Citações

Nada é mais enganoso do que a aparência de humildade, que é frequentemente apenas a falta de personalidade. (Jane Austen)

O Fruto da Honestidade - Capítulo 29

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Charles entrou em seu apartamento com o bichinho do cansaço lhe avisando que já chegara ao seu extremo.

 

Assim, largou sua mochila em algum lugar do quarto e foi imediatamente para o banheiro. Deixou que a água do chuveiro se misturasse às lágrimas que tanto tentara reprimir até aquele momento. Lágrimas de frustração, profunda dor e culpa.

 

Nunca imaginara que seu reencontro com Jane seria tão doloroso. Além de ela não querer mais ser namorada dele, ainda engravidara – apesar do aborto – de um filho dos dois.

 

Porém, mesmo com a rejeição dela, Bingley sentiu que Jane ainda o amava. Recordava muito bem daqueles olhos transbordantes de amor e ternura, as faces levemente coradas. Sim, ela amava-o, e ele a reconquistaria, qualquer que fosse o preço para isso.

 

Mas Jane dissera que tentou contatá-lo várias vezes. Então por que ele não recebera nada? Isso martelava insistentemente em sua cabeça.

 

Vasculhando a memória, lembrou-se que um dia, repentinamente, sua irmã Louisa dissera-lhe que ele não precisava se preocupar com ligações ou emails, sua secretária cuidaria de tudo, já que ele estava tão sobrecarregado com tanto trabalho.

 

Entretanto, qual seria a intenção de Louisa ao fazer isso? Ela nem conhecia Jane! E se conhecesse saberia a mulher maravilhosa que ela era.

 

Saindo do banho, deitou-se displicentemente em sua cama. Decidiu que à noite, quando acordasse, ligaria para Louisa, para esclarecer aquela situação. Assim, apenas um instante depois já dormia.

 

**********************************

 

Elizabeth chegou cedo em casa, com um péssimo humor e reclamando de uma forte dor de cabeça. Disse também não estar com fome.

 

O sr Bennet perguntou-lhe o que se passara, entretanto sua filha não quis comentar nada sobre o ocorrido.

 

Ela se dirigiu logo ao quarto da irmã, Jane, após tomar um banho, para conferir se esta parecia melhor.

 

Bateu à porta e entrou. Sua irmã estava com seu caderno de poesias no colo, e escrevia algo nele.

 

Lizzie percebeu que os olhos dela se mostravam inchados, e perguntou a causa disto.

 

- Er... O Charles esteve aqui hoje. – respondeu Jane com a voz fraca e olhando para a irmã com receio.

 

- Jura?! – ela disse, atônita, confusa e um tanto revoltada.

 

- Sim.

 

Elizabeth lembrou-se, então, do que William lhe falara pela manhã. Provavelmente, após saber da passagem de Jane pelo hospital, Bingley deve ter retornado à Londres para vê-la.

 

- O que ele falou? – continuou a inquirir, Lizzie.

 

- Perguntou se eu estava melhor, pediu-me desculpas por não ter ligado no tempo em que esteve viajando e me pediu também para retar nosso relacionamento.

 

A ouvinte não conseguiu exprimir palavra alguma. Surpreendia-se de que ele havia feito isso. E se fizera, só poderia por um motivo: Charles realmente amava a sua irmã e estava arrependido. Só ainda não entendia o porquê de ele não ter atendido às ligações da irmã ou por Bingley não ter respondido a nenhum dos emails que esta lhe enviara.

 

- O que você respondeu? – Lizzie não parava de fazer-lhe perguntas.

 

- Que não daria mais certo, que ele já havia me machucado demais... – encarou sua irmã de relance, mas logo voltou sua atenção para o caderno novamente.

 

- Você falou sobre o bebê?

 

- Sim... – sua voz soou quase inaudível.

 

- Qual a reação dele?

 

- Primeiro ele ficou exultante de felicidade. Lizzie, você precisava ver o brilho dos olhos dele, o sorriso... – ela sorriu, sonhadora. – Mas ficou desolado ao saber do aborto, achei ter visto lágrimas em seus olhos... – completou, sem vestígios do sorriso.

 

- E depois?

 

- Depois eu disse que precisava ficar sozinha, e ele se foi...

 

- Você ainda gosta dele, não é?

