Dez minutos após a saída de Lizzie, Jane também se dirigiu ao seu trabalho. Não sabia como conseguiria entrar naquele prédio e trabalhar em paz. Aquele lugar sem a presença de Charles se tornaria um museu, formado apenas por belas e inesquecíveis lembranças.
Ao entrar no saguão, Jane quase pôde reproduzir em sua mente o primeiro momento em que o vira. Ali, em frente àquele elevador...
Ele estava muito bonito, galante e atencioso.
“Deve ter sido amor à primeira vista...” relembrou tristonha, com um esboço de sorriso em seus lábios. A distância de alguém nunca a afetara tanto. Parecia que há meses que não o via, enquanto isso acontecera há apenas algumas horas.
Entrou no elevador, lembrou-se que foi ali que ele convidou-a para sair pela primeira vez.
Chegando ao seu destino, Jane procurou afastar aquelas lembranças que a abatiam tanto e resolveu focar as forças que ainda lhe restavam no seu trabalho.
Mas, uma surpresa impediu-a de realizar seus planos. Quando entrou no corredor onde ficava a sua sala, Jane se surpreendeu com uma presença. Uma presença totalmente inesperada...
- Jane, querida! Como vai? – falou Caroline Bingley, andando até Jane para cumprimentá-la e depositar um beijo em sua bochecha.
- Olá, Caroline. – respondeu a outra, tentando disfarçar seu espanto, mas com a simpatia habitual. – Que surpresa vê-la aqui.
- Ah, querida! Como você já deve saber, o Charles teve que viajar para a Escócia, então ele me deixou no lugar dele enquanto que ele não volta.
“Então essa viagem dele vai demorar...” – pensou Jane, sentindo um aperto no coração. O mesmo de quando recebera a notícia da viagem de seu namorado.
- Vamos nos ver todos os dias agora! – disse Caroline, tirando a outra de seus devaneios.
Jane respondeu-lhe animosamente e elas ficaram conversando durante mais algum tempo.
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Há meia hora estava sentado no avião, tentando dormir um pouco, já que passara a noite inteira em claro preparando suas bagagens e pensando em Jane.
Sabia que ela não gostara nem um pouco da notícia da sua viagem, mas não havia outro jeito. Ele não podia deixar a empresa que seus avós lutaram tanto para construir e que seus pais se esforçaram para ampliar.
E em pensar que no dia anterior havia preparado tudo para pedi-la em casamento... olhava agora o anel de noivado* que comprara. Este era tão delicado quanto Jane, mas Charles não quis dá-lo a ela.
Ele não sabia quanto tempo demoraria a recuperar a filial de Edimburgo, e não queria que Jane perdesse sua vida esperando por ele, por mais profundo que o amor deles fosse...
Assim, tentou se arrumar na poltrona em que estava, guardando depois o anel no bolso de seu paletó, pesaroso.
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Em sua sala, Elizabeth tentava se concentrar em seu trabalho e parar de pensar em William “repugnante” Darcy.
Quando imaginava que já estava começando a considerá-lo simpático, inteligente, agradável, bonito, atraente...
“Tá bom, Elizabeth... se controle! Lembre do que ele acabou de fazer com você!” – pensou Lizzie, tentando convencer a si mesma.
Meia hora após a discussão entre Elizabeth e Darcy, Lizzie ouviu uma batida à sua porta.
- Entre. – exclamou ela, tentando disfarçar sua irritação.
Era Georgiana.
- Lizzie, está ocupada? Podemos conversar?
- Não, não estou. Pode sentar-se. – falou ela, indicando uma poltrona em frente à sua mesa.
Georgiana sentou-se e começou:
- Elizabeth, vim da sala de meu irmão. Ele me contou da discussão que tiveram.
- E então você veio tomar as dores dele. O sr. Darcy é tão orgulhoso que até precisa de mediadores para resolver os seus problemas?
- Lizzie, sei que está aborrecida com o meu irmão, ele não deveria ter te humilhado na frente de todos. E eu peço desculpas por ele.
- Acredite, eu não preciso das suas desculpas, muito menos das dele.
- Por favor, não seja intransigente. Acredite-me, ele nunca havia feito isso antes. Até eu não o reconheci naquele momento.
Lizzie permaneceu calada por um tempo, tentou conter sua fúria, mas não pôde afastar as afirmações de Wickham, que não saíam de sua mente:
“Se eu fosse você, teria um certo cuidado com os Darcy.”
