Capítulo III
Depois de algumas pedaladas, chegou na sua casa, ou melhor, na sua ex-casa. Lavou o rosto, olhou para a cama e fez menção de deitar. Estava exausta, mas não se permitiu tal coisa.
Tomou um banho para dar mais ânimo e tirar aquele cheiro que o mercado deixara na sua roupa.
Queria logo sair daquele lugar que detestava. Pegou sua mala e começou a colocar nela suas roupas. Tinha, na realidade, poucos pertences naquele lugar. Sentiu-se aliviada quando terminou de arrumar tudo.
Ligou para Charlotte e, enquanto aguardava, comeu alguma coisa. Ficou a olhar ao redor e recordar quanto tempo passara ali, tentando conseguir um emprego onde pudesse realmente ser reconhecida pelo seu talento e sua paixão pela culinária.
Aproveitou e ligou também para Jane, para contar sobre a mudança de endereço.
- Lizzy, estou tão feliz que as coisas estão melhorando para você. - disse Jane com sua calma habitual.
- Acredite Jane, eu também. Mas às vezes fico com medo de ser mais um sonho e de repente acordar e ver que nada mudou.
- Lizzy, Lizzy, não fique assim temerosa. As coisas começaram a mudar e irão melhorar daqui em diante, você vai ver.
- Está bem, vou tentar ser mais otimista. Bom, de qualquer maneira, agora você já sabe o número novo do meu telefone. Beijos, maninha.
Assim que desligou, Charlotte buzinou lá embaixo. Lizzy pegou sua mala e desceu. Voltou para pegar umas poucas coisas que ainda tinham ficado lá em cima e desceu novamente. Depois de tudo arrumado no carro, entregou a chave de seu ex-quarto e agradeceu à senhoria daquele dormitório. Entrou no carro e, sem olhar para trás, foram em direção ao seu novo lar.
Durante o trajeto ela e Charlotte brincaram e riram o tempo todo. Foi quando Charlotte lembrou-se de perguntar:
- E então, conseguiu chegar no horário determinado ao mercado?
- Sim, e você não imagina quem eu encontrei lá!
- O carrasco do L’Ambroisie, acertei? – disse Charlotte com um sorriso sarcástico.
- No alvo. Você não tem idéia de como meu sangue esquentou. Sinceramente eu não sei o que este homem pretende me deixando assim.
- Acho que ele sente prazer em nos maltratar, só pode. Bem, chegamos. Bem-vinda ao seu novo lar! - disse Charlotte.
Pegaram a mudança de Lizzy no carro e entraram no prédio. O apartamento ficava no primeiro andar. Embora simples, era acolhedor e bem conservado. Assim que Charlotte abriu a porta da sala, Lizzy ficou radiante em ver a sala de bom tamanho. Ficou um pouco tímida aguardando Charlotte lhe mostrar o restante do apartamento, mas percebendo que a amiga estava travada, tratou logo de ajudá-la.
- Vamos menina, não temos o dia inteiro. Seu quarto é este, e o restante... Bom, o restante olhe você mesma. Agora metade deste apartamento também é seu e as contas também. - riram.
Como criança, Lizzy colocou suas coisas no chão do quarto e passou a percorrer todo o apartamento, enquanto ficava deslumbrada com seu novo lar. Quanta diferença de onde morava!
Voltando ao quarto, guardou seus pertences e deitou-se um pouco, pois o cansaço da noite mal dormida começava a dar os primeiros sinais.
- Charlotte, vou dormir um pouco, ok? Senão não conseguirei ficar em pé à noite. Você pode me acordar para irmos para o restaurante?
- Claro, Lizzy! Descanse sim. Hoje eu faço nosso almoço e depois nós combinamos como vamos nos organizar aqui.
Charlotte encostou a porta do quarto de Lizzy, que no mesmo instante pegou no sono. Estava super cansada, precisava renovar suas forças para enfrentar o movimento do restaurante à noite.
Já passava do meio-dia quando Charlotte chamou Lizzy.
- Vamos dorminhoca, já passam do meio-dia. Temos que comer alguma coisa e nos arrumar. O carrasco gosta de pontualidade, esqueceu?
- Se não precisasse e gostasse tanto deste emprego, eu o mandaria para o raio que o parta.