 

- Por mais que eu tente esquecê-lo, acho que não tem jeito, Lizzie. Isso é horrível para mim...

 

Elizabeth apenas acariciou o braço da irmã e depositou-lhe um beijo no alto da testa. Deixou-a; Jane precisava refletir. Sozinha.

 

Já saía do quarto da irmã quando ouviu a campainha tocar. Sua mãe disse que deveria ser o sr. Darcy quem estava à porta, já que há pouco este fora anunciado pelo porteiro.

 

- Darcy? O que ele pretende, vindo aqui? – exclamou Lizzie, irritada.

 

- Ele deve ter vindo lhe visitar, minha querida. – respondeu-lhe a mãe, enquanto seu pai apenas observava a situação, intrigado.

 

- Ele não tem motivo algum para vir me visitar! – revidou. – Digam que eu não estou! – entrando em seu quarto, batendo a porta.

 

*************************************

 

Darcy saía de sua empresa um pouco mais tarde que o habitual.

 

Procurara por Lizzie no horário de almoço, mas esta fora almoçar mais cedo. Procurou-a também depois do expediente, mas ela já havia ido embora. Em outras palavras, não falava com ela desde o mal-entendido da manhã.

 

Essa série de desencontros estava deixando-o praticamente maluco. Caroline Bingley conseguira separá-los novamente. Mas ela teria seu devido pagamento, na hora certa e quando ele conseguisse resolver sua situação com Elizabeth.

 

Lembrando-se que Jane deveria estar em casa naquele momento e que certamente sua irmã estaria com ela, Darcy se dirigiu em direção à casa das srtas. Bennet.

 

Chegando ao seu destino, William teve que seguir o mesmo ritual que Charles executou àquela manhã. Falou com o porteiro, que interfonou para o apartamento. A sra. Bennet atendeu e mandou-o subir imediatamente.

 

Darcy suspirou e tentou respirar fundo enquanto estava no elevador. O porteiro informara-lhe que quem atendera ao seu chamado fora a sra. Bennet, o que fez William Darcy se contorcer dos pés à cabeça. Encontrar aquela mulher novamente seria um pesadelo... mas, como ela era a mãe de Elizabeth, não havia outro modo.

 

Ele imaginou se um dia casaria com Elizabeth. Se isso acontecesse, teria que passar a vida inteira suportando os ataques e tagarelices daquela mulher.

 

“Seria por uma boa causa... além do mais, ela mora no Hertfordshire. Visitaremo-nos apenas no natal.”

 

Darcy riu com seus pensamentos. Naquele momento Lizzie deveria estar muito mais do que zangada com ele, e ele pensava em casamento!

 

“Mas eu vou solucionar tudo isso...” – pensou, quando o elevador chegava ao corredor do apartamento.

 

Apertou a campainha e esperou até que alguém viesse abrir a porta de madeira muito bem lustrada.

 

Um pouco ao longe, ouvia o que pensava ser algum tipo de discussão. Era possível identificar as vozes de Elizabeth e da sra. Bennet.

 

Talvez aquilo fosse por ele, refletiu.

 

A porta foi aberta um pouco depois, com uma receptiva sra. Bennet lhe oferecendo passagem e um sorriso exageradamente gentil.

 

O sr. Bennet estava na sala, assistindo à televisão, sentado em um dos cantos do sofá. Este cumprimentou a visita, mas logo retornou à sua tarefa. Porém, enquanto fingia assistir à tevê, o pai de Elizabeth tentava analisar as feições e motivos pelos quais aquele homem estava ali.

 

Agora, o homem pode deduzir qual – ou melhor, quem – seria o motivo da atitude de sua filha ao chegar em casa – que ele pensava ser a mais ajuizada.

 

A sra. Bennet rapidamente introduziu Darcy no quarto da filha. Este parecia estar um tanto “deslocado” com a quantidade de atenções que aquela mulher lhe dirigia.

 

Entrou no quarto de Elizabeth e percebeu que ela estava recostada à janela, com os braços envoltos no próprio corpo, observando o céu nublado com poucas estrelas à vista.

 

- Elizabeth, olá. Temos que conversar.

 

Ela não moveu um músculo sequer para observá-lo, permaneceu onde estava, indiferente.

 

- Lizzie, por favor... deixe-me explicar o que aconteceu! Você fugiu de mim o dia todo. – ele tentava iniciar uma conversa, gesticulando.

