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A não mudar nunca de opinião podemos chamar de teimosia. Mudar de opinião com conhecimento de causa é a ação de alguém dotado de inteligência. (Jane Austen)

Amor - Um Ingrediente Secreto Capítulo VIII

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Capítulo VIII

 

O clima entre eles continuava estranho; agora evitavam até de sorrirem um para o outro. Pelo menos três vezes na semana Thierry aparecia no L’Ambroisie para aguardar Lizzy na saída. E em cada vez que o via, Darcy se odiava ainda mais por não ter confiança em si mesmo para assumir seus sentimentos.

 

Até as compras do mercado ele estava evitando fazer junto com Lizzy. Ora ia sozinho, ora mandava-a sozinha. Raramente iam juntos.

 

Em uma manhã, depois de tomar o café, o telefone tocou no apartamento de Lizzy. Era Jane.

 

- Lizzy, finalmente consegui falar com você. Não me ligou mais, deixei vários recados na secretária. O que está acontecendo, minha irmã?

 

- Cansaço, Jane. Muito cansaço. Principalmente quando preciso fazer as compras do restaurante. Acordar às quatro da manhã não é fácil.

 

- Mas você faz as compras sozinha?

 

- Às vezes. Geralmente duas ou três vezes por semana.

 

- Hum... E não tem nenhuma novidade melhor para me dar?

 

- Ainda estou saindo com o Thierry...

 

- Parece que está ficando sério. Será que finalmente Elizabeth Bennet vai amar alguém?

 

- Sabe Jane, amar, amar, não é bem a palavra. Gosto dele sim, mas... ainda não é o que estou procurando. Apesar de ele ser lindo, gentil, carinhoso, ainda não deu aquele estalo, sabe?

 

- Não te entendo. Sempre disse que queria um homem assim, e quando acha um ainda não é bem o que estava procurando?

 

- Jane, não basta ter estas qualidades, tem que acontecer aquele algo a mais

 

- Não entendo. Vamos mudar de assunto. E como está seu emprego?

 

- Bom, estou me realizando. Embora esta vida que escolhi tem me deixado morta ultimamente!

 

- E quanto ao seu chef?

 

- Já estou superando o jeito grosseiro, arrogante, irritante e muitas vezes frio dele. Jane, preciso desligar. Tenho que me arrumar para o serviço...

 

- Ok, mas não esqueça sua irmã! Agora se eu não ligo, não falo com você. Beijos querida. Continuo aqui torcendo por você.

 

Lizzy desligou o telefone. Apenas falar em William Darcy já deixava-a enlouquecida. Quando chegou ao restaurante cumprimentou a todos os funcionários - em quase dois meses era amiga de todos e a predileta de muitos. Assim que saiu do vestiário, já vestida para o trabalho, se deparou com Darcy na porta da sua sala.

 

- Srta. Bennet, venha aqui.

 

- Sim, sr. Darcy

 

- Terei um congresso no início do próximo mês, e a senhorita irá comigo até Lyon, para o SIRHA -Salon International de la Restauration & de l'Hotellerie. Darei algumas palestras e provavelmente haverá algumas aulas práticas.

 

- E por quantos dias ficaremos lá?

 

- Ainda não decidi, mas algo em torno de uma semana.

 

- E o L’Ambroisie?

 

- Ficará na responsabilidade do sous-chefe. Algum problema?

 

- Não, nenhum.

 

- Ótimo. Só mais uma coisa: avise ao seu namorado floricultor que a senhorita não poderá sair com ele durante o evento. Trabalharemos muito e preciso contar com a senhorita descansada.  Entendido?

 

“Por que não vai ver se eu estou na esquina, seu troglodita?” – pensou em responder, mas respirou fundo e tentou soar imparcial.

 

- Claro. Deseja mais alguma coisa, sr. Darcy?

 

- Apenas providencie estas sobremesas. – falou, entregando uma lista a ela. - Está dispensada.

