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Maridos e esposas passam a entender facilmente quando uma discussão é inútil. (Jane Austen)

AMOR - Um Ingrediente Secreto Capítulo IX

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Capítulo IX

 

 

Era a noite do quinto dia de congresso, e Elizabeth e Darcy só conversaram o estritamente necessário durante o dia inteiro. Incomodava a ambos o fato de não estarem se falando, mas o constrangimento era bem maior que seu incômodo.

 

Difícil era saber para quem a situação estava pior. Se para Lizzy, que se via num labirinto, entre o sentimento que só crescia por Darcy e a relação recém-nascida com Thierry; ou para Darcy, que declarara seus sentimentos e fora praticamente rejeitado por ela. E pior, sabia que ela estava se relacionando com outro homem e o único culpado disso era ele e sua insegurança idiota.

 

Certamente para Elizabeth não estava sendo fácil, e tudo o que ela queria naquela noite era tomar um banho e descansar. O seu dia fora completamente estressante. Na noite anterior recebera uma ligação de Thierry, dizendo que logo faria uma surpresa para ela, mas naquele dia ele não ligara. Era melhor assim. Ela precisava mesmo pensar.

 

Entretanto, ao chegar ao corredor onde se localizava seu quarto, viu alguém encostado à porta do seu cômodo com um ramo de flores nas mãos. Não podia ser, não podia.

 

- Sr. Darcy? O que está fazendo aqui?

 

-Eu não queria me parecer com o seu querido floricultor, mas percebi o quanto gosta de flores. – ele sorria de forma melancólica.

 

-Mas...

 

-Sei que suas preferidas são as tulipas, mas achei que essas gérberas têm sua essência. São risonhas e coloridas, e trazem alegria a qualquer lugar. E assim é você.

 

- Sr. Darcy...

 

-Apenas aceite. Depois das verdades que jogou na minha cara ontem pude perceber que tinha razão. Não posso pedir que confie no meu amor, mas quero ao menos suas desculpas.

 

Ela o olhou apreensiva, mas sorriu um pouco enquanto ele lhe entregava as flores.

 

-Obrigada. – sorriu.

 

-Ah, e isso também é para provar o que eu havia dito, que só dou flores a mulheres que realmente me interessam. – beijando a bochecha dela, ele sorriu um pouco. Já saía quando...

 

-Elizabeth! – uma voz masculina chamou a atenção dos dois.

 

-Thierry?!

 

“Oh meu Deus! Os três no mesmo corredor... E Thierry presenciara o beijo de William. O que eu farei agora?” – pensou assustada.

 

-O que faz aqui? – perguntou ela.

 

-Eu estou indo para o meu quarto. – falou Darcy, saindo sem cumprimentar Thierry e deixando os dois a sós. Sua parte ele já fizera e deixaria agora que ela fizesse sua própria escolha. Não iria rastejar.

 

Elizabeth e Thierry esperaram que ele se fosse e iniciaram seu diálogo.

 

-Eu lhe disse que faria uma surpresa. – ele sorriu enquanto a abraçava.

 

-Mas eu...

 

-Não imaginava que fosse isso, não é?

 

-Isso. Exatamente.

 

-Engraçado como não ganha flores apenas de mim... - era óbvio que ele percebeu o clima, mas estranhamente disfarçou. - Daqui a pouco poderá plantar seu próprio jardim. Tenho certeza de que será bem diversificado. Gérberas, não...?

 

-Sim.

 

-Hum... Bonitas.

 

-Thierry, o que você acha de entrarmos? – falou ela, mostrando a porta do quarto.

 

-Ótima idéia. – ele respondeu com um sorriso.

 

Entraram, e ela disse que ele poderia ficar à vontade enquanto ela colocava as flores na água. Ele se sentou em um sofá que havia no canto de uma janela e a esperou. Ela imaginava o que faria, enquanto enchia o vaso com água e se lembrava de Darcy. Do beijo dele, das palavras dele... e do que ela sabia que já sentia por ele. Seria possível fugir disso?

 

-Pronto. – disse, sorrindo e sentando-se ao seu lado no sofá.

 

-Como está o congresso?

 

-Ótimo. Maravilhoso. – afirmou sem deixar de sorrir. Estava sem jeito.