 

- Eu não fugi de você. – respondeu, ainda imutável.

 

- Então por que saiu mais cedo para o almoço? Por que foi embora antes do fim do expediente?

 

- Se você quiser descontar do meu salário as horas que eu perdi, não há problema! – falou, desta vez virando-se para encará-lo. Em seus olhos transparecia a raiva.

 

- Será que você não entende?! Eu não vim aqui como seu patrão, mas como o homem que te ama demais e não vai te deixar ir sem esclarecer as coisas. – ele disse, ficando apenas a alguns passos dela.

 

- Belo discurso... ensaiou por quanto tempo, sr. Darcy? – revidou, encarando-o, sem deixar-se intimidar.

 

- É impressionante o quanto você consegue ser cabeça-dura!

 

- Cabeça-dura?! Como ousa?

 

- Cabeça-dura, teimosa, intransigente... ou qualquer outro sinônimo que você queira aplicar. – ela fulminou-o com os olhos, mas ele também se considerava teimoso, e prosseguiu: - Mas eu sei que é tudo uma máscara, porque você não quer assumir que gosta de mim. Bem mais do que gostaria de outra pessoa. – provocando-a.

 

- Além de traidor, é arrogante e presunçoso... – mantendo o contato visual.

 

- Esqueceu de dizer que eu também sou maluco por você. – com um sorriso malicioso no canto dos lábios.

 

- Se isso fosse verdade você não terá me traído com aquela... aquela Caroline Bingley!

 

- EU NÃO TE TRAÍ! Muito menos com Caroline Bingley!- continuava gesticulando. Agora, ainda mais perto dela. Eles podiam sentir suas respirações misturando-se e formando uma só, seus peitos arfantes dominados pela adrenalina do momento.

 

- Ah não?! E como me explica o boato que estava espalhado por toda a SUA empresa? – sua boca perguntava, e seus olhos refletiam desconfiança.

 

- Foi a Hannah que criou tudo isso.

 

- Agora a culpa é da Hannah?!

 

- Elizabeth, por favor... – com a impaciência beirando o seu nível máximo.

 

- Tudo bem, fale. – ela, enfim, cedeu.

 

Ela indicou-lhe a cama, e ambos sentaram-se, lado a lado.

 

William começou a explicar-lhe o ocorrido:

 

- No começo da manhã, quando cheguei, Hannah perguntou-me se eu chegara por não ter dormido bem. Repondi-lhe que alguém não me deixara dormir; por conseguinte, você também chegou mais cedo, e ela perguntou-lhe a mesma coisa. Você respondeu que não havia dormido bem. Assim, ela deduziu que...

 

- Eu e você passamos a noite juntos... – complementou Lizzie, sem muita emoção.

 

- Exatamente. – um pouco mais aliviado por ela estar ouvindo-o, e não enxotando-no.

 

- Mas como a Caroline entrou na estória?

 

- Caroline, ao saber do boato, quis vingar-se. Então contou a Hannah que não havia sido com você com quem eu passara a noite, mas sim com ela.

 

- Hum... então foi a Caroline que inventou tudo isso? – perguntou Elizabeth, encarando-o, com a cabeça apoiada na mão direita, que, por sua vez, pousava em seu joelho direito.

 

- Precisamente.

 

Lizzie olhou para a frente, ficando de perfil em relação à ele. Refletiu sobre tudo o que ele dissera e teve que admitir que ele estava falando a verdade e que ela se deixara levar pelo ciúme.

 

Parecia engraçado descobrir que sentira ciúmes dele, já que esse sentimento quase nunca fizera parte de sua vida. E, agora, repentinamente, ele havia possuído-na com uma tremenda intensidade.

 

Direcionou seus olhos para Darcy. Ele olhava para ela também, apreensivo, como se esperasse uma resposta.

 

- Desculpe por tê-lo julgado tão mal... eu... – teve que reprimir duramente o seu orgulho. Pedir desculpas não era tão fácil para ela. Suspirou, mas conseguiu prosseguir: - Eu estava insana, com muitos ciúmes...

 

William não esperou que ela dissesse mais nenhuma palavra. Sorriu, e tomou-lhe em seus braços, abraçando-na.

 

- Prometo que nunca mais vou dar tanta importância a um boato desse tipo. – falou no ouvido dele, correspondendo ao abraço. – Na nossa relação haverá o máximo de confiança. Isso também é uma promessa.