 

Lizzy saiu atordoada da sala. Como Julius poderia pedir-lhe que tomasse conta de Darcy? Ele não era criança e ela, muito menos, tinha mais paciência para aturá-lo.

 

O mês passou-se rapidamente. Lizzy já havia conversado com Thierry acerca da viagem a trabalho com seu chef e aparentemente ele foi compreensivo, entendendo a situação. Na véspera da viagem, ela tomava banho enquanto Charlotte arrumava sua bagagem.

 

- Ai Lizzy... Sei que é por poucos dias, mas sentirei sua falta.

 

- Também sentirei a sua, Charlotte, mas tenho que ir. Muito contra minha vontade...

 

- Não fique assim! Lyon é linda! Você vai gostar.

 

- Acho que nem terei tempo de conhecer a cidade. Do jeito que ele falou, é do hotel para a feira, da feira para o hotel. Será a mesma coisa de estar em um quartel.

 

- É amiga, tua situação é complicada.

 

- Nem me fale. Você não sabe como tem sido difícil ter que trabalhar com ele depois do que quase houve entre nós. Tenho tentado me distrair, pensar mais no Thierry, mas, sinceramente, não estou conseguindo. Só o fato de ter que conviver diariamente com ele me deixa assim. E o pior de tudo é que ele está sempre com aquela cara, mais frio do que nunca. Você não sabe como estou arrependida de ter me deixado levar naquela noite...

 

- Lizzy, o que eu posso dizer? Não consigo nem me decidir com relação ao Collins. Mas algo me diz que esta viagem vai colocar tudo no lugar.

 

- Queria poder apagar tudo o que aconteceu naquela noite, mas não posso. Tudo o que posso fazer é torcer para que eu o esqueça.

 

 

No dia seguinte pela manhã Darcy passou de táxi no apartamento de Lizzy. Ela desceu e estranhou que ele estivesse de táxi.

 

- Bom dia, sr. Darcy. Pensei que iríamos de carro.

 

- Resolvi em ir de avião, pois me cansaria muito ter que dirigir por aproximadamente seis horas. Agora entre no carro ou então vamos nos atrasar.

 

Lizzy revirou os olhos, cansada. Ele estava com seu típico humor cavalinho, era só patadas. Entrou no carro e passou a ler o jornal que estava no táxi.

 

Chegaram ao aeroporto Charles de Gaulle e fizeram o check-in sem trocar uma só palavra.

Já sentados no avião, Lizzy adormeceu pouco depois do avião decolar. Durante seu sono, deixou sua cabeça cair nos ombros de Darcy, que a acomodou melhor, sentindo o perfume de seu corpo.

 

Acordou assustada com o pouso do avião e sentiu que estava com a cabeça recostada no ombro dele. Sem jeito pela situação, tentou se desculpar.

 

- Sr. Darcy, desculpe-me por isso, realmente não senti que tinha...

 

- Não se preocupe, estava dormindo. Isso acontece. – por um breve momento a voz dele soou carinhosa, mas logo ele voltou a ser o Darcy de sempre. - Bem, chegamos. Precisamos nos levantar. – falou, já levantando.

 

Saindo do aeroporto Lyon Saint Exypéry, pegaram um táxi até o Hotel Ambassadeur.

Confirmaram as reservas e subiram aos apartamentos, que ficavam um ao lado do outro.

Ambos cansados demais, até mesmo para brigarem.

 

**********************

 

 

 

No dia seguinte, as palestras iniciaram-se no Lyon Eurexpo.

A primeira palestra era a de William Darcy, e o auditório estava repleto. Lizzy nunca assistira antes a uma palestra ministrada por ele, mas sempre ouvira falar que eram excelentes. Agora, presente, podia realmente comprovar que era muito melhor do que ouvira.

