Era Fato: eu o odiava profundamente. Odiava sua pose sisuda, sua cara arrogante e sua voz grave de quem é mais importante do que os outros. O que eu não conseguia entender ainda era como eu podia ter me apaixonado por ele, mesmo o odiando tanto.
Fato também era que eu o odiava só por amá-lo demais. Nunca havia ficado assim tão vulnerável por causa de alguém, e isso me assustava. Assustava muito.
Era com esses pensamentos perturbadores e repetitivos – já que eu pensava nisso a maior parte do meu tempo – que eu andava pelas ruas londrinas, morrendo de frio, mesmo estando enrolada pelos metros de tecido que formavam meus casacos sobrepostos. A neve caía por sobre a minha cabeça, enquanto eu vagava pelas lojas, a fim de encontrar os presentes para todos de minha família.
Em geral, o Natal era minha época preferida do ano. Lembro-me de minha infância e dos inúmeros presentes que ganhava de meus pais e meus tios. Eu e minhas irmãs confeccionávamos presentes umas para as outras. Afinal, a mísera mesada que recebíamos mal dava para nós mesmas, imagina então comprar presentes para quatro irmãs! A não ser que fosse por um milagre natalino.
Assim, eu saía pelas ruas sem rumo, encarando cada vitrine de todas as lojas que apareciam na minha frente. Eu já comprara presentes para todos, mas ainda faltava um. Um presente muito difícil, que eu não sabia como compraria. O presente DELE.
Eu pensara em tudo, mas tudo em que eu pensara ele já tinha ou não era de seu interesse. Uma parte de mim me mandava esquecê-lo e não comprar presente algum, afinal, estávamos brigados há mais de uma semana; havíamos acabado nosso namoro. Nosso complicado e perfeito namoro. Mas, mesmo assim, mesmo odiando-o por agora, a outra parte de mim tentava escolher um presente especial, um com o qual ele pudesse se lembrar de mim para sempre.
Vi um porta-retrato de madeira, azul-escuro e com estrelas brancas em auto-relevo. Foi numa noite estrelada em que nos conhecemos, onde nos falamos pela primeira vez...
#Flashback#
A noite estrelada iluminada pela lua cheia empregava à minha pele um aspecto opaco, enquanto eu sentava num banco do parque, assistindo às pessoas que viviam suas vidas felizes.
A minha própria vida não estava nada feliz durante aqueles dias; aliás, eu não sabia o que mais poderia dar errado. Minhas aulas na faculdade iam de mal a pior e minhas notas viviam em queda livre; minha convivência com meus pais não era das melhores, e eu vivia brigando com minhas irmãs. Até com Jane, minha irmã e melhor amiga, eu brigara.
Mas, sinceramente, não sabia o que estava acontecendo comigo. Meus nervos viviam à flor da pele e eu não conseguia segurá-los.
Agora, chorava num banco do parque, sozinha com meus pensamentos. Estava tão distante do mundo real que mal percebi que sentara nas coisas de um cara que dividia o banco comigo.
- Ei! Cuidado onde senta! Você quase amassa todos os meus livros! – exclamou ele, puxando uma pilha de livros de física e química e toda essa série de coisas chatas.
- Ah, desculpe, senhor nerd! Da próxima vez, vê se teus livros não ocupam o banco inteiro! – reagi. Meus nervos já estavam eriçados antes daquilo, ele que não me atiçasse muito.
- Nerd? Tudo bem, senhorita emo. Da próxima vez, observe também se não ocupa metade do banco!
- Mas eu não estava ocupando metade do banco! – levantei-me, com um dedo chacoalhando deliciosamente em direção ao rosto dele.
- Se prestasse mais atenção às coisas, veria que eu estava somente numa ponta desse banco e VOCÊ o ocupava inteiramente! – ele se levantou também, e eu percebi que estava numa tamanha desvantagem. O cara era o dobro de mim, praticamente!
