Capítulo V
Lizzy parecia estar mais disposta naquele dia. Acordara cedo, como sempre, para ir ao mercado e comprar tudo com o sr. Darcy. A relação entre os dois permanecia no mesmo patamar, apesar de ele já iniciar uma conversa ocasionalmente enquanto faziam compras. Mas nunca sobre assuntos pessoais; apenas trabalhos, experiências, preferências culinárias...
Elizabeth já notara que seu chefe era sempre reservado com seus assuntos, e até com ela às vezes. Ouvira um bochicho na cozinha um dia dizendo que nunca antes o sr. Darcy contratara uma assistente mulher. O porquê ela não sabia. Seria por preconceito, por achar que as mulheres não dariam conta do serviço, ou pelo grande ego dele, que achava que todas se apaixonariam por ele?
Para ela ele era bonito, mas não grande coisa. Chato e insuportavelmente capaz de tirar a paciência de qualquer um com suas ordens. Só isso. Os rompantes de sensibilidade dele é que às vezes a deixavam zonza. Existia mais além daquela máscara de superioridade e invencibilidade. Ela apenas não tinha certeza do que era ainda, e nem se algum dia poderia vir a descobrir.
Deixando de pensar nele por um tempo, pois ele já ocupava demais as horas do seu dia de acordo com ela, ela resolveu organizar melhor as suas coisas no novo lar. Somente trabalhava e dormia naqueles dias, e não tivera chances ou coragem de arrumar tudo como queria.
Pegando suas coisas na mala, arrumou todas as roupas na cômoda e enfeitou com alguns porta-retratos de sua família. Arrastou os móveis e ajustou-os de acordo com o seu gosto. Quando acabou, sorriu para si mesma. Tudo parecia estar correndo nos trilhos mais do que ela poderia esperar. E se sentia feliz.
Ainda se sentia animada, e resolveu preparar o almoço das duas. Charlotte ainda dormia. Ela assobiava enquanto preparava um prato simples para si e a amiga.
-Uau! Mas o que é isso?! – falou Charlotte assim que saiu do seu quarto, ainda descabelada e desnorteada.
-O nosso almoço, minha amiga! – respondeu Lizzy sorrindo.
-Mas o que deu em você? Está de bom humor? O sr. Darcy finalmente te tascou aquele beijo que você queria? Eu sabia que você não dava ponto sem nó!
Elizabeth revirou os olhos.
-Ah, Charlotte, só você mesma para achar que um dia eu gostaria de ser beijada por ele. Fala sério, aquele homem é, na maioria do tempo, um brutamontes! Às vezes eu nem sei se ele tem mesmo sentimentos!
-Hum. Talvez você esteja analisando-o demais, não?
-Não, ele mal me deixa respirar com tantas tarefas que me dá! Eu não tenho tempo nem para pensar em analisar alguém.
-Bom, tudo bem, era só uma brincadeira. Afinal, nem dá pra imaginar William Darcy com nós, reles mortais. A última vez que soube de algum relacionamento dele foi com aquela modelo brasileira famosa.
-Eu sei, Char. Não se preocupe. – sorriu. – Mas o que eu ouvi dizer não é uma brincadeira não... Ouvi dizer que você foi paquerada ontem no restaurante...
-Ah. O Collins. – ela deu uma risadinha. – Ele, enquanto eu lhe entregava um pedido, me disse que tinha reparado que eu era uma moça muito atraente, e que gostaria muito de me conhecer “aprofundadamente”. – sibilou a última palavra.
-Com essas palavras? – Lizzy não suprimiu o riso.
-Exatamente essas. “Aprofundadamente”. Quem fala essa palavra quando quer cantar alguém?
-Ah, mas ele não é tão mal. Eu observei os garçons e ele nem é assim tão ruim.
-É, ele não é o que se pode chamar de deus grego, mas parece ser simpático, apesar de desastrado.
-O quão desastrado ele é? Numa escala de 0 a 10. – Lizzy perguntou enquanto colocava os pratos na mesa.
-Hum... talvez 8.
