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Maridos e esposas passam a entender facilmente quando uma discussão é inútil. (Jane Austen)

O Fruto da Honestidade - Capítulo 30

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Após dez longos minutos de espera, Darcy finalmente viu George Wickham descendo as escadas, a fim de lhe encontrar.

 

Eles se encararam por uns instantes, como se se enfrentassem apenas com o olhar.

 

Mas, enfim, William rompeu o silêncio e disse:

 

- Eu sempre soube que você era um canalha, mas daí a fazer uma garota menor de idade fugir com você... aonde mais você quer chegar?

 

- Eu não a obriguei a vir comigo. Eu disse que iria conhecer todo o Reino Unido e ela disse que também queria vir. Além de não ter resistido ao meu charme, é claro. Assim como sua querida irmãzinha e sua amada Elizabeth. – ele sorriu, cínico. Seu hálito carregado de bebida exalava pelo ar.

 

- Não ouse falar o nome das duas novamente ou eu...

 

- Você o quê? Vai me bater? O grande, impotente e certinho sr. Darcy vai me bater? Ah, essa eu pago pra ver...

 

- Se eu fosse você não duvidava tanto. Há muito tempo te tolero, hoje pode ser o dia em que VOCÊ terá que me tolerar.

 

- Eu te conheço desde criança. Sei que você não faria isso.

 

Wickham estava instigando-o a brigar, o que não era uma coisa boa, já que essa era sua maior vontade no momento. Mas Darcy reprimiu seu desejo, porque agradar a George era o que ele menos queria.

 

- Onde está a garota? – mantendo o contato visual, William.

 

- Lá em cima, no quarto.

 

- Traga-a já. – disse, autoritário.

 

- E por que eu faria isso?

 

- Porque ela é apenas uma adolescente e os pais dela estão preocupados. E se você não deixar-me levá-la, será pior para você. Duvido que queira passar o resto dos seus preciosos dias libertinos na cadeia. Ou quer? – Darcy não sabia de onde surgira esse seu “eu” chantagista, mas estava sabendo aproveitá-lo muito bem.

 

- Hum... pensando bem, eu posso deixá-la ir.

 

William já quase sorria por dentro quando George completou:

 

- Com uma condição, é claro. – deixando à mostra seus dentes brancos e perfeitos, resultado de anos de tratamento dentário pagos com o dinheiro da família Darcy.

 

Darcy encarou-o com olhos aniquiladores. Odiava ter que atender às vontades daquele canalha. Mas deixou-o prosseguir:

 

- Quero 100 mil libras. Em dinheiro.

 

- Eu não vou te dar esse dinheiro todo!

 

- É isso ou você não terá a garota de volta... – ergueu uma sobrancelha e sorriu.

 

Entretanto, acordada pelos gritos vindos do andar de baixo, Lydia apareceu no topo das escadas para verificar o que estava acontecendo, exatamente após as últimas palavras de Wickham.

 

- George, o que está acontecendo? – olhou para o homem à frente de Wickham e o reconheceu. – Sr. Darcy?! O que está fazendo aqui?

 

- Ele veio levá-la, querida Lydia... – interrompendo William, que já abria a boca para falar.

 

- Eu não vou a lugar nenhum! Vou conhecer todo o Reino Unido com George! – protestou a garota.

 

- Sua família está preocupada com você! Sua mãe deve estar chorando até agora. – desta vez quem falou foi Darcy, impedindo que Wickham influenciasse na decisão de Lydia.

 

Esta olhou para suas mãos, que estavam unidas à frente de seu corpo. Contudo, logo reergueu sua cabeça e disse:

 

- Mamãe não se importa comigo. Aliás, nenhum deles de importa. Ela está mais preocupada com o bebê perdido da Jane...

 

“Bebê perdido da Jane? Como assim?” – Darcy se perguntou, enquanto a menina seguia com seu discurso:

 

- Com o seu impossível relacionamento com a Lizzie...

 

“Se eu fosse você, não apostaria que meu relacionamento com sua irmã é impossível...” – continuou ele, com seus devaneios.

 

- Ou com a faculdade promissora da Mary. Eu sou só a filha fútil, que só se importa com bobagens! Estou apenas provando-os que a opinião deles sobre mim é mesmo verdade!

 

George sorriu, apesar de estar bem mais interessado no dinheiro que ganharia se ela se fosse.

