Citações

A amizade é certamente o melhor bálsamo para os sofrimentos do amor não correspondido. (Jane Austen)

Entre o Céu e a Terra - Capítulo III

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CAPÍTULO III

 

“ – William? Está acordado?

Sempre achei esta pergunta absurda para se fazer a alguém que parece estar dormindo.  Se a pessoa estiver mesmo adormecida, não poderá responder, e se estiver cochilando, será irritantemente despertada.

- Sim, tia, estou acordado.

A voz de Tia Katherine me fizera retornar do tempo em que um abraço quente de minha mãe ou um afago de meu pai me colocavam na cama à noite e do qual esporadicamente eu me lembrava antes de dormir.    Georgiana e eu havíamos sido acolhidos por ela em Rosings Park logo depois do acidente e ela fazia tudo o que estava ao seu alcance por nós, mais até do que desejaríamos.  Dedicava-se com afinco á nossa educação, tanto quanto á da própria filha Anne. Infelizmente isto significava que ela nos controlava o tempo todo, dando instruções detalhadas sobre como deveríamos agir para estar à altura dos títulos de nobreza familiar que havíamos herdado.

- Eu queria dizer que... –

Era pouco comum que Lady Katherine de Bourgh hesitasse antes de dizer algo. Costumava ser de uma franqueza direta e assustadora com todos. E eu era obrigado a reconhecer que era um traço que tínhamos em comum, exceto pelo fato de que falava bem menos do que ela.

- Bem... Vamos sentir muito sua falta aqui.

Ela me abraçou, numa rara demonstração explícita de afeto, e na semi-escuridão do quarto iluminado por um abajur eu achei que havia lágrimas no rosto dela. No dia seguinte eu iria para Eton estudar em regime de internato, segundo ela mesma havia planejado para assegurar meu futuro, mas estranhamente minha tia estava triste por causa disso.  Meu primo mais velho, Fitzwilliam, continuaria a administrar os bens da família, e Pemberley em especial, até que eu completasse a idade própria para isso.  Georgiana, que agora era uma menininha e não mais um bebê, ficaria com Tia Katherine.

Sim, eu também sentiria saudades de todos. Só descobri naquele instante, o quanto, a seu modo, Tia Katherine amava os filhos de sua irmã. Mas não sabia como reagir à ternura dela, porque sempre fora muito tímido com minhas emoções, mais ainda depois da perda de meus pais.  Mesmo assim, me senti tocado pelo carinho que ela demonstrava, e retribui seu abraço com força, sem dizer uma palavra.”

***********

No correr da manhã do dia seguinte ao acidente, Fitzwilliam chegou ao Remembrance Hospital tão assustado quanto os demais diante da notícia do acidente comigo. Com ele vinham Lady Katherine de Bourgh, muito aflita, embora tentasse manter a postura impassível habitual, e minha prima e sua filha, Anne de Bourgh.

 

Ao me ver de longe na UTI,  Tia Katherine não hesitou em tecer suas críticas aos presentes por não terem impedido o sobrinho de trabalhar tanto que acabasse dormindo ao volante de seu carro e sofresse um acidente.

 

- Eu juro que vinha tentando impedi-lo ultimamente, Lady de Bourgh. – Disse Bingley com sinceridade. – Mas ele não costuma ouvir ninguém, como a senhora bem sabe.

 

Ela manteve o cenho franzido passando a encarar Georgiana, que tinha voltado ao hospital e ia devolver-lhe uma resposta tirada da ponta da língua, mas a jovem preferiu deixar passar a oportunidade devido à gravidade da situação. Tia Katherine sempre seria assim e não adiantaria muito brigar com ela numa hora destas, pensou minha irmã caçula.  Sua principal vítima, principalmente após Georgiana ir para Londres, era Anne, que parecia não ter coragem para confrontar o gênio difícil da mãe.

 

Meu primo, o normalmente bonachão e alegre Fitzwilliam, se deixou sentar no banco da sala de espera com uma expressão triste. Sua relação comigo ia muito além das propriedades que administrava para mim. Ele era praticamente meu irmão mais velho, o meu melhor amigo  ao lado de Bingley, com a diferença de que era obrigado a passar a maior parte do tempo longe de Londres.

 

Anne trocou um olhar cúmplice com ele e aproximou-se para confortá-lo.  Desde muito houvera um clima de romance entre os dois, embora Tia Katherine sequer suportasse a ideia deles se unirem, tendo sonhado desde sempre com um matrimônio entre Anne e eu, que nada sentíamos um pelo outro a não ser a camaradagem de crianças criadas juntas, mas era inútil argumentar com ela.

 

- Dr. Gardiner, que bom ver o senhor!

 

Bingley recebeu o eminente neurocirurgião que veio avaliar meu estado. Com expressão tranquilizadora, saudou a todos e após uma breve conversa com Charles dirigiu-se à UTI, de onde fui removido para uma tomografia.

 

***********************************************

Trilha Sonora:

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Lifehouse - Hanging by a Moment

 

Acordei sobressaltado. A impressão é que eu tivera um pesadelo horrível, porém não me lembrava bem do que havia acontecido nele. Foi quando percebi de costas para mim uma moça vestida toda de branco e perguntei num tom nada agradável.