-Nossa! Como o poderoso Darcy ainda não o expulsou de lá?
-Não sei. Ele não se mete com os garçons, mas o Collins parece ser bom com os clientes, e isso o faz permanecer lá, apesar de tudo. Ele sabe como elevar o ego dos clientes, se é que me entende. - riu.
-Ah. E aí, já decidiu se vai querer se “aprofundar” no conhecimento dele ou não?
-Talvez. – falou, levantando uma das sobrancelhas e rindo enquanto punha a comida na mesa. – Confesso que até gosto daquele jeitinho todo pomposo dele. Além do mais, paquerar não mata ninguém.
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Fazia uma bela e fria manhã quando Darcy estacionou seu carro em frente ao café mais famoso de Paris, onde seu irmão o recebeu com um forte abraço.
- Cappuccino? – Julius ofereceu apontando para o seu copo fumegante.
- Gelado. – respondeu para o garçom.
- Obrigado por ter vindo, William.
- Eu que agradeço por ainda me considerar seu irmão. Há quanto tempo não tomamos café da manhã juntos?! Séculos! – fez uma pausa. - E então, Julius? Como ela está?
-Está bem, meu irmão. Parece mais saudável do que eu, até. Somente aquele sorriso brilhando em seus olhos aliviam meu coração.
-Você gosta mesmo dela, não é?
-Muito. Como eu nunca pensei que fosse gostar de alguém. Muito menos dela, que eu já conhecia há tanto tempo.
-Eu também estranhei a relação de vocês no começo. Se conhecem desde adolescentes e só agora essa paixão vem à tona.
-Ah, William, tenho certeza de que o destino quer que fiquemos juntos. E eu não vou abandoná-la nesse momento, quando ela mais precisa de mim.
-Isso é muito bonito da sua parte, meu irmão. Você me orgulha muito. Pelo menos um de nós será feliz no amor.
-Não diga isso. Ainda há muito tempo para você. E não é porque uma vez alguma mulher mal intencionada traiu sua confiança e os seus sentimentos que você tem que se fechar para a vida.
-Eu só estou falando uma realidade. Não consigo mais acreditar em todos como antes. Você sabe que Caroline fingiu me amar e roubou todas as minhas receitas, vendeu-as para o meu concorrente e arruinou o meu antigo restaurante. E é por causa dela que eu resolvi não mais ter meu próprio restaurante.
-Acho que isso é um grande erro da sua parte, já que o L’Ambroisie só sobrevive por causa de você. Nenhum outro chef foi tão bem sucedido.
-Eu sei, Julius. O dono do restaurante inclusive já me ofereceu sociedade, mas...
-Você nunca foi o tipo de homem medroso, William. Nem do tipo traumatizado. O que essa mulher fez com você?
-Ela não fez nada comigo, Julius. Eu só estou sendo cauteloso. Apenas isso. – ele se levantou da poltrona onde estava e bagunçou os cabelos com uma das mãos, em sinal de impaciência. – Essa conversa já está saturada, não aguento mais.
-Você parece estressado, está tudo bem no restaurante?
-Está, eu apenas estou cansado. – massageou as têmporas. – Tão cansado que ontem quase avancei em cima de um cliente. Por uma besteira. Se não fosse por Elizabeth eu teria... nem sei o que eu teria feito.
-O que aconteceu? – perguntou Julius, preocupado.
-Ele reclamou da comida, falou que havia alguns problemas, nem me lembro quais, mas eu fui grosso, insisti para provar a comida e não percebi nada do que ele estava falando. A discussão começou a esquentar e aí a srta. Bennet, minha assistente, conteve a situação.
-Sua “assistente” já está com tanto crédito assim? Mas você nunca quis contratar assistentes mulheres.
-Resolvi apostar nela. Ela não é como as outras, não está focada em me conquistar, mas ama a culinária e é destemida.
-Hum. Ela parece ser mesmo alguém especial, já que em tão pouco tempo conseguiu um tão alto conceito seu.
-É, isso é algo que eu tenho que assumir. Ela é mesmo boa no que faz.