 

- É óbvio que eles te amam! Você acha que eu estaria aqui se eles não se importassem? – tentou persuadi-la, William.

 

Lydia pensou um pouco, ainda brincando com as mãos.

 

- Tanto faz! Eu vou nessa viagem! Gostando eles ou não! – ela estava irredutível.

 

- Lydia, você pode viajar quando quiser, e com muito mais conforto do que agora. – dessa vez, Darcy apelou para a futilidade dela.

 

Ela pensou no carro em que foram até ali, e no albergue em que estavam agora. Ambos estavam além da precariedade.

 

Olhou para William e depois para George. Desceu os degraus devagar e se posicionou entre os dois.

 

- George, querido. Desculpe-me, mas não posso seguir viagem com você. – tentando segurar uma das mãos dele.

 

Darcy sorriu com a declaração dela. E Wickham, percebendo que estava prestes a perder o jogo, reinvidicou:

 

- Você não vai a lugar algum! – ele agarrou o braço dela com força.

 

- Largue-me! – gritou ela, sentindo a pressão dele em seu braço.

 

- Não, não solto! – exclamou George, em contrapartida. Ele sentia as 100 mil libras escapando por suas mãos, já que Lydia decidira voltar para casa por conta própria.

 

- Solte a garota, Wickham! – agora foi a vez de Darcy falar, quase gritando.

 

- E se eu não soltar, o que você vai fazer? – Wickham não parava de provocá-lo, o que fez William perder a paciência que ainda lhe restava e atingir o rosto de George com um soco, que jogou o último para trás.

 

- Sr. Darcy! Oh! – Lydia estava bastante chocada para dizer ou fazer alguma coisa.

 

- Vá buscar suas coisas, estarei lhe esperando no carro. – falou Darcy.

 

A filha mais nova dos Bennet ainda olhou-o apreensiva por uns segundos, como se tentasse assimilar os acontecimentos. Mas logo correu às escadas para buscar suas coisas no quarto em que estava anteriormente, não sem antes lançar um último olhar para George, que estava recostado a uma parede, tentando enxugar o sangue que jorrava de seu nariz.

 

Depois que ela subiu, Darcy disse por último, antes de ir:

 

- Pense duas vezes antes de cruzar o caminho de alguém que eu ame da próxima vez. Porque aí você saberá do que eu sou capaz. – ameaçou, e logo viu Lydia descer as escadas com uma mochila nas costas.

 

Assim, os dois seguiram para o carro de William.

 

******************************

 

À exatamente sete horas da manhã, Elizabeth despertou-se de seu sono perturbado. Era o telefone que tocava.

 

- Alô?! – disse ela, com a voz ainda embargada pelo sono.

 

- Lizzie?!

 

- William?! – ela despertou ao ouvir a voz grave dele. – O que aconteceu? – perguntou, já que olhou para o relógio e constatou que horas eram.

 

- Seus pais preferem que eu leve sua irmã para o Hertfordshire ou para Londres?

 

- Que irmã? Como assim? Do que você está falando?

 

- A Lydia, ela está aqui no carro comigo. Para onde eu devo levá-la? – ele disse, sorrindo com a confusão dela.

 

- Você achou a Lydia?! – Lizzie exclamou, num tom suficientemente alto para que os outros ocupantes do apartamento também a ouvissem.

 

E foi realmente o que aconteceu. Ao fim da exclamação dela, já estavam todos na sala, apreensivos para saber do que se tratava a ligação.

 

- Digamos que sim. – respondeu ele.

 

- Pode trazê-la para cá.

 

- Certo.

 

- Ah, e William... muito obrigada. – ela falou, derretendo-se.

 

- Não há porque agradecer. Deve saber que fiz por você. – ele também se derreteu e Lydia, que até aquele momento apenas observava tudo em silêncio, desconfiou que a relação entre sua irmã e o sr. Darcy não era tão impossível quanto ela achara antes.

 

*************************************

 

William e Lydia chegaram ao apartamento das irmãs desta quase à hora do almoço.

 

Os recém-chegados foram recebidos pelo sr. Bennet e sua mulher, assim como pelas suas duas filhas mais velhas.

 

Todos os aguardavam com ansiedade, principalmente Elizabeth, que fora almoçar em casa àquele dia.