- Senhorita, onde estou? Onde estão meu telefone e notebook?  Preciso falar com minha irmã e avisá-la onde estou. Ela deve está preocupada.

Ela se virou de frente para mim. Espantado, repliquei:

- Você?

Eu estava de frente para a mulher dos meus sonhos. Ela era real ou era fruto da minha imaginação terrivelmente abalada? Eu estava confuso, porém feliz. Mas meu lado médico falava mais alto.

Ela me respondeu docemente, arrumando o meu travesseiro.

- Acordou, Senhor Darcy, que bom. Sente-se melhor?

O cheiro dela era doce, rescendendo a perfume de rosas.  Fechei meus olhos, saboreando aquela fragrância, porém logo voltei a realidade. Ela esperava uma resposta.

- Sim, muito bem obrigado. Desculpe a minha explosão, eu estou um pouco perturbado com tudo que está acontecendo.

- Eu entendo, mas fique calmo. Por enquanto o senhor não precisará destes aparelhos para fazer contato com ninguém.  Todos já sabem que está aqui, inclusive sua irmã, não se preocupe.

Era sonho ou realidade? Onde eu estava? De onde ela surgiu? Embora estivesse envolto em tantas interrogações, só consegui dizer:

- Como assim? Quem avisou? Preciso de meu bipe, podem precisar fazer algum contato urgente comigo do hospital.

Era apenas meu impulso habitual para não ficar parado que me levava a dizer estas palavras, porque eu sabia que ainda estava fraco demais para me levantar da cama.  Imaginei que aquele lugar fosse uma espécie de unidade de tratamento intensiva e por isso eu estivesse incomunicável. Todavia, estranhei a ausência de Bingley, que certamente teria conseguido entrar ali como médico para me visitar quando soubesse onde eu estava.

- Só posso lhe dizer que está tudo bem em seu trabalho, e também com sua família e seus amigos.  Neste momento quem mais precisa de você é você mesmo.  Como eu disse, em breve poderá retornar aos seus afazeres.

E ela sorriu outra vez... Era impressionante como aquele sorriso tinha o poder de me acalmar, trazendo uma tranquilidade que sempre desejei e nunca havia alcançado antes. Foi então que eu percebi que não havia me apresentado a ela formalmente, como já devia ter feito desde o início, embora ela já soubesse o meu nome, por tudo que havia dito antes. Como eu perguntava coisas a ela sem parar, também não havia dado tempo a ela para me dizer quem era.

- Desculpe a minha falta de educação, pois eu não me apresentei. Meu nome é William Darcy. Muito prazer! E você é ...?

Estendi minha mão, e ela tocou-a com a sua, aquecendo minha pele um tanto fria pela temperatura ambiente, provavelmente oriunda de um potente ar condicionado central cuja saída que eu não conseguia ver.

- Senhor Dar...

- Não.  Apenas William, por favor!

- Está bem! – Tive a impressão de que um ligeiro rubor subiu ao seu rosto. - Vou chamá-lo de William, então.  Meu nome é Elizabeth Bennet, mas pode me chamar de Lizzie, como todos costumam fazer.  Afinal já nos conhecemos há algum tempo. Eu sou sua, como posso dizer, hummm...  assistente.

- Assistente?!! Uma enfermeira assistente?

- Podemos dizer que sim.  Estou aqui para auxiliá-lo no que precisar até que possa partir. Considere este período com um tempo de férias e aproveite a tranquilidade deste lugar para se recuperar completamente, antes de voltar...

Deviam estar injetando algum sedativo potente enquanto eu dormia, embora eu não visse nenhum tubo com medicação ligado a mim, pois a voz dela me embalava outra vez em um sono profundo que tomava meu corpo, independentemente de minha vontade. Não conseguindo fazer mais nenhuma pergunta, fechei os olhos com a imagem de Elizabeth se turvando cada vez mais, por mais que eu quisesse manter os olhos abertos para contemplar seu rosto.”

***********************************

- Charles, não tenho como dar um prognóstico seguro.  Ele pode sobreviver... ou não..  Pode se sair desta com sequelas... ou ileso. Embora as chances dele não sofrer nenhuma limitação quando despertar do coma não sejam muito grandes.  Veja... O impacto foi muito forte, especialmente nestas regiões. Mas vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, mas...

Dr. Gardiner estendeu as imagens da tomografia apontando as áreas lesionadas para Bingley.  Caberia a este contar a verdade aos demais, sem assustá-los excessivamente.  Afinal, o velho clichê ainda valia: enquanto houvesse vida, havia esperança.

 

Ao sair da UTI, Charles encontrou Caroline, que tinha os olhos muito vermelhos. Ele sabia que ela desde sempre estivera apaixonada por Darcy, embora este encarasse a relação entre ambos como pouco mais do que uma amizade. Ao ver a expressão do rosto de seu irmão, ela não precisou perguntar nada para entender que a situação de William era muito grave.