-Isso é muito bom de se ouvir. Sabe, eu estava pensando em fazer algo especial para a Adéle, já que ultimamente ela está se sentindo tão triste.
-Seria mesmo ótimo. Você tem algo em mente?
-Não sei, talvez um jantar só para nós dois, algo bem íntimo.
-Acho que posso preparar um jantar para vocês.
-Não, William, você está sempre tão ocupado com o L’Ambroisie... Não quero te dar trabalho.
-Haverá o feriado de aniversário da cidade daqui a dois dias, então eu estarei livre para vocês. O restaurante não irá abrir, e vocês terão tanta privacidade quanto quiserem.
-Tem certeza?
-Eu faço questão. Considere isso como um presente meu para vocês.
-Muito obrigado, meu irmão.
-Não há de quê.
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Naquela noite o movimento do restaurante foi ainda mais intenso, mas Lizzy já se acostumava com seu cargo e dava ordens para os demais assistentes, que rapidamente atendiam.
Darcy apenas observava tudo com admiração, realmente havia acertado na escolha de sua assistente e tinha certeza de que ela chegaria a ser uma grande chef. Talento e impetuosidade ela tinha de sobra.
Em seus minutos de folga, Lizzy e Charlotte foram tomar um pouco de ar do lado de fora do restaurante, pois Charlotte insistiu para ficarem sozinhas alegando um código de emergência.
- Então, o que aconteceu para me trazer para esse frio? – Lizzy perguntou enquanto se abraçava devido ao frio cortante.
- Preciso de um conselho. – Charlotte era um misto de nervosismo e excitação.
- Ok.
- Collins me chamou para sair depois que sairmos do trabalho.
- E o que você disse?
- Nada. Quer dizer, eu pedi um tempo para pensar.
- E qual é a dúvida?
- Ah! Não sei direito, mas...
- A questão é: você sente atração por ele? Acha que sente algo?
- Sinto. – respondeu pensativa. – Não digo que estou apaixonada, mas gosto muito da forma como ele fala comigo, como se mostra apaixonado e educado.
- Isso não é suficiente, Char.
- Eu sei, eu sei, essa é a dúvida.
- Bom, então não posso ajudá-la. Mas acho que se você achar que há uma possibilidade de isso se tornar algo mais deveria dá-lo uma chance.
- Tem razão. – sorriu mais confiante. – É o que vai fazer com o francês bonitão?
- Não sei. Ah! Ele não ligou ainda, mas eu sabia que não ligaria.
- O dia ainda não terminou. Agora vou entrar e avisar ao Collins que aceito sair com ele. Você não vem? – perguntou ao ver Lizzy sentando em um banquinho.
- Ainda não, vou ficar só mais um pouco.
Após a saída de Charlotte, Lizzy aspirou o ar frio com força, sentindo que a neve já se aproximava. Pegou seu celular e resolveu ligar para Jane, pois não falava com a irmã há alguns dias.
- Lizzy! – Jane falou empolgada ao atender ao telefone. – Estava mesmo querendo ligar para você. E aí, como vão as coisas no trabalho novo?
- Vão indo. Mas aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, e não se preocupe, porque foi algo bom.
- Estou precisando mesmo de boas notícias. Então, fala logo!
- Você vai ser titia! – gritou eufórica.
- Eu vou ser pai! – ouviu o grito entusiasmado do cunhado ao fundo.
- Jane, não acredito! Parabéns! – desejou realmente feliz, pois a irmã já tentava engravidar há algum tempo.
- Dessa vez é verdade, Lizzy! Confirmamos com o médico hoje. – se referiu aos alarmes falsos que já haviam acontecido.
- Nossa! Um momento tão especial da sua vida e não estou ao seu lado... – se lamentou.
- Nem repita isso! Você está onde deve estar. Sei que quando o bebê nascer vai sentir orgulho de sua tia, uma famosa chef da cozinha francesa.
- Gravidez dá delírios agora, é? – brincou, arrancando uma gargalhada da irmã.
- Não, mas nós três acreditamos em você e temos certeza de que vai conseguir o que quer.