- É, mas esse emprego, no momento, é nossa grande oportunidade de conseguir reconhecimento em nossa profissão.
- Eu sei, Charlotte. E estou agradecida por isso. É muito melhor do que onde eu trabalhava, mas o homem é terrível e eu ainda trabalho diretamente com ele.
- Me desculpe a sinceridade, mas ainda bem que ele escolheu você e não eu para isso. Não sei se teria aguentado nem o primeiro dia.
- E você acha que eu estou aguentando? Já perdi a conta de quantas vezes tive vontade de pular no pescoço dele e...
- Beijá-lo? – Charlotte falou antes de Lizzy completar.
- Charlotte, me poupe! Você realmente acha que eu gostaria disso? Com ele?
- Por que não? Ele é lindo, bom partido...
- E grosseiro, irritante, arrogante... Não, muito obrigada. Quero mesmo é um homem que seja carinhoso, amoroso, gentil, apaixonado...
- Ih. Vai sonhando, vai... Este tipo de homem até eu estou procurando e ainda não achei.
- Bom, esqueçamos os assuntos do coração e vamos nos arrumar para encarar mais uma vez o carrasco do L’Ambroisie. - disse Lizzy, caindo na gargalhada e fazendo com que Charlotte também risse.
Chegaram ao restaurante por volta de 13:45. Foram direto para o vestiário e em seguida para a cozinha.
Como sempre ele já estava lá, na pequena sala dentro da cozinha. Respirando fundo, Lizzy foi até ele.
- Sr. Darcy, com licença?
- Sim, srta. Bennet.
- Gostaria de saber o que vou organizar para hoje.
- Aqui está sua lista. Comece a bater o Zabaione, mas cuidado para não deixar bolhas, entendeu?
- Sim, entendi.
- Faça o Crepe Suzette, também separe uns foie grãs, codorniz, trufas. Quanto aos peixes mande algum assistente limpá-los. Irei logo.
- Certo, com licença.
Enquanto Lizzy organizava todos os itens relacionados por Darcy, foi surpreendida por ele, que recebera um telefonema misterioso e urgente que o obrigava a ausentar-se do restaurante próximo a hora de abri-lo.
- Srta. Bennet?
- Sim, sr. Darcy. – respondeu de imediato percebendo a agitação dele.
- Terei que me ausentar por uns instantes. Então, se eu demorar, organize todos os pedidos, coordene os assistentes e lembre-se: Siga exatamente minhas receitas. Entendido?
- Sim, sr. Darcy. Aconteceu alguma coisa?
- Nada que a senhorita possa resolver. – respondeu com certa grosseria, mas Lizzy percebeu que os olhos dele estavam cheio de lágrimas.
Darcy se arrependeu daquela resposta atravessada de imediato, mas ele era sincero; ninguém podia fazer nada, principalmente ela. Colocou o gorro e, sem olhá-la novamente, saiu apressado.
Lizzy não estava acreditando, teria que coordenar toda a cozinha sozinha. Por um lado seria sua grande chance de mostrar suas habilidades e competência, mas por outro temia que acontecesse alguma coisa e tivesse que aguentar a arrogância de seu chef.
“Bom, é agora ou nunca.” - pensou.
O restaurante abriu e nada de William Darcy.
- Nada de pânico, Lizzy. - ela disse para si mesma.
Começaram a chegar os pedidos e tudo seguia seu rumo tranquilo. Os pedidos todos dentro do cardápio e as receitas de William Darcy seguidas à risca. Mas, de repente, entrou um dos garçons na cozinha, Collins. Ele parecia aflito, o que deixou Lizzy assustada.
- Srta. Bennet, este cliente quer algo que esteja fora do cardápio. Um prato diferente, porém digno do L’Ambroisie. O que eu faço?
- O que você disse a ele?
- Eu disse que ia perguntar.
- Bem, não podemos dizer que o Chef William Darcy não se encontra. Eu não deveria fazer nada sem sua permissão...
- Mas é um cliente importante, gasta sempre muito dinheiro no restaurante. Não podemos simplesmente dizer-lhe que não será possível atender seu pedido.
- Tudo bem, Collins. Diga-lhe que iremos surpreendê-lo.