 

Darcy foi tratado com polidez e gratidão pelo sr. Bennet, que queria recompensá-lo pelo que fizera, apesar de aquele não aceitar oferta alguma; com sorrisos, atenções e agradecimentos excessivos pela sra. Bennet – o que o deixou um tanto deconcertado, já que sua intenção ao resgatar Lydia não era ser glorificado, mas sim agradar à Elizabeth e reparar os estragos causados por George.

 

Lizzie recebeu-o inicialmente com um sorriso bobo nos lábios. Ela se deliciou com cada traço dele, apesar das evidentes marcas de cansaço presentes naquele rosto.

 

Elizabeth andou até ele e entrelaçou sua mão à dele, aproveitando-se do momento de distração de sua família, que ralhava impiedosamente com Lydia.

 

Aproximou-se ainda mais dele, e se equilibrou nas pontas dos pés para falar algo ao ouvido de William:

 

- Por que fez isso? Eu sei que nunca se sentiu à vontade com minha família, então por que ir buscar Lydia? E como a encontrou tão rápido?

 

- Eu já lhe disse que fiz por você. – com um sorriso galanteador. – E eu também precisava acertar as contas com George já há algum tempo. Mas conto depois como descobri o local onde eles estavam. Se você aceitar viajar comigo nesse final de semana.

 

Ela olhou-o desconfiada e logo arrematou:

 

- Nunca pensei que fosse querer me seduzir tão cedo... – com uma fingida expressão de reprovação.

 

Ele entendeu a piada e prosseguiu com o diálogo:

 

- Eu também não achei que você fosse sucumbir ao meu charme tão cedo... – sorriu, divertido, enquanto ela dava uma tapa no seu braço.

 

Nesse momento, as atenções, que até agora estavam sobre Lydia, foram voltadas para os dois, que sorriram afetadamente.

 

- Um mosquito pousou no braço dele, eu só espantei-o! – Lizzie exclamou, tentando justificar a tapa.

 

- E por que as mãos de vocês estão unidas? – perguntou Lydia, ao observar a mão esquerda de Darcy e a direita de sua irmã.

 

- Er... por nada! – Elizabeth respondeu, largando a mão dele, num pulo; William apenas a observavaa cena, constrangido, mas com uma vontade imensa de rir.

 

Jane sorriu, constatando o rubor de sua irmã. A sra. Bennet achou esquisita a atitude da filha, e o sr. Bennet apenas confirmou o que já desconfiava: o iminente envolvimento entre Lizzie e William.

 

Porém, a anfitriã se lembrou do banquete que havia preparado e convidou todos para a mesa.

 

O almoço foi animado, apesar do silêncio de Lydia, que foi um dos castigos aplicados a ela por seus pais. Além do silêncio, ela também ficaria sem seu cartão de crédito por seis meses, sem internet por três, e sem televisão e telefone por dois meses.

 

A caçula até que tentou persuadir seus pais a aliviar o peso de sua provação, mas o sr. Bennet não lhe deu ouvidos, apesar da sra. Bennet ter sentido compaixão pela filha.

 

Terminada a refeição, Lizzie se despediu de todos e disse que voltaria ao trabalho. Darcy se ofereceu a juntar-se a ela e os dois se foram, não sem antes a mãe daquela convidá-lo a visitá-los mais vezes.

 

Saíram do apartamento e assim que a porta fora fechada atrás deles, Elizabeth e William uniram suas mãos e esperaram o elevador.

 

Quando entraram neste, Darcy logo começou a falar, para quebrar o silêncio que até aquele momento pairava sobre eles:

 

- Você ainda não me respondeu.

 

Ela olhou-o, sem entender.

 

- Não respondi o quê? – perguntou ela.

 

- Se aceita viajar comigo nesse final de semana. Eu não quero te forçar...

 

- Eu aceito. – interrompendo-o e depositando um longo beijo nele.

 

******************************

 

Enquanto isso, na Darcy Imobiliária...

 

- Caroline, é óbvio que essa propriedade não vale todo esse dinheiro! – Georgiana protestou, enquanto analisava uns papéis que a consultora de imóveis lhe mostrara.

 

Caroline pegou os papéis e observou-os minuciosamente, tentando achar alguma justificativa para comprovar que não errara. Infelizmente – ou felizmente – não conseguiu contradizer Georgiana, a vice-presidente da empresa.

