Citações

Mas a nossa própria vaidade nos engana. (Jane Austen)

Entre o Céu e a Terra - Capítulo I

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ENTRE O CÉU E A TERRA

 

Epígrafe:

Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.

(William Shakespeare)

 

Argumento: Cinthya Rosa

Trailer: Cinthya Rosa

Imagens: Ariane e Cinthya Rosa

Texto: Cinthya Rosa, Dayse Ruth, Luciana Viter

Revisão: Dayse Ruth e Luciana Viter




Prefácio

Gostaríamos de esclarecer, antes de começarmos a publicar esta história, que não desejamos entrar no mérito em si da questão da vida após a morte, embora este seja um tema focalizado pelo enredo de “Entre o Céu e a Terra”. No grupo de autoras há convicções diferenciadas, tanto evangélica como espírita, refletindo a pluralidade e respeito às diferentes visões do mundo que deve haver entre todos.. Nós, seres humanos, na verdade não temos respostas definitivas para estas questões existenciais, apenas perguntas que vamos tentando responder, cada um a partir de suas experiências e convicções. Mas a conclusão a que chegamos, sem nenhum tipo de contestação, é simples: tenha fé, ame sempre, e viva a vida com intensidade, porque ela é um dom frágil e precioso.


Trilha Sonora:

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Life like this - The Maine


Acorde, são cinco da manhã,
Você se apaixonou outra vez.
Há algo errado em se viver assim

Durante o dia não consegue parar de olhar
para suas longas pernas e seu cabelo castanho escuro
Você lhe dá um sorriso e é só isso.

Depois do trabalho
E você vê o rosto dela outra vez
Seus olhares se cruzam
e você entra em pânico quando chega perto dela.

Não sabe o que dizer
Nenhuma palavra surge em seus lábios
Você só consegue sorrir
E dizer até logo

Então você diz:
Me apaixonei, mas isto não está dando certo porque...

Me apaixonei outra vez
Não sabe o quanto tenho andado estranho
Ela escapou de mim outra vez
Aconteceu o mesmo semana passada
Já virou uma rotina

São novos sentimentos
Que me fazem perder o fôlego
Quando vou chegar perto dela

Eu me olho no espelho
Esperando encontrar uma saída
Se não encontrar ,
Não sei como vai ser

Então me visto bem
E arrumo meu cabelo
E escrevo algumas linhas
Para dizer a ela o quanto a amo

E assim espero conquistar
A única mulher que me faz querer cantar
Porque ela está em meus sonhos
E isto nunca foi tão real
Como se fosse mesmo verdade

E eu preciso de algo mais dela do que isso
Quero que ela seja minha
Embora talvez não consiga
Porque mal consigo respirar
quando estou perto dela

 

CAPÍTULO I

“A vi num belo parque. Parecia inicio da primavera. Em meio à relva verdejante as flores desabrochavam e a essência das rosas perfumava o ambiente. Eu montava um lindo cavalo negro de crina longa e o pelo do belíssimo animal reluzia. Minhas vestes eram de cavaleiro, mas não se tratava de uma roupa comum de montaria, eu vestia uma casaca comprida azul marinho e uma calça um tanto diferente, usava cartola e tinha costeletas, os cabelos um tanto compridos, embora não muito longos.

Foi quando a vi passeando em um vestido longo cor de champanhe e chapéu da mesma cor sobre os cabelos escuros em longos cachos. Seus olhos vivos eram de um castanho amendoado e logo atrás uma outra senhorita abria uma sombrinha para proteger ambas do sol. Era a mais bela visão que já apreciei. Enquanto ela conversava, um sorriso angelical e travesso se abriu em seu rosto. Foi quando nossos olhares se cruzaram. Fiquei hipnotizado por aqueles olhos, que mostravam a sua alma e a minha alma ao mesmo tempo...”