 

-Hum. O Darcy sempre te dá flores ou esse foi um gesto especial por causa do congresso?

 

-É, essa é a primeira vez que ele me dá flores.

 

- É impressão minha ou não gostou da minha visita?

 

- Não, adorei. Foi apenas a surpresa mesmo. – mentiu, pois ainda estava em dúvida sobre o que fazer.

 

- Tenho reservas para jantarmos no melhor restaurante de Lyon. O que acha?

 

- Acho ótimo. – tentou esconder sua agitação.

 

- Então vá se arrumar enquanto dou alguns telefonemas. Afinal, vim a trabalho e amanhã tenho que fechar um negócio importante. – falou enquanto se aproximava para beijá-la, mas Lizzy gentilmente se afastou.

 

- Não... Não quero nos atrasar. – inventou algo se sentindo péssima por isso. – Vou tomar banho.

 

Se ele percebeu algo, disfarçou muito bem. Lizzy praticamente correu para o banheiro enquanto deixava as lágrimas correrem ao se ver segura e sozinha. Estava confusa, queria amar Thierry, queria de verdade e poderia até amá-lo se Darcy não tivesse bagunçado seu coração.

 

O jantar transcorreu tenso apesar das muitas tentativas de Thierry de animá-la e fazer com que se sentisse a vontade, o que a deixou ainda mais arrasada. Não poderia continuar enganando aquele homem e daria um fim nisso o mais rápido possível.

 

Quando voltaram para o quarto do hotel, Thierry foi logo a abraçando pelas costas enquanto retirava seu casaco, e mais uma vez Lizzy se afastou.

 

- Quando vai me dizer que sou um cara legal e tudo mais, porém não me ama? – ele foi direto ao assunto, surpreendendo-a.

 

- O quê?!

 

-Lizzy, eu estou te sentindo estranha. Se minhas suposições estiverem corretas não hesite em me dizer. Está acontecendo alguma coisa entre você e seu chefe? – o rosto dele era duro e ressentido.

 

-Thierry, é complicado...

 

-Hum. Entendo. – se limitou a responder se servindo de uma bebida. – Acho que posso entender se decidir me contar.

 

-Não, você não entende. Tudo aconteceu muito rápido, e...

 

-Tudo bem, Elizabeth. Mas me poupe dos pormenores. – falou com a voz falha.

 

-Perdoe-me, Thierry. Sinceramente. Você é um dos caras mais legais que eu já conheci, mas...

 

-Me poupe desse discurso também. – se irritou, mas depois voltou a mesma expressão de dor. – Não quero ser o cara legal pra você, Lizzy. Quero ser o homem que quer na sua cama e na sua vida, e se não posso ser isso, não quero nada então.

 

- Thierry, não precisamos chegar a isso. Ainda podemos ser amigos.

 

- Infelizmente isso só acontece nos filmes, Elizabeth. Gosto de você e não posso evitar estar me sentindo traído.

 

-Thierry... Eu não te traí, não poderia fazer isso com você.

 

- Sinto muito desapontá-la, mas já fez.

 

-Não diga isso, por favor. – sentiu as lágrimas descendo por seu rosto.

 

- Acho melhor eu ir embora. – falou já pegando suas malas.

 

- Não queria que terminássemos assim. Eu sinto muito.

 

- Sei que sente. Mas entenda que agora isso não é o suficiente para mim. Esperava muito de nós e só posso culpar a mim mesmo, pois preferi mascarar o fato de que você nunca foi inteira na relação. Mas quem sabe um dia quando a dor passar a gente possa ser amigo.

 

Depositando um beijo na cabeça dela, abriu a porta.

 

-Tchau, Thierry. Que você seja muito feliz. E encontre alguém que te mereça.

 

- Eu agradeço, mas ainda não posso te desejar felicidades, me desculpe.

 

Quando a porta se fechou, Lizzy abraçou seu corpo em um claro sinal de dor e alivio ao mesmo tempo, mas agora a dor era maior e vencia.