 

As outras palestras também eram muitíssimo interessantes. E, apesar da presença perturbadora de William Darcy sempre ao seu lado, ela não podia estar mais feliz por aquela experiência. E assim se passaram os três primeiros dias de congresso...

 

****************************

 

Já era o quarto dia de congresso e teriam a tarde livre por causa da ausência do palestrante ao qual caberiam todas as atividades daquela tarde. Apesar da folga ser bem vinda, Elizabeth estava gostando demais de cada coisa e parecia ávida demais por mais informações e aprendizagens novas. Mas durante aquela tarde teria que se dar um momento de descanso.

 

Como não se sentia disposta a dormir, resolveu dar uma volta pela cidade. A pé mesmo, assim lhe parecia mais pessoal. Além do mais, o que poderia ver pelo seu quarto de hotel era fascinante demais para que ela olhasse a paisagem só rapidamente, pela janela de um táxi. Queria apreciar cada coisa e testar cada sabor daquela linda cidade.

 

Pegando uma bolsa com algumas coisas necessárias e uma máquina fotográfica, saiu do seu quarto quase saltitando. Esperava o elevador assobiando uma canção que ficara na sua cabeça durante todo o dia, mas quando aquele se abriu ela logo parou de assobiar.

 

-Olá, srta. Bennet. – falou ele, saindo do elevador e parando ao seu lado para falar-lhe.

 

-Sr. Darcy? Achei que estivesse em seu quarto...

 

-Não, tive que comparecer a uma pequena reunião com os coordenadores do congresso. E a senhorita, aonde vai? Parece animada.

 

-Eu vou fazer uma caminhada pela cidade, tirar umas fotos... – se odiou por ter se dado satisfação. Afinal, era sua tarde de folga, sua vida pessoal.

 

-Hum... Interessante. Nunca esteve em Lyon antes?

 

-Não. Vivi minha vida inteira em Londres e nunca pude fazer muito turismo. – respondeu desconfiada.

 

“De onde veio tanto bom humor e cordialidade?” – perguntou-se.

 

-Ah. Permita-me então apresentar-lhe a cidade. Tenho certeza de que vai gostar.

 

-Eu não sabia que o senhor era dado a turismos, sr. Darcy. – o provocou.

 

-Como eu já lhe disse várias vezes, há muito em mim que a senhorita ainda não conhece. Gosto muito de conhecer novos lugares, principalmente na França, minha terra adotada. Então, posso acompanhá-la?

 

- Acho melhor não. Quer dizer, não precisa se incomodar, e acho que tem tantas coisas para fazer e...

 

- Acho que estou levando um grande fora. – ele sorriu deixando ela sem graça.

 

Se vendo acuada e sem alternativas, resolveu aceitar.

 

- Tudo bem.

 

Quando entraram no elevador, o constrangimento entre eles era quase palpável. Em um impulso, Lizzy começou um dialogo com a primeira coisa que lhe veio à mente.

 

-Hum... Quem diria que o poderoso sr. Darcy gosta de “turistar”!

 

-Turistar? – ele riu.

 

-Turistar, ou seja, ato de fazer turismo. – ela riu entusiasmada pelo bom humor dele. - De acordo com o dicionário Bennet.

 

-Não acredito que a senhorita gosta de inventar novas palavras. Mais uma façanha da misteriosa Elizabeth Bennet.

 

-Às vezes, quando não tenho dezenas de funcionários para quem dar ordens quanto ao cardápio. – sorriu, e eles olharam-se ininterruptamente por um instante. Mais um momento como esse. Mais um suspiro de constrangimento. Mais um olhar ao redor procurando esquecer a explosão de sentimentos que procuravam libertação.

 

-Acho melhor pegarmos um táxi, não?

 

-Estava pensando em caminhar um pouco.

 

- Por mim tudo bem. Esqueci que a senhorita é uma atleta. – brincou quando o elevador se abriu.

