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Imagino quem primeiro descobriu a eficácia da poesia em afastar o amor! (Jane Austen)

AMOR - Um Ingrediente Secreto Capítulo VI

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Capítulo VI

 

Lizzy abriu os olhos, ainda preguiçosa. O feriado de aniversário da cidade estava só começando e os planos estavam a mil em sua cabeça. Relembrou a noite anterior quando falou com Thierry e ele mandou mais flores, e logo olhou para as lindas tulipas no vaso na cabeceira da cama. Há muito tempo não se sentia assim tão entusiasmada com um encontro; e não seria um simples encontro, mas talvez um começo de um relacionamento.

 

Adorava conversar com Thierry; ele era gentil, educado, bom, além de muito bonito. Sorriu ao pensar no que sua mãe diria se soubesse que ele era rico e dono de uma grande empresa de finanças. Mas para Lizzy isso realmente não importava, ela só queria se dar uma chance com alguém legal.

 

Não estava apaixonada, mas poderia ficar. Afinal, Thierry era o homem que toda mulher sempre sonhara. Levantou-se animada enquanto ligava o som em uma estação de rádio que tocava sua música predileta, uma muito alegre e contagiante de Beyoncé.

 

Dançando pelo quarto, começou a tirar suas roupas para tomar seu banho matinal. Quase duas horas depois já entrava no quarto de Charlotte para acordá-la.

 

- Hora de acordar, dorminhoca! – gritou ao pular na cama da amiga.

 

- Lizzy – a outra resmungou. – é feriado, me deixa dormir.

 

- Por isso mesmo! Temos que aproveitar esse dia lindo.

 

- Sua animação até me dá raiva. – brincou em meio a uma careta. – Essa alegria toda é pelo passeio com o francês bonitão esta tarde, é?

 

- Digamos que pode ser. – respondeu, misteriosa, mas não contendo o riso depois.

 

- Será que ele não tem um irmão, primo, amigo ou inimigo pra me apresentar não?

 

- E o Collins?

 

- O Collins é legal, mas às vezes ele fala demais.

 

- Cala a boca dele, então. – provocou a amiga simulando uns amassos.

 

- E você acha que ando tão cansada por quê?

 

- Safada!

 

- E aí, já sabe aonde ele vai te levar?

 

- Não, mas ele perguntou se eu já tinha andado de balão antes e se tinha medo de altura.

 

- Minha nossa! Esse homem é perfeito! Primeiro um passeio de balão, depois um jantar romântico à luz de velas e uma dança, talvez, e por fim, um quarto aconchegante de alguma pousada com uma lareira enorme e uma cama macia.

 

- Agora é advinha também, dona Charlotte?

 

- Não, mas acabei de descrever o meu encontro ideal. Pena que como garçom o Collins só consiga me pagar um café, me levar ao bar da esquina e dormir no apartamento dele que parece mais uma lata de sardinha. Mas eu o adoro, fazer o quê? Sou feliz assim.

 

- Charlotte, você definitivamente é uma figura. – Lizzy comentou rindo. – Então, estou com fome. Onde vamos almoçar? Sim, porque é nossa folga após meses e cozinhar é a ultima coisa que quero fazer hoje.

 

- Ah, sei lá. Vamos procurar algum restaurante aqui no bairro mesmo, afinal você precisa estar linda e descansada para o seu encontro. Vou apenas tomar um banho e já vamos.

 

Por fim, resolveram almoçar em casa mesmo. Pediram por telefone, já que quase nenhum restaurante do bairro estava aberto naquele horário. Após o almoço, Lizzy resolveu descansar um pouco, pois Thierry ficou de pegá-la somente dali a umas duas horas.

 

Menos de meia hora depois, Charlotte entrou no quarto acordando-a com uma cara nada contente.

 

- Sinto muito, Lizzy, mas ele insistiu em falar com você.

 

- Quem?

 

- O sr. Darcy.

 

- Mas o que ele quer?

 

- Não sei, ele não me disse. Mas pela voz não é nada bom.

 

- Diga a ele que sumi! Não sei, inventa alguma coisa. Só não vou atender ao telefone.

 

- Lizzy, ele está na nossa sala.

 

- O quê?! Ah não! Diga a ele que preciso de alguns minutos e já vou até lá.