 

*****************************************

 

Apesar de muito belo, o atrativo prato à sua frente não despertava sua fome. Ao contrário, estava enjoada e confusa. Ainda se lembrava dos olhos tristes de Thierry, que se confundiam com os olhos azuis apaixonados de Darcy. Como desejava não estar nesse redemoinho de sentimentos; sentia algo por Darcy e tinha certeza de que não amava Thierry o suficiente, mas não podia confiar em um homem tão vulnerável. Apesar de se declarar Darcy não era de confiança.

 

- Uma dama almoçando sozinha é algo inaceitável.

 

Elevou os olhos e se deparou com Darcy, que lhe lançou um olhar tímido e quase suplicante.

 

- Posso? – ele perguntou fazendo menção em sentar.

 

- Tudo bem. – concordou desanimada.

 

- Não vai comer? – perguntou olhando o prato intocado.

 

- Não consigo engolir nada. – respondeu, brincando com o guardanapo.

 

- Acho que sei o motivo. Encontrei o Sr. Le Clar’c deixando o hotel agora há pouco.

 

- É. Ele estava indo embora. Deve estar feliz com isso, não é?

 

- Acredite, não estou. Não quando estou vendo este olhar triste. Isso me magoa muito Elizabeth.

 

- Aposto que sim. – respondeu cética e irônica.

 

- Eu deveria estar feliz por vocês terem terminado, mas sabe o que mais me incomoda? É saber que você está sofrendo por ele.

 

- O pior é que não estou – desabafou.  – Estou me odiando por me sentir de certa forma aliviada. Thierry é um homem muito especial e eu não poderia continuar privando-o de conhecer alguém que realmente o mereça.

 

- Sinto muito. Deve ter sido difícil.

 

- Não foi a decisão mais fácil que tomei, mas acho que estou bem apesar de tudo.

 

- E por que a tristeza?

 

- Porque estou confusa, droga! – praguejou baixinho. – Odeio me sentir assim.

 

- Temo que seja o responsável por isso.

 

- Por quê? – perguntou encarando-o de maneira firme e decidida. – Porque só agora que encontrei alguém resolveu se declarar? Porque está virando minha vida de cabeça para baixo? Isso não é justo.

 

- Acho que mereço tudo isso. – baixou os olhos para a mesa, pensativo – Demorei demais para me convencer de que podia confiar em você e amá-la sem culpa ou desconfianças. Pode até ser egoísmo, mas não podia mais fugir e perde-la sem ao menos tentar; infelizmente precisei de um floricultor para abrir os olhos. Elizabeth. – segurou a mão tremula dela entre as suas. – Precisa confiar em mim.

 

- Como posso confiar em alguém que foge de ser feliz e me repudia simplesmente por medo?! – puxou sua mão sentindo os olhos arderem pelas lágrimas. – Sinto muito, mas não posso. Segunda-feira receberá minha carta de demissão.

 

- O quê?!

 

- Não posso continuar sendo sua assistente depois de tudo isso.

 

- Não! – Sobressaltou-se – Não pode estar falando sério!

 

- Estou. – enquanto as lágrimas desciam, apesar de Lizzy fazer um esforço enorme para contê-las.

 

- Não podemos misturar assuntos profissionais com pessoais. Se não quer nada comigo tudo bem, mas já que estou perdendo a mulher Elizabeth, não posso perder também a melhor chef-assistente que Paris já viu.

 

- As duas são uma só! – se irritou.

 

- Eu sei... Desculpe, eu sei. Aqui estou eu fazendo besteira mais uma vez; sou um grande desastre com esse negócio de sentimento e desde o começo tenho feito tudo errado em relação a nós dois.

 

- É, tem feito um bom estrago. – Lizzy concordou esboçando um sorriso.

 

- Eu sou grande idiota, não é? – Darcy também ria.

 

- Ainda sou sua funcionária e se responder corro o risco de ser demitida por justa causa. – brincou, fazendo os dois sorrirem.

 

- Sei que está decidida a me deixar, e conhecendo sua teimosia como conheço, sei que nada nem ninguém poderá persuadi-la do contrário, mas preciso que apenas me dê uma chance.

 

- Não acho que seja uma boa idéia.

 

- Será apenas um jantar. Prometo que depois disso, se você ainda não confiar em mim e nem me quiser por perto, aceitarei sua demissão e sumirei da sua vida para sempre. Por favor. – suplicou.

 

Lizzy queria dizer não, mas seu coração pedia desesperadamente para aceitar. Em um grande impasse, seu coração venceu.