 

Ele afastou-se um pouco dela após essas palavras, livrando-se ligeiramente do abraço.

 

Olhou dentro dos olhos amendoados de Elizabeth, e sua boca curvou-se em um sorriso.

 

Seu foco visual foi descendo lentamente pelo rosto dela. Observou o nariz reto e um tanto arrebitado, mas seus olhos logo pousaram na boca rosada e bem-delineada, que estava fechada, mas ainda assim convidativa para um beijo.

 

Moveu sua cabeça devagar, chegando mais perto dos lábios dela. Sentiu-a arfar e entreabrir a boca, quase como se exigisse aquele beijo.

 

Enfim, a distância entre eles foi superada e seus lábios se encontraram.

 

Começou sutil, mas aquele beijo foi se intensificando e suas línguas pareciam fazer parte de alguma dança coreografada pelo amor, movendo-se à busca do íntimo do outro.

 

- Oh não! – exclamou uma voz reconhecida como sendo a da sra. Bennet, vinda da sala, mas que mesmo assim atrapalhou o namoro dos dois.

 

Elizabeth olhou assustada para a porta, depois de ter ouvido o grito de sua mãe. Virou-se para William, dirigiu-lhe um olhar de desculpas e correu para a sala.

 

Chegando lá, Lizzie encontrou sua mãe sentada no sofá, com um copo d’água na mão e chorando copiosamente.

 

O sr. Bennet também parecia preocupado, mas como sempre fora mais contido do que a sra. Bennet, tentava acalmar sua mulher.

 

- O que aconteceu? – perguntou Lizzie, nervosa.

 

- Sua irmã Mary acabou de ligar. Lydia fugiu, com George Wickham. – explicou o sr. Bennet, no exato momento em que Jane e Darcy entravam na sala.

 

- Ela fugiu?! Como assim? – perguntou Elizabeth, alarmada, enquanto Jane tentava reprimir o choro e as lamentações de sua mãe.

 

- As garotas foram normalmente à escola de manhã. À tarde, depois do almoço, Lydia disse que estava com sono e foi ao quarto, aparentemente para dormir. Mas, percebendo que a irmã demorava demais a acordar, Kitty foi chamá-la. Porém, só encontrou um bilhete em cima da cama. – continuou a explicação, o sr. Bennet.

 

- O que ela dizia no bilhete? – inquiriu Lizzie, já à beira da aflição.

 

- Dizia que ela iria conhecer o mundo junto com George Wickham, como mochileira*. Também permitiu que a irmã Kitty se contorcesse de inveja. – prosseguiu o pai.

 

A sra. Bennet, que apenas chorava e reclamava baixinho, logo começou a exclamar:

 

- Uma filha perdida!! Como mochileira! Só Deus sabe o que cada curva dessas estradas guarda! Cada perigo... oh, Lydia! Minha caçula, meu bebê...

 

William, que apenas observava tudo até aquele momento, disse que precisava ir. Despediu-se rapidamente de todos; à Lizzie dirigiu um olhar mais penetrante e se foi.

 

Elizabeth entendeu a saída repentina dele como arrependimento por ter se envolvido com alguém de uma família como a dela. Isso a entristeceu. Será que em todas as vezes em que eles faziam as pazes havia algo para os atrapalhar novamente?

 

Assim, Lizzie e Jane passaram o resto da noite tentando acalmar sua mãe; o sr. Bennet decidiu que na manhã do dia seguinte sairia à caça da filha aventureira e de seu parceiro, um homem no mínimo irresponsável, que levara consigo uma adolescente, sem o consentimento ou conhecimento dos pais dela.

 

Darcy respirou fundo depois que saiu do apartamento de Elizabeth. A razão não fora o escândalo da sra. Bennet, mas sim o causador deste.

 

George Wickham conseguira outra vítima para seus planos obscuros. Outra garota inocente. E era justamente pela inocência de Lydia que ele temia.

 

Provavelmente, ele usaria a filha mais nova dos Bennet e depois largaria-na em alguma cidade qualquer. Até porque Lydia não tinha nenhum atrativo ou dote especial, e com ela ele não tinha garantia de conseguir dinheiro.