 

Sem ver nenhuma opção, vestiu-se rapidamente, arrumou os cabelos e passou uma água no rosto, pois não queria que seu chefe a visse com a cara toda amassada. Quando finalmente chegou à sala, o encontrou impaciente, pois já o conhecia perfeitamente bem e sabia que quando ele balançava a perna freneticamente era sinal de impaciência.

 

- Sr. Darcy.

 

- Srta. Elizabeth, tem dez minutos para se arrumar. – ordenou, já se levantando.

 

- Desculpe, não... não entendi.

 

- Tem dez minutos para se arrumar e iremos para o restaurante. – repetiu inacreditavelmente calmo.

 

- Mas é feriado e estamos de folga!

 

- Não mais. Surgiu um imprevisto que não tenho tempo de explicar agora, então teremos que chegar ao restaurante em... – consultou o relógio. – vinte minutos. Então seja rápida.

 

- Mas... – estava perplexa e sem saber o que fazer.

 

- Algum problema, srta. Elizabeth? – perguntou sério, parando em frente à porta.

 

- Sim. Quer dizer, não... – se atrapalhou.

 

- Sim ou não? – repetiu, mais uma vez impaciente.

 

- Não. – respondeu vencida.

 

- Ótimo, estarei esperando no carro.

 

Após a saída dele, ela começou a espernear e esbravejar, tamanha sua raiva.

 

- Pelo visto seu encontro dançou. – Charlotte comentou.

 

- Ahhhhhhhhh que raiva! E agora?

 

- Liga para o Thierry e cancela.

 

- Mas o que será que aconteceu e por que só eu? Quer dizer, ele não te chamou.

 

- Realmente. Não sei, vai ver é algum evento que ele vai participar... Quem disse que ser assistente do sr. William Darcy seria fácil, amiga?

 

- Nem me fale! Nem me fale! – gritou enquanto entrava no quarto.

 

A primeira coisa que fez foi ligar para Thierry, que, para seu alívio, entendeu a situação e reiterou o convite. Mas não marcaram data, já que as agendas dos dois eram cheias. Arrumou-se rapidinho, pegou suas coisas e com dois minutos de atraso entrou no carro dele.

 

- Desculpe o atraso, sr. Darcy.

 

- Sem problemas. – respondeu gentilmente, o que deixou Lizzy surpresa. – E obrigado por ter vindo.

 

Durante o trajeto ele explicou que um alguém alugou o restaurante só para ele e a namorada, porém não entrou em detalhes. Chegaram ao restaurante sem muitos problemas, já que o trânsito estava livre.

 

- Não virá mais ninguém? – Lizzy perguntou ao perceber que só eles estavam lá.

 

- Não, seremos apenas nós. – ele pareceu achar aquilo normal.

 

- E quem servirá a mesa?

 

- Nós.

 

Lizzy estranhou tudo aquilo, mas preferiu não mais perguntar. William Darcy servindo mesa era algo completamente anormal e inimaginável. Começaram a preparar o cardápio, que, por sinal, era um misto de sofisticação e romantismo.

 

Como entrada, ele escolheu o foie grãs acompanhando com mini-torradas; o prato principal, o gigot d’agneau, ou pernil do cordeiro assado inteiro acompanhado com purê, feijão branco e salda de alface. Quanto à sobremesa, ele não falou nada, o que deixou Lizzy curiosa.

 

Apesar de tentar ser profissional, Lizzy não pode esconder sua irritação e frustração por ter perdido um belo passeio para se enfurnar na cozinha em pleno feriado. Enquanto cortava os legumes para o cordeiro, errou no corte duas vezes seguidas.

 

- Droga! – esbravejou, chamando a atenção de Darcy, que colocava o pernil de cordeiro no forno.

 

- Está chateada por estar aqui ao invés de se divertindo, srta. Bennet? – perguntou sem demonstrar muito interesse.

 

- Não. – respondeu sem disfarçar o mau humor.

 

- Sabe que receberá pelo seu trabalho extra, não sabe?

 

- Não é por isso que... – começou a se justificar.

 

- Sei que não cozinha apenas por dinheiro, srta. Bennet. Tem uma paixão invejável pelo que faz. – ele a tranquilizou ainda sem olhá-la. – Tinha planos para hoje?

 

Lizzy se surpreendeu com aquela pergunta, afinal eles nunca falavam nada sobre sua vida fora cozinha. E agora ele parecia iniciar um diálogo mais pessoal do que o normal.