 

Logo alcançaram a rua. Caminharam em silêncio por alguns metros, mas logo ele recomeçou a falar.

 

-E então, onde pretende ir primeiro?

 

-Há um parque muito bonito a duas quadras daqui, pude ver através da minha janela. Para chegarmos lá atravessaremos uma ponte antiga e o primeiro teatro da cidade, que infelizmente está desativado.

 

-Andou procurando Lyon no Google?

 

-Não, as informações passadas pelos funcionários são muito mais completas e pessoais.

 

-Impressionante esse seu amor por pessoas. Conhece-as num instante e em menos de cinco minutos já é amiga intima deles.

 

-Eu nunca gostei da solidão, sr. Darcy. Apesar de na minha família ter apenas meus pais e minha irmã, nós sempre tivemos muitos amigos. Minha mãe sempre gostava de trazer pessoas para jantar ou almoçar, e meu pai tinha diversos amigos íntimos. E foi assim que eu cresci. Mesmo depois da morte dos dois ainda trago isso comigo, embora não tenha tantos amigos assim em Paris.

 

-Não sei se posso me encaixar nessa qualidade sua, apesar de em minha casa também sempre ter muitas pessoas. Acredito que não me apego facilmente, e que desconfio muito de alguém antes de considerá-lo meu amigo; ao contrário de meu irmão, que é a pessoa mais amigável e simpática da face da Terra.

 

- Então desconfiou até mesmo de mim quando cheguei ao restaurante?

 

-Não sei. Quando a vi pela primeira vez percebi algo diferente. Antes mesmo de a senhorita proferir alguma palavra.

 

-O que diferente?

 

-Não faço idéia. Talvez quando disse que quebraria minha cara. Sabe como é, não é todo dia que encontramos uma funcionária que pode nos dar um soco no meio da cozinha entre o preparo da entrada e da sobremesa.

 

Eles sorriram, e ambos olharam para o chão no mesmo instante. O vento em Lyon estava ameno, e várias pessoas andavam pelas ruas àquela hora.

 

-Eu acho que eu tinha uma impressão errada de você no começo. – ela falou depois de um tempo.

 

-Que espécie de impressão? – Darcy ficou curioso para saber o que ela pensava dele.

 

-Achava que gostava das mulheres à sua disposição, que era um mulherengo e esnobe.

 

-Nossa, como você é direta! E como me amava!

 

- Mas não se anime, depois piorou muito.

 

Ela sorriu, e depois continuou.

 

-Sabe, uma coisa que eu não entendo é como o senhor pode ser tão rude em algumas horas e tão amigável em outras. Simplesmente me deixam zonza essas suas mudanças de humor.

 

- Como agora, por exemplo? – ele perguntou enfiando as mãos no casaco em um clássico sinal de nervosismo.

 

- É, como agora.

 

Ele se calou por um instante; talvez procurasse uma forma de explicá-la o porquê de suas mudanças de humor. Especialmente com ela.

 

-Eu não sei se a senhorita poderá entender, ou se irá me julgar, mas... A vida não foi muito amigável comigo e não colocou em meu caminho pessoas em quem pudesse confiar. Meus dias têm sido turbulentos, e eu não tenho conseguido pensar ou trabalhar direito, o que me deixa irritado. Sei que essa não é uma boa desculpa e que eu não deveria descontar a minha raiva nos outros, mas isso está sendo impossível para mim ultimamente.

 

-Tudo bem, sr. Darcy. O senhor não tem que me pedir desculpas, eu não sou ninguém para quem o senhor deva explicações.

 

-Eu quero dizer-lhe isto. Quero lhe dar essas explicações.

 

-Por quê?

 

-Porque a senhorita é minha assistente, alguém em quem aprendi a confiar e que merece saber esse tipo de coisas.

 

-Quando eu me tornei merecedora? – perguntou, referindo-se à vez em que ele rudemente se recusou a contar seu problema a ela. – Somos amigos agora? – perguntou sorrindo, mas ele não sorriu e parecia apreensivo.