- O que está acontecendo aqui? Alguém poderia me informar? – um policial nos interrogava agora. Era só o que me faltava.
- Não é nada, senhor policial.
- Como não é nada? Era possível ouvir a discussão de vocês dois a trinta metros daqui! Eu peço que se retirem do parque. – disse ele.
- O quê?! Mas por que devemos nos retirar?! – perguntei exasperada, morrendo de raiva daquele desconhecido que me fazia agora ter problemas com a polícia.
- Se vocês não quiserem, podem ir à força. E levo-os também à delegacia, por desacato. – o policial me respondeu, enquanto meu peito inflava e eu tinha vontade de voar sobre ele.
- Não, senhor policial, está tudo bem, não está? Eu prometo que não esqueço mais nosso aniversário de namoro. – o desconhecido com quem eu brigava agora me abraçava pela cintura e me dava um beijo na testa. O que diabos ele estava fazendo?
- Muito bem. – chacoalhou a cabeça, o agente de polícia, se afastando, enquanto eu continuava boquiaberta.
- Por que você fez isso? Estás louco?! – berrei, num comentário mudo.
- Você gostaria de ser presa? Se sim, ainda há tempo de chamá-lo de volta!
- Não, é claro que eu não queria ir presa, mas você não precisava fingir que éramos namorados ou algo do tipo!
- Foi a primeira coisa que me ocorreu. Nada pessoal, acredite.
- Nada pessoal por quê? Por acaso eu não faço seu tipo? – pus minha mão na cintura, gesto que eu sempre fazia quando enfrentava alguém.
- Não.
- E você tem coragem de dizer isso na minha cara?!
- Foi você quem perguntou!
- Tudo bem, eu não vou ficar aqui discutindo com você. – ia dando as costas para ele quando senti meu braço me puxando, de modo que me forçava a fitá-lo.
- O que foi? – perguntei, completamente estressada.
- Desculpe-me, eu falei sem pensar. Você não seria meu tipo perfeito de garota mas eu não deveria ter falado daquele jeito.
- Ah, agora sim. Agora o senhor melhorou e muito as coisas. – eu disse, com clara ironia (minha ferramenta de fala preferida), virando-me para deixá-lo novamente.
- Deixe-me pelo menos levá-la até sua casa.
- Não será necessário. Eu moro bem perto daqui, e, além do mais, eu já conversei demais com estranhos por hoje. Ir para casa com um deles já seria abusar da sorte.
- Por favor.
Revirei os olhos.
- Tem outro jeito?
- Não. – ele me respondeu, quase com um sorriso. E foi nesse momento que eu comecei a reparar no quanto ele era bonito. Tinha cabelos muito escuros, olhos azuis claríssimos e um sorriso perfeito. Era alto e tinha o corpo muito bonito, que era destacado pela camisa pólo azul-clara que ele usava naquela noite quente e estrelada.
Para iniciarmos uma conversa razoável demorou um pouco. Eu não estava me esforçando muito para falar nada, já que ele praticamente me obrigara a tê-lo como companhia até minha casa; eu desconfiava que ele também não estava assim tão preocupado com algum diálogo que podíamos manter, mas a sua expressão um tanto preocupada me fazia duvidar de minhas próprias conclusões.
- Então, o que você faz da vida? – perguntou-me ele, enfim, quando já tínhamos dado uns 50 passos para fora do parque. Aquilo podia ser pouco, mas parecera muito para mim. Eu estava visivelmente sem jeito.
- Eu... eu comecei agora o curso de Jornalismo. E você?
- Estudo Engenharia há dois anos. – ah, talvez isso explicasse os inúmeros livros de cálculo que ele trazia consigo.
- Ah, legal.
O silêncio começou de novo. Acho que agora era minha vez de interrompê-lo.
- Desculpe-me pelo vexame, eu ando com alguns problemas e não sei direito no que penso ou no que digo ultimamente.
