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Felicidade no casamento e meramente questão de sorte. (Jane Austen)

O Fruto da Honestidade - Capítulo 28

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Charles não esperou que o amigo falasse mais nada. Encerrou a ligação e pôs-se a pegar apenas seus pertences mais necessários.

 

Terminada sua tarefa – que ele concluiu em apenas quinze minutos -, se dirigiu ao aeroporto a fim de conseguir alguma vaga no primeiro vôo que saísse para Londres.

 

Infelizmente, por puro azar ou gozação do destino, todos os voos com destino a Londres estavam lotados. O primeiro avião que ainda suportava ocupantes decolaria apenas às quatro e meia da manhã. Mas não passava das onze horas àquele momento.

 

Ele afundou em uma das inúmeras poltronas espalhadas pelo aeroporto de Edimburgo.

 

“Droga! Como posso chegar a tempo em Londres?” – pensou ele, com os olhos fechados e tamborilando os dedos no joelho.

 

Naquele momento, a única coisa que lhe interessava era a saúde de Jane. Ele reconhecia que tinha agido como um idiota nos últimos meses e se culpara desde o início.

 

Não sabia como ela lhe trataria quando o visse. Aliás, Charles nem pensara nisso.

 

Sentado há meia hora, veio-lhe uma idéia à mente: “Se não podia viajar por ar, e por mar seria praticamente impossível naquele momento, ele poderia viajar por terra! E era o que faria!”

 

Partiu para a rodoviária. Nos postos de atendimento disseram-lhe que não sairia nenhum transporte àquela noite, muito menos para o destino dele.

 

Charles, frustrado, parou em frente à rodoviária com a sua mochila nas costas, apesar das incansáveis críticas de suas irmãs em relação aos seus hábitos “despojados”. Como elas diziam, agora ele era um grande empresário, e pessoas como ele não poderiam se vestir daquele modo. Mas, como sempre, ele não dava ouvidos a elas e prosseguia com sua vida.

 

Observou um homem que acabava de sair de um carro, enquanto seu motorista particular removia a bagagem do veículo.

 

“É, essa é a solução!”, pensou Bingley então.

 

******************************

 

Darcy abriu os olhos, inspirou fundo e espreguiçou-se, constatando que o dia já começara mais uma vez.

 

Levantou-se e foi direto para o banheiro tomar um banho.

 

Meia hora depois, já acabara de tomar o seu café da manhã e terminava seus costumeiros afazeres matutinos.

 

William fora dormir perturbado na noite anterior, tentando desvendar o efeito que a informação que dera a seu amigo surtira.

 

Tentou ligar para Bingley por várias vezes seguidas, mas ele não atendeu a nenhuma delas. Por isso, Darcy resolveu falar a Lizzie sobre sua conversa com o amigo e perguntar como estava a relação deste com Jane.

 

Chegou à empresa meia hora antes de seu horário habitual, o que fez Hannah olhá-lo com espanto.

 

- Bom dia, sr. Darcy. Não conseguiu dormir hoje? – perguntou a secretária, enquanto seu chefe se aproximava da mesa dela.

 

- Bom dia, Hannah. É, alguém não me deixou dormir... – enquanto passava em direção à sua sala.

 

Sua secretária, movida por sua curiosidade que acabara de ser aguçada pelas palavras do patrão, pôs-se a pensar em quem seria a tal pessoa.

 

“Claro! Só pode ser a senhorita Bennet! Ontem mesmo eles estavam no maior ‘clima’, entre olhares e sorrisos! E ainda almoçaram juntos! Lógico! Só pode ser ela!”– concluiu a mulher, achando que fizera a maior descoberta do século.

 

Mas suas divagações foram interrompidas pelo sr. Darcy, que se dirigia novamente a ela:

 

- Hannah, quando a Srta. Elizabeth chegar, diga-lhe que vá imediatamente à minha sala.

 

Os neurônios dela só borbulharam ainda mais em torno da suposição que fizera antes sobre o relacionamento do diretor com a advogada da empresa.

 

Também mais cedo que de costume, Elizabeth chegava ao trabalho. Hannah logo a cumprimentou:

 

- Bom dia, senhorita Bennet. Chegou mais cedo hoje?

 

- Bom dia. É, cheguei mais cedo mesmo. Não consegui dormir direito à noite.