- Lizzy, ficou doida? - perguntou Charlotte, que ouvia a conversa. - Se o carrasco te pega fazendo uma receita que não a dele, ele te mata, te demite!
- Eu sei, Charlotte, mas terei que arriscar. Afinal, ele não está aqui, e eu não posso dizer não para este cliente. Então só me resta arriscar mesmo.
- O que está esperando, Collins? Eu não disse para falar com o cliente?
O garçom voltou para o salão. Lizzy estava nervosa, mas teria que fazer alguma coisa diante de tal pedido. Olhava para o relógio e nada de William Darcy. Lembrou-se então do seu Suflê à La Bennet. Não teve dúvidas este seria o prato que faria e, se tudo desse certo, ele com certeza não explodiria.
Fez o suflê e mandou servir ao cliente. Foi realmente surpreendente, pois além dele gostar, os outros que ouviam seus elogios começaram também a pedir o mesmo prato.
A cozinha inteira comemorava o sucesso do prato que Lizzy preparara. Em meio aos cumprimentos e elogios, William Darcy entrou e quis saber o motivo de tanta alegria entre os funcionários.
Alguém inocentemente comentou sobre o suflê a La Bennet que Lizzy havia feito para o cliente. Em um ímpeto só, Darcy rompeu os obstáculos à sua frente e chegou perto de Lizzy com os olhos faiscando de raiva.
- Srta. Bennet, na minha sala agora. – sibilou furioso.
Lizzy respirou fundo e pensou: “É agora, ele já soube da novidade.”
Já na sala, ele a encarava sem nada dizer. Depois da tortura psicológica, finalmente ele falou.
- Lembra-se o que eu lhe disse antes de sair? Que não mudasse, inventasse nada, nada sem a minha aprovação? E o que a senhorita faz, na primeira oportunidade, pelas minhas costas?
- Sr. Darcy, se me permite, eu posso explicar. Para começar, um de seus clientes não queria nada do cardápio e perguntou se era possível fazer um prato fora do cardápio. Tentei de tudo, mas não poderia dizer não para o cliente e infelizmente não poderia ficar aguardando o senhor chegar para resolver esta questão. Então resolvi fazer uma receita de minha família e ele gostou.
- De qualquer maneira, a senhorita me desobedeceu.
- Se o senhor quiser tem o direito de me demitir. Embora minha decisão tenha salvado a noite.
- Mas poderia ter arruinado tudo! – ele esbravejou alterado. – Acha que a minha cozinha é igual a quando a senhorita brincava de casinha, srta. Bennet?! Uma decisão errada e o nome do L’ambroisie vai para a lama!
- Mas não foi! – elevou também sua voz. – Acho que deveria me agradecer por ter contornado a situação. – se indignou.
- Teve muita sorte, isso sim! – bradou.
- Então me demita! – bradou de volta.
Darcy a encarou furioso. Como ela ousava afrontá-lo daquela forma?! Já estava acostumado a no primeiro grito os assistentes saírem chorando de sua sala e ela ainda permanecia lá, encarando-o de forma decidida e corajosa.
- Vou pensar no que farei a este respeito, não quero tomar nenhuma decisão de cabeça quente. – finalmente ele falou, depois de um tempo, e mais calmo.
- Faça o que o senhor achar melhor, mas antes de tudo devo lhe dizer: não só este cliente, mas outros também gostaram muito do suflê a La Bennet. Seria uma pena não tê-lo mais em seu menu, pois como a receita é da minha família, eu posso até ser demitida, mas a receita vai comigo. – o enfrentou decidida e confiante. - Estou dispensada, sr. Darcy?
- Está. – ele respondeu surpreso e aparentemente satisfeito – Saia da minha sala agora. Irei em seguida e nada de gracinhas ou é rua na hora.
O restante da noite transcorreu bem, embora o semblante fechado de Darcy e Lizzy demonstrasse que as coisas entre eles não estavam nada boas. Fechado o restaurante, Charlotte e Lizzy já estavam perto da porta para saírem quando Darcy a chamou.
- Srta. Bennet? Gostaria de falar-lhe um instante.
- Sim, sr. Darcy.
- Vou pegar o carro. – Charlotte falou enquanto se retirava.
- Ainda não sei o que fazer, então até que eu tome uma decisão a senhorita continua sendo minha assistente. Boa Noite.