“Não se engane com ela. É uma cobra, igual ao irmão.”
Por mais que tentasse, ela não conseguia esquecer o diálogo que tivera com George no dia anterior. Elizabeth sempre tivera habilidade em analisar o caráter das pessoas, mas dessa vez errara feio.
Quando imaginaria que Georgiana, com toda aquela simpatia e bondade, seria uma fingida? Ainda não conseguia crer...
Seu pai talvez acertara, quando dissera: “Lizzie, não brinque de desvendar o caráter dos outros, um dia você pode se enganar...”
- Lizzie, por favor. Não fique magoada. É apenas isso que eu lhe peço. Falarei com William para que ele lhe peça desculpas, e seja flexível, também.
- Não será necessário.
- Será sim. Nossos pais sempre nos ensinaram a pedir desculpas e ser gentil com os outros. Então, William vai ter que seguir os ensinamentos deles. – falou Georgiana, com um sorriso nos lábios.
“O sorriso parece tão sincero...” – Lizzie continuou a sua análise.
- Certo, então. – concluiu Lizzie, conformada com a reconciliação.
- Pedirei para Hannah marcar um almoço para vocês.
- Calma, Georgiana. Eu concordei em fazer as pazes com seu irmão, mas não almoçar com ele.
- Está bem, já que você está irredutível... – disse, saindo da sala.
Georgiana, após a conversa com Lizzie, foi até seu irmão, para conferir se ele já estava mais calmo.
Chegando ao escritório dele, ela percebeu que William estava menos alterado. Apenas ainda continuava com uma expressão séria.
- William, eu conversei com ela.
- Ah, Georgiana... eu te disse pra deixar essa estória comigo.
- Disse. E sei o que você faria. Só conversaria com ela sobre os assuntos necessários, dispensando-lhe, às vezes, um ríspido “bom dia”. – argumentou ela, conseguindo arrancar um pequeno sorriso dele.
- Certo, o que você disse a ela?
- Disse que vocês precisavam conversar. E irão fazer isso. Com muito esforço, ela já concordou.
- E onde será essa conversa?
- Pode ser aqui mesmo, na sua sala. Ou então na da Lizzie. Eu propus um almoço entre vocês, mas ela não quis.
“Ela não aceitou... numa hora dessas a Elizabeth deve me achar um monstro.” – pensou Darcy, passando a mão sobre o seu cabelo, despenteando uns fios que insistentemente teimavam em cair em sua testa.
- Tudo bem, eu converso com ela. Peça-a para vir aqui depois.
Animada com a vitória do seu poder de persuasão, foi em direção à sua sala.
- Afinal, alguém aqui tem que trabalhar! – sorrindo com seu próprio comentário.
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Faltando apenas dez minutos para o horário de almoço, Lizzie chegou à sala de Darcy.
Ela respira fundo, ajeita a roupa. Respira fundo novamente. Bate à porta.
- Entre. – diz ele.
Ela entrou.
Eles se olharam intensamente por um instante.
Lizzie, lançando-lhe um olhar confrontador e analítico, querendo descobrir se ele estava mesmo disposto a pedir desculpas.
Darcy, um olhar contemplativo e ressentido, mas não menos ameaçador.
- Georgiana disse que o senhor gostaria de falar comigo.
- Sim. Sente-se.
Um silêncio sepulcral abrangeu toda a sala a partir daquele momento. Cada um deles absorvido pelo seu próprio orgulho.
Darcy resolveu ceder e começou a falar:
- Srta. Bennet, em primeiro lugar, eu gostaria de deixar bem claro que não tolero atrasos dos meus funcionários, ainda mais numa reunião importante quanto a de hoje.
“Impressionante como ao invés de me pedir desculpas, ele ainda reforça a bronca... que homenzinho prepotente!” – pensou Lizzie, enquanto olhava para ele séria.
- Mas, eu peço-lhe desculpas pela minha ação arrogante e antiética de hoje. Eu não tinha o direito de tratá-la daquele jeito.
Podia-se perceber pelo olhar e pelos gestos de Darcy que ele estava nervoso.
“Talvez nunca fizera isso antes...” – pensou Lizzie, divertida com o desconcerto dele.
Ele se calou. Era a vez dela de falar.
- Sr. Darcy, eu também desejo me desculpar. Por meu atraso e intransigência.
Ela não conseguiu controlar um pequeno sorriso envergonhado.
- Bom, acho que era só isso...