 

A afirmação de Lizzie se referia, na verdade, às diversas andanças de sua mãe pelos cômodos do apartamento para verificar se Jane dormia bem. Como o imóvel era pequeno e o sono de Elizabeth muito leve, enquanto a sra. Bennet velava o sono de uma filha, acordava a outra.

 

Por outro lado, as palavras da advogada soaram como uma afirmação às proposições da secretária.

 

Quando Elizabeth já estendia a mão para girar a maçaneta da porta de sua sala, Hannah exclamou:

 

- Ah, Srta. Bennet! O sr. Darcy pediu que a senhora fosse à sala dele imediatamente.

 

- Tudo bem, obrigada Hannah. – respondeu Elizabeth, sorrindo.

 

Sim, agora já estava confirmado! A Srta. Bennet e o sr. Darcy estavam mesmo tendo um romance! O sorriso com que a Srta. Elizabeth recebera a informação do chamado que o sr. Darcy lhe fizera e o modo como ela saíra cantarolando do seu escritório para encontrá-lo só fizeram tudo se tornar ainda mais real para Hannah.

 

Assim, ela apressou-se a espalhar a notícia. A primeira a quem contou foi à secretária de Georgiana, Allison.

 

- Allie, você não sabe quem é o novo casal da empresa! – falou Hannah, entusiasmada por dividir sua descoberta com alguém.

 

- Quem?! Conte logo!

 

- O sr. Darcy e a srta. Bennet! Ontem eles passaram a noite juntos!

 

A secretária do diretor explicou, com detalhes, toda a história do casal à outra, que logo propôs-se voluntariamente a dizer aos outros a novidade.

 

******************************

 

Enquanto isso, na sala de Darcy...

 

- Bom dia, William! A Hannah disse que você pediu que eu viesse... – disse ela, sorrindo e andando em direção a ele, enquanto ele também ia ao seu encontro.

 

Trocaram um beijo apaixonado. Darcy segurava o rosto dela com as duas mãos e ela, com os braços envoltos no pescoço dele, acariciava-lhe a nuca e o cabelo sedoso.

 

- Bom dia, meu amor. Você está linda como sempre. – falou ele, entre um toque de lábios e outro.

 

- Obrigada, você também está maravilhoso.

 

William já se sentia seguro quanto ao sentimento dela por ele. Todos os momentos em que eles passavam juntos, seu maior prazer era agradá-la e mostrar seu amor. Ela, por conseguinte, retribuía as atenções dele com ainda mais amor e ternura.

 

- Senti tantas saudades suas... – disse ele, sem deixá-la partir de seus braços.

 

- Mas não nos vemos há... deixe-me ver... doze horas, vinte minutos e cinco segundos! – rindo.

 

- Para mim durou tanto quanto uma eternidade... um segundo sem você para mim já é uma tortura... – nunca parando de beijar os delicados lábios dela.

 

- Ah... então foi por isso que o senhor me chamou aqui, não é, sr. Darcy? – disse ela, apartando-se um pouco do abraço dele para provocá-lo. – Não sabes que aqui é um local de trabalho? E se meu patrão nos vê juntos... – riu. – Estou decepcionada com o senhor. –falou, fazendo uma expressão de frustração e fingindo repreendê-lo, o que o fez se lembrar do verdadeiro motivo por tê-la chamado à sua sala.

 

- É, na verdade não foi por isso que a chamei aqui. – murmurou, com a expressão fechando e seu sorriso se esvaindo.

 

- O que houve? Por que você está com essa cara? – ela preocupou-se, já que não via aquela expressão dele há muito tempo.

 

William indicou-lhe um sofá, que ficava no canto do escritório dele e sentaram-se. Inspirou forte antes de começar a falar, já que sabia o quanto Elizabeth amava a irmã e que talvez o assunto que ele trataria naquele momento fosse delicado.

 

Enfim, começou:

 

- Ontem liguei para Charles para contar sobre mim e você. Afinal ele é meu amigo e tem o direito de saber o que se passa comigo.

 

Ele fez uma pausa, mas ao perceber que ela não acrescentaria nada e estava esperando que ele continuasse a falar, prosseguiu:

 

- Já não falava com ele há algum tempo, desde que ele viajou para a Escócia.

 

Elizabeth apenas ouvia, queria descobrir aonde ele pretendia chegar com a narração.

 

- Inocentemente, comentei sobre a passagem de Jane pelo hospital.