 

- Qual ser humano normal não teria? – respondeu com uma pergunta.

 

- Eu. – ele falou como se fosse algo normal. – Tanto que estamos aqui, trabalhando.

 

- Ah! – exclamou desconcertada.

 

- Seus planos envolvem o seu novo amigo floricultor?

 

- Como disse? – se surpreendeu.

 

- Tudo bem, não é da minha conta.  Desculpe-me por estragar seu feriado.

 

Lizzy quase cortou o dedo ao ouvir aquilo. O senhor arrogância pedindo desculpas era algo inédito.

 

- Está tudo bem, este é meu trabalho.

 

- Poderia ter se negado se quisesse, estaria no seu direito. Mas é que isso tudo é muito importante para mim. Obrigado por ter vindo.

 

A forma como ele falou aquilo quase a fez pensar que ele era humano, mas foi quase, porque o que veio em seguida trouxe o bom e velho carrasco de sempre.

 

- O pernil não vai sair do forno sozinho, srta. Bennet. – resmungou, voltando a preparar a entrada do jantar.

 

Revirando os olhos, Lizzy voltou à realidade brutal e grosseira de seu chefe. Já passava das nove quando finalmente o casal chegou. Darcy foi recebê-los pessoalmente enquanto Lizzy bisbilhotava da cozinha.

 

Ela estranhou a forma carinhosa e amigável com que ele recebia aquele casal, nem parecia o William Darcy que ela conhecia. Aliás, ele estava muito esquisito naquele dia.

 

Correu para perto do fogão quando o viu voltando para a cozinha.

 

- As entradas já estão montadas? – perguntou assim que entrou.

 

- Estão. Quer que eu vá servi-los? – se ofereceu já se arrumando.

 

- Não. – respondeu enquanto colocava na bandeja. – Eu mesmo sirvo. Enquanto isso pode fazer a sobremesa.

 

- Certamente. Qual será? Não vi a receita.

 

- Não sei, me diga você. – Lizzy odiava essa forma dele de falar sem olhá-la nos olhos.

 

- Como? – perguntou confusa.

 

- Estou dizendo que a senhorita é quem vai fazer a sobremesa. – finalmente a encarou.

 

- Posso fazer o que eu quiser? – se empolgou, pois depois de dois meses estava tendo sua primeira oportunidade.

 

- Pode. Desde que não envenene as pessoas. – ele sorriu antes de sair, mas não os sorrisos sarcásticos ou quase imperceptíveis; foi um sorriso aberto, quase uma gargalhada.

 

- Tá legal! Onde está o meu chefe e o que esse extraterrestre fez com ele? – falou quando se viu sozinha na cozinha.

 

Estava nervosa. Não que tivesse a intenção de impressioná-lo ou coisa do tipo, mas finalmente ele lhe dera uma chance de fazer um prato seu, sem seguir a receita dele. Tinha que escolher bem a sobremesa para mostrar a si mesma que era capaz.

 

Sem medo de arriscar, escolheu o paris-brest, um pequeno bolo feito com a massa do éclair e recheado com chocolate praliné. Sabia do risco, pois nem todos acertavam o ponto da massa, mas desafios eram algo de que ela gostava.

 

Ao voltar para a cozinha, Darcy, com toda sua experiência, percebeu a intenção de sua corajosa e eficiente assistente. Admirou sua escolha, já que poucos teriam essa coragem.

 

- Tem certeza disso, srta. Bennet? – perguntou apoiado próximo à geladeira, assustando-a, pois ela estava de costas.

 

- Absoluta. - ela respondeu confiante, já recuperada do susto.

 

- Gosta de riscos, não é? – provocou.

 

- Caso contrário não estaria trabalhando com o senhor. – ele teve que rir diante daquela resposta afiada.

 

- Bom, então espero que saiba o que está fazendo. Do contrário, estará colocando em risco muita coisa.

 

- Estou disposta a correr o risco. – respondeu confiante mais uma vez, o que o deixou ainda mais fascinado por sua bela assistente de olhos sagazes.

 

Com o prato principal nas bandejas, ele saiu da cozinha.