 

Contrariada, mas sem nunca dispensar sua arrogância, recolheu a papelada e se dirigiu à sua sala, a fim de refazer tudo.

 

Após a saída da Srta. Bingley, Georgiana soltou um suspiro exausto e seu celular tocou.

 

Olhou para o visor do telefone. Lá estavam o nome e uma foto de Edward. Diga-se de passagem que nessa fotografia ele estava ainda mais belo.

 

Atendeu imediatamente, e foi como se todo o seu cansaço tivesse evaporado no exato momento em que ouviu a voz grave dele.

 

- Como vai a mulher mais linda do mundo? – perguntou ele.

 

- Ótima. Agora, ainda melhor, porque ela está conversando com o namorado mais perfeito do mundo!

 

Os dois riram, costumavam gracejar um com o outro ao telefone.

 

- Já tem alguma idéia do que faremos à noite? – continuou a inquirir, Edward.

 

- Não, ainda não tive tempo de pensar em nada. E você? Pensou em algo?

 

- Em muitas coisas... – gargalhou, e fê-la corar com o duplo sentido da frase do namorado.

 

- Eu estava falando sério, Edward...

 

- Está bem, era só uma brincadeira. Mas acabo de lembrar que hoje à noite a banda vai tocar... Você se importa em ir junto?

 

- Claro que não! – Georgiana, na verdade, amava quando seu namorado a convidava para acompanhá-lo em seus shows. Isso demonstrava que ela era realmente importante para ele e que ele queria que ela fizesse parte de sua vida efetivamente. Além de que ela adorava ouvi-lo cantar.

 

- Depois nós podemos fazer alguma coisa. Você escolhe!

 

- Tudo bem. Combinado então.

 

- Te pego às oito. Tchau.

 

- Tchau.

 

- Te amo. Muito.

 

Ela sorriu, sonhadora.

 

- Também te amo demais. – disse ela, por último, encerrando a ligação.

 

********************************

 

O sol já dava adeus ao dia quando Lydia convidou Jane para uma caminhada. Ficar trancada em casa não era tão bom, e uma caminhada no parque faria bem a ela, argumentou a mais nova.

 

A sra. Bennet logo se opôs terminantemente à proposta e o sr. Bennet apelou para o castigo de Lydia, que imediatamente rebateu:

 

- Vocês me proibiram de tagarelar, de assistir à TV, de falar ao telefone, de me conectar à internet e tiraram meu cartão de crédito. Mas não falaram nada sobre minhas saídas! Portanto, eu posso sim sair de casa! E se a Jane não for, eu irei sozinha. – concluiu a filha mais nova, teimosa. O sr. Bennet já havia se conformado: a teimosia era um mal hereditário em sua família. Até Jane herdara um tanto desse mal, apesar de não usá-lo frequentemente.

 

- Eu irei com ela, mamãe. Uma caminhada deverá mesmo me ajudar. – falou Jane.

 

Lydia gargalhou alto e deu uns pulinhos de alegria e satisfação.

 

Meia hora depois, as duas irmãs saíam do prédio em que uma delas morava em direção ao parque, que ficava a apenas trezentos metros dali.

 

Elas andavam, conversando.

 

Jane quis saber como fora a “aventura” com George, e Lydia lhe contou tudo em detalhes.

 

- Nos conhecemos por acaso, aqui em Londres. Você deve lembrar-se disso.

 

A mais velha assentiu com um aceno de cabeça e a outra continuou:

 

- Ele trabalhava em uma peça, e essa peça começou a fazer uma turnê pela Inglaterra. O espetáculo se apresentou algumas vezes no Hertfordshire. Ele me ligou e saímos juntos.

 

- Lydia, ele é muito mais velho do que você!

 

- E quem se importa? Ele é lindo, tem um ótimo emprego, ou melhor, tinha.

 

- Como assim, tinha?

 

- Ele foi despedido porque acusaram-o de algo que ele não fez.

 

- Acusaram? De quê?

 

- De faltar aos ensaios e até algumas apresentações, por estar bêbado ou jogando pôquer. Mas ele me garantiu que era tudo mentira, inventada por um ator miserável que queria roubar o papel do George na peça. Na verdade, este estava doente, o coitadinho!