 

Lizzie arregalou os olhos e embranqueceu.

 

- O que ele falou sobre isso? – perguntou ela, curiosa e alarmada.

 

- Ele disse que precisava desligar e encerrou a ligação. – respondeu Darcy, ainda mais ávido para saber o motivo que levou à reação de Bingley.

 

- Ele o QUÊ? – exclamou, quase gritando. – Como assim, ele desligou?

 

- Ele pareceu preocupado e desligou, como se estivesse atrasado, ou algo do tipo.

 

- Estranho... muito estranho...

 

- Estranho por quê?

 

- Porque desde que ele viajou para Edimburgo só enviou uma ÚNICA mensagem para a Jane. Ela tentou contatá-lo muitas outras vezes, mas ele nunca atendia.

 

- Não, isso não é possível... apesar de já ter visto o Charles apaixonado em inúmeras ocasiões, nunca o vi gostar de alguém tanto quanto da sua irmã. Lembro-me até agora do que ele me disse na festa de Georgiana. Bingley falou que Jane era a mulher da vida dele. Eu não dei muita importância, mas ao ver o relacionamento dos dois e notar o jeito como ele fala dela, percebi que ele gostava profundamente da sua irmã.

 

- Então por que ele a deixou?

 

- Não sei! É o que estou tentando entender! – William gesticulou, num tom calmo, mas ainda confuso.

 

O diálogo morreu, e eles ficaram apenas se olhando, como se a resposta para a atitude de Charles estivesse escrita nos olhos do outro.

 

- Bom, agora tenho que ir. – balbuciou Lizzie, levantando-se. – Há pilhas de papéis me esperando para que eu os analise. – riu e depositou um beijo rápido nos lábios dele.

 

Ele correspondeu ao beijo e ficou olhando a figura dela sair de sua sala.

 

*****************************

 

Caroline chegou ao trabalho um pouco atrasada. Ela alternava seus dias de trabalho entre a Bingley Publicidade e a Darcy Imobiliária.

 

Andava à sua sala com o nariz empinado, como se as pessoas não merecessem sua atenção. Às vezes, quando algum funcionário lhe cumprimentava, fazia isso por obrigação ou por educação somente.

 

A Srta. Bingley já quase chegava ao seu destino quando alguém a interrompeu. Era Robert, um Consultor de Imóveis, assim como ela.

 

- Bom dia, Caroline. Já soube da novidade? – seus olhos verdes brilhavam de satisfação e ele sorria maliciosamente.

 

- Que novidade? – perguntou ela, tentando parecer indiferente, mas se corroendo de curiosidade.

 

- Seu querido Darcy está namorando a advogada, Elizabeth. Ontem eles passaram a noite juntos... – ele sorriu ainda mais ao ver a expressão de horror da “colega” de trabalho.

 

Caroline já desconfiava que Darcy e Elizabeth estavam tendo algum tipo de relacionamento amoroso, por tudo que vira e ouvira no Derbyshire. Mas não imaginava que todos já estivessem a par da notícia.

 

- Como você soube disso? – perguntou com firmeza e autoridade na voz ferina.

 

- Todos já sabem disso. Hannah que descobriu. Engraçado como você foi a última a saber, não é? – ele gargalhou, debochando dela.

 

Ela então o ignorou e partiu para seu escritório. Sem dispensá-lo mais alguma palavra ou minutos de sua atenção.

 

Entrou rápido e pôs-se a andar de um lado para outro na sala, pensando no que faria para mudar aquela situação.

 

“Já sei!” – pensou ela, saindo em direção à mesa de Hannah.

 

 

- Olá, Hannah. Bom dia. – falou, em um tom inegavelmente venenoso.

 

- Bom dia, Caroline. – a mulher respondeu com indiferença e voltou aos seus afazeres, apesar de ter achado estranho que Caroline Bingley viesse lhe cumprimentar, sem nenhum motivo aparente.

 

- Eu soube que você espalhou um boato sobre um suposto romance entre Darcy e Elizabeth. – a secretária olhou-a com espanto, pedira a Allie que não dissesse que fora ela quem descobrira o namoro do patrão.

 

- E...?

 

- E você repassou a informação errada! O sr. Darcy não passou a noite com a Srta. Bennet ontem, e sim comigo! – sorriu, triunfante.