- Todos temos problemas, não se preocupe. – apesar de querer parecer gentil, ele ainda era sério. Sério demais para o meu gosto.
Murmurei um “hum-rum” em concordância, baixinho. Espero que ele tenha ouvido.
- Bom, chegamos. Essa é minha casa. – tentei formar um sorriso para ele, enquanto parávamos nossa curta caminhada. – Obrigada por me acompanhar até aqui.
- Tudo bem, não foi nada. E você não mentiu ao dizer que sua casa era perto. – ele deu um meio sorriso e eu me vi derreter um pouco. Mas isso foi um pequeno deslize que eu logo consegui contornar.
- É verdade. – sorri também, um tanto desajeitada. – Nos vemos depois,...
- William. William Darcy.
- Elizabeth Bennet – sorri de novo. – Nos vemos depois, William.
#Fim do Flashback#
Foi assim que nos conhecemos. Nada excitante, maravilhoso ou promissor, não é? Sim, eu confesso, nada promissor.
Por dias, talvez semanas, não vi seu rosto; nem ao menos me lembrei dele, para dizer a verdade.
No entanto, meu destino mexeu seus pauzinhos de novo. Desta vez era dia, e estava bem frio, mesmo que o sol imperasse gloriosamente no céu.
Eu estava no shopping com minhas irmãs e o vi de longe. Ele me não viu, inicialmente. Mas logo algo decidiu nos juntar novamente.
Minhas irmãs e eu iríamos ao cinema, e lá estava ele, no mesmo filme. Não sei se isso era coincidência demais, mas justo naquele dia minha irmã Lydia resolvera nos arrastar para ver um filme de ação. Só porque seu ator favorito atuava naquele filme.
Eu e ele não nos sentamos próximos. Ao contrário, eu me sentei à frente e ele estava quase nas últimas poltronas da sessão. Mas eu tinha certeza que ele me notara. Não só pelas risadas barulhentas de Lydia e Kitty, que, ansiosamente, Jane e eu tentávamos conter, mas também por algum outro motivo. Depois de todos esses acontecidos eu comecei a pensar que havíamos mesmo sido predestinados um para o outro.
De onde eu estava sentada, ficava imaginando se ele estaria me olhando e analisando. Desejei estar observando-o também, e foi com relutância que assumi que estava pensando demais naquilo tudo e, conseqüentemente, pensando nele também.
Tentei abstrair e me concentrar no filme, mas estava ficando difícil demais não pensar em meio a todas aquelas cenas absurdas de ação: carros voando, gente lutando mais do que perfeitamente...
Enfim, o filme acabou.
- Olá, Elizabeth. – ouvi a voz atrás de mim. Agora ele estava bem perto, e nos encaminhávamos para a saída da sala.
- Ah, olá. – sorri, e ele fazia o mesmo. Parecia mais descontraído.
A partir desse dia começamos uma conversa de verdade e não desgrudamos mais. O sentimento que tínhamos um pelo outro crescia de forma esmagadora, e em pouquíssimo tempo já estávamos namorando e éramos inseparáveis.
Nosso primeiro Natal fora inesquecível. Combinamos que na véspera ficaríamos com minha família e no dia 25, com a dele.
Em minha casa ele mal pôde respirar com as atenções de minha mãe sobre si e com as perguntas de meu pai. De certa forma, meu querido pai ainda não se conformara que algum homem pudera ocupar tanto a vida de sua garotinha, e de um modo tão intenso.
Como sempre, a minha casa estava cheia. Minha mãe convidara a todos para cear conosco, desde os parentes mais próximos até os primos de quinto grau e os vizinhos. Não conseguimos ficar sozinhos um instante sequer. Mas ele não pareceu se importar tanto, conversara com algumas pessoas interessantes e estava satisfeito.
O jantar na casa dele, no entanto, foi completamente diferente. Eles eram todos formais e somente os parentes mais próximos estavam presente. Nada mais do que quinze pessoas.
