Citações

Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente.(Jane Austen)

Feliz Ano Novo... de novo?

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A correria instalada na casa dos Bennet parecia ter dissolvido toda a neve reservada para aquele ano novo. O tempo frio era latejante, mas o alvoroço da sra. Bennet tinha anulado quaisquer perspectivas de um ano novo branco.

 

A matriarca andava de um lado para o outro, dando ordens a torto e a direito.

 

- Hill, ainda não engomou os vestidos das meninas? Corra, isso deve estar pronto logo!

 

Desde que o Sr. Bingley retornara a Netherfield com suas irmãs, o cunhado e o melhor amigo, o Sr. Darcy, e pedira a mão de Jane em casamento, a rotina da família Bennet nunca mais fora a mesma. Nem a de Elizabeth.

 

A proximidade do Sr. Darcy era avassaladora, ainda mais agora, que ela conhecia verdadeiramente seu caráter e, principalmente, a dimensão de seus sentimentos por ele.

 

Os episódios de Rosings, da derradeira fuga e casamento de Lydia continuavam vívidos em sua memória, ainda mais quando via o rosto másculo e forte dele e seus olhos azuis sobre si.

 

Durante os dois meses em que ele já estava hospedado em Netherfield poucas vezes puderam conversar em paz. A sós, então, era praticamente uma raridade; e, para eles, encontrar um assunto não-pincelado por constrangimento era muito difícil. Permaneciam, então, nos monossílabos e nos comentários sobre a paisagem, o tempo e frivolidades.

 

E era pensando na proximidade iminente que Elizabeth se aprontava toda para o baile que logo mais aconteceria em Netherfield Park, em comemoração ao novo ano que chegava. O Sr. Bingley fizera questão de comemorar em sua casa e agora ela se preparava emocionalmente para ver o Sr. Darcy de novo.

 

O nervosismo permanecera instalado em suas entranhas até quando a carruagem de sua família parou às portas de Netherfield. Como naquele ano a neve fora escassa, as estradas ainda estavam transitáveis, mesmo esburacadas. Assim, a presença de tanta gente ali àquela noite era plenamente justificável.

 

Prendendo a respiração, ela entrou no salão onde uma vez dançara com ele e lhe fizera acusações inaceitáveis. Mas essas eram lembranças dolorosas que deveriam ser mantidas fechadas em alguma profundeza do seu cérebro. Aquela era outra noite, uma noite de festa, e deveria ser tratada como tal.

 

Andou entre a multidão, cumprimentou seu novo futuro-irmão, o anfitrião, e a família deste, além de vários conhecidos seus. Encontrou Charlotte, sua melhor amiga, assim como naquele dia fatídico do outro baile que ocorrera naquela mesma mansão.

 

- Lizzie! Que linda estás! Aposto que é por causa do Sr. Wickham! Eu ainda não o vi, mas acredito que logo deve chegar!

 

Sr. Wickham? O Sr. Wickham estaria ali? Lizzie ficou confusa.

 

- Elizabeth, ouvi dizer que o Sr. Wickham não vem, parece que foi retido no regimento por alguns assuntos. Disseram também que era por causa da presença de um certo cavalheiro. – disse Jane, que agora se juntava às duas amigas.

 

Ela se viu ainda mais perdida naquela estória toda. Não estaria o Sr. Wickham casado com Lydia e no regimento do norte? Ela já não presenciara aquela situação toda? Então por que estava tudo se repetindo?

 

- Com licença, gente, eu preciso de um pouco de ar. – falou a segunda filha dos Bennet, que se sentia tonta com a descarga de informações absurdas que fora jogada sobre si.

 

Saiu de junto das companheiras e já chegava ao próximo salão quando foi surpreendida por alguém.

 

- Cara, prima, daria a honra de dançar comigo a próxima dança?

 

- Sr. Collins? O que o senhor faz aqui?

 

- Como assim, prima? Estou no baile. Sabe, clérigos também dançam. Eu não acho que seja algum insulto à igreja.