 

Hannah não acreditava no que ouvira. Ela sabia — e todos os funcionários da empresa também – que há muito Caroline tentava conquistar Darcy e não conseguia. Poderá ele ter sido vencido pelo cansaço? Talvez, mas parecia improvável, devido à indiferença que ele demonstrava pela irmã de seu melhor amigo.

 

E o que existia entre ele e a Srta. Bennet? Não poderia ser nada, já que ninguém poderia olhar com tanto ardor para alguém que não estivesse apaixonado.

 

Será que a relação entre Darcy e Caroline Bingley era apenas sexo?

 

“Homens...” – resmungou, em pensamento.

 

Com mil e uma proposições fervilhando em sua cabeça, a secretária resolveu compartilhar suas dúvidas com alguém. Correu a contar para Allie.

 

Allie logo concluiu que a história de Caroline era a correta, mas que Darcy só ficara com ela pelo sexo. Assim, a secretária da vice-presidente apressou-se a corrigir seu erro e a transmitir a “verdadeira” versão dos fatos.

 

Caroline gargalhou internamente ao perceber que seu plano surtira o efeito esperado. Logo Eliza Bennet saberia a quem pertencia William Darcy.

 

Algum tempo após a fofoca ter novamente se espalhado, Hannah viu Lizzie saindo da sala de Darcy com uma expressão que parecia ter sido tomada pela preocupação e pela tristeza.

 

Imaginando que Darcy contara sobre Caroline e que essa fosse a razão do sofrimento da advogada, Hannah sentiu seu senso de solidariedade aflorar e foi ao encontro de Elizabeth, para confortá-la.

 

- Srta. Elizabeth, eu sinto muito pelo que aconteceu...

 

Lizzie perguntou-se como aquela mulher sabia sobre sua irmã. Porém, lembrou-se que notícias ruins se espalhavam rapidamente e aceitou a solicitude da secretária, que continuou:

 

- Sei que deve ser difícil receber uma notícia dessas, mas é necessário que prossigamos com nossas vidas.

 

Elizabeth assentiu com a cabeça e Hannah não parou de falar:

 

- A senhorita deve entender que é assim que os homens agem.

 

“Homens? Ela já soube até sobre o Charles?” – divagava Lizzie.

 

- Eles só pensam em sexo mesmo. – não parava de tagarelar, a mulher. – Mas você não deve ficar com raiva do sr. Darcy, ele agiu controlado pela sua libido.

 

“Darcy? Libido? Sobre o que ela está falando?” – Elizabeth não entendia mais nada.

 

- Desculpe-me, mas sobre o que a senhora está falando? – perguntou Lizzie, confusa.

 

- Sobre a noite passada, que o sr. Darcy passou com a srta. Bingley.

 

- Como?! – exclamou ela, quase gritando.

 

- Eu achei que ele havia lhe contado...! – respondeu Hannah, prevendo que fizera besteira.

 

- Não, ele não me contou. – falou, voltando à sala de Darcy e entrando sem bater à porta.

 

William estava compenetrado em seus afazeres, com a cabeça ligeiramente curvada, analisando algo em seu computador.

 

Elizabeth, sem rodeios, disse, fechando a porta atrás de si:

 

- Como você pôde? Achei que o amor que você declarara sentir por mim fosse sincero... Mas já vi que me enganei. – fez uma pausa. – Não sei como caí nesse seu joguinho... e em pensar que eu achava que você era o cara certo pra mim, que você era o homem que eu jamais amei...! – deixou escapar uma risadinha mergulhada em decepção e desgosto.

 

Darcy olhava para ela, sem entender nada.

 

Ela prosseguiu seu discurso, sem compaixão.

 

A mágoa entalada em sua garganta estava disposta a sair, e Elizabeth não pretendia interrompê-la. Ela sempre fora uma mulher cuidadosa, que pensava duas vezes antes de se apaixonar, mas agora achava que se entregara muito cedo a essa paixão que tomara conta dela e que por isso sofria naquele momento.

 

- Ainda mais com a Caroline... você disse que NUNCA ficaria com ela... Oh meu Deus, como eu fui idiota... – Lizzie falou, massageando a testa.

 

- Como assim? Do que você está falando, Lizzie?

 

- Não me chame de Lizzie! Eu não quero que se dirija mais a mim com tanta intimidade!

 

- Mas eu não estou entendendo nada! Por que você está agindo desse jeito? – William já estava à beira da aflição, e as palavras dela só o faziam ficar cada vez mais confuso.