Senti-me um tanto oprimida no início, tudo na casa dele era opulento e formal. Enquanto ele era de família rica, eu era da classe média. Além disso, eu não fora muitas vezes na casa dele, apenas umas três vezes, pelo que eu me lembrava.
Os pais dele me trataram muito bem, como sempre faziam, mas na hora do jantar eu ainda estava nervosa, me embaralhando com os talheres.
Porém, esse foi o único susto que eu tive durante o jantar. William me ajudou com tudo e os pais dele me incluíram tão bem na conversa que em momentos eu já me sentia parte da família.
O jantar acabou, e os pais dele se dividiram para conversar com seus amigos.
- Quer escapar um pouco?
- E deixar seus pais aí? William, o que eles pensarão de nós? E de mim, principalmente?
- Eles nem vão perceber, muito menos se importar. Vamos.
Ele me puxou para o jardim e quando vi já estávamos lá. O jardim da casa dele era uma das coisas mais lindas que eu já havia visto. Era todo iluminado por luminárias coloridas e cheio das mais diversas espécies de plantas e flores.
- Nossa, aqui é muito lindo, William! – exclamei para ele, boquiaberta.
- Minha mãe adora jardins, é um hobbie seu.
- Ah, meu também. Adoro isso.
Ficamos em silêncio por um momento. Nossas mãos estavam atadas uma à outra, num encaixe perfeito, enquanto passeávamos pelo jardim. A lua estava maravilhosa àquela noite. Sombria mas feliz, nos dava um pouco do esplendor da sua luz.
- Sabe, Lizzie... – começou ele, parando de andar e virando-se de frente para mim; suas mãos não se desgrudaram das minhas durante um segundo sequer.
- Sim...?
- Eu estava pensando, e...
- E...? Fala logo tudo de uma vez, William. Você sabe que eu sou curiosa!
- Isso não é fácil de se dizer, Lizzie. Calma.
- Tudo bem, me desculpe. Pode continuar.
- Então... eu acho que meus pais gostaram bastante de você.
- Anram. Eu também gostei muito deles.
- Ótimo. E há muito tempo eu venho guardando algo dentro de mim, e espero que você não se sinta obrigada a fazer o mesmo.
- O que está havendo, William? Você está me assustando.
- Lizzie, eu... eu te amo. Como nunca amei ninguém. Essa também é a primeira vez que digo isso para alguém, além de para meus pais.
Olhei chocada para ele. Era possível mesmo que ele houvesse dito aquilo? Eu também nunca havia dito aquilo para ninguém, mas há muito tempo eu sabia que o amava. E esperava o momento certo para dizer isso. Parecia que o momento certo era esse. E estava bem à minha frente. Eu tinha que aproveitar.
- William... – acariciei suas bochechas, olhando-o com amor. O amor que eu já sentia há tempos e deixava transbordar só agora. – Eu também te amo... muito. Como jamais senti por outro alguém.
Ele não esperou que mais nada acontecesse. Sorriu para mim, que deixava escapar uma lágrima, e me beijou com mais paixão do que já havia me beijado.
- Lizzie, eu te quero tanto... Vamos sair daqui?
Ah. Percebi a intenção dele. Será que era muito cedo para fazer isso? Nós só namorávamos há alguns meses...
- Anram. – consenti, beijando-o mais uma vez.
Não sei como cheguei ao quarto dele, de tão ofegante que estava.
A primeira coisa que ele fez ao chegarmos lá foi me beijar. Essa deveria ser a milionésima vez que ele fazia isso comigo, mas cada novo toque parecia diferente.
- Tem certeza de que quer fazer isso? Seus pais estão lá embaixo.
- Você está com medo? Se estiver, podemos parar. Mas eles nunca desconfiarão de nada.
- Tudo bem. – beijei-o novamente e aos poucos percebi minhas roupas sendo jogadas ao chão.
