Capítulo II
Lizzy e Charlotte ainda comemoravam suas conquistas. Saíram do restaurante com a felicidade estampada em seus rostos. Abraçaram-se mais uma vez e despediram-se, tomando cada uma sua direção. Chegando à sua casa, ligou imediatamente para Jane, que recebeu a notícia radiante.
- Oh Lizzy, eu sabia que conseguiria!
- Eu, na realidade, pensei que não. Pelo menos depois que disse que quebraria a cara dele.
- Você o quê?
- Nada, nada. Eu apenas falei um pouco demais.
- Mas o importante é que conseguiu, e ainda vai trabalhar diretamente com ele!
- Isso é o que mais temo.
- Mas por quê?
- Por quê? Você ainda pergunta?! Não tem idéia de como ele é grosseiro, irritante, arrogante, esnobe, e apesar de tudo bonito. Bom, Jane, preciso desligar. Amanhã tenho que estar bem cedo no restaurante.
- Meus parabéns mais uma vez querida, você mereceu!
Lizzy desligou o telefone. Falar com Jane aliviou toda a tensão pela qual ela tinha passado. Na manhã seguinte, acordou às 6 horas. Pelo menos desta vez conseguiu dormir sem acordar com um suflê explodindo, pensou. Tomou um banho, escolheu uma roupa, comeu alguma coisa e como sempre checou sua pasta.
Pegou um táxi e chegou ao restaurante vinte minutos antes do horário marcado. Assim que desceu do táxi, pode ver chegando em seu Renault preto seu temido novo chef. Entrou no restaurante, e logo lhe deram um uniforme. Foi encaminhada ao vestiário onde se trocou, e logo após foi conduzida à sala dele. Assim que entrou, ele lhe disse:
- Bom dia, Srta. Bennet – falou sem encará-la, olhava uns papéis sobre a mesa.
- Bom dia, Sr. Darcy – respondeu.
- Gostei de sua pontualidade, continue assim e nos daremos bem. Me acompanhe até nosso lugar de trabalho, hoje lhe direi o que faremos e como faremos.
Eles caminharam até a cozinha do restaurante.
“Uau! Isto que é uma cozinha.” – Lizzy pensou ao ver a ampla e equipada cozinha. Seus olhos brilharam ao vê-la. Ampla e clara, mesas grandes... Quem não gostaria de trabalhar em um local assim? Nem se comparava à cozinha na qual fizera o teste. Apesar de limpa e boa esta era incrivelmente melhor.
- Bom, para começar, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Quais são os três segredos da cozinha francesa?
- Todos sabem, MANTEIGA, MANTEIGA E MANTEIGA. – respondeu orgulhosa.
- Muito bem, srta. Bennet. Mas vou lhe dar uns conselhos para trabalhar comigo. Em primeiro lugar, quantas mulheres vê aqui nesta cozinha?
- Bom, no momento só eu e Charlotte.
- Exato, e sabe por quê? Porque na gastronomia existe uma hierarquia antiquada apoiada em regras feitas por homens. Regras elaboradas para impossibilitar que as mulheres entrem neste mundo, o que bem poucas conseguem atualmente. Bem, siga meus conselhos e algum dia se tornará uma grande chef.
Willian Darcy entregou-a uma lista com os ingredientes dos pratos que deveriam começar a adiantar naquela manhã, pois o restaurante abria também para almoço. Lizzy estava tão nervosa que de certa maneira estava atrapalhando-se um pouco. Não parecia nem de perto com a Lizzy organizada que costumava ser. Começou a juntar as panelas perto de seu lugar de trabalho, quando o certo seria deixá-lo livre.
- O que é isso? – Darcy a surpreendeu irritado. - Mantenha seu posto livre! E quando o movimento começar? Postos desarrumados atrasam tudo. A comida não sai, os pedidos acumulam. Desastre. Vou tornar isso fácil de ser lembrado. MANTENHA SEU POSTO LIMPO, OU TE MATO!
- Parece até que vomitou nas suas mangas. – continuou ainda irritado - Mantenha as mãos e braços perto do corpo. Assim, viu? – mostrou a ela como se fazia o movimento certo. - Sempre volte a esta posição. Movimentos rápidos, objetos afiados, metal quente, braços recolhidos. Vai minimizar cortes e queimaduras e manterá as mangas limpas. A marca de um chef é o avental sujo e as mangas limpas. - Ele falava alto, o que deixou Lizzy irritadíssima.