 

- Então nega que passou a noite com a Caroline ontem? O sr. nega, sr. Darcy? – Elizabeth cuspiu as últimas palavras na face dele, com a máxima quantidade de raiva que poderia suportar.

 

- Eu o quê? Que loucura é essa? – exclamou Darcy, dando um salto de sua cadeira, totalmente intrigado.

 

- Agora eu sou louca?! É melhor assumir seus atos do que se esconder nessa máscara de bondade e sensibilidade.

 

- Elizabeth, eu realmente não estou entendendo o que está acontecendo. Você poderia, por favor, me explicar? – perguntou ele, no tom mais calmo que pôde.

 

**********************************

 

A manhã já estava em sua metade quando o interfone do apartamento das irmãs Bennet tocou.

 

Jane ouvia música no quarto enquanto escrevia em seu caderninho de poesias, sentada na cama; seu pai lia os jornais e sua mãe preparava o almoço na cozinha.

 

A sra. Bennet logo atendeu ao interfone:

 

- Alô?! – disse ela.

 

- Há um homem aqui na portaria cujo nome é Charles Bingley e que deseja ir até o seu apartamento. – falou o porteiro, no costumeiro tom formal.

 

- Oh! Deixe-o subir, é claro! – exclamou a mulher, exultante de felicidade.

 

Encerrou a ligação, pondo o aparelho telefônico em seu devido lugar.

 

- Quem era, Judith? – perguntou seu marido, que até aquele momento estivera mergulhado no que lia.

 

- O porteiro. Ele disse que o sr. Bingley estava na portaria e eu mandei-o subir.

 

- Você deixou ele subir?! Não vês que a Jane ainda está se recuperando?!

 

- Claro, mas o filho que ela esperava era também do sr. Bingley. E pelo que eu soube, as circunstâncias que causaram o rompimento deles não foram totalmente esclarecidas.

 

- Ainda assim você não deveria ter feito isso! – pausa. – Vou comunicar à Jane que ele está chegando. Pelo menos para ela se preparar, já que não há mais jeito. – murmurou o sr. Bennet, enquanto se levantava do sofá onde estivera sentado até agora e se dirigia ao quarto da filha.

 

Ele bateu à porta e entrou.

 

- Minha filha, acho melhor você se preparar, porque o sr. Bingley deve chegar aqui a qualquer momento.

 

- Como? Charles? O que ele faz aqui? – perguntou ela, atordoada.

 

- Não sei, o porteiro acabou de interfonar, dizendo que ele estava na portaria e sua mãe deixou-o subir.

 

Jane ia falar mais alguma coisa, quando a campainha tocou.

 

“Estou perdida! O que ele quer aqui?” – pensou ela, nervosa.

 

O sr. Bennet lançou-lhe um único olhar de piedade, como se dissesse “você deve ser forte e resolver sua vida sozinha, Jane”, e deixou o cômodo.

 

Chegando à sala, encontrou sua mulher, que, sorridente, recebia o ex-genro. Esse último parecia cansado, abatido e nervoso, além de responder com sorrisos afetados e monossílabos às tagarelices da sra. Bennet.

 

O patriarca da família Bennet restringiu-se a olhá-lo minuciosamente, como se procurasse os motivos que levaram o sr. Bingley até ali, e a cumprimentá-lo polidamente.

 

Enfim, após cinco longos minutos de diálogo – ou melhor, monólogo – com a sra. Bennet, Charles Bingley pediu para ver Jane.

 

De bom grado, a mãe da última conduziu-o até o quarto da filha. Ela abriu a porta do quarto e fê-lo entrar, deixando Charles e Jane sozinhos.

 

Bingley entrou no quarto, receoso. Percebeu que Jane estava na cama, sentada. Observou o cômodo e lembrou-se da noite maravilhosa que haviam passado juntos. Aquilo poderia ter acontecido há meses atrás, mas, na mente dele, cada detalhe continuava presente, mais nítido do que nunca.

 

Jane apenas olhava para ele, levemente enrubescida. Diversos sentimentos misturavam-se dentro dela naquele instante: mágoa, tristeza, rejeição, saudade, raiva, e o mais perigoso de todos: o amor.

 

Ele resolveu quebrar o silêncio e fazer o que planejara durante oito horas, enquanto viajava para Londres de carro.

