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Imagino quem primeiro descobriu a eficácia da poesia em afastar o amor! (Jane Austen)

AMOR - Um Ingrediente Secreto Capítulo X

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CAPITULO 10

 

Darcy e Lizzy finalmente se renderam ao sentimento que começara há muito tempo, mas que convicções e muralhas levantadas de ambas as partes impediam que eles deixassem este sentimento transbordar.

 

Estarem sozinhos em Lyon foi o estopim para que tudo acontecesse. Distantes do restaurante e da imagem que Darcy sustentava, ficar próximos durante uma semana fez com que seus sentimentos reprimidos os encurralassem de tal maneira que nenhum ser humano normal aguentaria tanta pressão.

 

De volta a Paris, chegaram à noite, mas ao invés de deixá-la em casa foram direto para o apartamento de Darcy.

 

- Como ficaremos agora? Vai me demitir de sua cozinha? - Lizzy perguntou, deitada sobre o peito dele. Lembrava-se da entrevista que tivera com ele para a vaga no L’ Ambroisie.

 

- É uma possibilidade. - Darcy riu para provocá-la.

 

- Só que não fui eu quem te levou para a cama. - respondeu com um falso tom de aborrecimento.

 

- Calma, estava te provocando! Como são as coisas... e eu que levava a fama de nervosinho, entre outros adjetivos! - falou levantando-se da cama.

 

- Ah, é? Você quer assim? Venha cá então! - jogou-o novamente na cama, sem que ele esperasse. - Agora pode me demitir, Chef. Dessa vez eu te levei para a cama. - riram um do outro, enquanto contemplavam-se...

 

- Considere-se demitida. – falou de forma sensual, já beijando a orelha dela.

 

- É sério! O que vamos fazer?

 

- Não sei, faremos o que você quiser. Fora da cozinha você é quem manda.

 

- Ah é?

 

- Sou um homem apaixonado, o que posso fazer? – sorriu.

 

- Acho que enquanto não decidimos o que faremos, seria bom mantermos nosso relacionamento em segredo, ao menos por enquanto. Tudo bem?

 

- Por mim tudo bem. Mas não tenho nada contra entrar amanhã no L’Ambroisie gritando aos quatro cantos que namoro a assistente mais gata de todo o mundo culinário. Estou feliz com você. - ele disse olhando nos olhos dela.

 

- E eu com você. Pelo menos agora posso fazer uma coisa que sonhei faz tempo. Na época achei muito estranho, mas, pensando bem, não é tão estranho assim.

 

- E o que você sonhou?

 

- Estávamos na cozinha e eu te encontrava só de cueca. – ele riu e ela ficou sem graça, mas continuou. – Hum... Você me perguntou que prato eu iria fazer e eu... Espere, tenho uma idéia melhor. – falou já levantando da cama.

 

- Você vai onde?

 

- Na cozinha.

 

- Para quê? – perguntou achando graça.

 

- Preciso pegar algo para fazer a demonstração. Uma demonstração vale mais do que mil palavras – disse saindo porta afora. Voltou com o spray de chantilly nas mãos. - Bem, continuando, disse que faria um prato diferente, e você era o prato principal...

 

- Sério? Isso está ficando interessante, continue.

 

- Chantilly sabor Darcy. Te lambuzei todo de chantilly e não precisei de prato para saborear. Bem, assim como estou fazendo agora – provocou-o com o chantilly. - Até que caí da cama batendo com a cabeça... - completou em meio a uma careta, fazendo-o sorrir.

 

- Por isso então que você ficou com aquela cara assustada quando te mandei fazer aquele mouse de limão com chantilly? - ele deu sonoras gargalhadas deixando-a ainda mais constrangida.

 

- Não ria de mim! Claro que fiquei assustada, tinha tido um sonho estranho demais e você me vem com aquela de chantilly! Mas não sabia que você tinha percebido o jeito em que eu estava.

 

- Eu sempre percebi muita coisa em você, só que não falava. – falou deitando-a na cama enquanto prendia seus braços acima da cabeça.