 

- Não te prometo nada.

 

- Eu sei... Não estou te cobrando nada. Esteja pronta às oito. – falou já levantando.

 

- Aonde vai?

 

- Providenciar os preparativos. Adeus!

 

Beijando a face dela, saiu apressadamente; deixando Lizzy curiosa e não escondendo o sorriso aberto nos lábios.

 

****************************

 

Darcy estava nervoso, hoje seria sua grande chance e não poderia errar; não como já vinha errando com Elizabeth, afastando-a por convicções e traumas infundados. Olhou-se mais uma vez no espelho e mesmo inseguro em relação a sua aparência, pegou sua maleta e saiu rumo ao quarto dela.

 

Chegando lá, esperou pacientemente por mais de dois minutos até ela finalmente abrir a porta. E ela estava linda. Vestida em um elegante e ao mesmo tempo sensual vestido preto, tinha os cabelos presos apenas por duas mechas e a maquiagem correta ressaltava seus já belos olhos negros.

 

- Você está linda! – finalmente exclamou.

 

- Obrigada. Eu não sabia aonde íamos então resolvi não arriscar. Mas agora confesso que estou confusa. – falou observando-o vestido de chef.

 

- Ah! Isso? – apontou para sua roupa. – Faz parte da surpresa. Então, está pronta?

 

- Acho que estou. Mas poderia ao menos me contar aonde vamos?

 

- Não. – sorriu despojado enquanto lhe cedia o braço.

 

Durante todo o trajeto até o lugar surpresa, eles passaram a conversar sobre gostos musicais, literários, cinematográficos dentre outros; e para fugir de todo e qualquer clichê, eles não era parecidos em quase nada, a não ser pela culinária mesmo. Ele gostava de chuva e frio, ela de calor e sol; ele de filmes de faroeste e ela de filmes de suspense; ele apreciava uma boa culinária tradicional, ela adorava ousar e apimentar seus pratos.

 

- Nem podemos usar a famosa frase: Nossa! Como temos coisas em comum! – Lizzy ironizou, fazendo-o gargalhar.

 

- Isso é um problema? – ele questionou enquanto estacionava.

 

- Bom, para muitos sim, mas para mim absolutamente.

 

- Como diz meu irmão Julius: os opostos são tão teimosos que se atraem só por pirraça. Pronto, chegamos.

 

Lizzy olhou pela janela e se deparou com o famoso restaurante L'Auberge du Pont de Collonges.



 

- Não quero ser preconceituosa ou coisa parecida, mas você vai jantar vestido assim? Acredite, não precisa estar a caráter para as pessoas te reconhecerem. – sorriu zombeteira.

 

- Tecnicamente não vou apenas jantar. – falou antes de sair do carro e dar a volta, abrindo a porta para ela em seguida.

 

- Pode explicar melhor? – perguntou ao sair do carro e receber o casaco dele sobre seus ombros, pois a noite estava muito fria.

 

- Você já vai entender. – respondeu enquanto caminhavam para o restaurante.

 

Ela estranhou quando percebeu que o estacionamento estava praticamente vazio, e estranhou ainda mais quando entraram no restaurante vazio e foram recebidos pelo dono.

 

- Darcy! – o dono abraçou Darcy efusivamente – Quanto tempo!

 

- Richard! – Darcy parecia muito à vontade com ele. – Obrigado pelo favor, não sei como agradecer.

 

- Imagine! Primos são para estas coisas.

 

- Deixe-me apresentá-lo a Elizabeth Bennet. – Richard estendeu a mão para uma Lizzy confusa e curiosa. – Este é meu primo Richard, dono do L'Auberge du Pont de Collonges. – Darcy concluiu as apresentações.

 

- Tirando Julius, que prefere comer cimento como Engenheiro civil, toda a família Darcy foi picada pelo inseto da culinária. – Richard falou, lançando um sorriso simpático. – Agora terei que deixá-los, pois ainda preciso acertar algumas coisas para a mudança de prédio. Fiquem à vontade. - falou antes de sair, deixando-os sozinhos.

 

- Tá legal. – Lizzy começou a falar enquanto Darcy sorria como um menino travesso pego no flagra. – Por que tenho a sensação de que seremos os únicos clientes deste restaurante?