 

O irmão a abraçou e consolou o seu pranto convulso, tão raro na segura Caroline Bingley.  Depois pediu que ela fosse forte e não demonstrasse sua preocupação à família, pois não convinha angustiar os demais com possibilidades que podiam ou não se realizar.  Mas interiormente, Charles, calejado pelo contato constante com a morte em seu trabalho, embora desejasse o melhor, também preparou-se para o pior.

 

*******

 

Apesar de ainda ser relativamente jovem, eu me considerava bastante experiente em meu trabalho, talvez pela intensidade com que sempre me dedicara a ele. Muitos pacientes haviam passado por minhas mãos, e obviamente eu não conseguia me lembrar de todos os detalhes de cada caso, mas alguns em especial eram mais marcantes, como o daquele homem com câncer em estágio avançado, que queria desistir de se submeter aos tratamentos.  O Sr. Smith era  paciente de Bingley, mas estava constantemente sendo levado á emergência devido às complicações de seu estado e a sua recusa em ficar internado para um tratamento contínuo.  Confesso que já estava um pouco cansado da situação e o questionei:

- Por que age desta forma?  - Perguntei fazendo menção ao fato dele não aceitar os tratamentos para seu caso.

- Não tenho mais chances de sobreviver... –  A expressão cansada do rosto do homem de meia-idade, apesar de desencantada, não parecia transmitir o desespero que as suas palavras transpareciam.

- Está enganado. Charles deve ter lhe informado todas as opções de que dispõe para...

- Sim, Dr. Darcy. Tenho muito a agradecer a Dr. Bingley, ele é um ótimo médico.  Mas todos nós sabemos que tudo isso pode no máximo prolongar minha vida por alguns meses.  E Deus sabe sob que preço viverei durante este tempo...

Havia momentos em que ele já respirava com dificuldade.  E os efeitos colaterais da quimioterapia eram sempre muito duros, mas esta era sua única chance de sobrevida!

- Na verdade, Sr. Smith, nenhum de nós sabe exatamente até quando viverá.  Uma pessoa aparentemente saudável pode virar a esquina daqui a pouco e morrer, vivendo menos do que o senhor.  Não acha que deveria basear sua decisão na única dimensão de tempo de sua vida que pode de fato controlar, ou seja, o presente?

- Não tenho parentes tão próximos que cheguem a sentir minha falta quando eu me for, Dr. Darcy. Pelo contrário, aqueles que mais amava já partiram...

Agora uma sombra de tristeza passava pelo seu rosto.

- Prefiro não fazer nada para impedir minha ida para... o outro lado. – Continuou o Sr. Smith.

Era um homem solitário.  Porém, mais do que isso, a convicção de que sempre havia alguma explicação para o sofrimento humano e de que existia uma vida melhor depois desta é que normalmente fazia as pessoas agirem de forma tão ilógica como aquele homem.

- Vejo que o senhor é uma pessoa religiosa... – Minha conclusão foi tirada a partir de suas palavras e de uma Bíblia aberta em sua mesa de cabeceira. – Neste caso será inútil usar argumentos racionais

Eu sempre repetia esta frase  para provocar Bingley, que embora não tivesse uma religião em especial, achava que todos mereciam o consolo de acreditar no que quisessem, por mais absurdo que fosse:

- Não é possível usar argumentos racionais com pessoas religiosas.  Se fossem racionais, não seriam religiosas.

Mas o Sr. Smith não se incomodou com o que eu disse, limitando-se a perguntar:

- O que faria em meu lugar, Dr. Darcy? Em que o senhor acredita?

- Minhas convicções não estão em  jogo, Sr. Smith.  É a sua própria escolha que vai levá-lo ou não a se cuidar e eu não posso obrigá-lo a nada.

- Sim, mas eu gostaria de saber sua opinião...

Bingley certamente reclamaria quando soubesse que eu tentara impedir que um paciente seu naquele estado de se consolasse com a doce e ilusória perspectiva de uma ida para o céu depois que morresse, na tentativa de convencê-lo a se tratar.  Mas como era o próprio paciente que pedia isso,  achei que poderia ser honesto com o Sr. Smith:

- Ninguém vai a lugar para algum...

Os olhos do homem se arregalaram um pouco, tentando compreender o que eu dizia e a enfermeira na sala me olhou assustada, já imaginando que eu fosse dar uma das minhas famosas respostas “excessivamente francas” ao paciente:

- Não há mais nada depois que morremos, Sr. Smith.  Como eu lhe disse, o AGORA é tudo que temos de definitivo em nossa vida.

O paciente continuo me olhando, sem mais nada dizer, parecendo profundamente penalizado com meu ceticismo, e ao menos sua piedade por mim o ajudaria a se refugiar em seus devaneios.  Era certo que aqueles se iludiam como ele, poderiam ser mais felizes, mesmo morrendo mais rápido. Porém outros como eu, eram lúcidos demais para caírem nestas armadilhas.

Depois de chamar minha atenção, exatamente como eu previra, Bingley me disse, algumas semanas depois, que o Sr Smith havia morrido, permanecendo inamovível até o fim em sua decisão de não se tratar. E de vez em quando eu me lembrava dele e me perguntava: quem estaria certo afinal, eu ou ele? ”

 

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