 

Na última sandice cometida por George, William resolvera não agir em contrapartida. Mas, dessa vez, Wickham pagaria com juros. E Darcy faria isso em nome de Georgiana, de Lizzie, de Lydia e de si próprio.

 

Saiu do prédio em que Elizabeth morava e seguiu com seu carro em direção a Essex**.

 

Sabia que George conhecia uma mulher ali, a sra. Younge, que o ajudava em seus planos. Como fora delatado pelo comparsa do último, no felizmente frustrado seqüestro de Georgiana.

 

William munira-se do endereço da tal mulher desde o episódio anterior – o sequestro -, mas fora impedido pela irmã de ir até o local, que serviria de cativeiro para ela.

 

*******************************

 

Quando Charles acordou, já havia escurecido.

 

A primeira coisa que ele fez foi ligar para sua irmã Louisa. Àquela hora ela já deveria estar em casa.

 

- Alô? – ela logo atendeu.

 

- Olá, Louisa. Sou eu, Charles.

 

- Charles, querido! Como foi a viagem? Recebi o recado que você deixou na minha secretária eletrônica.

 

- A viagem foi boa, obrigado. – ele respondeu, sisudo.

 

- Eu só não entendi por que você se foi tão de repente...

 

- A Jane esteve no hospital, eu tinha que vê-la.

 

- Como você teve notícias dela? – perguntou Louisa, alarmada.

 

- O William me ligou ontem e avisou.

 

- Ah... – disse ela, sem graça.

 

- É engraçado você me perguntar como eu soube dela, já que a Jane me falou que me ligou várias vezes e mandou inúmeros emails. Mas por que eu não os recebi?

 

- Não faço idéia... – respondeu Louisa, ainda fingindo que não estava entendendo.

 

- Não faz idéia?! Então como você explica o fato de eu não receber notícia alguma da Jane exatamente quando você me diz que a sua secretária cuidaria de minhas ligações e emails? Muita coincidência, não acha?

 

- Charles, eu...

 

- Confesse, Louisa. Admita que foi você quem interceptou as ligações e emails da Jane!

 

- Sim, fui eu! – resolveu confessar logo, já que o estado de seu irmão não lhe deixava se defender.

 

- Como você pode?! Louisa, você não tem o mínimo direito de se intrometer na minha vida!

 

- Eu tenho sim, quando a minha vida também for afetada! – exclamou, histérica. Seu marido, que passava pela sala naquele exato momento, olhou-a sem entender nada.

 

- E eu posso saber como um relacionamento meu influi na sua vida?

 

- Caroline me contou sobre as intenções dela e da família dela! A Jane só quer nosso dinheiro! Só você não vê!

 

- Nunca mais fale assim dela! Você não a conhece! – ele praticamente gritava ao telefone.

 

- Charles...

 

- Quer saber outra coisa? Eu a amo e vou me casar com ela! Nem que isso demore uma eternidade para acontecer, já que depois do que você fez, ela não quer mais nada comigo! – disse ele, desligando o telefone, sem querer mais alongar aquela conversa, nervoso.

 

Louisa, que estava do outro lado da linha telefônica, espantou-se com o fervor do irmão ao defender Jane. Assustou-se ainda mais quando ouviu seu irmão dizer que a última não o queria mais.

 

Se Jane realmente estivesse interessada no dinheiro de Charles, não teria tomado uma atitude dessas. Essa estória estava realmente mal-contada... resolveu ligar para sua irmã Caroline. Ela teria que esclarecer-lhe tudo.

 

- Alô, Caroline?!

 

- Louisa, querida! Como está?

 

- Eu estou bem, mas receio que o Charles não esteja tanto.

 

- O Charles? Por quê? As coisas não vão bem aí em Edimburgo?

 

- Ele voltou para Londres na madrugada de ontem.

 

- Por quê?

 

- Para ver a Jane, parece que ela esteve no hospital.

 

Caroline lembrou-se que a srta. Bennet dissera que não poderia trabalhar por estar em licença médica.

 

- E você permitiu?! – perguntou Caroline, a irmã mais nova, preocupada.

 

- Eu já disse que ele foi de madrugada!

 

- Droga... e o que aconteceu? Ele se encontrou com ela? – sua preocupação se elevava a cada segundo.

 

- Sim, mas parece que ela não gostou de vê-lo. O que é estranho, já que ela só se interessa no nosso dinheiro. Não é, Caroline? – Louisa interrogou a irmã.