 

- Porque é uma mulher muito inteligente? – sorriu misterioso.

 

- E você vai preparar nosso jantar? – completou enquanto ele a dirigia até a cozinha.

 

- Assim você estraga toda a surpresa.

 

Entraram na cozinha e Darcy passou a preparar suas coisas enquanto Lizzy analisava o ambiente sentando no balcão lateral em seguida.

 

- Alugou o restaurante só para nós? – ela perguntou depois de um tempo.

 

- Não tenho essa moral toda. – ele sorriu, mas sem se virar, ainda arrumava suas coisas. – Richard finalmente passou a se interessar por seu restaurante e vai instalá-lo em outro bairro. E como a mudança só vai ocorrer amanhã, ele nos cedeu o restaurante por esta noite.

 

- E lá se foram minhas ilusões românticas. – ela brincou rindo. – Não sabia que William Darcy fosse tão romântico.

 

- Há mais coisas sobre mim do que supõe a vã filosofia. – respondeu enquanto pegava os ingredientes e colocava no balcão principal.

 

- Quer ajuda?

 

- Não, obrigado. Esta noite você não é minha assistente, é uma garota que quero impressionar com meus dotes culinários.

 

- Vou logo avisando que tenho um paladar muito exigente, Sr. Darcy. – riram. – Qual será o cardápio?

 

- Suflê de cenoura com champignon de entrada; Filet en croûte como prato principal e creme brûlee de sobremesa.

 

- Não acredito nisso! – falou ao se lembrar do suflê do seu sonho antes de conhecê-lo.

 

- O quê?! – ele se virou para ela preocupado – Não gosta de algum item do menu?

 

- Não, não é isso. Foi um sonho maluco que tive com um suflê algum tempo atrás.

 

- E pode me contar? – mais relaxado, ele voltou ao preparo do jantar.

 

- Quem sabe um dia. É ridículo demais até para ser lembrado.

 

Lizzy ficou observando-o trabalhar em silêncio; conhecia-o o suficiente para saber que o silêncio e a concentração eram ingredientes fundamentais para William Darcy. Depois de um tempo, resolveu arrumar a mesa, pois se sentia uma inútil sentada ali sem fazer nada. Após uma rápida discussão, ele permitiu que ela fosse parte ativa daquele jantar.

 

Quase duas horas depois estava tudo pronto, faltava apenas retirar os suflês do forno.

 

- Nem todo mundo sabe fazer um bom suflê. – ele comentou quando retirou a bandeja com suflês perfeitos do forno, colocando-os sobre o balcão.

 

- Tem razão. – Lizzy respondeu novamente sentada no balcão lateral. – Confesso que apanhei muito para aprender a fazê-lo sem explodir ou murchar.

 

- Sabe, Elizabeth... – Ele começou a falar já virado de frente para ela, encostado no balcão principal com os braços cruzados no peito. – Assim como na vida, devemos compreender o segredo que envolve o prato se quisermos obter sucesso.

 

Ela sorriu em concordância, então ele continuou.

 

- Um antigo professor da escola de culinária nos dizia que para um bom prato saia perfeito, temos que vê-lo como um relacionamento amoroso.

 

- Sério?! – ela sorriu achando graça da comparação. – E funciona?

 

- Agora tenho certeza de que sim – respondeu encarando-a fixamente. – Vejamos o suflê. Existem vários cuidados que podemos ter para que ele não murche. Escolher o refratário ideal é o primeiro passo. Se escolhermos um grande demais ou pequeno e apertado demais, ele não vai crescer. Em um relacionamento funciona da mesma forma; temos que encontrar alguém que se encaixe perfeitamente em nossos sonhos, desejos físicos e planos.

 

Lizzy fitava os olhos de Darcy compreendendo o verdadeiro sentido daquela conversa, mas preferiu ficar calada.

 

- Outro ponto é a massa. Quando pensamos em preparar o suflê, já vem logo aquele medo de que não dê certo, principalmente se já tivermos tido experiências desastrosas. Até pegarmos confiança completa em nosso trabalho leva tempo e fazemos alguns estragos no meio do caminho.