 

Lizzy ficou ainda mais nervosa depois daquele ultimato, mas isso apenas a encorajou a continuar e manter sua concentração. Minutos depois retirou os bolinhos do forno, recheando-os em seguida. Montou-os cuidadosamente em pratos individuais, dando como toque final o chantilly em cima, em pequenos picos.

 

Só por segurança provou um, mas seu nervosismo estava tão grande que nem conseguiu sentir o sabor direito. Quase caiu amedrontada quando ele voltou para a cozinha.

 

- Hum! Ao menos a aparência está perfeita. – comentou analisando os pratos à sua frente.

 

- Já pode servir se quiser. – falou nervosa.

 

- Ainda não. Eles estão dançando. – respondeu enquanto massageava sua nuca em um claro sinal de cansaço.

 

- Sr. Darcy? - Lizzy começou a falar, sabendo que deveria segurar a língua, mas não podia. Ele abriu aqueles lindos olhos azuis, encarando-a. – Por que aceitou vir aqui no feriado? Quer dizer, trabalha muito e está visivelmente cansado, mas está aqui atendendo o capricho de um riquinho mimado que quer impressionar uma garota. O senhor não precisa... – calou-se, percebendo que estava falando demais.

 

- Não estou aqui pelo dinheiro, srta. Bennet, se é isso o que está pensando. – respondeu com a voz gentil; era quase outra pessoa. – Venha comigo. – estendeu a mão.

 

Lizzy ficou olhando para aquela mão estendida sem saber muito bem o que fazer. Percebendo isso, Darcy pegou sua mão e levou-a até a porta que dividia o salão e a cozinha.

 

- Aquele é meu irmão, Julius. – apontou para o belo homem que tinha os olhos fechados enquanto abraçava sua companheira. – E aquela é sua agora noiva, Adelé Bonsuer. – Lizzy olhou para a bela e pálida mulher que tinha um sorriso lindo nos lábios enquanto se deixava abraçar.

 

- Ah! – foi tudo o que ela conseguiu dizer, entendendo agora o motivo de aquele jantar ser tão importante para ele.

 

- Julius e Adelé estão juntos há quase um ano. – ele continuou, o que assustou Lizzy, pois nunca o sentira tão humano quanto agora. – E agora eles estão passando por uma fase difícil. Adelé acaba de descobrir que tem leucemia – completou baixando os olhos, pensativo.

 

- Sr. Darcy, eu realmente sinto muito pelo que disse... eu... Deus! – estava mortificada por tudo o que havia falado.

 

- Tudo bem, você não sabia. - ele sorriu fracamente. – Sabe, nunca acreditei no amor entre homem e mulher; sempre achei que fosse um jogo de interesses e desejos carnais, mas Julius e Adelé estão me dando uma dura lição de realidade.

 

- Então ele a pediu em casamento...

 

- Ao saber que ela estava doente eu pensei que ele fosse pirar e sair correndo, já que sempre foi mais sensível que eu. Mas ao contrário, me procurou para preparar tudo isso.

 

- Ele realmente a ama. Não apenas por ter continuado com ela após a doença, mas por querer que ela se sinta normal, que se sinta bem.

 

- É. Julius é um cara legal, mais até do que eu seria.

 

- Sei que faria o mesmo. - ela o encorajou.

 

- Não sei... Nunca amei alguém tanto assim, não posso ter certeza. Julius sempre disse que a única coisa que amo em minha vida é meu trabalho, é a culinária. Talvez ele tenha razão.

 

- É claro que não! Preparou tudo isso com tanto carinho e cuidado, mais até do que se estivesse cozinhando para algum cliente importante do L’Ambroisie. Isso mostra que se importa e que ama a seu irmão mais que tudo no mundo, mais até que a culinária.

 

- Ah! Vai me dizer que nunca pensou em arrancar meu pescoço, srta. Bennet? – ele brincou enquanto sorria.

 

- Bom, se cortá-lo em pedacinhos e servir em uma bela sopa se encaixa nisso, acho que já. - respondeu acompanhando-o no sorriso.

 

- É mais parecida comigo do que imagina. Do contrário não teria aguentado um chefe sanguinário e carrasco como eu.

 

- Pode ser, mas eu jamais faria alguém acordar às quatro da manhã para ir ao mercado.

 

- Tem razão.

 

Os dois riram até que seus olhos se encontraram e um clima estranho se instalou entre eles. Ficaram um tempo constrangidos até que Lizzy viu a chance de sair daquela situação.