 

- Isso pode fazer parte de algum plano dela...

 

- Ou não seria parte de um plano SEU? Para separar nosso irmão dessa moça?

 

- Meu?! Mas o que eu ganharia com isso? – fingindo desentendimento.

 

- Diga-me você!

 

- Louisa, eu... – ela tentava achar alguma justificativa plausível.

 

- Caroline, eu sei que desde criança você é mimada e egocêntrica, sempre querendo que todos os seus desejos sejam atendidos. Talvez por ser a filha caçula. Então, em que essa moça te contrariou?

 

- Não foi a Jane. Ela até que é simpática, apesar de um tanto tímida.

 

- Então? Por que essa atitude?

 

- Jane é irmã de Elizabeth, a mulher que tirou o MEU Darcy de mim.

 

- Ah... está explicado... Mas você não pode mais alimentar essa sua paixão infantil e desenfreada, Caroline! Você sabe que William nunca gostou de você, mesmo com todos os seus esforços para conquistá-lo.

 

- Não! Ele vai ser meu! Eu não vou perdê-lo para qualquer uma!

 

- Ainda que você passasse toda sua vida esperando por ele vocês dois nunca ficariam juntos!

 

- O que você sabe sobre o amor, Louisa? Justamente você, que casou-se com um inútil! – debochou da irmã, Caroline.

 

- Não é porque você tem problemas no amor que eu também tenho. Acho melhor você rever suas atitudes. – Louisa disse, por fim, encerrando a ligação.

 

Caroline, inconformada e irritadíssima, atirou no chão um vaso que estava ao seu alcance, dilacerando-o.

 

*********************************

 

A madrugada já estava quase em sua metade quando Darcy chegou à casa da sra. Younge.

 

O local servia como um pequeno albergue, apesar de estar bastante descuidado e sujo.

 

Suas paredes, pintadas de amarelo há muito tempo, não escondiam as marcas causadas pelos anos. As duas janelas da fachada do prédio tinham suas armações enferrujadas e os vidros empoeirados.

 

William bateu com vigor à porta de madeira já gasta. Bateu uma, duas, três vezes até ser atendido por uma senhora de baixa estatura, gorducha e de rosto invadido sem compaixão pelas rugas.

 

Aparentando estar com muito sono e com um mau-humor quase insuportável, perguntou-lhe o que gostaria, já que aquele homem parecia ser elegante demais para pleitear um quarto naquele lugar simples.

 

- Quero falar com o sr. George Wickham. – pronunciar o nome daquele homem lhe causava asco, mas era preciso.

 

- Não há ninguém aqui com esse nome. – respondeu ela, rapidamente, já fechando a porta.

 

 William impediu-a de bater a porta e exclamou:

 

- Eu sei que ele está aqui, não adianta escondê-lo, ou será pior para a senhora. – olhando bem dentro dos olhos negros da mulher.

 

- Quem é o senhor? – perguntou, enfrentando-o.

 

- Fitzwilliam Darcy, o homem de quem a senhora ia sequestrar a irmã.

 

Darcy pensou ter visto a mulher estremecer, apesar da não tão intensa luz.

 

A sra. Younge não tentou mais lutar contra ele e deixou-o entrar.

 

Na pequena recepção havia velhas e gastas poltronas marrons, alguns quadros que retratavam paisagens ou figuras abstratas, e um cheiro de mofo muito forte.

 

- Aguarde um instante, vou chamá-lo. – a mulher já subia os degraus da velha escada de madeira quando ele perguntou:

 

- Quanto é a diária nesse albergue?

 

Ela observou-o com estranheza, mas respondeu:

 

- Quinze libras. – e voltou ao seu afazer anterior.

 

 

* Mochileiro: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mochileiro

http://www2.uol.com.br/mochilabrasil/

 

P.S.: Pessoal, a opinião expressa pela sra. Bennet acerca dos mochileiros não expressa a minha opinião sobre o assunto. Se eu pudesse também faria um “tour” pela América do Sul ou pela Europa, mas antes disso minha mãe teria um ataque tão grande quanto o da sra. Bennet. Rsrsrs.

 

** Essex: http://en.wikipedia.org/wiki/Essex

 

P.S.: O link está em inglês, pq em português não havia quase nada sobre o condado.

 

 

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