 

Jane achou estranha a versão de Wickham. Lembrava-se que Lizzie lhe dissera na noite anterior sobre a frustrada tentativa de sequestro de Georgiana, planejado por George. Apesar de ter sido difícil de acreditar que Wickham seria capaz de fazer aquilo, Jane foi obrigada a crer, depois de todas as evidências demonstradas por Elizabeth.

 

Lydia, que não precisava de nenhum incentivo para falar, prosseguiu com sua narrativa:

 

- Assim, ele me disse que ia viajar como mochileiro pelo Reino Unido e me chamou para ir junto. E eu não recusei, é claro! Pena que nossos pais arruinaram minha viagem... Ela teria sido perfeita. – sorrindo, sonhadora.

 

********************************

 

Charles saía de seu apartamento em direção ao de Jane, já ao final da tarde daquele dia.

 

Chegando ao seu destino, foi informado pelo sr. Bennet que sua filha mais velha saíra com a irmã mais nova para um parque próximo dali.

 

Assim, decidido a dissolver definitivamente os problemas que o separavam de Jane, seguiu para o tal parque.

 

No caminho, avistou uma floricultura.

 

“Ótimo!”, pensou, animado. Qualquer ajuda seria bem-vinda para ele naquele momento.

 

Escolheu um buquê de gerberas* cor-de-rosa e prosseguiu com a caminhada. Mais à frente, viu uma doceria. Lembrou-se de ter lido em algum lugar que mulheres adoravam receber chocolates de presente e decidiu comprar uma caixa composta por vários deles para Jane.

 

Depois de percorrer a loja quase inteira, finalmente encontrou uma que lhe agradasse – e à Jane, é claro.

 

Ela tinha a forma de um coração, e no seu interior havia chocolates de variados sabores. De fora para dentro, se mostravam os seguintes tipos: trufa de chocolate ao leite com recheio de morango, chocolate ao leite recheado com crocante, chocolate branco e chocolate branco recheado com cookies.

 

Após comprar a caixa, seguiu seu caminho, com o buquê em uma das mãos e os chocolates em outra.

 

Entrou no parque, enfim, que era rodeado por verdes árvores e flores muito bem tratadas. Banquinhos de pedra espaçados também compunham a paisagem do local, que casualmente era visitado por pássaros de diferentes espécies que davam sempre amostras de seu canto.

 

Charles teve que atravessar pelo menos a metade do parque para encontrar sua amada, que estava parada junto a uma árvore, conversando com a irmã.

 

Ele se aproximou dela, respirando fundo para tentar se acalmar e esvair o nervosismo súbito que se apoderara dele.

 

Percebeu que Lydia notou sua presença e chamou a atenção da irmã Bennet mais velha. A última olhou-o espantada, e não se moveu.

 

Bingley inicialmente estendeu-lhe a mão que continha o ramalhete e disse:

 

- É para você. – sorrindo afetadamente.

 

- Obrigada, respondeu ela, aceitando as flores com relutância.

 

Lydia decidiu que não queria servir de “vela” e atrapalhar o casal. Assim, prevendo que aquela conversa seria longa, distanciou-se dos dois, que continuaram o tímido diálogo, levando o buquê consigo:

 

- Eu vim aqui apenas para te pedir: Jane, volta para mim, por favor. Eu prometo que nunca mais te deixarei. Deixe-me ser o homem mais feliz do mundo pelo resto de nossas vidas. E eu também te farei a mulher mais feliz, porque a mais amada você já é. – exclamou, enquanto tirava do bolso da camisa um porta-anel e entregava-a aquela caixinha de veludo azul-escuro que guardava o anel de noivado** que comprara há tantos meses.

 

- Olhe. – abrindo-o para ela. –Eu ia te dar na noite em que nos despedimos... Mas não queria que você ficasse aqui, esperando que eu voltasse, que ficasse presa a mim enquanto podia seguir com sua vida. – continuou ele.

 

- Então por que não me disse isso? Todo esse tempo, mesmo sem notícias suas, eu estive presa a você. Por mais que eu tentasse te esquecer.

 

- Desculpe, Jane. A última coisa que eu quero é te ver sofrer. Por favor, deixe-me reparar meus erros, case-se comigo. Eu te amo. Você é a única mulher que eu já amei e a única que amarei, por toda minha vida.

 

Ela olhava-no nos olhos, e parecia confusa.