 

- E posso saber por quê?

 

- Porque se te dissesse estaria me entregando...  E não podia admitir isso. Ainda.

 

- E você agora pode?

 

- Sim. Você me mostrou que realmente me ama e não está interessada em apenas se aproveitar do meu nome, das minhas receitas...

 

- Então foi por isso que ergueu aquela muralha toda?

 

- Sim, não acreditava mais no amor. Mas você trouxe paz à minha vida...

 

- Não fique chateado, mas Julius me contou o que te aconteceu. Quer dizer, mais ou menos. Ele deu algumas pistas e eu acabei descobrindo o resto.

 

- Uma conspiração pelas minhas costas?! – passou a fazer cócegas nela com a boca, encarando-a depois. – Mas com você foi diferente. Eu não te conhecia bem ainda, e só na noite do jantar que fizemos para Julius e Adelé é que pude perceber que com você seria diferente. E talvez se o Noah não tivesse entrado e quase nos pego de surpresa...

 

- Mas deixou passar tantas semanas...

 

- Lizzy, minhas defesas estavam bem levantadas. Muitas vezes odiei te ver com seu amiguinho floricultor. Inclusive, naquela noite fiquei no estacionamento olhando vocês se afastarem. Como foi difícil...

 

- Thierry não era floricultor. – riu do apelido que ele criara e insistia em usar.

 

- Mas sempre te mandava flores. Aquele cara deveria ter um jardim no quintal de casa! – brincou. - Odiava isso, vê-lo te mandar flores e não poder fazer nada. E pensei que tivesse esquecido ele, seu nome...

 

- Darcy, você é muito ciumento, hein?! Eu nunca precisei esquecê-lo. Eu queria esquecer você. Mas como era possível? Trabalhando igual a uma escrava do teu lado, essa era uma tarefa um tanto impossível... E quer saber? Só aceitei sair com ele na primeira vez porque você não me deixou ir ao salão no momento em que ele pediu para falar comigo. – riu.

 

- Então estava tentando me fazer ciúmes? Que coisa feia! – passou a fazer cócegas nela novamente. – Não precisava fazer isso. Só o fato de saber que você respira o mesmo ar que outros homens já me deixa inseguro. – admitiu.

 

- Se soubesse o quanto amo você passaria a se garantir bem mais.

 

- Eu também te amo. – falou, já tomando os lábios dela em um beijo intenso.

 

******************

 

No dia seguinte foram até ao apartamento de Charlotte e Lizzy. Quando chegaram, Charlotte levou um susto ao vê-los de mãos dadas ainda na calçada.

 

- Lizzy, pensei que você voltaria ontem. Aconteceu alguma coisa? - perguntou sem perceber que Darcy vinha logo atrás com a mala de Lizzy.

 

- Aconteceu... - Lizzy começou a falar.

 

- Sr. Darcy? Como está? - perguntou Charlotte já desconfiada.

 

- Estou bem, srta. Lucas. – era visível que ele estava desconfortável. – Acho que já vou indo. – falou nervoso. – Nos vemos mais tarde, então.

 

Ele já ia saindo constrangido quando Lizzy, só para provocá-lo, o beijou de leve nos lábios na frente de Charlotte. Ela não pôde deixar de rir ao vê-lo ruborizado. Era tão lindo!

 

- Está tudo bem. – sussurrou deixando-o mais tranquilo.

 

- Hã? Desculpe-me, mas não estou entendendo nada. – Charlotte falou quando ele saiu.

 

- Charlotte, o que aconteceu é que você sempre teve razão sobre nós dois. Estamos juntos! – sorriu abobalhada.

 

- Espere ai. Deixa-me ver se entendi direito. Vocês estão namorando, é isso?

 

- Sim, Charlotte, é isso. Sei que você está meio confusa, mas aconteceu. E nem vem que você já tinha uma certa desconfiança.

 

- Uau! Preciso de um tempo! – disse sentando-se no sofá. – Você saiu daqui quase namorando o francês gostosão e volta namorando o ogro bonitão. É muito para minha cabeça.