 

- Acho que não estamos mais falando do suflê. – sussurrou nervosa em meio a um sorriso fraco, pois seu coração começara a acelerar.

 

- É, acho que não. – ele concordou aproximando-se perigosamente dela. - Estamos falando de paixão, erros e acertos.

 

- Darcy... – ela tentou protestar vendo que agora estavam a poucos centímetros de distância.

 

- Elizabeth... – ele sussurrou já acariciando o rosto dela com a mão direita enquanto a outra enlaçava sua cintura de forma que ficou encaixado entre as pernas dela. – Demorei a me libertar dos meus fantasmas, mas imploro, diga que não é tarde demais para nós dois. – completou sentindo a respiração quente e ofegante dela enquanto roçava seus lábios nos trêmulos lábios vermelhos de Elizabeth.

 

- Quem me garante que não vai fugir desta vez ou amanhã vai perceber que foi um erro?

 

- Como alguém pode fugir de sua própria vida, Elizabeth? – perguntou encarando-a fixamente nos olhos. – É minha vida agora e jamais vou deixá-la ir novamente.

 

Antes que Lizzy pudesse responder, seus lábios foram tomados em um beijo nunca antes provado. Era um beijo intenso, desesperado, urgente. Enquanto suas mãos seguravam desesperadamente os cabelos castanhos despenteados, a mão dele já a puxava para mais perto, encaixando seus corpos por completo.

 

- Elizabeth... – ele sussurrou rouco pelo desejo. – Não sabe o quanto desejei este momento. – Não se conteve em descer seus lábios pelo pescoço macio e longilíneo dela, arrancando pequenos gemidos.

 

- Então não pare. – ela respondeu decidida enquanto retirava as sandálias com os pés em um convite cheio de certeza.

 

Entendendo a urgência do desejo de seus corpos, Darcy passou o braço pelo balcão, fazendo cair no chão alguns objetos decorativos e deixando-o livre para eles. Deitou Elizabeth sobre o balcão enquanto fazia um rastro de fogo e paixão com sua boca que ia dos lábios dela até seu colo arfante.

 

Inebriada pelo momento, pelas carícias e principalmente pelo desejo que sentia por aquele homem, ela o puxou pela camisa de forma que ele subiu no balcão de mármore ficando por cima dela enquanto as carícias ficavam cada vez mais ousadas.

 

- Tem certeza disso? – ele perguntou em um rápido lampejo de lucidez.

 

- Eu te desejo tanto quanto sei que me deseja. – respondeu já baixando as alças de seu vestido deixando o sutiã de renda francesa à mostra.

 

Este convite foi o suficiente para Darcy perder qualquer resistência. Beijou-a com paixão novamente, enquanto, sem desgrudar seus lábios, suas mãos passeavam por baixo do vestido, arrancando gemidos desesperados dela.

 

Em poucos minutos roupas espalhadas pelo chão completavam o cenário de dois amantes que, livres de qualquer pudor ou medo, se entregavam à paixão ardente que os consumia há muito tempo.

 

Esgotados e completamente felizes, Lizzy acariciava os cabelos de Darcy que repousava sobre seu peito.

 

- Céus! Não sabe o quanto eu te amo, Elizabeth. – finalmente conseguiu falar algo, após controlar sua respiração.

 

- Tem certeza disso? – a voz dela saiu falha, o que o fez encará-la.

 

- Ei! O que houve? – perguntou enquanto limpava lágrimas solitárias que desciam pelo rosto dela.

 

- Não sei... Acho que estou com medo. – respondeu se sentindo uma estúpida. – Tenho medo de estar feliz demais e quando acordar perceber que tudo não passou de uma noite. Entende?

 

- Elizabeth. – Sentaram no balcão, então ele a abraçou carinhosamente. – Sei que mereço toda esta desconfiança. Sempre te amei e ao invés de tê-la mais perto, só a afastei. Mas agora será diferente. Eu prometo, nunca mais vou te magoar.

 

- Eu sei... Acredito em você. Sou apenas uma chorona. – tentou brincar, ensaiando um sorriso tímido. – Acho que não estou acostumada com tanta felicidade, só isso.

 

Sorrindo, ele a beijou carinhosamente, mas o desejo entre eles era ainda tão intenso que logo o beijo se intensificou. Mas desta vez ele se controlou, e, com muito custo, se afastou, deixando-a confusa.