 

- E quanto às vezes que eu te liguei? Por que não me atendeu? Eu sei que queria que eu vivesse minha vida, mas...

 

- Jane, eu realmente não sabia que você havia me ligado ou enviado emails.

 

Jane ergueu as sobrancelhas, simbolizando que não entendera o que ele falara.

 

- Alguns dias depois de eu chegar à Edimburgo, minha irmã Louisa disse que a secretária dela poderia cuidar de todas as minhas ligações e emails, já que eu estava com muito trabalho a fazer. Louisa mandou que a secretária impedisse que nos comunicássemos novamente, porque aquela achava que você era uma interesseira, que só se importava com nosso dinheiro.

 

- Charles, você me conhece, sabe que seu dinheiro era o que menos importava na nossa relação. Mas entendo que sua irmã me veja assim, até porque há muita gente interesseira no mundo...

 

- Eu sei que você nunca se importou com meu dinheiro. Mas não foram as pessoas interesseiras existentes no mundo que motivaram Louisa a pensar assim de você.

 

- O que foi então?

 

- Caroline.

 

- Caroline?! Como assim? Não estou entendendo!

 

- Ela inventou que você era uma oportunista para se vingar de Lizzie, que, como eu acabei de saber ontem, fisgou o coração do meu amigo William.

 

- Caroline não seria capaz de fazer uma coisa dessas, Charles. Lembre-se que ela é sua irmã.

 

- Infelizmente é verdade, querida Jane. Ela nunca teve limites, sempre foi mimada e egoísta.

 

Jane tapou a boca com uma das mãos para esconder sua evidente expressão de assombro.

 

- Agora você vê por que eu não me comunicava? – acariciando delicadamente a face direita dela com a ponta dos dedos.

 

- E por que nunca tentou me ligar? – desviando-se devagar das carícias dele.

 

- Tentei. Sempre discava o seu número, mas não conseguia falar. Desligava antes que você atendesse.

 

- E por quê? – seu olhar não escondia a mágoa que sentia.

 

- Porque eu sou um idiota, Jane. Simplesmente por isso. Fui um idiota ao te deixar, ao te perder, e agora, tentando te reconquistar. – disse ele, ajoelhando-se ante ela. – Case-se comigo.

 

- Charles, levante-se, por favor.

 

- Só quando você me der uma resposta. – ele apelava. Tentaria o que fosse preciso para estar novamente com ela.

 

- Eu não posso... – os olhos de Jane estavam marejados, as lágrimas ameaçavam cair a qualquer momento.

 

- Por que não? Eu sei que você ainda me ama! Olhe nos meus olhos e diga que não me ama mais. É tudo o que eu preciso ouvir para deixá-la em paz. – levantou-se, de modo que eles ficassem à mesma altura, se encarando de uma distância mínima.

 

Ela não respondeu, era muito difícil falar.

 

- Jane... – ele recomeçou a acariciá-la, agora no braço esquerdo.

 

- Eu te amo, Charles. Desde a primeira vez em que te vi, em frente àquele elevador. Mas é tudo tão difícil pra mim! – ela desabafou, visivelmente nervosa.

 

- Não diga mais nada. – sorriu, colocando o dedo indicador e o médio nos lábios dela, silenciando-na. – Prometo que JAMAIS vou te deixar sozinha, sem notícias minhas. Prometo também que vou te amar pelo resto da minha vida. Mas Jane, por favor, aceite ser minha esposa. – ele retirou o porta-anel do bolso novamente, já que ela devolvera-lhe a caixa após ele mostrar o conteúdo desta.

 

Jane encarou-o com dúvida. Ele lhe machucara. Sim, isso era verdade. Mas estava estampado no rosto dele que Charles também sofrera. E agora ele estava ali, implorando para que o amor deles florescesse novamente. Poderia ela ser insensível ou fingir que não estava ouvindo o seu coração, que dizia que ela deixasse tudo fluir, que desse uma nova chance para aquele amor tão lindo?

 

E, afinal, o que era o amor senão um sentimento movido aos cuidados mútuos e à doação e perdão permanentes?

 

 Assim, Jane se despiu de qualquer medo, mágoa ou desconfiança. Mergulhou nas profundezas do sentimento que tinha por ele.

 

- Sim, eu aceito. – falou, por fim, com a voz embargada pelo choro que começava a cair.

