Citações

Deleitar-se em um bom romance não é senão prova de espírito.(Jane Austen)

Entre o Céu e a Terra - Capítulo II

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CAPÍTULO II

 

Trilha Sonora

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You and Me - Lifehouse

 

Você e Eu - Lifehouse

Que dia é hoje

E de que mês?

Esse relógio nunca pareceu tão vivo

Eu não consigo prosseguir e não consigo voltar

Tenho perdido tempo demais

 

Porque somos eu e você e todas as pessoas

Com nada a fazer, nada a perder

E somos eu e você, e todas as pessoas e

Eu não sei porque não consigo tirar meus olhos de você

 

Todas as coisas que quero dizer

Não estão saindo direito

Estou tropeçando nas palavras você deixou minha mente girando

Eu não sei onde ir a partir daqui

 

Porque somos eu e você e todas as pessoas

Com nada a fazer, nada a provar

E somos eu e você, e todas as pessoas e

Eu não sei porque não consigo tirar meus olhos de você

 

Existe algo sobre você agora

Que não consigo compreender completamente

Tudo o que ela faz é bonito

Tudo o que ela faz é certo

 

Porque somos eu e você e todas as pessoas

Com nada a fazer, nada a perder

E somos eu e você, e todas as pessoas e

Eu não sei porque não consigo tirar meus olhos de você

 

Porque somos eu e você e todas as pessoas

Com nada a fazer, nada a provar

E somos eu e você, e todas as pessoas e

Eu não sei porque não consigo tirar meus olhos de você

 

Que dia é

e em que mês?

Este relógio nunca pareceu tão vivo...

 

CAPITULO II

 

[i]“A dor lancinante na cabeça e a vista turva não me deixavam pensar direito. Tentei me levantar com muito esforço, sentindo que também havia algum problema com o resto de meu corpo, que se recusava a obedecer ao meu comando para se mover. Sons indistintos chegavam aos meus ouvidos, entre eles o choro distante de uma criança.  Onde eu estava?

Quanto mais consciente ficava, mais aguda era a sensação de dor. Porém o medo de mergulhar na escuridão da inconsciência outra vez me compelia a me contorcer para fora das ferragens retorcidas que envolviam meu corpo.  Meus olhos foram se habituando á claridade do amanhecer e pude compreender que um acidente de carro ocorrera.  O choro infantil se fez ouvir mais alto.  Era Georgiana!  Reunindo o que me restava de forças, consegui me erguer e caminhar vacilante em direção aos soluços de minha irmã.

Presa ao assento de segurança, ainda que lançada ao porta-malas e com alguns ferimentos leves não parecia muito ferida.  Meus pais estavam desacordados no banco da frente.  Tirei Georgiana da cadeirinha e a embalei em meus braços, tentando acordar meus pais, sem sucesso.  Talvez estivessem mortos, pensei aterrorizado.   Precisava pedir ajuda!

Fui para a beira da estrada fazer sinal a algum carro que passasse tão cedo pela via pouco movimentada.   Uma vez que não havia outro veículo á vista, não sabia o que levara o carro de minha família tão longe da estrada, só parando ao colidir com uma árvore. Logo uma unidade da patrulha rodoviária parou acompanhada de uma ambulância. Alguém devia tê-los avisado.

[i]Mais tarde soube que meu pai havia morrido de imediato com o impacto, porém minha mãe foi levada ao hospital, assim como eu e Georgiana, para recebermos os cuidados necessários.  Meu braço estava fraturado, embora diante da dor que sentia por todo o meu corpo, eu não houvesse percebido.  Após imobilizada a fratura, me deixaram sozinho na enfermaria de observação do hospital, enquanto algum parente não vinha me buscar e levaram Georgiana para a ala pediátrica nos braços de uma enfermeira.

Sentado naquela sala vazia e verde desbotada, sem nada que a alegrasse, resolvi pedir a Deus pela vida de minha mãe.  As lágrimas brotaram em profusão de meus olhos de menino de doze anos.  Mas Deus não me respondeu.  Era inútil...  Minha mãe havia morrido logo depois de entrar no centro cirúrgico.”[/i]

*****************************

 

O barulho repentino foi estrondoso.  A hora avançada e o pouco trânsito explicavam a avenida praticamente vazia. Alguns segundos antes porém, um carro trafegava pela via deserta quando avistou outros dois carros, um  estacionado na acostamento e outro colidido contra um muro.  Parando o seu veículo, uma mulher desceu apressada, e ouvindo gemidos de dor foi em direção ao veículo acidentado.