 

-Elizabeth, entenda...

 

-Esqueça. Chegamos à ponte, quero tirar algumas fotos.

 

 

Ignorando-o completamente, começou a tirar fotos, tanto da estrutura da ponte quanto das pessoas que por ali passavam.

-Quer que eu tire uma foto sua? – inquiriu ele. – Não sou um fotógrafo muito bom, mas gosto de fotografia.

 

Mesmo que ainda estivesse relutante e querendo recusar, ela entregou a câmera a ele.

 

Sorriu, apoiada a uma das laterais de ferro da ponte. Ele não pôde conter a sua exclamação interna que admirava o quanto era ela linda.

 

Ficando de costas para ele e de frente para o rio, virou a cabeça em direção a ele e à câmera e sorriu, para que ele tirasse outra. Resolveu que não estragaria aquela viagem por causa dele. Iria aproveitar a viagem e a paisagem. Além do mais, Jane e Charlotte haviam lhe pedido para tirar várias fotos de tudo.

 

-Muito bem, agora é a sua vez. – falou ela, tirando-lhe a câmera das mãos.

 

-Não é necessário. – recusou, completamente tímido.

 

-Agora mesmo o senhor disse que gostava de fotos, sr. Darcy. Não me desaponte assim.

 

-Tudo bem.

 

Sério, ele se colocou no mesmo lugar onde ela estivera antes para ser fotografada. Ela clicou.

 

-Sorria, por favor! – falou, gesticulando.

 

-Eu não consigo sorrir para fotos, srta. Bennet. – justificou-se, ainda sério, mas em outra posição.

 

-Tente. Por favor. Não é possível que seja assim tão ruim.

 

Ele soltou um suspiro longo e decidiu tentar. Até agora não entendia o porquê de ter se oferecido para vir junto com ela. Aliás, sabia sim, só não achava que sua imaginação estivesse assim tão certa.

 

- Assim está parecendo que está com dor de barriga. – brincou, recebendo uma carranca dele. – Vamos, pense em alguém que ama! Julius talvez.

 

Pensando em um par de olhos negros que lhe tiravam o sono ultimamente, sorriu para a foto, enfim.

 

-Está vendo?! Não dói nem um pouco! – ela sorriu.

 

-Querem que eu tire uma foto do casal? – falou uma senhora vendedora de flores que passava pela ponte. – O cavalheiro poderia aproveitar e comprar flores para sua namorada.

 

-Nós não... – começaram a dizer os dois, em uníssono.

 

-Vamos, façam uma pose e me deem a máquina. - a mulher insistiu. Parecia que o destino queria brincar com eles.

 

Os dois não tiveram mais como se opor; talvez nem quisessem fazer isso. Entregaram a máquina fotográfica e se colocaram lado a lado. Nenhum toque ou alguma proximidade havia ali, entretanto, ambos estavam constrangidos.

 

-Oh, não, não! Juntem-se! Passe o braço no ombro dela! – disse a mulher, quase gritando.

 

Sem jeito, ele passou o braço por cima dos ombros dela e os dois se juntaram mais.

 

-Ótimo! Agora sorriam!

 

Obedientes, sorriram, e finalmente a foto foi tirada. Rapidamente os dois se livraram daquela posição constrangedora – e tão confortável ao mesmo tempo.

 

A mulher entregou-lhes a máquina, sorridente, e os dois voltaram a caminhar.

 

-Está gostando do congresso? – perguntou ele, a fim de romper o silêncio.

 

-Sim, muito. Sempre quis vir a um desses.

 

Mais silêncio. Ela fingia estar distraída com as fotos.

 

-Por que o senhor nunca quis ter assistentes mulheres? Somente por causa do seu medo que elas não resistam a você e ao seu charme? – perguntou, vendo que não podia mais manter o silêncio.