- Boa Noite, sr. Darcy.
- Srta. Bennet? –chamou-a antes de ela entrar no carro.
- 4:45, não esqueça.
Ao entrar no carro, Darcy sorriu. Era para estar furioso, e até estava, mas tinha que admitir que Elizabeth Bennet não era uma assistente comum; e que de algum modo ela mexia com suas emoções, indo da raiva à admiração. Uma profissional excelente e inteligente, lembrava muito ele no começo da carreira.
Durante o trajeto até o apartamento, Lizzy permaneceu quieta. Mas Charlotte, não aguentando mais o silêncio nem a tristeza da amiga, perguntou:
- E então, Lizzy, o que ele disse? Te demitiu?
- Por enquanto não, mas acho que vai. Acho que é o fim de morarmos juntas. – fez uma pausa. - Se realmente for demitida voltarei para casa, não tenho mais condições de ficar por aqui. Estou cansada, sem amor, sem dinheiro... já chega. O jeito é voltar para Londres e trabalhar por lá mesmo, pelo menos lá tenho minha família por perto. Nada contra você, Charlotte, mas não poderei te ajudar com as despesas.
- Lizzy, não se preocupe com isso agora. Vamos dormir, amanhã as coisas irão se resolver. Ele tem que ser muito insensível para te demitir. Você salvou a pele dele.
- Pois é, e é isso o que não entendo. Acho que aquele homem não é humano.
- Pior que acho que é. Sabe o Collins, o garçom?
- Sei.
- Ele me disse que todo mundo acha que aconteceu alguma coisa muito grave para tirar o carrasco do L’ambroisie do trabalho.
- Será? Algo com a sua família? Quer dizer, ele ao menos tem família?
- Parece que tem sim. Mas ninguém sabe o parentesco, afinal ele nunca se abre com ninguém.
- Uma namorada, talvez?
- Pode ser. Mas o fato é que nada faz William Darcy se afastar da cozinha, e se ele saiu é porque algo realmente grave aconteceu.
- Então, se realmente aconteceu algo, isso explica aquele descontrole todo. Mas não justifica. – concluiu irritada. – Mas quer saber? Não quero mais pensar nisso. Tudo o que quero é dormir, pois ainda preciso acordar às quatro da manhã.
*****************
Trancado na solidão do seu amplo apartamento, Darcy não conseguia dormir. Em meio a um gole de conhaque lembrou-se da forma como sua assistente o desafiou e na coragem que teve de tomar a decisão que ele mesmo tomaria se estivesse em seu lugar.
Certamente Elizabeth Bennet lhe traria grandes problemas, mas estava disposto a arriscar, não queria perder uma profissional tão apaixonada quanto ele pela culinária. Ouvindo o som do celular, atendeu em meio a um longo suspiro.
- William? – a voz triste lhe despertou de seus pensamentos.
- Julius? O que houve? Como você está? – se preocupou.
- Agora estou bem, mas Adéle... – ele deixou a voz morrer.
- Vai ficar tudo bem, Julius, eu sei.
- Sei que vai. Eu liguei apenas para agradecer por tudo o que você fez por nós esta noite. Sei que te tirei do seu trabalho e isso deve ter te prejudicado. Sinto muito.
- Não se preocupe com isso. – tranqüilizou-o. – Tenho uma nova assistente cabeça dura que salvou meu emprego. – sorriu ao pensar em Lizzy.
- Assistente mulher? Que evolução!
- Mas essa não quer me levar para a cama como as outras, não se preocupe. Às vezes acho até que ela tem vontade de me cortar em tirinhas. – sorriu. – Julius? – voltou a ficar sério. – Se precisar de qualquer coisa, qualquer uma, não hesite em me pedir.
- Sei que posso contar com você. Está sendo muito difícil, mas vou superar.
- Sempre foi mais forte que eu, sei que vai superar sim.
- Obrigado, William. Eu te amo.
- Também te amo, Julius.
Desligou o telefone completamente triste e com raiva por toda aquela situação. Na cozinha, ele dominava, resolvia tudo, era o melhor e nada fugia ao seu controle, mas agora sentia que não era tão forte assim, não quando Julius mais precisava dele.
**********