 

Eu estava sujo de sangue e aparentemente inconsciente. Ao olhar para meu carro era fácil deduzir que apenas a proteção dos airbags e dos outros dispositivos de segurança tinham impedido que eu morresse na hora, tal a força do impacto.  A mulher verificou minha pulsação enquanto ligava de seu celular para chamar o socorro. Teve antes o cuidado de não tentar mover meu corpo para que não ocorresse uma lesão ainda maior.

 

- Senhor! Senhor! – Ela me chamava para ver como eu reagia. Balbuciei alguma coisa ininteligível, demonstrando não estar de todo inconsciente, embora não conseguisse me mover..

 

O outro motorista aproximou-se de mim para verificar a situação e embora não fosse responsável pela colisão, certamente deve ter ficado aliviado quando viu que eu não havia morrido.  Enquanto o resgate não vinha, a jovem ficou ao meu lado, tentando fazer com que eu não perdesse o restante de consciência que ainda me restava.   Sua voz suave me confortou durante aqueles minutos angustiantes em que nada podia ser feito a não ser esperar o equipamento e pessoal necessários.

 

Quando o socorro chegou, juntamente com o carro de polícia, ela e outro motorista relataram o ocorrido e depois de muita tensão enquanto eu era removido do carro, a ambulância me levou para o hospital mais próximo e eu recebi sedativos que me deixaram completamente desacordado na UTI móvel.

 

Não tardou o telefone a tocar insistentemente em minha casa, acordando a Sra. Reynolds, que havia chegado a Londres para passar uns dias. Ela recebeu a noticia ficando muito angustiada e logo ligou para Charles.

 

- Alô. – Charles atendeu o telefone, ainda sonolento.

 

- Dr. Bingley, quem está falando é a Sra. Reynolds.

 

- Sra. Reynolds? Aconteceu alguma coisa? - Charles respondeu, dando um salto da cama ao ver a hora em que a velha senhora ligava.

 

- Sim... Meu menino William... Ele bateu com o carro, acabaram de ligar, foi levado para o hospital onde vocês trabalham!  A primeira pessoa de quem me lembrei foi o Senhor.

 

- O quê?  William sofreu um acidente? Sra. Reynolds fique tranqüila, estou indo agora para o hospital.

 

- Obrigada, Dr. Bingley. Mas o que eu faço? Acordo Georgiana ou deixo para falar com ela pela manhã?

 

- Vou ver como ele está e telefono dando notícias para que a senhora possa chamá-la tendo informações concretas.

 

- Certo. Estarei acordada aguardando.

 

Assim que desligou o telefone, Georgiana, que ouvira parte da conversa sem que a Sra. Reynolds a visse chegar, falou:

 

- Sra. Reynolds, o que aconteceu com William?

 

- Ah, minha menina, você estava aí... – A velha governanta não sabia o que fazer. -

Não queríamos que se preocupasse sem sabermos o que realmente aconteceu.

 

- Por favor, Sra. Reynolds, diga logo!. O que aconteceu com William?

 

- Ele sofreu um acidente de carro, foi levado para o hospital e o Dr. Bingley foi para lá agora ver como ele está.

 

- Então eu vou para lá também! – Georgiana disse decidida.

 

- Também estou preocupada com ele, querida.  Mas é muito tarde, assim que o dia clarear nós iremos.

 

- Não, Sra.Reynolds, meu irmão é a única família que me restou, só temos um ao outro. Não vou ficar aqui parada aguardando notícias...

 

- Então vou com você. É só o tempo de me trocar, não quero que você dirija sozinha esta hora e também quero saber como ele está. 

****************************

A ambulância chegou rapidamente ao hospital. Os plantonistas daquela noite ficaram chocados em ver que era eu o acidentado da vez. Sem demora, fizeram todos os procedimentos cabíveis, embora entre alguns mais inexperientes fosse fácil perceber o medo de errar justamente com aquele que era o diretor geral da emergência.