 

- Er... Oi, Jane. – começou ele, se aproximando da cabeceira da cama dela. – Eu soube que você esteve no hospital, não aguentei de preocupação e vim para Londres o mais rápido que pude.

 

Ela tentava reunir força e resistência bastantes para que não sucumbisse ao discurso dele, nem àqueles olhos, nem à boca, ou qualquer outra parte do corpo. Muito menos ao sentimento que sabia ainda ter por ele.

 

- Eu estou melhor, obrigada. – respondeu Jane, em um tom extremamente seco.

 

- Que bom, fico aliviado... Mas é só isso que você tem a me dizer? – ele se aproximava cada vez mais da cama dela, o que a deixava ainda mais nervosa.

 

- Sim, o que esperava que eu dissesse? – perguntou ela, impaciente, mas ainda com a voz bondosa.

 

- Jane... – balbuciou, sentando-se junto a ela, na cama. – Eu sei que fui um idiota, sei que não deveria ter te deixado sozinha aqui, sem notícias minhas... Desculpe-me, por favor. – Ele tentou segurar a mão de Jane, mas ela apartou-a dele e levantou-se da cama, ficando de costas para Charles.

 

A filha mais velha dos Bennet conseguiu levantar-se devagar, ainda sentia-se um tanto fraca, e a presença de Charles só fazia suas pernas fraquejarem ainda mais.

 

- Jane, por favor... eu te amo! – continuou ele. – Por favor, diga alguma coisa.

 

- Charles, não há mais nada que possa ser dito. Eu passei meses esperando por você, liguei inúmeras vezes para a sua empresa em Edimburgo, para o seu celular, enviei incontáveis emails... e o que eu devo fazer agora? Desculpar-lhe e nós voltamos a namorar? Eu não posso fazer isso... – disse ela, enxugando uma pequenina lágrima que roçava o seu rosto.

 

- Jane...

 

- Você não precisa me pedir desculpas. – pausa. – Nós poderíamos voltar a ser amigos, quem sabe... – talvez essas últimas palavras dela tenham doído mais nela própria do que nele.

 

- Amigos? Nós nunca fomos amigos! – protestou ele, levantando-se, dando a volta na cama e forçando-a a fitá-lo. – Amei-te desde a primeira vez que te vi, você sabe disso!

 

- Eu não posso mais, Charles... já sofri demais, não quero mais me machucar. – ela falou rápido, a respiração dele, tão próxima à sua, estava embriagando-a.

 

- Eu sei que deve ter sido horrível para você toda essa espera, toda a distância...

 

- Não foi apenas isso. – ela abaixou a cabeça mas ele reergueu o queixo dela, fazendo-a encará-lo novamente.

 

- O que foi, então? – perguntou ele, seus olhos estavam ávidos por respostas.

 

- Charles, eu... eu... eu engravidei de você. – disse de uma só vez, antes que perdesse a coragem.

 

- Como? Você vai ter um filho meu? – exclamou, com os olhos marejados e um sorriso radiante.

 

- Não... – ela não conseguia olhá-lo.

 

- Como assim, não? Você acaba de me dizer que... – gesticulando.

 

- Eu sofri um aborto... espontâneo... e foi por isso que eu estive no hospital.

 

- Não, não, não... isso não pode ser verdade! Nosso filho... fruto de nosso amor! – ele andava de um lado a outro, em plena agonia.

 

- É a mais pura verdade... – as lágrimas insistiam em cair, e cada vez mais em maior quantidade. – E o nosso amor... acho que ele morreu junto com o nosso bebê...

 

- Por favor, Jane. Não diga isso! Vamos recomeçar!

 

- Não, Charles. Eu não consigo mais... – ela parou de falar por um momento e os dois se fitaram. Ambos marcados por profunda dor. – Deixe-me sozinha, por favor. – ela pediu, como num último suspiro.

 

Charles ainda olhava-a, decepcionado. Observou-a por mais um instante e se foi. Cumprimentou polidamente o sr. e a sra. Bennet, mas logo saiu do apartamento.

 

Entrou no primeiro táxi que viu e pediu que o taxista o levasse para seu apartamento.