 

- Sim, mas... está hospedado na casa dos Lucas?

 

- Não, o que faria eu na casa dos Lucas? Estou hospedado na sua casa, na casa de nossa família.

 

Ah, não. Ela tinha certeza, até aquela manhã, de que não estava louca. Como assim o Sr. Collins na sua casa? E ele já não estava casado com Charlotte? Ela já não estava grávida de um filho seu e os dois viviam calmos e felizes no Kent?

 

- Com licença, Sr. Collins. Minha próxima dança já foi reivindicada por um cavalheiro.

 

Ela saiu de junto do primo mais tonta do que já estava. Aquilo não poderia ser verdade, tinha que ser uma brincadeira de mau gosto.

 

- Srta. Elizabeth? – ouviu uma voz lhe chamando ao longe. Era ELE. Agora sim ela tinha certeza de que tudo ficaria bem.

 

- Sim?

 

- A senhorita me daria a honra da próxima dança?

 

- Sim. – sorrindo um pouco.

 

Ele continuava cultivando sua carranca séria, entretanto, e Elizabeth se assustou por não ver novamente a expressão complacente e contemplativa que ele costumava lhe lançar. Mas concluiu que o amava mesmo assim; amava até mesmo aquela sua cara séria que tinha como objetivo espantar a todos.

 

A dança começou. Rodopios e passos ensaiados eram perfeitamente concluídos. Mas Elizabeth ansiava por mais do que somente a companhia silenciosa dele.

 

- Por que o senhor nunca fala quando dança? – perguntou ela, no meio de um de seus passinhos.

 

- Como a senhorita pode saber disso? É a primeira vez que dançamos juntos. – ele respondeu, em sua seriedade costumeira. Precisava tirar aquela senhorita de seus pensamentos. Ela não era para ele, não era. Castigava-se até agora por tê-la convidado para dançar num impulso daqueles.

 

- Eu... estive observando. – ela tinha que se segurar. Pelo visto, apenas ela parecia ter vivido aquela situação antes, e não ele.

 

- Me observando?

 

- Er, sim. Isso me chamou a atenção.

 

- Temo que apenas esse aspecto tenha lhe chamado a atenção no meu caráter?

 

- Não. Sua firmeza de caráter e cuidado para com os que ama também me instigaram.

 

- Srta. Bennet, a senhorita está ciente de que o que está dizendo pode ser considerado algo muito impróprio a se dizer a um homem?

 

- Sim, desculpe-me, eu... – tomou um pouco de ar e parou à frente dele no salão, interrompendo a sua dança. – Sr. Darcy, a verdade é que eu o amo. Devo tê-lo amado desde a primeira vez que o vi, e depois de todo esse tempo eu só tenho a mais plena confirmação dos meus sentimentos. Case-se comigo.

 

Ele estava estático. Seus olhos, no entanto, extáticos. Que ímpeto o dela de lhe falar aquilo tudo, de lhe pedir em casamento... e em público! Movendo-se até ela, ele pegou suas mãos e as apertou nas suas. Aproximou seu rosto do dela e...

 

Elizabeth abriu os olhos com extrema rapidez e tentou descobrir onde estava. O quarto escuro, apenas iluminado pela lua, lhe era familiar e ela logo reconheceu o lugar. Estava em seu quarto, em sua casa, Pemberley. Olhou para o lado e viu seu marido, que dormia profundamente, exalando um ronco baixo. Possessivo, o braço dele repousava em sua cintura feminina fina.

 

Sorriu, tudo não passara de um sonho. Ela não precisaria de mais obstáculos para estar com ele; eles já eram um do outro. E naquele ano-novo estariam juntos. Ela deveria ter tido tal sonho por causa dos preparativos que fazia para as suas primeiras festas de final de ano como sra. Darcy.

 

Aconchegando-se mais no marido, Lizzie encolheu seu corpo e fechou os olhos, voltando a dormir com um sorrisinho no rosto.

 

 

*FIM*

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