Algum tempo depois vi nós dois, abraçados na cama de casal dele, olhando para o teto com olhares bobos.
- Te amo, Lizzie.
- Amo você também. Mais do que muito. – sorri, olhando para ele.
E esse foi nosso primeiro natal juntos, nossa primeira vez juntos e o início de uma relação realmente séria. Os pais dele não nos flagraram, como ele havia me garantido, e William me levou para casa depois de algum tempo.
- Er... tenho que ir agora. – disse eu, assim que chegamos em frente à minha casa.
- Tudo bem. – ele me respondeu, doce, com um sorrisinho mínimo em um lado só de sua boca.
- Essa noite foi inesquecível. O melhor natal de todos.
- Para mim também, meu amor. – acho que essa era a primeira vez que ele me chamava de meu amor e isso vinha carregado de tanto significado, de tanto carinho, de tanto amor...
Não resisti: avancei um pouco até ele e o beijei com simplicidade, tocando levemente seus lábios com os meus, sentindo aos poucos a textura macia que eu já conhecia tão bem. Ele me correspondeu na mesma medida, e sorrimos em despedida, ao final do beijo.
- Nos vemos amanhã. Tchau, meu amor. – disse eu, ainda um pouco inebriada.
- Tchau, minha Lizzie. Durma bem.
- Você também. Sonhe comigo.
- Impossível não sonhar. – sorri com a resposta dele e saí do carro, recebendo o frio da noite no meu rosto, mas não deixando que aquilo penetrasse o meu coração; este estava quente e agitado demais para ser abalado.
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O tempo se passou e nossa relação só se fortaleceu a cada dia. Alguns meses depois já planejávamos morar juntos. Mas foi aí que tudo desmoronou.
Era o aniversário de casamento dos pais dele, e a casa estava repleta de gente para a festa. Meus pais também haviam sido convidados, e muitos amigos e pessoas da família dele também.
A decoração, a música, o cardápio, a organização... estava tudo perfeito. Tive que conter minha mãe um pouco, era a primeira vez que ela visitava a casa dos Darcy em tempos de festa.
Ela não era uma pessoa muito fácil de se controlar e eu não podia obter a ajuda do meu pai para isso – eu podia contar nos dedos as coisas com as quais meu pai realmente se importava, e o comportamento nada próprio de minha mãe não era uma delas.
Assim, eu tinha que dar atenção ao William, aos pais dele e a todos os convidados que queriam me conhecer e ainda segurar as rédeas de minha mãe. É óbvio que eu não consegui dar conta de tudo. E foi aí que a coisa desandou.
Conversávamos todos: William, minha mãe, os pais de William, uma tia e uma prima dele e eu.
- Sim, os dois são mesmo um amor. Estão juntos há nove meses.
- Dez, mamãe. – corrigiu, sorrindo, William, já que a mãe dele falava de nós.
- Tudo bem, dez meses. – sorriu ela.
- Dez meses é bastante tempo. E os dois são muito novos, deveriam curtir um pouco mais a vida. – falou a tia dele, Catherine de Bourgh. Eu nunca gostei dela, sempre me pareceu uma mulher arrogante e gananciosa.
- Eu não vejo problema algum nisso. Eles estão muito bem juntos! – Uma declaração sábia? Nossa, mãe, a senhora está me impressionando! – Eu sempre disse à Lizzie que fosse esperta ao procurar um namorado. Amor não é tudo na vida, o dinheiro sempre é o importante. Antes ela arranjava namorados sem um tostão, mas desta vez ela me orgulhou. Foi muito esperta, minha Lizzie.
Eu morri naquela hora. Por sorte a atenção de todos foi tomada por outro alguém, mas eu não consigo me lembrar do meu salvador da pátria. Eu estava profundamente abalada, lutei para não chorar ou dizer alguma besteira para minha mãe ali mesmo. Pedi licença a William e fui ao banheiro feminino.