- Obrigada pela confiança, vocês três são as pessoas mais importantes da minha vida. – agradeceu comovida, pois após a morte precoce dos pais, Jane, e agora seu marido e o bebê que estava a caminho, eram sua família.
Ouviu o toque do celular alertando uma nova chamada. Olhou rapidamente, mas não reconheceu o número.
- Jane, pode esperar um pouco enquanto atendo outra chamada?
- Pode atender, tenho que sair com Charles agora. Depois nos falamos. Te amo.
- Também amo vocês. – respondeu rapidamente já atendendo a outra chamada. – Alô?
- Eu disse que ligaria. – a voz sedutora ecoou do outro lado da linha.
- É, você disse. – sorriu.
- Desculpe não ter ligado antes, mas surgiu uma viagem de negócios urgente e terei que passar dois dias em Nova York.
- Ah, tudo bem. Sei que é um homem ocupado.
- Sabia que você quase me fez perder um negócio de milhões de euros?
- Eu? Mas por quê? – perguntou sem entender.
- Porque foi difícil me concentrar na reunião quando não parava de pensar em você.
- Bom, agora você conseguiu me deixar vermelha.
- Daria tudo para ver isso. Então, quando voltar a Paris pensei em sairmos para um jantar ou algo assim.
- É, pode ser. – respondeu feliz enquanto segurava gritinhos de entusiasmo.
- Ótimo! Pensei em aproveitarmos o feriado, acha que vai trabalhar?
- Ainda não sei, mas ouvi comentários dizendo que vamos fechar. E isso é quase impossível para o movimentado L’Ambroisie.
- Então, caso não tenha que trabalhar, pensei em passarmos o dia juntos. Sairíamos à tarde, perto das duas horas, pode ser?
- Combinado. Mas aonde vamos?
- Será uma surpresa. Mas preciso de uma informação importante: tem medo de altura?
- Não, mas você agora me deixou curiosa. Pode ao menos adiantar alguma coisa? – sorriu.
- Tudo bem, só uma coisa. Um passeio de balão está incluso na surpresa.
- Uau! Agora estou ansiosa para chegar o dia do passeio.
- Não mais do que eu, acredite.
- Thierry, preciso ir agora. Meu tempo livre está acabando.
- Tudo bem. Então posso te ligar para combinarmos tudo?
- Claro.
- Boa noite, Elizabeth.
- Boa noite, Thierry.
- Atrapalho alguma coisa?
- Sr. Darcy! Me assustou! – falou ao se virar e esbarrar com ele e sua cara de poucos amigos. – Está aí há muito tempo?
- Não. Vim apenas avisar que seu tempo de folga acabou. Preciso da senhorita na cozinha agora.
- Já estou indo. Sr. Darcy? – chamou-o antes de entrar na cozinha.
- Pois não?
- Daqui a dois dias é aniversário da cidade e quero saber se vamos fechar.
- Provavelmente, todo ano fechamos. Por quê?
- Por nada. Eu só queria saber.
- Agora chega de conversa e vamos voltar logo para a cozinha. A comida não vai se cozinhar sozinha, muito menos chegar à mesa dos clientes andando. – falou com seu jeito bruto de sempre.
- Pode imitar um gatinho, meu filho, porque o cavalo já imitou. – Lizzy sussurrou irônica ao passar por ele.
- O que disse, srta. Bennet? – perguntou sério.
- Nada. – respondeu sorrindo entrando rapidamente na cozinha.
Darcy esperou ela entrar para então gargalhar abertamente. Tinha que admitir que ela tinha um humor fantástico e que suas respostas, ao invés de lhe deixarem com raiva, o divertiam bastante. Tinha que admitir: ter Elizabeth Bennet em sua vida era algo bom, porém também muito perigoso.
Lembrou-se da conversa que acabara de ouvir entre ela e provavelmente o cara da noite anterior e seu sorriso cessou.
- Então o sr. Flores está fazendo planos para o feriado? Interessante... – falou com um sorriso enigmático nos lábios.
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