Citações

O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.(Jane Austen)

O Bilhete - Capítulo 01

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Naquela manhã, Lizzy acordou cedo preocupada em dar os últimos retoques à arrumação de suas malas para não se atrasar. A carruagem partiria cedo e ela deveria estar pronta no máximo às oito horas. Acordou a irmã que ainda ressonava:

- Jane! Acorde ou não vai ficar pronta a tempo!
- Hummhumm! - respondeu ela virando-se para o lado ainda sonolenta.
- Jane!
- Calma, Lizzy. Estou acordada, só com os olhos fechados.

Ela procurou o vestido azul novo que encomendara à Sra. Billings que apanhara na véspera para se trocar. Tinha um corpete justo que ressaltava o volume de seus seios, arrematado por uma passamanaria branca logo abaixo do busto que lhe dava um ar elegante e ao mesmo tempo descontraído.

- Por que está se arrumando com tanto cuidado? - perguntou Jane enquanto se levantava

- Eu? Ora, estou me arrumando como sempre! - respondeu Elizabeth ruborizando-se.

Não importava o que a irmã dissesse, Jane sabia que as razões para ela se vestir com tanto esmero estavam intimamente ligadas ao Sr. Darcy.

As duas haviam sido convidadas por seus tios Gardiner a passar uma temporada em sua residência na capital. O Sr. Bingley, noivo de Jane, oferecera sua carruagem para levá-las. Ele e o Sr. Darcy também partiriam para Londres naquela manhã.

As irmãs tomaram seu desjejum e se despediram dos pais e irmãs antes de partirem para Netherfield com sua bagagem. Chegando lá, Jane notou como Elizabeth ficara corada ao cumprimentar o Sr. Darcy. Ela já desconfiava do interesse da irmã por ele e cada atitude dela só fazia aumentar suas suspeitas.

Ele, por outro lado, parecia sempre muito sério e reservado, mas Jane o flagrou diversas vezes olhando para sua irmã enquanto conversavam na sala. Foi então que decidiu fazer algo para aproximá-los. Ela só não sabia exatamente o quê.

A temporada em Londres certamente ofereceria muitas oportunidades para tal aproximação. Charles já havia lhe dito que pretendia levá-las a espetáculos, bailes e jantares. Enfim, ele desejava apresentar sua noiva não só a seus amigos, mas também à toda a sociedade londrina. E como Elizabeth viajava com ela, também os acompanharia a todos os eventos. Naturalmente, Darcy estaria presente nessas ocasiões e ele e Elizabeth poderiam estreitar suas relações.

Foi com esses pensamentos otimistas que ela subiu na carruagem. Mal sabia que as descobertas que faria na capital trariam a frustração daqueles planos assim como grande infelicidade para sua irmã.

A viagem transcorria bem. Jane e o sr. Bingley conversavam alegremente, Lizzy participava esporadicamente já que estava mais interessada em admirar a paisagem. Ela arriscava alguns olhares ao sr. Darcy, e por vezes o flagrou fitando-a também, mas ela estava muito insegura para lhe dirigir a palavra ou o provocar. Será que ele ainda mantinha algum sentimento por ela? Poderia ela ter esperanças de que um homem que se provara tão generoso superasse o próprio orgulho? Desde que ela soubera o que ele fizera por Lydia sentia vontade de inquiri-lo a respeito, mas lhe faltaram tanto oportunidade quanto coragem.


**************

Darcy se sentia enclausurado. Além de não ter opção alguma a não ser seu rufúgio interior, Miss Bennet estava linda. Aquele vestido azul tão diferente dos tons escuros que ela comumente usava, davá-lhe um ar divino. E por que diabos ele não conseguia parar de, a intervalos, olhar para o busto dela? Este não era um ato nada cavalheiresco. Quando não era o busto, eram os olhos, ela já o percebera a encarando pelo menos quatro vezes! Darcy sentia que se não saisse logo dali enlouqueceria. Não deveria mais ter estes sentimentos, ele já fora recusado uma vez, e poderia esperar que ela mudasse tão repentinamente seus sentimentos, por mais que ele próprio mudasse sua postura? Talvez o asco dela por ele fosse forte demais...


**************

A primeira noite em Londres foi passada tranquilamente com um jantar na casa dos Gardiner e o Sr. Darcy sentia-se à vontade com os conhecidos que eram muito simpáticos...