 

- Veja! Eles voltaram para a mesa, acho que já podemos servir a sobremesa. – falou já saindo de perto dele.

 

- Claro. – Darcy respondeu ainda perturbado devido àquele momento.

 

Lizzy ficou observando enquanto ele levava a sobremesa. O casal pareceu gostar do paris-brest, pois saboreavam com prazer. Quando viu Darcy vindo em sua direção pensou em sair da porta, mas ele já a vira.

 

- Então, eles gostaram? – perguntou ansiosa.

 

- Sim, e agora querem conhecer a chef que fez aquela maravilha. – ele respondeu sorrindo. – Vamos?

 

Definitivamente aquela estava sendo uma noite surreal. William Darcy, que sempre fora sinônimo de bruto, ogro e nada sutil, agora estava agindo como um homem frágil, sensível e educado. Retirou o avental e o chapéu seguindo-o pelo salão.

 

- Julus, Adelé, esta é Elizabeth Bennet, minha assistente de cozinha e a responsável pelo paris-brest maravilhoso que comeram.

 

- Então você é a famosa Elizabeth Bennet? – Julius foi o primeiro a cumprimentá-la.

 

- Famosa, é? – perguntou divertida enquanto lançava um olhar curioso para Darcy, que pareceu ficar constrangido.

 

- É um prazer conhecê-la, Elizabeth. – foi a vez de Adelé a cumprimentar. – E muito obrigada por este jantar maravilhoso.

 

- O mérito foi todo do sr. Darcy.

 

- Nem tanto, tenho que admitir que nunca conseguiria fazer paris-brests tão deliciosos.

 

- Estava tudo perfeito, meu irmão, obrigado. – Julius abraçou o irmão. – Mas agora preciso levar Adelé para casa, ela não pode se cansar muito.

 

- Claro. – Darcy assentiu, meio preocupado com a futura cunhada.

 

- Obrigado, srta. Bennet. – Julius se voltou para Lizzy.

 

- Não por isso, Julius, o prazer foi meu.

 

Eles levaram o casal até a porta e após se despedirem foram arrumar a cozinha juntos. Enquanto enxugava os pratos, Lizzy não poderia deixar de olhar surpresa para Darcy lavando a louça e as panelas.

 

- O que foi? – ele perguntou ao flagrá-la olhando-o divertida.

 

- Nada, só que nunca o imaginei lavando panelas. – sorriu sem muita certeza de como ele reagiria, já que era a inconstância em pessoa.

 

- Há muito mais sobre mim que muitos não sabem. – respondeu sorrindo enquanto voltava para seu serviço.

 

- Não é fácil perceber quem o senhor é de verdade por trás de gritos e broncas.

 

- Srta. Bennet. – parou para encará-la. - O que falam de mim?

 

- O quê? – parou surpresa.

 

- O que o pessoal da cozinha fala de mim? – repetiu, enxugando as mãos.

 

- Ah... Que o senhor é um excelente chef, muito competente e talentoso.

 

- Essa parte eu já sei. Quero saber as coisas não tão boas. – sorriu de forma despojada.

 

- Vai demitir alguém? Não sou nenhum dedo duro, sr. Darcy. – sorriu mudando de assunto em seguida. – Falta muito para irmos?

 

– Vou guardar as facas e então estaremos liberados.

 

- Eu faço isso. – falou tomando a frente dele.

 

- É um trabalho perigoso, deixe que eu mesmo faço isso.

 

- Está dizendo que não posso fazer por ser mulher?! Pode deixar!

 

Ao pegar as facas, sem saber como aconteceu, uma delas passou em seu dedo, cortando-o superficialmente. O suficiente para causar dor e sangrar consideravelmente, entretanto.

 

- Ai! – gritou.

 

- Você está bem? – Darcy perguntou aflito, já analisando a mão ensanguentada dela.

 

- Estou. – garantiu em meio à dor. – Foi apenas um corte superficial.

 

- Fique quieta aí que vou pegar o kit de primeiros socorros.

 

Sem esperar por aquilo, Lizzy se surpreendeu quando ele a pegou pela cintura e a colocou em cima do balcão. Poucos minutos depois ele voltou com o kit.

 

- Já disse que estou bem. Não vou perder o dedo ou coisa parecida. – Lizzy insistiu.

