Citações

Não podemos exigir que um rapaz despreocupado seja sempre prudente e circunspecto. Muitas vezes é apenas a nossa vaidade que nos engana. (Jane Austen)

O Fruto da Honestidade - Capítulo 23

  • Imprimir
  • E-mail

A semana passara rápido e logo chegara o final de semana.

 

O sol estava muito claro, e o céu, límpido. Nenhuma nuvem ousava esconder a luz do astro-rei.

 

Lizzie acabava de arrumar suas coisas, juntamente com Jane, que a ajudava.

 

Ficara combinado que iriam todos juntos, em um carro contratado pela empresa.

 

Georgiana, Darcy e Caroline passariam no prédio de Elizabeth para buscá-la às oito da manhã. Assim, a última estava apressada porque ainda não conseguira organizar tudo.

 

Faltando quinze minutos para as oito horas, ela acabou de arrumar sua bagagem. Dentro de sua mala havia roupas formais e informais. Até um biquíni ela levara, mas fora por pura insistência de Jane.

 

Já saía do seu quarto com a mala em direção à sala quando sua irmã lhe interrompeu.

 

- Lizzie, estava tão atarefada que esqueci de te dizer. Recebi um email essa semana...

 

Elizabeth interrompeu-a, não deixando sua irmã concluir.

 

- Do Charles? O que ele falou?

 

- Não, não foi do Charles. – com um ar melancólico quase imperceptível.

 

- Mas você não disse que tinha ligado para aquele número que a Caroline te deu?

 

- Sim, liguei. Mas quem atendeu foi a secretária, disse que ele estava em reunião e depois retornaria. Mas até agora não recebi nada dele.

 

“O Charles está se comportando como um belo de um canalha...” – pensou Elizabeth.

 

- Então de quem foi o email?

 

- De Lydia. Mas a pedido de nossa mãe.

 

- E o que dizia?

 

- Espera, eu imprimi para você ler. Vou buscá-lo.

 

Jane, então, correu ao seu quarto e pegou o papel dobrado em sua bolsa. Voltou ao quarto da irmã e disse:

 

- Pronto, está aqui. Leia.

 

“Querida Jane,

Você deve estar achando estranho receber um email meu em plena noite, enquanto eu poderia estar me divertindo com meus amigos e paquerando alguns caras, mas a pedido de nossa mãe – aliás, a pedido não, há dias que ela não larga no meu pé a fim de que eu mande este email -,”

- Nossa mãe não muda nunca... – falou Lizzie, interrompendo a leitura, com uma risada.

 

Continuou a ler:

 

“Ela está muito preocupada com vocês. Em como vocês estão, se estão indo bem no trabalho e se estão se alimentando direito... enfim, coisas de mãe. Perguntou também pelo bonitão do Charles Bingley, se ele já se declarou para a Jane. Fala às vezes no Darcy, disse que espera que a Lizzie e sua língua afiada amoleçam o coração dele, ou, na pior das hipóteses, que o deixem carrancudo para o resto da vida.

E, antes que fiquem se perguntando, ou melhor, ME perguntando, estamos muito bem.

Nessas duas semanas que retornamos para casa ocorreu tudo bem. Agora, a vida segue seu curso normal:

Papai sempre ocupado com seus livros, a mamãe e os seus nervos, a Mary com toda a sua sabedoria forçada e a Kitty e eu com nossa diversão!

Um imenso beijo,

Lydia Bennet

P.S.: Desculpem-me se escrevi pouco, mas estou atrasada para um encontro!

Tchau, irmãzinhas!”

 

 

- A Lydia sempre namoradora... isso um dia vai comprometê-la.

 

- Talvez sim, mas ela ainda é muito nova.

 

- Mas o que forma nosso futuro é o nosso presente, minha cara Jane.

 

Elas ficaram em silêncio por um instante. Jane, pensando na frase “filosófica” que Elizabeth acabara de citar; Lizzie, imaginando como seria essa viagem.

 

O acordo era que ela demoraria o tempo necessário para que o negócio fosse concluído.

 

Apesar de ser uma viagem por fins profissionais, Georgiana alertara Lizzie para que ela fosse com roupas informais, mais confortáveis. Para o tempo em que ficariam no carro. Afinal, seria quase insuportável passar três horas em um carro usando uma saia lápis e blazer.

 

Assim, antes de irem para a tal propriedade, parariam no hotel e trocariam de roupas.