 

 

********************************************

 

 

O som insistente do bip acordou-me do sono rápido ao final do plantão noturno. Mais uma vez eu havia sonhado com a mesma desconhecida. E agora eu era um cavalheiro do século XVII ou algo do gênero! A cada vez que acordava eu me perguntava quem seria a mulher que povoava meus sonhos, mas logo meu bom senso me chamava de volta á realidade e eu imaginava que ela fosse alguma espécie de alucinação subconsciente provocada pelo cansaço, apesar de ainda sentir que estava tão próxima de mim quando despertava. Seria muito engraçado se alguém soubesse que o temido Dr. William Darcy vinha tendo sonhos românticos ultimamente...
Levantei-me e lavei o rosto na tentativa de espantar as marcas do cansaço, e ia sair apressado para atender às últimas emergências, quando Charles entrou no quarto de descanso dos plantonistas. Quando eu compartilhava estes sonhos com ele, era sempre advertido para as consequências de meu sono ser normalmente entrecortado pelo trabalho em turnos irregulares, ora durante o dia, ora varando a noite, então era melhor nem comentar nada. 
Mas eu precisava reconhecer que dormir era uma palavra que me deixara inquieto desde que começara a trabalhar no pronto-socorro. Sempre me entregava totalmente ao trabalho e se meu corpo não reclamasse um pouco de descanso, talvez nem estes intervalos eu me permitisse quando estava em um plantão no hospital. E já iam alguns anos vivendo sob este ritmo.

 

 

 

Dr. Charles Bingley e eu nos conhecíamos desde a época de faculdade, e não havíamos perdido o contato embora nossas especialidades fossem diferentes: ele, um oncologista e eu, cirurgião geral e socorrista. Além de trabalharmos na mesma instituição, tínhamos em comum o fato de lidarmos todos os dias com pacientes lutando em condições extremas para sobreviver. Charles porém tinha uma personalidade oposta à minha. Ele acreditava em uma dimensão espiritual onde poderiam existir explicações para as contradições humanas, mesmo que não conseguisse explicar bem como isso funcionaria. Eu preferia dispensar as ilusões e ater-me à realidade e por essas e outras nossa amizade era tão improvável quanto era inesperado eu ter estes sonhos recorrentes ao invés dele.
- Você ainda está aqui? Não acha melhor se mudar de vez para o hospital? – Charles perguntou com ironia. - William, você está emendando um plantão no outro. Não é um super-homem, precisa de tempo para si mesmo, tem que dormir mais. Já que é o chefe da emergência, deixe sua equipe trabalhar... Aliás, depois de todo o período que cumpriu no pronto-socorro poderia atuar como diretor de outra área ou priorizar as cirurgias eletivas, para preservar sua própria saúde.
- Este é o lugar onde me sinto bem, e não em qualquer outro setor do hospital. – Respondi decidido. – Parece que estou ouvindo a Sra. Reynolds, sabia? Quando estou em Pemberley...
- Para onde não vai há tempos, diga-se de passagem... – Charles me interrompeu.
- A indicação de viajar a Pemberley é uma prescrição médica, caro Dr. Bingley? Porque se for assim ... – Eu ia observar que Bingley também não retornava a Netherfield há muito tempo.
- William, falo como seu melhor amigo. – Charles atalhou minha resposta outra vez, assumindo sua expressão protetora habitual. - Gostaria de poder conviver com você por muitos anos ainda. Mas do jeito que vai, não sei até quando estaremos juntos.

 

 

- Charles, o que é a vida afinal de contas? Se viver é tão importante, estou exatamente procurando fazer com que meus pacientes tenham um pouco mais de tempo antes de terminarem seus dias. Uma nobre missão, não acha?
Charles conseguia ser meu amigo, talvez um dos meus únicos verdadeiros amigos, exatamente por normalmente ignorar o sarcasmo com que eu costumava me referir a assuntos deste tipo.
- Até quando a morte será sua inimiga pessoal? - Charles perguntou-me sério, evocando recordações que eu preferia esquecer.
- A morte não é a adversária de qualquer médico? Não é isso o que nos impulsiona a lutar a cada dia? – Eu costumava proferir este tipo de clichê para os acadêmicos em tom irônico, mas a frase soou estranhamente sincera em meus lábios naquele momento. Lutar contra a morte de meus pacientes se tornara a minha principal razão de viver.
- O que houve desta vez? Teve outro sonho com a desconhecida?
Minhas olheiras e meu semblante sombrio me denunciavam. E eu também precisava admitir que estava ficando meio louco com aquilo
- Como alguém sonha repetidas vezes com uma pessoa que nunca viu e nem sabe se existe?
- É exatamente disso que estou falando, Darcy. Você está esgotado. Espero que não aconteça algo mais sério. Lembre-se, Georgiana ainda é pouco mais que uma adolescente.
- Por acaso não me preocupo com ela? Não ficaria feliz se ela fosse obrigada a depender apenas de Tia Katherine.
- Então vá para casa. Deixe que sua equipe e o próximo turno assumam o que aparecer. - Charles sabia ser muito persuasivo com seus pacientes, e naquela hora tentava empregar os mesmos truques comigo..