 

Dentro do carro, uma música tocava, o que fez Bingley se identificar e manter sua decisão de reconquistar Jane:

 

 

Won't Go Home Without You

"Não irei para casa sem você"

(Maroon 5)

 

I asked her to stay, but she wouldn't listen

Eu pedi para ela ficar, mas ela não me ouviu

 

She left before I had the chance to say

Ela foi embora antes que eu tivesse a chance de dizer

 

The words that would mend the things that were broken

As palavras que consertariam as coisas que estavam quebradas

 

But now it's far too late, she's gone away

Mas agora é tarde demais, ela foi embora

 

 

Every night you cry yourself to sleep

Toda noite você chora até dormir

 

Thinking: "Why does this happen to me?

Pensando "Por que isso acontece comigo?

 

Why does every moment have to be so hard?"

Por que todo momento tem que ser tão difícil?"

 

Hard to believe that

Difícil acreditar nisso

 

 

It's not over tonight

Não acabou esta noite

 

Just give me one more chance to make it right

Apenas me dê mais uma chance para me redimir

 

I may not make it through the night

Eu posso não sobreviver durante a noite

 

I won't go home without you

Eu não irei para casa sem você

 

 

The taste of her breath, I'll never get over

O gosto do hálito dela, eu nunca superarei

 

The noises that she made kept me awake

Os barulhos que ela fazia me deixavam acordado

 

The weight of things that remained unspoken

O peso das coisas que não foram ditas

 

Built up so much it crushed us everyday

Aumentou tanto que nos esmagava todos os dias

 

 

Every night you cry yourself to sleep

Toda noite você chora até dormir

 

Thinking: "Why does this happen to me?

Pensando "Por que isso acontece comigo?

 

Why does every moment have to be so hard?"

Por que todo momento tem que ser tão difícil?"

 

Hard to believe that

Difícil acreditar nisso

 

 

It's not over tonight

Não acabou esta noite

 

Just give me one more chance to make it right

Apenas me dê mais uma chance para me redimir

 

I may not make it through the night

Eu posso não sobreviver durante a noite

 

I won't go home without you

Eu não irei para casa sem você

 

 

Of all the things I felt but never really shown

De todas as coisas que eu senti, mas nunca demonstrei

 

Perhaps the worst is that I ever let you go

Talvez a pior seja que eu te deixei partir

 

I should not ever let you go,

Eu nunca deveria ter te deixado partir

 

 

It's not over tonight

Não acabou esta noite

 

Just give me one more chance to make it right

Apenas me dê mais uma chance para me redimir

 

I may not make it through the night

Eu posso não sobreviver durante a noite

 

I won't go home without you

Eu não irei para casa sem você

 

 

It's not over tonight

Não acabou esta noite

 

Just give me one more chance to make it right

Apenas me dê mais uma chance para me redimir

 

I may not make it through the night

Eu posso não sobreviver durante a noite

 

I won't go home without you

Eu não irei para casa sem você

 

And I won't go home without you

E eu não irei para casa sem você

 

And I won't go home without you

E eu não irei para casa sem você

 

And I won't go home without you

E eu não irei para casa sem você

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=j6voJ1sgY_0

 

 

**********************************************

 

- Não finja inocência! Eu não vou perder meu tempo explicando o que você já sabe! – exclamou Elizabeth, furiosa.

 

Ela saiu do escritório dele como um furacão após essas últimas palavras. Darcy assistiu-a ir, ainda sem entender nada. Há cinco minutos atrás eles se relacionavam perfeitamente, o que acontecera agora?

 

William simplesmente não compreendia. Ainda tentou seguí-la, fazê-la esclarecer as coisas. Porém, Lizzie entrara em sua própria sala sem dirigir um único olhar para ninguém, muito menos para Hannah, que observava tudo assustada.

 

Ver seu patrão olhando tristemente na direção em que Elizabeth Bennet se dirigia fez a secretária perceber ainda mais que fizera algo errado.

 

Assim, Hannah, sentindo-se extremamente culpada por toda aquela situação, foi até a sala do sr. Darcy, antes que ele fechasse a porta.

 

- Sr. Darcy, com licença, eu gostaria de falar com o senhor. – começou a mulher, afetadamente nervosa.

 

- Hannah, me perdoe, mas agora não quero falar com ninguém. – disse, esfregando uma de suas mãos no cabelo. Sentia que seu mundo desabara novamente.

 

- Mas é de seu interesse...!

 

- Não há nada em que eu possa me interessar neste momento. Por favor, deixe-me sozinho. – afundando em sua cadeira e fechando os olhos.