 

- Não sei você, mas eu estou faminto. – falou arrancando uma gargalhada dela.

 

O jantar transcorreu cheio de intimidade e descobertas. Ambos estavam felizes e tudo o que desejavam era que a noite nunca acabasse. Antes da sobremesa, ele a surpreendeu quando levantou e caminhou até a sala de som do restaurante. Uma música romântica começou a tocar.

 

- A senhorita poderia me conceder a honra desta dança?

 

- Claro.

 

Encostou sua cabeça no ombro dele enquanto um pensamento a fez sorrir, quase gargalhar.

 

- Pode compartilhar comigo o que é tão engraçado?

 

- É que ainda não me acostumei com esse jeito todo calmo e educado. Sabe, durante meses só convivi com seu gêmeo ogro. – sorriu, sendo acompanhada por ele.

 

- Por que todos dizem que sou intratável? Sei que não sou o que se possa chamar de flor de pessoa, mas será que sou tão ruim assim?

 

- Vou te responder de forma que você entenda. O William Darcy que eu conheço não me convidaria para dançar desta forma; ele falaria mais ou menos assim: Srta. Bennet, levante já desta cadeira e venha dançar comigo! O que está esperando?! – imitou o tom de voz dele e a expressão zangada, o que o fez gargalhar.

 

- Tem razão, é assustador. – comentou quando pararam de sorrir. – Será que era por isso que nunca passei mais de um mês com um assistente?

 

- Pode apostar.

 

- Então pode me explicar como se apaixonou por um ogro como eu? – encarou-a divertido.

 

- Essa é fácil. – respondeu beijando os lábios dele de forma provocante. – Algumas mulheres se apaixonam pelos príncipes, outras pelos ogros.

 

- Então gosta do meu jeito autoritário e mandão? – arqueou a sobrancelha curioso.

 

- Confesso que às vezes. Na maioria das vezes tinha vontade te de bater com uma panela. Mas tenho que admitir que tem seu charme em alguns momentos.

 

- Como agora? – indagou misterioso enquanto parou de dançar encarando-a de forma misteriosa.

 

- O que vai fazer? – ela perguntou desconfiada em meio a um sorriso.

 

- Srta. Bennet! – ele falou com a voz firme e o mesmo semblante sóbrio do Chef William Darcy de sempre. – Quero que pegue suas coisas agora e venha comigo.

 

Lizzy sorria achando graça daquela encenação, mas ele estava levando a sério. E, mesmo querendo rir, manteve o personagem.

 

- A senhorita tem duas opções. – falou levantando os dedos. – Primeira: pegar suas coisas e irmos para o hotel, ou segunda: tirar já sua roupa e me permitir amá-la aqui mesmo. – sorriu de forma sedutora.

 

- É uma ordem? – Lizzy o provocou entrando no jogo.

 

- Sim, é uma ordem desesperada.

 

- Então acho que não tenho escolha a não ser obedecê-lo.

 

Afastando-se dele lentamente, caminhou de costas até alcançar certa distância, mas sempre mantendo contato visual. Quando finalmente parou, começou a abrir o zíper lateral do seu vestido, deixando que ele escorregasse por seu corpo até atingir o chão.

 

- Sempre ousando, não é, srta. Bennet? – sorriu malicioso.

 

Darcy ficou observando aquele corpo lindo à sua frente e logo o seu corpo passou a dar sinais de que precisava tê-la novamente, mas se controlou, ao menos antes de provocá-la.

 

- Agora eu é quem estou estranhando a minha assistente. – falou ainda parado no mesmo lugar, deixando Elizabeth surpresa e sem entender nada. – Desde quando a senhorita passou a ser tão obediente? Pois se lembro bem, costumava sempre desacatar minhas ordens. – concluiu enquanto se aproximava devagar, fazendo ela sorrir aliviada.

 

- Desde que perdi completamente o juízo e me apaixonei pelo meu Chef.

 

- Então acho que agora vou ter que tirar proveito disso. – sussurrou antes de beijá-la intensamente, recomeçando tudo novamente. Mas desta vez já não tinham pressa, poderiam e queriam explorar cada ponto de prazer de seus corpos.

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