 

- Não é tão difícil assim de entender. – respondeu sentando perto da amiga. – Primeiro: eu não estava apaixonada pelo Thierry. Segundo: Darcy se declarou para mim e eu não pude resistir. Viu como é simples? – brincou.

 

- Mas, mas... E como você vai ficar lá no restaurante? Não vai ser demita, vai?

 

- Claro que não, ele não faria uma coisa dessas comigo...

 

- O que posso dizer é: EU SABIAAAAAAAAAAAA!!! – gritou abraçando a amiga.

 

********************

 

Voltaram ao trabalho e William Darcy estava tão diferente que todos no restaurante percebiam que seu semblante era outro. E os cochichos na cozinha eram de que ele tinha arrumado uma namorada durante o congresso em Lyon. Elizabeth tinha trazido o equilíbrio que ele procurava...

 

Lizzy preferiu que eles guardassem sigilo sobre seu relacionamento. Nem Charlotte poderia contar para Collins. Durante o expediente no restaurante continuavam a tratar-se da mesma forma, embora Darcy ficasse angustiado com isso.

 

Entretanto, sempre que ficavam perto um do outro durante a preparação dos pratos davam um jeito de se tocarem, despertando ainda mais as atenções dos outros funcionários.

 

Nas noites em que precisavam ir ao mercado saíam por último do restaurante, pois nesses dias Lizzy ia com ele direto para seu apartamento. Em uma dessas noites eles estavam deitados no chão, próximos à lareira, conversando após se amarem.

 

­- Sabe, tenho pensado em umas coisas... Julius mudou-se para a Suíça com Adelé. Paris está muito entediante. – ele comentou acariciando os cabelos dela. - Estou pensando em voltar para Londres e abrir um restaurante por lá. Quero começar uma nova fase da minha vida com você, tenho parentes por lá...  O que você acha?

 

- Você leu meus pensamentos? – falou entusiasmada. - Iria te sugerir o mesmo. Mas e quanto ao L’ Ambroisie?

 

- O restaurante não é meu. Tem o sous-chef que é uma pessoa bem organizada e muito bom na cozinha também. Pensei até em sugerir a ele que a Charlotte, talvez, fosse sua assistente direta, embora não saiba os planos dela...

 

- Não sei, acredito que Charlotte pretenda voltar para a América.

 

- Então você gostaria de voltar para Londres?

 

- Claro, minha família também está lá. Só assim poderei ver Jane, Charles e meu sobrinho com mais frequência... Mas vou logo avisando: esqueça estas regras culinárias em nossa nova cozinha, entendeu? Mande este carrasco embora porque eu estou farta dele.

 

- Ele não pode aparecer nem de vez em quando? - riu provocando-a mais uma vez.

 

 - Talvez, mas só de vez em quando. E ele que não se atreva a tomar conta da situação de novo.

 

A felicidade estava estampada no rosto de ambos. Amaram-se mais uma vez. Por eles as horas poderiam parar ali. Juntos, se esqueciam completamente do tempo.

 

Um mês depois, William Darcy pediu demissão ao dono do L’ Ambroisie, dizendo que estava voltando para Londres e não poderia mais assumir a cozinha do restaurante.  Foi difícil fazer o dono do restaurante aceitar esta decisão, embora tivesse garantido ao mesmo que o sous-chef teria condições de assumir. Depois de muito relutar, o dono do L’ Ambroisie finalmente concordou com a decisão.

 

Enquanto se decidia o que faria da sua vida, Charlotte foi ficando como assistente direta do novo Chef e ainda por cima amarrada em Collins.

 

Com a ajuda de Charles, enquanto terminava o prazo pedido para ele deixar o restaurante, procuraram um imóvel em uma área comercial bem elegante de Londres para instalar o restaurante até que encontraram um restaurante que há pouco tempo tinha fechado.