 

Dando-se conta da hora, Lizzie decidiu esperar seus companheiros de viagem no saguão do prédio. E foi o que fez.

 

Mas, antes de ir, despediu-se de sua irmã:

 

- Tchau, Jane. Cuide de si e do meu lindo sobrinho que está se formando. E não se preocupe em ficar sozinha. Já liguei para a Char e pedi que ficasse aqui com você durante esses dias.

 

- Elizabeth! Não precisava disso! Eu estou grávida, não doente! E sei me cuidar sozinha. – com seu costumeiro tom bondoso.

 

- Ela vai apenas te fazer companhia!

 

- Ela sabe que estou...

 

- Não, eu não contei. Mas se quiser, pode contar. Você sabe que ela é de confiança.

 

- Tudo bem irei dizê-la.

 

- Então, eu já vou. Se eu chegar atrasada novamente o sr. Darcy vai fazer outro escândalo... – falou, exageradamente. A lembrança da face carrancuda dele fê-la rir. – Tchau, minha irmã.

 

- Tchau, Lizzie. Faça uma boa viagem!

 

- Obrigada. – disse, saindo do apartamento, arrastando sua mala azul-escura com rodinhas.

 

Ela odiava ter que levar aquela bagagem toda, mas como não sabia quanto tempo passaria fora de casa e ainda era preciso levar alguns blazers e outras roupas que ocupavam muito espaço, aquela mala fora essencial.

 

Chegando à portaria do prédio, percebeu que um carro se aproximava da entrada do lugar. O veículo era quase um microônibus.

 

Viu que o motorista se aproximava dela e percebeu o rosto de Georgiana dentro do móvel, através de uma janela aberta. Esta lhe sorria e a convidava para entrar.

 

Elizabeth, então, andou até o carro e deixou que o motorista carregasse sua bagagem até a mala do carro.

 

Entrou e viu que todos já estavam ali. Sentou-se e começou um diálogo com Georgiana, depois de ter cumprimentado os outros.

 

Por um momento, seus olhos pousaram no sr. Darcy e teimavam em se apartar dele. Ela realmente não podia negar. Apesar de todos os defeitos, ele era o homem mais belo que já vira em sua vida.

 

Ele usava um belo suéter de lã azul-claro, que parecia ter o poder de deixar seus olhos ainda mais brilhantes e azuis, e uma calça jeans básica.

 

Ela sentiu um tremor por todo o corpo e seu coração palpitava. Tinha a impressão de que havia corado.

 

Ele, por sua vez, não tirava os olhos dela. Aliás, há meses era impossível fazer isso. Principalmente quando ela estava tão bonita.

 

“Tão simples, mas tão bela...” – pensou ele.

 

Ela parecia ainda mais sensual com a regata branca, o casaco vermelho e as calças jeans. Tudo parecia ter sido feito sob medida para ela.

 

Os cabelos soltos completavam seu look e davam-lhe um ar descontraído.

 

Ele decidira que faria de tudo para conquistá-la naqueles dias em que passariam juntos.

 

“Essa é minha única chance.” – William planejava, enquanto intercalava olhares entre a paisagem que transparecia à sua janela e a outra sentada à sua frente. Ambas muito belas.

 

Todos pareciam estar se divertindo naquele veículo. Mas, uma única pessoa não gostava tanto da situação.

 

Há apenas dez minutos que Elizabeth entrara no carro e já mantinha a atenção de todos os presentes sobre ela. Conversava animadamente com Georgiana e Darcy, eventualmente, também emitia suas opiniões. Mas não parava de olhá-la atentamente.

 

“Ele parece estar enfeitiçado!” – pensou Caroline, inconformada.

 

Tentou começar um diálogo com Darcy, que estava sentado ao seu lado, mas ele respondia-lhe apenas com monossílabos, e quando fazia-o!

 

Ela, então, lembrou-se da estória que inventara para Lizzie há alguns meses atrás:

 

“Eu e William estamos namorando...” – riu por dentro ao relembrar como Lizzie acreditara naquilo tão facilmente.

 

Como para reerguer seu plano, entrelaçou seu braço no de William, que olhou-a confuso e apartou-se de modo que as tentativas dela não se concretizassem.

 

- William, querido. É que estou com frio, deixe-me aquecer o meu braço no seu. – tentou argumentar, ela.