 

Ele olhou-a incrédulo, precisou estudar a expressão dela para comprovar que o que ouvira era realmente verdade. Passado o choque inicial, ele tomou-a em seus braços e abraçou-a forte. Há tanto ansiava por sentir novamente o corpo delicado dela junto ao seu, o glorioso perfume de rosas que exalava do corpo de Jane, o cheiro e o toque em seus cabelos macios.

 

- Obrigado, Jane. Eu amo você. Seremos felizes para sempre, tenho absoluta certeza disso. Amo-te, amo-te! – sussurrou ao ouvido dela, enquanto ainda a abraçava e sentia-se abraçado por ela, que parecia estar tão comovida quanto ele.

 

- Eu também te amo tanto, Charles! – ela afastou-se um pouco do abraço e olhou-o nos olhos. Suas respirações ofegantes se misturavam e seus hálitos pediam para fazer o mesmo.

 

Ele não tentou reprimir o desejo que sentia naquele momento. Aproximou seus lábios dos dela e beijou-a como se fosse a primeira vez. E assim como numa primeira vez, seus estômagos se contraíam e pareciam estar numa montanha russa, reações provocadas pela tão imensa e dolorosa distância que estava sendo anulada.

 

Ao fim do beijo, ambos se olharam e sorriram. É, apenas sorriram. A felicidade lhes roubara as palavras por um instante.

 

- Ah, esqueci de te entregar. – disse ele, pegando a caixa de chocolates, que até agora estava largada num banco ao seu lado.

 

Ela sorriu com a trapalhada do seu namorado. Aliás, noivo!

 

- Obrigada, é linda. E parece deliciosa. – ainda sorrindo, depositou-lhe outro beijo em seus lábios.

 

- Jane, como você consegue?

 

- Consigo o quê? – ela franziu as sobrancelhas e ele se maravilhou com aquela expressão engraçada dela.

 

- Me levar ao céu com apenas um beijo. – ele não parava de sorrir.

 

Ela corou e ele a abraçou novamente, alisando o seu pescoço e suas costas.

 

- É tão bom estar aqui com você... – falou ele.

 

- Eu que o diga... esperei tanto por esse abraço... – sua cabeça estava deitada no ombro dele e dali ela admirava os escassos pêlos do pescoço dele. – Agora eu entendi totalmente aqueles sonhos...

 

- Que sonhos?

 

- Uns que eu tive quando estava grávida.

 

- Conte-me como eram.

 

Ela narrou-lhe os sonhos e ele ficou um tanto intrigado.

 

- Mas por que você disse que entendeu-os totalmente somente agora?

 

- É como se os momentos em que eu seguro nosso bebê nos braços, sozinha, representasse a gravidez que eu enfrentei sozinha. O desconhecido vestido de preto seria a morte, que levaria o bebê de mim. E depois você, que sempre ao fim dos sonhos me consolava. É o que está acontecendo agora. Você está me consolando e eu estou me sentindo muito melhor. – ela parecia pensativa e distante. Assim, Bingley decidiu não alongar o assunto. Aquela ferida ainda estava demasiadamente aberta para os dois.

 

- Não pense mais nisso... tudo está bem agora. Sei que a perda do bebê foi muito difícil para você, e para mim, que ainda estou me acostumando com a ideia de que seria pai. Mas não deve se prender a coisas ruins. Quando casarmos poderemos ter quantos filhos quiser. – disse ele, enquanto os dois seguiam em direção à saída do parque, abraçados, já que a noite já caíra.

 

- Quantos você quer ter? – perguntou ela, sorrindo. Jane estava totalmente convencida de que a vida realmente dava muitas voltas.

 

- O que você acha de cinco?

 

- Cinco?! Não é muito?

 

- Não, imagina cinco criancinhas lindas, todas com o seu rosto, correndo pela casa... não seria fantástico?

 

Jane não conseguiu conter o riso.

 

- Aposto que sua mãe vai adorar ter mil netinhos para cuidar!

 

Dessa vez, foi ele quem gargalhou com seu próprio discurso. Então, ambos seguiram seu caminho até o prédio onde Jane morava, conversando e namorando animadamente.