 

- Mandei ficar quieta. – ordenou, iniciando os procedimentos para o curativo.

 

Lizzy obedeceu e ficou quieta vendo-o cuidar de seu corte. Após o curativo feito, esperou-o guardar o kit e voltar para onde ela estava.

 

- Como se sente? – ele perguntou enquanto se sentava próximo a ela.

 

- Estou bem. Sabe quantos cortes já levei em minha curta carreira na cozinha?

 

- Ainda está reclamando? É tão teimosa! – grunhiu.

 

- Ah, olha quem está falando! Teimosia não é uma qualidade apenas minha.

 

- Se não tivesse insistido em guardar aquelas benditas facas... Tem noção de que poderia ter sido bem pior? – Darcy começou a elevar seu tom de voz. Ela tinha esse dom de deixá-lo furioso.

 

- Está exagerando.

 

Ficaram em silêncio, sentindo a raiva lhes tomar.

 

- Vamos embora. – Darcy falou enquanto a ajudava a descer.

 

Quando pegou na cintura dela sentiu que o copo dela enrijeceu. Uma forte corrente elétrica passou por suas mãos, e era como se o copo dela liberasse uma chama. Ao colocá-la no chão, ela se desequilibrou de forma que ele precisou ampará-la. Ao fazer isso seus rostos ficaram próximos demais.

 

Lizzy sentiu seu rosto formigar. Ao encarar aquele par de olhos azuis intensos ficou presa como se estivesse em uma teia. Por mais que quisesse desviar o olhar, a atração que eles liberavam era forte demais.

 

Uma grande luta se travou dentro de Darcy. Como ele queria beijá-la, como queria provar daquela boca suculenta. Estava por um fio de abandonar seu autocontrole. Aliás, isso era algo que, depois da chegada de Elizabeth Bennet em sua vida, já deixara de existir há muito tempo. Aproximou ainda mais seus lábios dos dela.

 

Lizzy tinha plena consciência do que estava acontecendo e do que aconteceria se o beijasse, mas não dominava mais sua mente nem seus impulsos. Percebendo que ele se aproximava, apenas quebrou qualquer resistência e o esperou...

 

Passos se aproximando os arrancaram abruptamente daquele momento. Afastaram-se rapidamente enquanto tentavam se recompor para não demonstrarem sua excitação.

 

- Com licença, sr. Darcy. – Noah, o segurança do restaurante, entrou pela porta dos fundos.

 

- Pois não, Noah? – Darcy falou mais controlado, porém não menos perturbado.

 

- Tem um senhor lá fora querendo falar com a senhorita Bennet.

 

- Quem é? – Lizzy indagou curiosa.

 

- Disse se chamar Thierry L’.

 

- Ah! Obrigada, Noah. Diga a ele que já estou indo. – agradeceu ao segurança, que saiu imediatamente. – Acho... Tenho que ir. – falou para Darcy, ainda nervosa pelo que quase acontecera.

 

- Tudo bem. – ele assentiu meio perdido.

 

- É... Então até amanhã.

 

- Até amanhã. – a frase saiu falha, quase inaudível.

 

Completamente nervosa e constrangida, Lizzy pegou suas coisas e saiu sem darem mais nenhuma palavra, tampouco sem se olharem. Agradeceu aos céus quando alcançou a rua. Sorriu para Thierry que já a aguardava no portão.

 

- Perdoe-me por vir assim, mas tinha que vê-la. Fiz mal?

 

- Claro que não. Eu é quem devo me desculpar por ter desmarcado nosso encontro.

 

- Eu entendi. E será que poderia me compensar com um drinque? – sorriu sedutor.

 

- Por que não? Estou precisando mesmo beber alguma coisa. – respondeu lembrando-se do quase beijo de agora há pouco.

 

- Ótimo! Vamos?

 

- Vamos.

 

Com as mãos nos bolsos do sobretudo preto, Darcy observava a cena do estacionamento de funcionários do restaurante. Odiava-se por quase ter perdido o controle e estragado tudo. Sim, porque se tivesse beijado Elizabeth estragaria tudo e teria que afastá-la do restaurante e de sua vida.

 

Ainda não confiava no amor, ainda não poderia fazer isso. Entre a profissional e alguém que pudesse magoá-lo e traí-lo novamente, preferia ficar com a profissional. Esta era um decisão sem volta.

 

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