- A senhorita não disse se aceitava minhas desculpas.
- Ah, é verdade. – Riu mais uma vez. - Suas desculpas estão aceitas.
Eles apertaram as mãos em cumprimento.
Enquanto tocava sua mão macia, Darcy olhava-a nos olhos, profundamente.
Ambos sentiram uma corrente elétrica percorrendo todo o seu corpo, o que tornou o olhar e o momento ainda mais intensos.
Após os segundos que duraram a saudação, eles se separaram.
O resto do dia passou rápido, Darcy e Lizzie apenas conversavam o necessário. Uma situação muito diferente da noite no teatro.
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Jane chegara à sua casa antes de Lizzie.
Ela estava sentindo-se muito solitária. Charles não lhe enviara uma mensagem sequer, nem para dizer que chegara bem em Edimburgo.
“Talvez ele tenha tido muito trabalho...”
Resolveu tomar banho enquanto Lizzie não chegava.
Ao sair do banheiro, Jane constatou que havia uma mensagem em seu celular.
“Querida Jane, desculpe-me não ter te contatado antes, mas tive muito trabalho hoje.
“Eu sabia!” – pensou ela, feliz.
“Eu queria poder falar com você, ouvir sua voz, mas estou muito cansado. Espero que você me entenda. Eternamente seu, Charles Bingley.”
Jane leu aquela mensagem umas trinta vezes. Ela podia imaginá-lo falando tudo aquilo, com os modos carinhosos e o olhar sempre amoroso dele.
Deitou-se em sua cama e abraçou uma almofada.
Ficou ali deitada por algum tempo, pensando em tudo que viveram juntos durante esse pouco tempo de namoro.
Lembrou-se da música deles...
“There's something 'bout the look in your eyes
(Há algo na aparência dos seus olhos)
Ooh, it just makes me feel so right
(Oh, que me faz tão bem)
You're everything
(Você é tudo)
That I need
(Que eu preciso0
I love
(Eu amo)
How you
(Como você)
Love me
(Me ama)
If I'm made for you
(Se fui feita pra você)
You're made for me
(Você foi feito pra mim)
It's too good to be
(É bom demais para ser)
Tell me what we're gonna do now
(Me diz o que nós vamos fazer agora)”
(Tell me what we gonna do now – Joss Stone)
"Charles, me diga o que nós vamos fazer agora..." - pensou ela, com as lágrimas batendo à porta do seu coração.
Ouviu um barulho na porta.
- Lizzie? É você?
Levantou-se e andou até a entrada do apartamento.
- Sou eu sim. O que aconteceu? Você não está com uma cara muito boa... – observando a expressão distante de sua irmã. – Estava chorando?
- Estava quase. – respondeu, exibindo um sorriso triste.
- Mas por quê? Pode me contar tudo!– falou Lizzie jogando suas coisas em um canto da sala e arrastando sua irmã para o sofá.
- Ontem, quando saí com o Charles, ele me levou para jantar no último andar de um prédio lindo. Nós começamos a conversar, depois chegou nosso jantar; tudo estava ocorrendo maravilhosamente bem, até que o celular dele toca.
- Quem era?
- Era a irmã dele.
- Caroline?
- Não, Louisa. A outra irmã dele. Ela mora na Escócia.
- E o que ela queria?
- Ela dirige a filial da Bingley’s Publicidade na Escócia e ligou pra ele para informá-lo que a empresa estava passando por alguns problemas e que ela iria precisar da ajuda dele na administração de lá.
- E quando ele vai pra lá?
- Na verdade ele já foi.
- Já? Quando?
- Hoje, pela manhã.
- E quem vai cuidar da matriz de Londres?
- A outra irmã dele, Caroline.
- Ah, então está explicada a razão da sua tristeza... – falou Lizzie, tentando fazer graça.
Jane sorriu brandamente e fixou o olhar no infinito.
Uma forte chuva, que desde a manhã ameaçava a cair, começou a derramar suas águas. Trovões e relâmpagos enfeitaram a noite.
Elas se voltaram à janela e ficaram acompanhando por um tempo os pingos que banhavam a janela.
Lizzie pôs o assunto em pauta novamente.
- Jane, não fique assim... quando ele volta?
- Não há previsão.
- Você conversou com ele hoje?
- Não, ele apenas me enviou uma mensagem pelo celular. Disse que estava muito cansado.
- Ah...