 

- É sobre a Srta. Bennet. – persistiu a mulher, sua consciência incomodava-na de modo latejante.

 

Darcy enfim encarou-a e perguntou o que ela desejava dizer.

 

A secretária contou-lhe cada detalhe da confusão que causara, inclusive a contribuição significativa de Caroline Bingley naquela estória toda.

 

Ao fim da narrativa da secretária, William, esbravejando de raiva, mandou que Hannah não se preocupasse, que ele resolveria tudo. Não sem antes mencionar o mal que fazem as conclusões precipitadas e a divulgação desenfreada da vida alheia. Além de deixar estabelecido que aquele era um local de trabalho, e não especulação jornalística.

 

A secretária deve ter entendido o recado, já que deixara, lívida, a sala de Darcy.

 

Agora, tudo o que William Darcy precisava era descobrir uma forma de desfazer o mal-entendido e se reconciliar com Lizzie, além de impedir que Caroline Bingley interviesse novamente em sua vida.

 

*******************************

 

Jane, após a saída extremamente dolorosa de Charles, sentou-se novamente na cama, repondo o caderninho de poesias em seu colo e ouvindo a música que começava a tocar em seu rádio naquele instante, enquanto grossas lágrimas molhavam o seu rosto:

 

 

 

Don't Waste Your Time

Não Perca Seu Tempo

(Kelly Clarkson)

 

It's over, it's over, it's over...

Está acabado, Está acabado, Está acabado...

 

It seems you can't hear me

Parece que você não consegue me escutar

 

When I open my mouth you never listen

Quando eu abro minha boca você nunca escuta

 

You say stay, but what does that mean

Você diz fica, o que isso significa?

 

Do you think I honestly want to be reminded forever

Você acha que eu honestamente quero ser lembrada para sempre?

 

 

Don't waste your time trying to fix

Não perca seu tempo tentando consertar

 

What I want to erase

O que eu quero apagar

 

What I need to forget

O que preciso esquecer

 

Don't waste your time on me my friend

Não perca seu tempo comigo meu amigo

 

Friend, what does that even mean?

Amigo, o que isso significa mesmo?

 

I don't want your hand

Eu não quero sua mão

 

You'll only pull me down

Você só vai me puxar pra baixo

 

So save your breath

Então economize seu fôlego

 

Don't waste your song

Não perca sua música

 

On me, on me

Comigo, comigo

 

Don't waste your time

Não perca seu tempo

 

 

It's not easy not answering

Não é fácil não responder

 

Every time I want to talk to you

Toda vez que eu quero falar com você

 

But I can't

Mas eu não posso

 

If you only knew the hell I put myself through

Se você apenas soubesse o inferno em que me coloquei

 

Replaying memories in my head of you and I

Relembrando de coisas em minha cabeça sobre você e eu

 

Every night

Toda noite

 

 

Don't waste your time trying to fix

Não perca seu tempo tentando consertar

 

What I want to erase

O que eu quero apagar

 

What I need to forget

O que preciso esquecer

 

Don't waste your time on me my friend

Não perca seu tempo comigo meu amigo

 

Friend, what does that even mean?

Amigo, o que isso significa mesmo?

 

I don't want your hand

Eu não quero sua mão

 

You'll only pull me down

Você só vai me puxar pra baixo

 

So save your breath

Então economize seu fôlego

 

Don't waste your song

Não perca sua música

 

On me, on me

Comigo, comigo

 

Don't waste your time

Não perca seu tempo

 

 

You're callin'

Você está ligando

 

You're talkin'

Você está falando

 

You're tryin'

Você está tentando

 

Tryin' to get in

Tentando voltar

 

But it's over, it's over, it's over

Mas está acabado, está acabado, está acabado

 

Friend

Amigo

 

 

Don't waste your time trying to fix it

Não perca seu tempo tentando consertar

 

So save your breath, don't waste your song

Então economize seu fôlego, não perca sua música

 

On me, on me

Comigo, comigo

 

Don't waste your time

Não perca seu tempo

 

 

You held me

Você me segurou

 

You felt me

Você me sentiu

 

You left me

Você me deixou

 

But it's over, it's over, it's over

Mas está acabado, está acabado, está acabado

 

You touched me

Você me tocou

 

You had me

Você me teve

 

But it's over, it's over, it's over my friend

Mas está acabado, está acabado, está acabado

 

Don't waste my time

Não perca meu tempo

 

 

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