depende de qual é a hora que cada um de nós tem reservada para viver ou morrer.

 

Ele completou estas frases com um longo suspiro, deixando Charles ainda mais preocupado.

Como nós médicos bem sabíamos isto poderia significar a morte bem mais próxima, embora o coma fosse freqüentemente de duração imprevisível, podendo se estender por dias, meses ou mesmo anos de inconsciência mantidos às custas de avançadas aparelhagens médicas.

 

Normalmente naquele estágio a família era avisada para que levasse em conta a possibilidade de doação de órgãos, ou para aqueles que tivessem convicções religiosas, realizarem os ritos finais para o paciente.  Onde terminava o racional, começava o ritual.   O Homem, que pouco pode diante da inexorabilidade da Morte, refugia-se na ilusão da Transcendência ao invés de encarar com realismo sua inevitabilidade.

 

Bingley explicou minha condição a Fitzwilliam que se viu na difícil função de notificar aos demais, preparando-os para tudo. Tia Katherine nunca estivera tão abatida e Georgiana, mesmo procurando ser forte, não conseguia controlar as lágrimas quando soube das últimas notícias.  Só depois que eu soube como tudo acontecera, porque naqueles momentos minha consciência estava muito distante dali, e estranhamente nunca me sentira antes envolto em tanta paz.   Mas quanto mais eu me recuperava ao lado de Elizabeth, mais fracos pareciam ser os laços que ligavam meu corpo à vida, embora eu não soubesse disso.

 

~*~

 

[i]Embora eu não mais dormisse e sonhasse tanto como quando havia chegado, naquela noite tive um sonho muito vívido.   Senti a estranha sensação de ter retornado a Pemberley, mas era um lugar diferente, disso eu tinha certeza.   Um tanto afastados de mim, meu pai e minha mãe trocaram um beijo suave e sorriram.  O afeto que sempre haviam alimentado um pelo outro fora sempre fora algo admirável para mim e aquela cena tocou-me.

Como se lessem meus pensamentos, eles me acenaram, e eu respondi ao cumprimento, um tanto incerto sobre como me aproximar, pois um riacho com uma corrente acidentada nos separava. Senti o desejo de atravessar o rio e conversar com eles, revelando o quanto sentira sua falta durante aqueles anos de separação, mas não conseguia me mover de onde estava.  Uma mão tocou meu ombro.  Era Elizabeth que me abraçou, sem nada dizer.  E eu chorei sobre seus ombros como não chorava desde o tempo em que meus pais haviam partido. E quando levantei meu rosto para olhar para eles de novo, não os vi mais.

 

Olhei para Lizzie, lembrando-me do amor que vira entre meus pais.  O que eu sentia por ela nunca havia sentido por mais ninguém. E como eu mesmo dissera ao Sr. Smith naquele dia no hospital, o dia que temos para fazer algo que faça a diferença é apenas um, o dia de hoje. Eu precisava encontrar coragem para dizer a ela o que eu sentia, antes que fosse tarde demais.  E falei de uma vez só.

- Lizzie, eu a amo... ardentemente.

Nossos lábios se aproximaram suavemente e eu a beijei.  O inicio foi caloroso e urgente, mas aos poucos a sensação de entrega tornou-se ternura, para além de qualquer sensação física que já tivesse experimentado antes. Nunca havia encontrado uma mulher com quem eu me sentisse assim. E estava certo de que nunca mais encontraria.[i]

**********************************

Depois que Fitzwilliam deu a notícia a todos, Georgiana não se conteve. Não achava justo eu estar perto de morrer e ela não poder estar ao meu lado.  Procurou Charles, e depois de muito insistir ele abriu um precedente. Ele sabia que Georgiana não o deixaria em paz se não o fizesse e se condoeu da dor que ela sentia.

 

Depois de colocar os trajes hospitalares necessários, Charles a trouxe até a UTI onde eu estava. Georgiana entrou e a emoção a invadiu. Segurou uma de minhas mãos na dela e começou a acariciar meus cabelos, e sussurrou próximo ao meu ouvido:

 

- Will... Will... Não sei se pode me ouvir, mas, por favor, não me deixe ainda. Preciso muito de você. É minha única família. Por favor, volte para nós...

 

Enquanto falava, lágrimas corriam pelo seu rosto. Dando um beijo em minha testa ela não demorou a sair, pois Charles já entrara avisando que ela não poderia ficar mais tempo.

 

**************************

 

[i]Eu só queria ter Lizzie em meus braços para sempre, mas ao nos afastarmos, em seu olhar havia um misto de alegria e tristeza. Parecia haver algo fora do lugar. Mas eu havia encontrado a mulher da minha vida, e ela correspondera ao meu amor, o que poderia dar errado? Naquele momento de êxtase, embora nos conhecêssemos há relativamente pouco tempo, encontrei coragem para lhe pedir:

- Lizzie, Case-se comig...

Tooo... Tooo ... Toooo...

Os sons estridentes e as vozes que surgiram ao meu redor eram desesperadores.  Eu não sabia o que estava acontecendo, mas minha vista se turvou rapidamente e eu ouvia alguém chamando meu nome mais de uma vez.  E a imagem de  Elizabeth foi desaparecendo...

**************************

 

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