 

 

 

Bip, bip, bip ... O som insistia em me chamar para a emergência, embora meu segundo turno já houvesse acabado. Reconhecendo que o estresse estava cobrando a sua cota, eu fora quase convencido a ir para casa, mas quando li a mensagem no aparelho mudei de ideia. Um atentado de grandes proporções trouxera muito mais pacientes que o normal e a descarga de adrenalina em meu corpo espantou qualquer resquício de sono ou cansaço que houvesse restado.
- Sinto muito, Charles, a situação está feia lá fora. Agora não posso descansar e nem ir embora. – Eu me justifiquei com ele enquanto me dirigia a passos rápidos para emergência.
Uma bomba de fabricação caseira explodira na estação do metrô próxima ao pronto-socorro do Remembrance Hospital, exatamente no horário em que muitas pessoas se dirigiam aos seus trabalhos. Embora boa parte das vítimas não fosse fatal, os ferimentos eram os mais diversos. Rapidamente vesti as luvas e assumi a coordenação das atividades, juntando o pessoal do turno da noite que se estenderia para quem já estava no hospital, com o do pessoal que chegava para o turno do dia. Medicamos e encaminhamos os mais feridos para exames ou os enviamos diretamente para o centro cirúrgico, onde atendi alguns casos.
Mas um profissional não pode se deixar levar pelos sentimentos, necessitando manter seu autocontrole para melhor atender seus pacientes. Os gemidos de dor e as expressões de sofrimento acabam se tornando uma rotina para nós, por mais duro que isto possa parecer a um leigo. Por isso, quando uma menininha de uns oito anos desacordada foi levada às pressas em sua maca para o centro cirúrgico, precisei mais uma vez distanciar-me do aspecto emocional para poder fazer o melhor por ela . Tudo indicava que se tratava de uma ruptura no baço. Uma transfusão de sangue foi providenciada enquanto eu iniciava a cirurgia de emergência. Do lado de fora a mãe, machucada com menos gravidade, esperava de braço dado com um garotinho ainda bem menor, que milagrosamente nada sofrera.

 

 

 

Porém, não pude salvá-la. E era sempre muito duro dar esta notícia aos familiares. Meu temperamento reservado não ajudava em nada nestas horas, porque eu não conseguia expressar minha solidariedade, embora a sentisse. Mas eu também não podia delegar esta função a ninguém mais, pois era o diretor da Emergência. Naturalmente a mãe rompeu em soluços e precisou ser atendida. O garotinho ficou me olhando, pequeno demais para entender exatamente o que ocorrera. E eu precisei me afastar para atender a outras pessoas que precisavam de meu trabalho, deixando a mulher sob os cuidados de uma enfermeira. 
Confesso que o óbito da criança ferida, após o extenuante esforço para resgatar a sua vida, me abalou. Ninguém percebia, mas eu me sentia derrotado toda vez que isto acontecia, em especial daquela forma, pois como Charles dissera, era uma questão pessoal para mim vencer a Morte. Racionalmente, eu sabia que não era culpado. Algum louco extremista em nome de alguma causa absurda matara aquela criança. Talvez até em nome de um Deus que eu não acreditava que existisse. Porém eu me sentia sempre responsável nestas situações. Havia um consolo para mim: diferentemente da maioria, não esperava por uma Ordem Divina que justificasse tais coisas, nemn acreditava em Dewstino. Não havia como explicar que uma criança inocente fosse vítima da insanidade de um idiota, essa era a verdade. 
Nestas horas eu apenas tentava esquecer o que acontecera e seguia em frente, trabalhando ainda com mais empenho do que antes. Por isso, embora o chefe do turno do dia já houvesse controlado a situação, eu não conseguiria deixar o pronto-socorro. Precisava continuar a cuidar das outras vítimas para anestesiar minha angústia. Só percebi que a maior parte do dia havia se passado quando Caroline me ligou, lembrando-me de que eu combinara jantar com ela naquela noite. Tomei um banho e dormi um pouco mais antes de sair do hospital, desta vez sem sonhos de qualquer espécie, tal era meu estado de exaustão.