- Meu estilo de cozinhar é em cada prato ter sempre algo inesperado. Mas esta é a minha marca, a sua é simplesmente seguir a minha receita. – continuou falando enquanto andava pela cozinha com Lizzy o seguindo. - Se quiser inovar como fez no seu risoto, precisa primeiro passar pela minha aprovação. Nunca, nunca faça algo inesperado sem antes eu ter aprovado, entendeu?
- Sim, sim. Entendi. – respondeu ainda zonza devido a tanta informação e grosseria.
- Ótimo! Continuando, como sabe se o pão está bom sem prová-lo? Não é o aroma, não é a aparência, mas o som da crosta. Ouça. – partiu um pão enquanto seu rosto demonstrava um prazer quase sexual. - Que sinfonia crocante. Apenas um ótimo pão tem esse som. Entendeu?
- Entendi. – repetiu já sentindo vontade de matá-lo.
- Só se obtém bons produtos agrícolas sendo o primeiro a escolher e só há dois meios para ser o primeiro. Cultive você mesmo ou seja amigo de quem o cultiva. Voilà! O melhor restaurante é o primeiro a escolher. Estará no mercado antes de todo mundo, srta. Bennet?
- Eu acho que... sim. – respondeu indecisa, pois ainda não sabia o que exatamente seria antes de todo mundo.
- As 4:45 é o horário ideal.
- Da madrugada? – perguntou surpresa.
- Algum problema, srta. Bennet? – parou, erguendo a sobrancelha enquanto a encarava.
- Não! – tratou de responder. – Acordar cedo é meu hobby predileto. – ironizou em meio a um sorriso torto.
- Estão achando que a gastronomia é esnobe. Então os chefs têm que ser esnobes. Mas nós somos mais que cozinheiros, somos artistas. Nunca se esqueça disso. – finalizou saindo da cozinha.
Lizzy estava paralisada, em estado de choque ou demência, mas como aprender tudo em menos de dez minutos? Respirou fundo tentando se acalmar enquanto percebeu olhares penalizados dos outros funcionários da cozinha; era como se dissessem: Coitadinha, ela está ferrada!
- Essa é sua grande chance, Elizabeth. Está ao lado do maior chef que o mundo já viu. – repetiu na tentativa de se convencer a não matá-lo e servi-lo como prato principal.
Apesar da aula que estava recebendo, ele ainda se mostrava muito esnobe. Como ele mesmo tinha dito: trabalhar com William Darcy não seria nada fácil.
O movimento da cozinha começou a aumentar conforme a hora do almoço ia se aproximando. Mas, relaxada e confiante, Lizzy começou a trabalhar da maneira organizada a que estava acostumada, mesmo com a presença de William Darcy ao seu lado.
Quando os primeiros pedidos chegaram, ele coordenava a cozinha a todo vapor. Era impressionante como aquele homem tinha tanta habilidade em uma cozinha sem deixar dúvidas de sua masculinidade.
Passado o período do almoço e a cozinha diminuindo o ritmo de trabalho, ele a chamou até uma pequena sala que havia dentro da própria cozinha; ali ele organizava o menu de todos os dias, e enquanto o pessoal da limpeza aprontava a cozinha para o movimento da noite, os assistentes de cozinha faziam um pequeno descanso, no qual comiam e bebiam alguma coisa para se prepararem para o ritmo da noite.
- Bom, srta. Bennet, o que achou do período do almoço?
- Muito agitado, mas não me assusta.
- Gosto de suas respostas, são firmes. Pela manhã quase cheguei a me arrepender por tê-la contratado, mas acredito que tenha sido um choque inicial. Vi que desempenhou muito bem sua função depois disso.
- Obrigada, sr. Darcy. Deseja mais alguma coisa?
- Sim. Aqui está o cardápio para a noite, organize tudo depois que acabar o horário do descanso. À noite o movimento é muito maior que durante o dia, então prepare-se.
Perto das oito da noite a cozinha começou a ferver. Pessoas se movimentando a todo instante, o calor do fogo, o chiado do azeite nos tachos quentes... tudo exalava a magia do mundo por trás dos sabores.
Lizzy já havia se acostumado um pouco com o funcionamento de tudo e já não se atrapalhava tanto. É claro que levou muitas broncas do perfeccionista e ogro do seu chefe, mas até com as broncas estava se acostumando.
Não sabia como, mas no final da noite, perto da uma da manhã, ainda estava viva. A maioria do pessoal já estava de saída quando William Darcy voltou do salão onde recebia os cumprimentos dos clientes. Lizzy, que estava sentada perto do balcão massageando a nuca, levantou rapidamente ao vê-lo.