Bingley despediu-se da noiva com um beijo na mão e prometeu estar na casa dos Gardiner no dia seguinte ainda no final da manhã para um passeio pelo Hyde Park, no horário que a aristocracia costumava circular pelo parque para ver e ser vista.

Jane concordou entusiasmada com a programação de Bingley, para ela o que importava era estar em companhia do noivo por quem estava cada dia mais apaixonada.

Lizzy se viu incluída no passeio, pois era obrigada a acompanhar os noivos, pois segundo os costumes da época seria muito impróprio os noivos saírem sem uma acompanhante.

***********************

As duas irmãs ocupavam o mesmo quarto na casa dos Gardiners e já estavam prontas para dormir quando como de hábito começaram a conversar.

- Estive pensando Lizzy que será uma oportunidade de ouro estarmos juntas aqui em Londres e termos o Charles como nosso cicerone. Ele é muito bem relacionado e tenho certeza que amanhã mesmo neste passeio no parque seremos apresentadas a uma porção de amigos dele. Quem sabe você não conhece alguém por quem se simpatize?

- Jane Bennet, você está me lembrando nossa querida mãe. Pode parar de querer me arranjar um pretendente

*************************

Apesar de sua felicidade por sua irmã, acompanhar o casal no passeio pelo Hyde Park foi realmente maçante e cansativo para Elizabeth. Se estivesse só com os dois, não se importaria - pois adorava ver a alegria de Jane - mas ela teve que suportar também a companhia de Caroline Bingley que fez questão de acompanhá-los durante todo o tempo.

Não encontrou ninguém que a interessasse e a única coisa boa de tal passeio foi o agradável convite que surgiu para irem à ópera naquela noite. Charles havia reservado um camarote.


O camarote reservado era estrategicamente posicionado, e proporcionava uma ampla visão do espetáculo.

Elizabeth estava extremamente feliz, pois adorava esse tipo de música e apenas o nervosismo pela presença do Sr. Darcy era capaz de aplacar o seu contentamento.

Logo que chegaram ao teatro, perceberam que mais algumas pessoas ocupariam o espaço destinado a eles: Caroline Bingley e o casal Hurst.

Lizzy via pela primeira vez a outra irmã de Bingley, apenas a conhecia através das palavras de sua irmã Jane. Mas bastaram alguns minutos de conversação para considerá-la tão desagradável quanto Caroline. E o Sr. Hurst era um homem sem nenhum atributo e poderia até mesmo ser considerado enfadonho.

Como Jane e Bingley estavam ocupados um com o outro e Caroline monopolizava a atenção do Sr. Darcy, restou a Lizzy a companhia desse novo casal.

Mas assim que a apresentação teve início, ela esqueceu de suas perturbações e pôde relaxar e assistir atentamente ao espetáculo.

Por um momento, fechou os olhos para apreciar melhor a música. E assim que voltou a abri-los, depois de um curto tempo, reparou que Darcy a fitava com intensidade. Parecia surpreso e encantando com ela. Lizzy sentiu um arrepio por todo o seu corpo, corou e desviou o olhar.

“Por que será que ele me olha, se certamente já se esqueceu de mim? Por que ele não me deixa em paz, se nesse momento tudo indica seu iminente noivado com Caroline?”

Dúvidas percorriam a mente de Elizabeth e ela sentia-se cada vez mais incomodada, já que os olhares do sr. Darcy não cessavam um segundo sequer.

Enfim o intervalo do espetáculo foi anunciado e ela assistiu ao casal Hurst, à Srta. Bingley, Charles e Jane irem cumprimentar as pessoas em outros camarotes, na famosa hora das congratulações.

Tão distraída estava que nem ao menos percebeu que o Sr. Darcy continuava no camarote. E que agora lhe dirigia, timidamente, a palavra:

- Srta. Elizabeth, espero que esteja gostando da ópera. - Ele a perscrutava com seus lindos olhos azuis, à espera de uma resposta à sua pergunta impulsiva.

- Sim, bastante. - sorriu. - Gosto bastante de música.

Ele se calou por um instante mas logo continuou a falar:

- E a companhia, Srta. Elizabeth, também lhe agrada? - ele perguntou, timidamente, a olhando de uma maneira que ela não soube identificar.