 

- Se está com frio, por que não usa um casaco? – respondeu ele, sério. A última coisa que ele gostaria era que ela estragasse suas tentativas com Elizabeth.

 

Lizzie segurou uma risadinha ao perceber as intenções frustradas de Caroline.

 

Georgiana apenas lançou um olhar preocupado à Caroline, já que sabia da aversão de seu irmão a ela e também desconfiava que ele estivesse interessado em Lizzie. Percebera pelos olhares dele à última e pelos modos que ele a tratava.

 

- Mas Will... já estou com um casaco! – rebateu a Srta. Bingley, se referindo ao casaco de peles marrom que usava, juntamente com uma calça jeans muito justa que realçava suas pernas finas e uma bota, também marrom.

 

- Vista outro. E, por favor, não me chame de Will. Odeio ser chamado assim e não o fazem desde o colégio. – ele falou, tentando não parecer alterado nem rude frente à Elizabeth. Apesar de que ficar indiferente às investidas irritantes de Caroline seria muito duro.

 

Após a resposta dele, Lizzie olhou-o mais séria do que a vez anterior. Mesmo sem querer confessar, ela sentiu uma pontada de ciúmes ao ver a discussão dos dois.

 

“Não adianta fingir, sr. Darcy. Todos os presentes aqui sabem do seu relacionamento com essa...” – Lizzie freou seus pensamentos ao perceber que pensaria em algum apelido ferino para a outra. “Parece que ela veio preparada mesmo para o clima ‘interiorano’ do Derbyshire... com botas de couro e um casaco de peles...” – ela riu internamente com suas divagações.

 

Elizabeth continuou sua conversa com Georgiana e percebeu que Caroline sempre procurava manter alguma conversação com Darcy ou, quando não obtinha resposta, tentava lançar seu veneno sobre ela.

 

Lizzie não deu importância aos comentários fúteis e pedantes de Caroline.

 

De vez em quando voltava sua atenção para a janela. Adorava observar a natureza. Todo seu calor e mistura de cores faziam-lhe tão bem! Era realmente uma pena que não podia mais passar tanto tempo no campo. Mas quando morava com seus pais sempre ia fazer uma caminhada no parque ou apenas observava o céu, deitada na grama.

 

Darcy notara a afeição dela pelo meio ambiente. Notou também que suas feições se iluminavam quando assistia àquela imensidão verde que estava tomando conta da janela.

 

O condado para onde iriam era o Derbyshire, famoso por ter as mais maravilhosas paisagens da Inglaterra rural.

 

Assim, após duas horas e meia dentro do carro, chegaram à fronteira do condado.

 

Caroline liberou um suspiro cansado e esnobe e disse:

 

-Oh, finalmente estamos chegando! Eu já estava cansada de ficar sentada. – exclamou, remexendo-se em seu lugar.

 

Os outros apenas lhe dirigiram um rápido olhar e seguiram o que estavam fazendo.

 

O percurso deles enfim acabou um pouco mais de meia hora depois.

 

Pararam no hotel. Era, na verdade, uma gigantesca mansão do século XIX que fora reformada e transformada em um hotel fazenda.

 

Sua área era composta por uma imensa parte verde, que desaparecia além do horizonte.

 

Era rodeado por canteiros dos mais variados tipos de flores. Em sua lateral, havia um estábulo com pomposos cavalos à disposição dos hóspedes. Nos fundos, uma enorme piscina, juntamente com uma área de lazer.

 

Eles entraram, amparados pelos funcionários do lugar, que carregaram suas malas.

 

Como a reserva já fora feita antecipadamente por Hannah, a secretária do sr. Darcy, todos logo se dirigiram aos seus quartos.

 

Estes ficavam em um mesmo andar. Porém, no alto da escadaria que levava a ele, havia uma ramificação, formando, assim, dois corredores distintos.

 

Nessa situação, os quartos de Georgiana e Lizzie ficariam no corredor da direita; e os de Darcy e Caroline, no corredor da esquerda.

 

Darcy não gostou nem um pouco da divisão dos aposentos. Pretendia que seu quarto ficasse perto do de Elizabeth, e não do de Caroline, que era a última pessoa com quem ele gostaria de estar perto.

 

Lizzie tentou convencer-se de que aquela seria a organização perfeita, já que Darcy e Caroline – pelo menos na mente dela – formavam um casal.