- Vejo que ainda está de pé, srta. Bennet. – falou, retirando o avental e o chapéu.
- Acho que sim, sr. Darcy. – respondeu rígida.
- É mais dura na queda do que pensei. – ensaiou um sorriso enquanto guardava seu material já limpo, serviço que Lizzy fez sem ser mandada. – Acho que passou no teste.
- Teste? – indagou surpresa. – Não sabia que ainda estava em teste.
- Acha mesmo que sou um carrasco que faz seu pessoal trabalhar das sete da manhã a uma da manhã? – Diante da surpresa dela, sorriu e continuou – É, acha mesmo. A partir de amanhã não precisa chegar tão cedo, o almoço fica a cargo do sous-chef. Então, seu horário é a partir das 14 horas. Agora pode ir.
- Até amanhã, sr. Darcy. – falou enquanto levantava, mas quando já estava abrindo a porta ele a chamou novamente.
- Srta. Bennet? Quanto às compras no mercado, não era um teste. Não esqueça, 4:45; a lista está pregada no quadro de avisos. – falou segurando o riso.
Lizzy não respondeu, assentiu e saiu apressada antes que desmoronasse ali mesmo. Foi até o vestiário e rapidamente se vestiu enquanto torcia para ainda encontrar um táxi àquela hora. Encontrou Charlotte na saída.
- Ei! Sobrevivemos. – falou ao se aproximar da nova amiga.
- Estou um caco. – Charlotte respondeu em meio a um suspiro. – Menina, isso é exploração.
- Ainda não soube? – Lizzy perguntou quando alcançaram a rua deserta. – Estávamos em um teste e a partir de amanhã trabalharemos em apenas um turno.
- Ah, eu soube. Fiquei no turno do jantar, e você?
- Eu também! – sorriu com a coincidência.
- Isso é ótimo, assim podemos nos ver sempre.
- Verdade. Agora só preciso achar um táxi para chegar em casa e desmaiar.
- Posso te dar uma carona se quiser.
- Não, não quero te atrapalhar.
- Tá legal, então fica aí na rua deserta e violenta enquanto espera um táxi. – brincou. – Anda, vem! Eu te levo.
Sem mais argumentos, Lizzy aceitou a carona. Durante o trajeto descobriram muita coisa em comum além da paixão pela culinária e logo estavam em frente ao dormitório estudantil em que Lizzy morava.
- Por favor, me diz que você não mora nessa espelunca. – Charlotte falou ao avistar o prédio asqueroso.
- Não vou nem te convidar para entrar ou então vou perder a amiga.
- Como consegue viver em um lugar desses?!
- A pergunta é: como ainda não tem dinheiro para sair de um lugar desses? – respondeu sorrindo. – Até me estabilizar no emprego terei que ficar aqui mais um tempo.
- Hum. Me responda três perguntas, tudo bem?
- Tá. – respondeu sem entender nada.
- Você é alguma maluca que, tipo assim, mata as pessoas?
- Isso é alguma brincadeira? – perguntou rindo, mas diante da seriedade da amiga resolveu responder. – Não.
- É lésbica?
- Não! – respondeu com mais ênfase.
- Isso é bom. – Charlotte sorriu. – A última pergunta: Quer dividir o apartamento comigo? A vantagem de ter pais ricos é que eles, mesmo querendo te deserdar por você largar tudo e ser cozinheira, não deixam de te amar e ainda por cima te dão um apartamento. Você só precisa me ajudar com as despesas mensais, contas, supermercado e etc.
- Sério?! Você está me convidando para dividir um apartamento?
- Estou, você aceita ou não? Estou precisando urgentemente de dormir.
- Claro que aceito! E também preciso dormir, pois acredite, terei que estar no mercado às 4:45 da manhã. Meu querido chef deu-me esta honra.
- Não acredito! Você já passou para a fase do querido?
- Charlotte, olhe para a minha cara de alegria! Você acha realmente que algum dia chegarei nesta fase? Hoje já tive vontade de matá-lo.
- Não só você, querida, acredite. Provavelmente a cozinha inteira.
- Bom, a conversa está muito boa, mas um mercado me aguarda daqui a algumas horas. Como ficamos então? Quando me mudo para o nosso apartamento? - Lizzy disse entre risos.
- Se puder, amanhã mesmo. Quero dizer, hoje. Tome o número do meu telefone, me ligue assim que puder; eu virei buscar tuas coisas.