 

 

 

Mais tarde fui ao escritório administrativo do hospital, onde Caroline Bingley me esperava.
- Ora, Will, meu querido, como foi o plantão? Ou devo dizer, que foram plantões ao invés de um único, Will? Espero que pelo menos tenha descansado um pouco...
Era impressionante como todas as frases que ela proferia continham meu nome nelas. Era Will pra cá, Will pra lá... Respondi sem muita paciência que descansara um pouco, mas que fora o suficiente, antes que recomeçassem as recriminações que Charles também me fizera. Caroline me retribuiu com um olhar que demonstrava não acreditar no que eu dizia, mas não reclamou. 
Ela era incrivelmente atraente. Os cabelos ruivos e a figura esguia e alta chamavam a atenção por onde quer que fosse. Costumávamos sair juntos, sem maiores compromissos. Às vezes eu passava a noite com ela, ou às vezes ela dormia em minha casa, apesar de eu preferir não levar nenhuma namorada para o apartamento que dividia com Georgiana. Mas Caroline não era exatamente uma namorada. Era irmã de Charles e uma amiga com quem às vezes eu fazia sexo de excelente qualidade, diga-se de passagem. Porém ter um relacionamento fixo com ela não passava por minha cabeça, embora ela deixasse implícito que isto não a desagradaria de modo algum.

 

 

 

Ela chegara a insinuar a possibilidade por uma ou duas vezes após acordarmos juntos pela manhã, porém ao ver minha expressão de tédio ao ouvir suas palavras, desistira sem que eu precisasse explicar mais nada. Ela sabia o quanto me desagradavam estas manifestações emocionais, apesar de não conseguir evitá-las ás vezes. Mas Caroline era alguém que não tirava os pés do chão, diferentemente do irmão. Era confortável que eu não precisasse me preocupar com tais surtos de sentimentalismo por parte dela. Era uma executiva extremamente eficiente, cuidando das contas do hospital com mais eficiência do que um buldogue. Chegava a achar que ela se preocupava mais com a saúde financeira da instituição do que com o bem-estar dos pacientes, mas como membro do Conselho Administrativo eu também sabia que o dinheiro para manter o Remembrance Hospital não caía do céu, e que o trabalho de Caroline era tão importante quanto o meu ou de qualquer outro profissional da equipe.
Entramos no carro e ela não parava de tagarelar, enquanto eu dirigia pensativo sem me preocupar em prestar atenção ao que ela estava falando. Chegamos ao restaurante e inevitavelmente conversamos sobre trabalho, o que foi um alívio, pois evitaria assim o tipo de diálogo irritante, pontuado por muitos “Wills”, que Caroline travava quando falávamos de assuntos mais pessoais.
Terminado o jantar, eu a levei para casa, e ela me convidou a ficar.
- William, não vai passar a noite comigo?
- Não, Caroline, preciso ir para casa. Não durmo direito há quase dois dias, e também não quero deixar Georgiana sozinha por tanto tempo.
- Ah, querido, você não precisa mais colocá-la para dormir.
- Caroline, hoje não! – Respondi, já um pouco irritado.
- Está bem. Mas vai ficar me devendo uma noite juntos... – Ela me beijou sedutoramente, reforçando o convite, mas tanto meu corpo como minha mente estavam cansados demais.

 

 

 

- Boa Noite, Caroline – Eu retribui o beijo levemente e liguei o carro enquanto ela acenava, dando um meio sorriso.
- Boa Noite, William – Eu percebi seus lábios se despedirem, enquanto o ronco do motor me levava ao merecido repouso.
Durante o trajeto para casa, apesar de exausto, eu não conseguia deixar de voltar a pensar no sonho que tivera na noite anterior. As imagens da mulher em minha mente eram como uma espécie de droga a me entorpecer. E foi assim que os lapsos dos sonhos com a jovem sorrindo me levaram a cochilar outra vez. Embora não dirigisse em alta velocidade, a hora era avançada, e uma caminhonete surgiu de repente à frente de meu carro em um cruzamento. Quando dei por mim, já não era possível frear a tempo. Eu havia acordado tarde demais.

 

 

FIM DO CAPÍTULO

 

 

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