 

-Lembre-se de que eu ainda sou seu chefe. – ele falou, com um tanto de divertimento em sua voz.

 

-Lembre-se de que estamos fora do nosso horário de trabalho, e tecnicamente o senhor não pode me demitir. – piscou um olho.

 

-Tudo bem. Mas a senhorita está muito acostumada a me vencer. Só lhe aviso que um dia o jogo vira.

 

-Eu ficarei alerta. – sorriu ela.

 

Chegaram a praça e passaram a caminhar admirando a beleza do local.

 

-Bom, mas então... Voltando à sua pergunta. Sim, não escolhi assistentes mulheres – até aparecer você – por isso. Nunca confiei muito no sexo oposto, principalmente depois que uma fingiu me amar só para roubar minhas receitas e entregá-las ao concorrente. – sentiu que ela não esboçou pena ou qualquer sentimento do tipo e ficou aliviado de certa forma. - Mas também por outra coisa. – sorriu.

 

-Que você prefere não contar, estou certa?

 

-Já me conhece muito bem, Elizabeth. – ele olhou para ela profundamente com aqueles olhos azuis. Mas dessa vez não havia constrangimento entre os dois, havia apenas um brilho de confiança e cumplicidade. – Quem sabe eu conto até o final do passeio...

 

Andaram por mais um tempo, tirando fotos do antigo teatro e de uma velha catedral. Conversaram mais ainda, e os assuntos começaram a variar. Não falaram mais de trabalho, mas, sutilmente, o assunto de suas vidas pessoais começou a surgir. De modo tão bem-vindo quanto necessário.

 

-E agora Jane enfim conseguiu engravidar, depois de muitas tentativas. Ela e o Charles estão muito felizes. Eu também, já que será meu primeiro sobrinho a nascer. – comentou saboreando um delicioso sorvete.

 

-O Julius sempre quis ter filhos, mas com esse problema da Adelé, agora fica tudo mais difícil. Somente quando ela melhorar eles poderão pensar nisso.

 

-E o senhor, sr. Darcy? Deseja ter filhos?

 

Pego de surpresa, Darcy parou por uns instantes, retomando a caminhada em seguida.

 

-Talvez. E a senhorita?

 

-Quero muito. Se pudesse teria uns quatro. – respondeu naturalmente - Acho lindas essas famílias grandes, já que em minha casa sempre fomos somente minha irmã e eu.

 

-E casar?

 

-O sonho de toda mulher, por mais que queiram disfarçar.

 

-E o noivo por acaso é seu amigo floricultor? – demorou, mas ele enfim introduziu o assunto que queria. Que, aliás, era o que mais o incomodava.

 

-Não sei, sr. Darcy. Somente o tempo dirá. E eu gostaria que o senhor não o tratasse dessa forma. – Lizzy perdeu o sorriso e sentiu que essa pergunta seria o fim da trégua.

 

-Não o estou tratando de forma alguma; não o conheço. – ele também ficou sério ao perceber a perturbação dela.

 

-Exatamente por não conhecê-lo tem o dever de respeitá-lo e não enchê-lo com primeiras impressões errôneas.

 

-Não tão errôneas, minha cara. Nenhum homem de respeito envia tantas flores a uma mulher que nem conhece. – falou a primeira coisa que lhe veio à mente. Precisava achar algum defeito no seu rival.

 

-Qual o seu problema com isso? Acho que é tão pouco romântico que nem consegue pensar na possibilidade de dar flores a alguém. – Lizzy sentia a raiva lhe tomando.

 

-A senhorita é que está fazendo um julgamento errado e precipitado dessa vez. Eu daria flores a uma mulher que me conquistasse sim. Mas não seria volúvel a ponto de enviar para uma que eu nem conheço. Ele só sabia seu nome e sua função quando lhe conheceu.