Assim, as irmãs Bennet ainda conversaram um pouco mais sobre a partida do namorado da mais velha. Depois, Lizzie tentou dialogar sobre outros assuntos, a fim de animar sua irmã.
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Dois meses depois...
- Jane, vamos! Você precisa se distrair. Fica sempre em casa, não sai pra lugar algum. É só do trabalho para casa e de casa para o trabalho!
- Lizzie, eu não quero ir...
- Querida irmã, eu não gostaria de te dizer isso, mas agora estou sendo obrigada a fazê-lo. Há dois meses o Charles foi para Edimburgo. A única coisa que ele te mandou foi uma mensagem de texto, no dia em que ele viajou. Você já tentou falar com ele, com a irmã dele em Edimburgo, ligou até para a filial de lá e perguntou à Caroline sobre ele umas mil vezes. Além de passar o dia inteiro ouvindo essa música**! Você não acha que já é hora de recomeçar? Tentar esquecê-lo? Eu não gosto de te ver assim.
- Eu já tentei. Tentei pensar que tudo o que vivemos foi apenas um sonho, e eu sei que eu tenho que acordar deste sonho. Mas há um problema...
- Qual problema? – Elizabeth preocupou-se, apesar da expressão de Jane já se mostrar aflita, ela ficou ainda mais angustiada ao falar desse “problema”.
- Lizzie, minha menstruação está atrasada há mais de cinco semanas.
A outra ficou estática. Apenas conseguia olhar para a sua irmã.
- Achei que poderia ser um atraso casual, mas fiz um teste de gravidez há uma semana e ele deu positivo.
*Anel de noivado - http://www.monteblancojoias.com.br/solitario-ouro-diamantes-rubi-p-5908.html
**Música que Jane ouvia:
When you’re gone
(Avril Lavigne)
I always needed time on my own
Sempre precisei de um tempo sozinha
I never thought I'd need you there when I cry
Nunca pensei que eu fosse precisar de você enquanto chorava
And the days feel like years when I'm alone
Dias parecem anos quando estou sozinha
And the bed where you lie
E a cama na qual você se deita
Is made up on your side
Está arrumada do lado que você dorme
When you walk away I count the steps that you take
Quando você se afasta conto os passos que você dá
Do you see how much I need you right now?
Está vendo o quanto preciso de você agora?
When you're gone
Quando você vai embora
The pieces of my heart are missing you
Meu coração aos pedaços sente a sua falta
When you're gone
Quando você vai embora
The face I came to know is missing too
O rosto que conheci também se vai
When you're gone
Quando você vai embora
The words I need to hear to always get me through the day
As palavras que preciso escutar para agüentar o dia
And make it ok
E deixar tudo bem
I miss you
Sinto a sua falta
I've never felt this way before
Nunca me senti assim antes
Everything that I do
Tudo o que faço
Reminds me of you
Me lembra você
And the clothes you left lye on the floor
As roupas que você deixou ficam espalhadas no chão
And they smell just like you
Elas têm o seu cheiro
I love the things that you do
Adoro as coisas que você faz
When you walk away I count the steps that you take
Quando você se afasta conto os passos que você dá
Do you see how much I need you right now?
Está vendo o quanto preciso de você agora?
When you're gone
Quando você vai embora
The pieces of my heart are missing you
Meu coração aos pedaços sente a sua falta
When you're gone
Quando você vai embora
The face I came to know is missing too
O rosto que conheci também se vai
When you're gone
Quando você vai embora
The words I need to hear to always get me through the day
As palavras que preciso escutar para agüentar o dia
And make it ok
E deixar tudo bem
I miss you
Sinto a sua falta
We were made for each other
Fomos feitos um para o outro
I'll keep forever
Aqui para sempre
I know we were
Sei que fomos
All I ever wanted was for you to know
Tudo o que sempre quis foi que você soubesse
Everything I do I give my heart and soul
Em tudo o que fiz, dei meu coração e alma
I can only breathe
Mal consigo respirar
I need to feel you here with me
Preciso senti-lo aqui comigo
When you're gone
Quando você vai embora
The pieces of my heart are missing you
Meu coração aos pedaços sente a sua falta
When you're gone
Quando você vai embora
The face I came to know is missing too
O rosto que conheci também se vai
When you're gone
Quando você vai embora
The words I need to hear to always get me through the day
As palavras que preciso escutar para agüentar o dia
And make it ok
E deixar tudo bem
I miss you
Sinto a sua falta