Saí cinco minutos depois, já mais recomposta, mas ainda profundamente abalada com tudo aquilo. Eu não sabia como me tratariam dali por diante. O que a família dele ia pensar de mim agora? O que ELE ia pensar de mim?
Respirei fundo e fui em direção à mesa onde estávamos antes, mas minha atenção foi chamada pela presença de William: num canto, parecia estar sozinho. Resolvi fazer uma surpresa e ir até lá. Precisávamos mesmo ficar a sós.
Mas a surpresa, na verdade, foi para mim.
- Eu sempre achei que ela não era para você, querido. O que aconteceu foi mesmo lamentável. Mas foi melhor dessa forma, assim você não cria muitas expectativas em relação a ela e já sabe o que essa garota sempre quis. Lamentável, mas é verdade. Sei como você se sente, e sinto que talvez estejamos destinados a nos enganar no amor. – dizia a prima dele, Caroline. Ela finalizou seu belo discurso com um beijo perto da boca dele. Sempre achei-a uma fingida, sonsa.
Nenhum dos dois viu minha presença ali. Depois que ela saiu é que eu apareci. E aquele cara que estava ali parado não era o William... não o meu William. Era aquele mesmo arrogante e distante daquela primeira noite, da noite em que nos conhecemos.
- Ah, Elizabeth. Você está aí. – ele falou, ao ver-me ali e perceber que eu o encarava. Elizabeth... ele me chamara de Elizabeth. Definitivamente, alguma coisa estava errada.
- Sim, estou. – continuei a olhá-lo. – Desculpe-me pelo que houve agora... minha mãe é uma pessoa...
- Muito espontânea. Ela diz tudo o que lhe vêm à mente.
- Sim, também.
- Elizabeth, eu acho que nosso relacionamento está um pouco defasado... talvez devêssemos dar um tempo.
- Um tempo? William, minha mãe não sabia do que estava falando. Ela não conhece um terço do nosso relacionamento! Ela não conhece metade do meu amor por você!
- Lizzie...
- Você acha que isso é sobre dinheiro, não é? Acha que tudo o que passamos juntos foi fingimento? Que cada “eu te amo” que eu te disse foi por interesse?
- Elizabeth, por favor. Nós precisamos de um tempo.
- Tudo bem. Você terá todo o tempo do mundo. Porque quando você perceber a burrada que fez eu não estarei mais aqui. Porque eu não vou esperar até que você compreenda que tudo o que fiz foi por amor, que eu amava a você, e não ao seu dinheiro. – as lágrimas molhavam meu rosto, enquanto eu tentava mantê-las quietas. Ele olhava para mim com um misto de confusão, constrangimento e indiferença. Eu já me virava para ir embora quando me lembrei de algo e voltei a fitá-lo:
- Ah, sabe quem seria seu par perfeito? Sua priminha querida, que te dá conselhos tão bons. Tenho certeza de que ela irá adorar a ideia.
E fui embora.
Passei dias em um estado deplorável. Nos dois primeiros dias chorei mais do que recém-nascido separado da mãe e fiquei com os olhos horríveis. Tive que assistir às aulas com óculos escuros por dias.
William não me ligou mais, e nem vi novamente o seu rosto. Guardei todas as lembranças, presentinhos e fotos em uma caixa e pedi que uma de minhas irmãs escondesse-a pela casa. Eu não queria ser fraca o bastante e reviver todos aqueles momentos.
E agora estava eu, parada no meio da rua pensando em nós dois num frio de rachar e no meio da neve. Eu me odiava, era mesmo uma idiota.
Decidi, por fim, entrar na loja e comprar o tal porta-retrato. Não era por William que eu fazia isso, eu apenas gostara do objeto, só.
- Olá, eu gostaria de levar aquele porta-retratos que está na vitrine. – disse eu, ao topar com uma vendedora.
- Oh, desculpe-me, moça. Aquele era o último que tínhamos e foi vendido para o moço ali. – respondeu-me, apontando para um rapaz meio homem, que estava de costas para mim, esperando para pagar o que comprara no caixa.