Elizabeth desejava dizer que preferia estar apenas na companhia de um cavalheiro em particular, mas percebeu que seria demasiadamente inadequado se portar de tal forma. Após encará-lo por alguns segundos, respondeu:

- Sim, Sr. Darcy, muitíssimo. Acredito que o Sr. também não pode estar descontente, já que possui uma Srta. muito bela e talentosa sempre ao seu lado procurando lhe agradar.

Darcy ficou desconcertado com a resposta. "Estaria ela com ciúmes? Seus sentimentos mudaram ou estará ela apenas me provocando, como lhe é de costume? Será que ela acredita que eu e Srta. Bingley estamos envolvidos romanticamente? Sem dúvidas é isso que Caroline quer que ela pense..."

- Acredito, Srta. Elizabeth, que agora você já me conhece o bastante para saber que este não é o tipo de comportamento que me atrai em uma mulher... - respondeu, fazendo-a corar.

Elizabeth, surpresa com a provocação de Darcy, ficou absorta em seus pensamentos e não retrucou. Desejava perguntar que tipo de mulher o agradava, se seria ela ainda, mesmo após todos os impropérios ditos no passado. Entetanto, apenas o fitou por algum tempo, tendo sido interrompida pelo sinal indicando o fim do intervalo e pelo retorno apressado de Caroline, que lançou um olhar de fúria ao perceber que os dois estavam a sós e conversando!

Durante o resto do espetaculo, Darcy ficou pensando no pequeno dialogo que tivera com a Sta. ELizabeth, a esperança começou a crescer dentro do seu coração com a possibilidade que ela estivesse com ciúmes, aquela resposta só poderia ser um indicio de que a opinião dela a seu respeito poderia ter mudado. Ele tinha que tentar mais uma vez, não deixaria passar essa chance.

No final do espetáculo, quando todos estavam saindo do camarote, percebeu que Elizabeth era uma das últimas a sair, nisso retardou um pouco os passos para que pudessem falar a sós mais uma vez. Quando ela se aproximou ao ponto de ficarem a lado a lado, falou um pouco receoso:

- Sta. Elizabeth, gostaria de lhe fazer um pedido .
- Claro - Lizzy estava surpresa.
- Me daria a honra de apresentar-lhe minha irmã Georgiana? Ela esá retornando á capital amanhã - Ele olhou ansioso pra ela a espera de uma resposta positiva ao seu pedido.

- Sr. Darcy, será uma honra para mim conhecer sua irmã - Sorriu timidamente Lizzy, ainda surpresa com o pedido.
- Tenho certeza que se darão muito bem, já que o gosto pela música é algo em comum à duas.

Lizzy apenas balançou a cabeça num gesto positivo, sua mente trabalhava em comprender o porquê do interesse do Sr. Darcy querer lhe apresentar a irmã, depois ter tido rejeitado o seu pedido de casamento. Será que ele ainda a amava? Algo em seu olhar dizia que sim. O coração de Lizzy bateu aceleradamente com este pensamento, já há algum tempo sua opinião mudara muito em relação a ele.

- Sr. Darcy, eu... - foram interropido com a chegada da Srta. Bingley que voltou ao camorote a procura do Sr. Darcy.
- Sr. Darcy, estávamos a sua procura - disse Caroline ignorando a presença de Lizzy, estava furiosa ao ver que os dois estavam a sós conversando mais uma vez.
- Com licença - disse Lizzy - Vou procurar minha irmã - Fez uma reverência e se afastou, antes que Darcy pudesse falar alguma coisa.
- Sr. Darcy, que enfadonho deve ser para o Sr. tal companhia - Falou Caroline

Darcy respondeu com Desprezo:
- Pois eu acho a companhia de Srta. Eliza muito proveitosa.

Caroline Bingley fuzilou-o com o olhar.

Na volta para casa, Elizabeth não parava de pensar no ocorrido. Será que ele ainda nutria algum sentimento por ela? Será que um novo pedido poderia ser feito? Não, isso seria impossível. Mas e se fizesse? Bom, agora ela sabia de toda a verdade, sabia sobre o caráter dele, sim, se ele pedisse ela diria que aceitaria se casar com ele, aceitaria ser a Senhora Darcy.
Foram com esses pensamentos que Lizzy dormiu aquela noite.

 




 

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