 

Caroline não coube em si de tanta felicidade e logo exclamou em alto e bom som para que Elizabeth também lhe ouvisse:

 

- William, querido! Quem diria que ficaríamos em quartos vizinhos! – entrelaçando o seu braço no dele, novamente e sorrindo triunfante.

 

Ele resmungou baixinho:

 

- Pois é, quem diria...

 

- Aposto que isso foi idéia sua! – ainda sorrindo e olhando de soslaio para Elizabeth, para ver sua reação.

 

“Acredite, isso DEFINITIVAMENTE não foi idéia minha!” – pensou ele.

 

Darcy estava tão atônito com sua triste situação que nem se deu ao trabalho de apartar o braço de Caroline do seu.

 

“Talvez a situação não possa ficar pior...” – continuou ele com suas reflexões.

 

Antes de separarem-se para seus próprios quartos, Georgiana lembrou-os:

 

- Gente, agora são onze horas da manhã. Marcamos uma reunião com a proprietária do local e seu advogado às duas e meia da tarde. Portanto, temos três horas e meia para tomar banho, almoçar e descansar um pouco da viagem. Por favor, não se atrasem.

 

Os outros assentiram à afirmação de Georgiana e se dirigiram aos seus aposentos.

 

Elizabeth encantou-se ao entrar em seu quarto.

 

O cômodo era muito espaçoso, tinha portas duplas em sua entrada e outra porta de vidro em uma extremidade oposta, que dava acesso à varanda.

 

As paredes estavam pintadas de branco e tinham papéis de parede dourados em seu rodapé.

 

No canto direito do ambiente estava a cama de colunas douradas, coberta por uma colcha alvíssima.

 

No canto esquerdo, um guarda-roupa de madeira antigo, mas muito bem conservado.

 

O banheiro se situava no lado direito, antes da cama.

 

Lizzie observou cada detalhe do lugar, estarrecida. Aquele lugar parecia transportá-la para o século XIX, à data em que viveram os primeiros habitantes do local.

 

Ela andou até a varanda. Sentiu a brisa leve que a acalentava.

 

Olhou os campos que desapareciam por detrás do horizonte. Ali, o sol parecia brilhar ainda mais, o que dava à terra um brilho especial e ainda mais vida ao verde.

 

Voltou para o interior do seu aposento. Jogou-se na cama e sentiu sua maciez. Deitou-se nela e olhou para o teto. Este tinha uma pintura que retratava formosos anjos.

 

Ela observou aquela obra de arte por mais um tempo e adormeceu.

 

*********************************

 

Ao entrar em seu quarto, Darcy gostou muito do que viu.

 

O seu aposento era idêntico ao de Elizabeth. Aliás, todos os quartos do hotel eram iguais.

 

Ele largou sua mala em cima de um baú de madeira que se situava aos pés da cama e andou até a varanda.

 

Inspirou aquele vento puro que entrava pelos seus pulmões. A brisa leve bagunçava seus cabelos negros e a luz do sol deixava seus olhos azuis, cinzentos.

 

Ainda observou por um tempo a paisagem à sua frente, mas entrou ao seu quarto novamente.

 

Abriu sua mala e pegou uma roupa confortável para vestir. Escolheu uma simples cueca samba-canção que gostava de usar.

 

Andou logo em direção ao banheiro e foi rapidamente tomar banho, já que sentiu que cheirava ao irritante perfume de Caroline.

 

Dez minutos depois, saía do banheiro. Tentava enxugar seus cabelos úmidos em uma pequena toalha branca. Após alguns minutos nessa tarefa, colocou a toalha de volta no banheiro e deitou-se na cama.

 

Viu que no teto de seu quarto havia a pintura de anjos, que sorriam uns para os outros.

 

Sorriu, lembrando-se de Elizabeth.

 

E prometeu a si mesmo que faria de tudo para conquistá-la naqueles dias em que passariam juntos.

 

“Nada poderá arruinar o que sinto por ti, Elizabeth. Você terá a prova disso...” – pensou ele, adormecendo.

 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje55
Neste mês949
Desde Março de 200976128
Brazil flag 63%Brazil (41263)
United States flag 6%United States (4098)
Portugal flag 5%Portugal (3215)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1337)
Ukraine flag <1%Ukraine (395)
France flag <1%France (297)
Netherlands flag <1%Netherlands (291)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (274)
Germany flag <1%Germany (269)
Latvia flag <1%Latvia (149)