 

-Ele pode ter gostado de mim e ter querido me conhecer mais. Por isso as flores. Foi um modo que ele encontrou para chegar até a mim.

 

-Ele quis lhe comprar, só isso.

 

-Eu exijo que me respeite, sr. Darcy. – Aquilo tinha sido a gota d’água – O Thierry é um homem gentil, educado e inteligente. E nosso relacionamento não é um assunto seu.

 

-Então quer dizer que já está na fase do “relacionamento”? – parou de andar e encarou-a. Perto demais. – Rápido não?

 

-Talvez. O senhor mesmo não disse que ele era meu “namorado”? Pois então. – o desafiou, mas já sentindo a perturbação pela proximidade.

 

-Eu não confio naquele homem, Elizabeth. – continuou a encará-la, mas seu rosto descia e descia em direção à boca dela. Mais perto ainda. – Ele não a merece. – sussurrou, já tocando os lábios dela levemente.

 

-Não faça isso, Sr. Darcy. – em um impulso Lizzy virou o rosto.

 

-Por quê? – Darcy estava frustrado e contrariado.

 

-Porque vai fugir de mim, assim como fugiu naquela vez na cozinha do restaurante. E assim como faz todas as vezes em que alguém chega perto demais para desvendar seus sentimentos. – desabafou.

 

-Não dessa vez. Não com você, Elizabeth. Eu não consigo mais. – falou, por fim, capturando a boca dela com seus lábios. Foi um beijo ávido, sedento, curioso e cheio de desejo. Há tempos queria provar daquela boca e daquele beijo.

 

Suas línguas se encontraram e as mãos dela foram parar em sua nuca de uma única vez, apertando seu cabelo. As mãos dele enlaçaram a cintura dela num abraço de urso.

 

Separando seus lábios dos dela, passou a beijar sua bochecha e seu pescoço. Os arrepios corriam pelos corpos dos dois, e a química era intensa.

 

Sem ar, ela se soltou dele, caminhando alguns passos.

 

-Não podemos fazer isso. – disse, ajeitando os cabelos e a roupa.

 

-Por que não? Eu a amo. Demorei a admitir, mas não posso mais manter isso dentro de mim.

 

-Esqueceu-se de que não quer se envolver com alguém que trabalhe com você?

 

-Tudo bem, está demitida. – puxando-a para outro beijo.

 

-Não, sr. Darcy. Pare! Não é uma brincadeira!

 

-Eu não me importo, Elizabeth. Mas se você quiser podemos manter segredo por um tempo e...

 

-Não é só isso. – gritou, fazendo-o parar e encará-la apreensivo - Ainda tem o Thierry.

 

- Mas você não o ama.

 

- Como pode saber algo sobre meus sentimentos?

 

- Vi a forma como me correspondeu e isso foi forte, admita.

 

- Não importa. Isso não é o mais importante agora.

 

- E o que é?

 

- Não confio em você. – admitiu. – E, além disso, não posso fazer isso com ele.

 

Ele encarou-a com raiva e passou a mão pelos cabelos.

 

-Tinha que ser por causa dele. – bufou. – Faça o que quiser da sua vida, Elizabeth. Quanto à minha parte, já estou isento de responsabilidade por ter lhe demonstrado o que sinto e quero.

 

Ainda consternado, pediu um táxi e pegou-a pelo braço para que entrasse.

 

-Mas o que é isso?! – perguntou ela, olhando para ele assustada.

 

-Eu não vou deixá-la sozinha na rua. Vá para o hotel.

 

-Eu ainda não fui a todos os lugares que queria!

 

-Prometo que lhe dou mais um dia de folga aqui, até com o seu namoradinho se quiser, mas vá para o hotel. Já está escurecendo.

 

Ela não teve outra opção a não ser obedecer. Entrou no táxi e ficou olhando-o enquanto se afastava.

 

Ele voltaria a pé para o hotel, precisava pensar.

 

 

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