Eu fui até ele. Deveria ter algum jeito de ele me ceder aquele favor e me deixar ficar com o objeto. Ele podia comprar outro; o porta-retratos tinha muito mais significado para mim.
- Moço, olá, eu... – disse eu, tentando ser simpática. Mas toda a minha feição animada logo se desfez.
- Lizzie?
- William?
- O que você está fazendo aqui?
- O que eu faço não lhe diz respeito, com licença. – eu tremia e sentia que minhas faces estavam coradas com a surpresa. Eu deveria estar tão cega pelo porta-retratos que não percebi que aquele era ele. Dei as costas e já saía quando senti sua mão em meu braço.
- Lizzie, eu acho que precisamos conversar.
- Nós não temos mais nenhum assunto em comum, não sei sobre o que poderíamos conversar.
- “Nós dois” não é um assunto bastante para você?
- Não. Até porque “nós dois” já foi extinto há muito tempo.
- Lizzie, eu preciso falar com você. – me disse, com os olhos implorativos mais lindos do mundo. Eu não pude resistir, por mais que quisesse.
- Diga logo. Aqui mesmo.
- Aqui?
- Sim, o que você pretendia, um jantar à luz de velas?
- Não, mas aqui... Ah, deixe para lá. – ele respondeu, saindo da fila que enfrentava e me puxando para um canto. – Lizzie, eu estive pensando... Pensei muito nisso, não consegui tirar nós dois de minha mente durante esse tempo e concluí que havia te julgado mal.
- Ah, jura? Que emocionante! Fico tão feliz por ter sido perdoada por você. Não preciso mais passar o resto da minha vida me culpando por ter feito o grande e rico William Darcy infeliz! – disse eu, exalando meu sarcasmo.
- Elizabeth, eu falo sério. Sei que tudo foi desagradável para você, mas eu não aguento mais... Quero você de volta. Diga que aceita ser minha namorada de novo.
- William, por que só agora? Por que depois de tanto tempo? Você não sabe o quanto eu sofri! Dias e dias chorando por você!
- Você não foi a única a estar mal, Lizzie. Ao perceber a idiotice que tinha feito decidi te ligar de novo. Mas tudo virou uma grande confusão na minha casa, discuti com Caroline e tia Catherine se ofendeu... Acabei brigado com as duas e até com meu pai, por um tempo. Ele ficou chateado por eu ter brigado com a irmã dele.
Eu não estava acreditando no que estava ouvindo. Ele só podia estar brincando. Meus olhos se arregalaram, assim como minha boca, e eu não sabia o que falar.
- William, eu sinto muito... – foi a única coisa que eu consegui dizer, meus olhos já lacrimejavam.
- Não sinta. Diga apenas que voltará para mim e que tudo ficará bem. Eu senti tanto a sua falta, meu amor... – disse ele, chegando mais perto e acariciando minha bochecha. Decidi me render. Como lutar contra algo que eu sabia ser muito mais forte do que eu?
Puxei-o para um beijo caloroso e cheio de saudades.
- Desculpe-me por ter pensado alguma vez que você queria meu dinheiro, eu fui mesmo um grande idiota.
- Sim, você foi um tremendo idiota. Mas mesmo assim eu te amo, William.
- Eu te amo, Lizzie. – sorri, enquanto ele me levantava do chão e lotava de beijos as outras áreas do meu rosto. Apertei-o forte, relembrando o corpo dele, algo que eu não esquecera.
Por fim, depois do espetáculo na loja, levamos mesmo o porta-retratos – que ele me contou depois que seria um presente para mim - e decidimos que o poríamos em nossa futura casa, com uma foto deste Natal, o Natal que ele me pedira em casamento. Parecia que ainda comemoraríamos muitos outros Natais juntos... pro resto de nossas vidas.
*FIM*
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