 

Compraram o restaurante e o chamaram “The Secret Ingredient”. Ele estava fincado em uma das áreas comerciais mais badaladas de Londres, em Park Lane, no bairro de Mayfair. Assim como no L’ Ambroisie, a cozinha era a parte preferida de ambos, era ampla e clara. As bancadas, bem espaçosas. Com algumas reformas ficou tão bom quanto o restaurante francês e talvez um pouco melhor.

 


 

Em todos estes detalhes Lizzy o acompanhava e sua opinião era sempre solicitada. Coube a ela a tarefa de fazer as entrevistas de todos os candidatos à assistente de cozinha, tanto homens como mulheres. E isso ela procurava equilibrar, para que não houvesse muita diferença entre os funcionários.

 

Darcy, de vez em quando, tentava ressuscitar o velho carrasco de sempre, mas bastava um olhar de Lizzy que ele se continha um pouco. Embora, para não se dar por vencido, sempre que tinha oportunidade dava umas broncas.

 

As compras do mercado agora eram feitas sempre pelos dois. Lizzy não admitia que um funcionário as fizesse. De certo modo, a técnica de Darcy passou a fazer parte de suas habilidades.

 

Também sempre compareciam a feiras gastronômicas, pois, apesar do fato dele não trabalhar mais em Paris, seu nome estava sempre entre os palestrantes. Principalmente na que sempre acontecia em Lyon, onde tudo aconteceu entre eles.

 

**********************************

 

Seis meses se passaram...

 

Depois que estavam estabilizados no novo restaurante, em uma noite após o movimento, Darcy e Lizzy estavam sentados conversando e degustando um vinho enquanto fechavam o balanço da noite.

 

- Gostaria de ir a Lyon neste final de semana. Poderíamos deixar o restaurante com o sous-chef e descansar um pouco, o que você acha? – Darcy perguntou de repente.

 

- Eu gostaria muito, mas você não acha que é muito cedo para deixarmos o restaurante nas mãos de outra pessoa?

 

- Lizzy, serão só dois dias e gostaria muito que fossemos. Então, o que me diz?

 

- Tudo bem, tudo bem. Vamos então.

 

No final da semana, deixaram tudo organizado e com as devidas recomendações de sempre e partiram para Lyon. Lá, onde tudo acontecera, Darcy tinha uma surpresa para Lizzy.

 

Hospedaram-se no mesmo hotel, e, depois de instalados, Darcy convidou Lizzy para um passeio.

 

- Vamos turistar, como você mesma falou da primeira vez que passeamos aqui? - ele perguntou-lhe depois que descansaram.

 

- Hum, vejo que aprendeu rápido a palavra segundo o dicionário Bennet! Claro que sim. Vamos.

 

Saíram caminhando sem pressa até chegarem àquele mesmo lugar onde seu primeiro beijo acontecera, junto com mais uma briga.

 

- O que você sente neste lugar? - Darcy lhe perguntou.

 

- Boas e más recordações. – respondeu pensativa.

 

- Como assim?

 

- Boas porque foi aqui que você me beijou pela primeira vez; más porque neste mesmo local nós também brigamos.

 

- Mas se eu te dizer que só me lembro das boas?

 

- Ficarei muito feliz com sua memória tão seletiva - ela respondeu entre risadas.

 

- Então srta. Elizabeth Bennet – começou a falar se pondo de joelhos para surpresa dela e retirando do bolso uma pequena embalagem. Abrindo-a, falou: - Neste mesmo lugar, você me daria a honra de tê-la como minha esposa?

 

- Você... Você está me pedindo em casamento?!

 

- Você ainda tem dúvidas?

 

- Não, claro que não! É claro que aceito viver com você pelo resto de nossas vidas! – sorriu, abraçando-o com alegria. - Então foi por isso que você queria vir até aqui?

 

- E teria melhor lugar para isso? Onde tudo começou realmente? Pode ir se preparando para nossos quatro filhos.

 

- Talvez cinco. – ela entrou na brincadeira sorrindo.

 

Felizes, eles não tinham mais com que se preocupar. Apenas em planejar o resto de sua vida juntos. O ‘para sempre’ estava apenas começando.

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