 

 

Far Away

“Tão Longe”

 

(Nickelback)

 

 

This time, This place

Este tempo, este lugar

 

Misused, Mistakes

Desperdícios , erros

 

Too long, Too late

Tanto tempo , tão tarde

 

Who was I to make you wait

Quem era eu para te fazer esperar?

 

Just one chance

Apenas mais uma chance

 

Just one breath

Apenas mais um suspiro

 

Just in case there's just one left

Apenas um caso que foi deixado de lado

 

Cause you know,

Porque você sabe,

 

You know, you know

Você sabe , você sabe...

 

 

That I love you

Que eu te amo

 

That I have loved you all along

Eu sempre te amei

 

And I miss you

E eu sinto sua falta

 

Been far away for far too long

Estive afastado por muito tempo

 

I keep dreaming you'll be with me

Eu continuo sonhando que você estará comigo

 

And you'll never go

E você nunca irá embora

 

Stop breathing if

Paro de respirar se

 

I don't see you anymore

Eu não te ver mais

 

 

On my knees, I'll ask

De joelhos, eu pedirei

 
Last chance for one last dance

Uma última chance para uma última dança

 
Cause with you, I'd withstand

Porque com você, eu resistiria

 
All of hell to hold your hand

A todo o inferno para segurar sua mão

 
I'd give it all

Eu daria tudo

 
I'd give for us

Eu daria tudo por nós

 
Give anything but I won't give up

Eu daria qualquer coisa, mas eu não desistiria

 
‘Cause you know,

Porque você sabe

 
You know, you know

Você sabe, você sabe...

 
 

That I love you

Que eu te amo

 

That I have loved you all along

Eu sempre te amei

 

And I miss you

E eu sinto sua falta

 

Been far away for far too long

Estive afastado por muito tempo

 

I keep dreaming you'll be with me

Eu continuo sonhando que você estará comigo

 

And you'll never go

E você nunca irá embora

 

Stop breathing if

Paro de respirar se

 

I don't see you anymore

Eu não te ver mais

 

 

So far away

Tão longe

 

So far away

Tão longe

 

Been far away for far too long

Estive afastado por muito tempo

 

But you know, you know, you know

Mas você sabe , você sabe , você sabe...

 

 

I wanted

Eu quis

 

I wanted you to stay

Eu quis que você esperasse

 

Cause I needed

Porque eu precisava

 

I need to hear you say

Porque eu preciso te ouvir dizer

 

That I love you

"Eu te amo

 

That I have loved you all along

Eu te amei o tempo todo

 

And I forgive you

E eu perdôo você

 

For being away for far too long

Por ficar tão longe por tanto tempo"

 

So keep breathing

Então continue respirando

 

Cause I'm not leaving you anymore

Por que eu não vou te deixar mais

 

Believe it Hold on to me and, never let me go

Acredite em mim, Me abrace e nunca me deixe ir."

 

 

Keep breathing

Continue respirando

 

Been far away for far too long

Estive afastado por muito tempo

 

Cause I'm not leaving you anymore

Porque eu não vou te deixar mais

 

Believe it Hold on to me and, never let me go

Acredite, me abrace enunca me deixe ir

 

Keep breathing Hold on to me and, never let me go

Me abrace e nunca me deixe ir

 

Keep breathing Hold on to me and, never let me go

Me abrace e nunca me deixe ir...

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=BokOqI7M19Y&feature=related

 

http://www.youtube.com/watch?v=EgEq6NcIIeI

 

 

*********************************

 

Lydia chegou em casa radiante. Correu logo a contar as novidades para a mãe.

 

- Mamãe, a senhora não vai acreditar no que eu tenho a lhe dizer!!

 

- Fale logo, Lydia!

 

- Jane e eu caminhávamos no parque quando... adivinha quem apareceu!

 

- Quem, menina? Não faça suspense! Você sabe que sua mãe sofre dos nervos!

 

- Charles Bingley! E ele até levou esse buquê para a Jane. – mostrando o buquê de gerberas em seus braços.

 

- Oh! Mas isso é magnífico! Eu sabia que minha Jane não era tão bonita para nada! Temos que comemorar!

 

Assim, a mulher saiu à caça de seu marido com sua filha para lhe contar a novidade.

 

 

* Gerberas: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gerbera

** Anel de noivado citado no capítulo XX: http://www.monteblancojoias.com.br/solitario-ouro-diamantes-rubi-p-5908.html

 

 

 

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