 

Charles chegou apressado. Abrindo caminho entre as pessoas, procurava o chefe da equipe que estava de plantão para saber de tudo o que havia ocorrido e o que tinham feito comigo.

 

Foi então informado de que eu tinha chegado inconsciente e estava sendo submetido a monitoramento constante.  Depois de vários exames foi constatado que apesar de algumas tantas escoriações, aliviadas pelos itens de proteção do carro, eu não tinha nenhuma hemorragia interna, mas ainda estava inconsciente e com pouca reação e por isso havia sido colocado na UTI.

 

- Ah William, eu te avisei tanto. Olha o que você foi arranjar!  Mas você vai sair dessa... Vamos trazê-lo de volta! – Charles murmurou para si mesmo enquanto observava eu ser isolado na UTI.

 

*************************

 

[i]Acordei num lugar desconhecido .... Ao meu lado estava uma mulher vestida de branco.  Eu estava em um hospital?  Era a mulher que sempre via em meus sonhos! Por um momento pensei que estivesse sonhando outra vez, porém tudo parecia ainda mais vívido do que antes.

- Olá, Sr. Darcy, como o senhor se sente? – Perguntou-me ela, com aquele sorriso encantador.

- Não muito bem, eu acho... Onde estou? O que faço aqui? - Reagii exaltado.

- O Senhor não se lembra de nada?

Tentei concentrar minha mente para lembrar-me de algo, mais foi inútil.

- Não. – Respondi perplexo.

- O senhor está se recuperando e poderá partir em breve.  Só precisa repousar mais um pouco. E depois poderá ir. Fique calmo.

- Ficar calmo... Como me pede para ficar calmo? Não sei onde estou ... O que aconteceu? Não posso ficar aqui, preciso ir agora mesmo...

Eu tentei me levantar, mas mal conseguia me mover.

- O senhor está em uma unidade de tratamento. E está quase bom, precisa apenas ter um pouco mais de paciência...

Ela disse estas palavras com uma suavidade na voz que teve sobre mim o efeito que uma canção infantil teria sobre uma criança para embalar seu sono.

A mesma sensação de paz que eu sentia todas as vezes que já tinha encontrado com ela em meus sonhos me invadiu, e talvez por isso, apesar de todas as perguntas que não queriam calar em minha mente, meus olhos se fecharam lentamente e eu adormeci outra vez. [/i]

******************** 

 

Quando Georgiana chegou ao hospital, correu apressada para a área de emergência, deixando a Sra. Reynolds para trás. Ao encontrar Charles, quis logo ser informada sobre meu estado, e ele, procurando acalmá-la, explicou-lhe o que havia ocorrido segundo as informações que havia recebido.

 

- Houve um forte traumatismo craniano, Georgiana. Entrei em contato com Dr. Gardiner, que foi nosso professor, ele é um neurologista muito conceituado, e tenho certeza que fará o melhor por William. Só nos resta aguardar e orar.

 

- Charles, por favor, não me esconda nada.  Quero ser informada de tudo. Vou ligar para Fitzwilliam, ele precisa saber o que aconteceu. Só não sei se aviso logo a Tia Katherine...

 

- Fale primeiro com seu primo, ele decidirá como dar a notícia a sua tia. - Sugeriu Charles.

 

- Deixe-me vê-lo um pouco, por favor! – Os olhos de Georgiana imploravam a Bingley, mas ele antes de ser um amigo, era um médico.

 

- Não pode entrar, ele está em uma UTI.  Mas vou abrir uma pequena exceção, posso deixar que o veja rapidamente da porta, mas você não poderá chegar mais perto que isso, está bem?

 

- É melhor do que nada! - Ela se resignou.

 

Quando Georgiana olhou para meu corpo ligado a vários fios e tubos as lágrimas rolaram pelo seu rosto. Charles teve que abraçá-la.

 

Ela sempre fora diferente de mim, demonstrando seus sentimentos com muita facilidade. Depois disso, com sua conversa sempre tão persuasiva, Charles a convenceu a ir para casa. Afinal ela nada poderia fazer por mim naquele momento.

 

****************************

 

 

 

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