Saiu do carro. Não acreditava que esta seria provavelmente a última noite que dormiria naquele lugar horroroso que tanto detestava. Finalmente sua vida agora começava a ser definida. Faltava apenas uma coisa que a deixaria totalmente feliz: encontrar o amor de sua vida. Mas por que pensar nisso agora, se suas prioridades no momento resumiam-se a desmaiar e poder acordar pelo menos às 4:00 da manhã, e correr para o mercado?
Quase foi preciso um reboque para tirá-la da cama às quatro da manhã, mas seu agora mantra momentâneo ecoava em sua mente: O fim justifica os meios, Lizzy. Encontrar um táxi era ainda mais difícil, por isso resolveu ir em sua bicicleta. O mercado não era tão longe e assim chegaria bem mais rápido, além de ficar mais sarada. – pensou.
Ao chegar lá o local estava praticamente vazio; colocou a bicicleta no local indicado e se dirigiu para a entrada, onde algumas pessoas montavam suas barracas de comida. Agradeceu aos céus quando sentiu o cheiro de café vindo de uma das barracas. Resolveu ir até lá e acordar direito com um belo café forte, mas ao se aproximar teve uma grande surpresa.
- Bom dia, srta. Bennet. – o homem lhe cumprimentou enquanto lhe entregava uma xícara de café fumegante. – Vejo que é sempre pontual.
- Sr. Darcy? – perguntou surpresa hesitando em pegar o café. – O que...
- O que eu estou fazendo aqui já que mandei você vir? – ele fez a pergunta não concluída. – Sou seu chef, oras. Preciso supervisionar suas compras. – respondeu sério. – Fora que não confio em ninguém ainda para escolher os peixes. – completou enquanto sentava em um banco e convidava-a para se juntar a ele com um gesto de mão.
Lizzy sentia suas têmporas latejarem de raiva. Acordara às quatro da manhã em vão?! Por que ele mesmo não comprava tudo? A resposta era óbvia: porque ele era um carrasco desgraçado. Sentou emburrada ao lado dele enquanto, em silêncio, esperavam o mercado abrir.
Darcy ficou observando satisfeito as escolhas dos produtos feitas por sua nova assistente. É lógico que lhe faltava certa técnica na escolha de alguns itens, mas no geral ela fez o trabalho de forma impecável.
- Agora vamos à sessão de peixes. – a chamou quando finalizaram com os temperos.
- Bom trabalho, srta. Bennet. – Lizzy sussurrou irônica antes de segui-lo.
- Falou alguma coisa, srta. Bennet? – ele parecia divertir-se com a cara dela.
- Não. Não, sr. Darcy – respondeu nervosa, temendo que ele a houvesse escutado.
Lizzy ficou observando-o escolher os peixes com maestria. O mesmo perfeccionismo que ele demonstrava na cozinha se repetia ali. Em um dado momento teve que segurar a gargalhada ao vê-lo pechinchando com um vendedor de trutas; e para nenhuma surpresa, ele acabou ganhando a disputa.
- Agora precisa levar isso para o restaurante antes de voltar para casa. – ele falou quando saíram do mercado.
- Mas como vou entrar lá?
- Terá a chave da porta dos fundos e da cozinha.
- Ah! – respondeu desanimada, pois o restaurante ficava muito longe do mercado, o que seria uma longa pedalada.
- Onde está seu carro?
- Não tenho carro, senhor.
- E como veio para o mercado? Encontrar táxis a essa hora é praticamente impossível. – ele pareceu surpreso.
- Vim pedalando.
- Veio pedalando?
- Sim.
- Sempre me surpreendendo, srta. Bennet. – falou em um meio sorriso. – Bom, então eu mesmo levarei as compras.
- Não precisa se incomodar, senhor, eu levo.
- Srta. Bennet, não quero que minha assistente chegue ao trabalho mal conseguindo andar. O restaurante fica muito longe daqui, pode voltar para casa e amanhã daremos um jeito.
“O quê? Vai me dar um carro?” – Lizzy pensou sarcasticamente enquanto o assistia pegar as sacolas de sua mão e se dirigir ao seu carro sem nem ao menos se despedir.
- Até mais tarde, sr. Educação. – gritou quando o carro arrancou.
Olhou para o relógio e já passava das sete da manhã; tinha que voltar logo pra casa e ligar para Charlotte para providenciar sua mudança. Tentou esquecer seu chefe mala e sorriu ao se imaginar longe daquele pulgueiro em que morava.
Seu chefe não iria tirar seu bom humor, não naquele dia!
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