Citações

As mulheres sempre superestimam facilmente a admiração dos homens ― e os homens fazem de tudo para mantê-las nessa ilusão!(Jane Austen)

O Fruto da Honestidade - Capítulo 9

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A segunda-feira chegava à Londres nebulosa e trazia fortes indícios de que uma forte chuva estava por vir. Elizabeth tinha passado um domingo preguiçoso para repor suas energias depois da festa de Georgiana no sábado e aquele tempo frio estava ainda mais convidativo para ficar em casa, cultivando o ócio. Mas agora precisava se arrumar para o trabalho. Teria muito o que fazer lá.
 
Levantou e quando chegou à cozinha sua irmã já estava de pé, preparando o café da manhã para as duas.
 
- Bom dia, Lizzie!
 
- Bom dia, Jane, já está acordada?
 
- Sim, acordei com uma ótima disposição hoje!
 
- Hum... acho que essa sua disposição tem nome... se eu não me engano, o nome dela é Bingley. Acertei?
 
- Lizzie, você não tem jeito mesmo... – disse Jane, rindo. – Mas ele não é um amor?
 
- Ele é um amor sim. Pena que seja irmão de Caroline Bingley. Não sei como não liguei os nomes!
 
- Lizzie, eu não concordo com o que você tinha dito sobre ela. Ela parece sim, ser um pouco extravagante e arrogante; mas é só aparência. Achei-a muito simpática.
 
- Jane, você mais uma vez não vê a maldade dos outros! Não viu como ela não discordava em absolutamente nada do que os Darcy diziam? Ou é pura bajulação ou medo de perder o emprego.
 
As duas riram.
 
- Mas como foi ontem, no seu jantar com o Bingley? Nem te vi chegar, não resisti ao sono...
 
- Foi ótimo, ele é tão romântico, sabe... tão sincero.
 
- Oh... como o amor é lindo!
 
- Lizzie, não zombe de mim! Um dia conhecerá um bom homem que roubará seu coração e saberá o que é o amor.
 
- Se eu fosse você não teria tanta certeza disso, acho que vou ficar solteirona!
 
Jane ainda tentou persuadir sua irmã que haveria sim, alguém que a amaria totalmente, com todos os seus defeitos, mas sua irmã estava irredutível. A irmã Bennet mais velha então cansou de tentar convencer a intransigente Lizzie e deixou que o próprio destino mostrasse a ela o quanto estava errada.
 
- Ah, esqueci de te dizer! Ontem a Charlotte ligou pra você. Ela disse que conseguiu três ingressos para aquela peça que você queria assistir. Disse também que você ligasse pra ela para confirmar tudo.
 
- Nossa, que maravilha!! E ela mencionou qual o dia que ela conseguiu?
 
- Me parece que ela conseguiu pra terça feira da próxima semana.
 
- Pro dia da estréia?! Ai, nem acredito nisso! Amo a Charlotte! – Lizzie abraçou sua irmã pulando de alegria. – Você vai conosco?
 
- Vou, será ótimo sair com vocês duas. Faz tanto tempo que não saímos juntas! Ah, a Char também disse que você telefonasse para ela pra combinar tudo.
 
- Certo, telefono para a Char depois.
 
Após mais alguns minutos de animados diálogos, as irmãs Bennet se separaram e foram cada qual para o seu trabalho.
 
*****************************
 
Enquanto isso, no Hertfordshire, uma família se preparava para fazer sua anual viagem de férias. Este ano eles iriam para Londres visitar as filhas mais velhas, que já moravam sozinhas na cidade há três anos.
 
Desde o nascer do sol todos estavam de pé, tentando organizar tudo para a viagem. Como sempre, a sra. Bennet estava afobada arrumando as últimas bagagens; o sr. Bennet já estava cansado de carregar tantas malas... afinal, eles iam passar um mês ou um ano em Londres?; Lydia e Kitty riam escandalosamente imaginando quantos caras legais poderiam conhecer lá, o quanto iriam sair, se divertir...; Mary também estava empolgada com a viagem, queria novamente visitar as vastas bibliotecas londrinas, ir a óperas, e quem sabe aprender um pouco mais de canto.
 
- Mamãe, a senhora tem certeza que não é melhor avisar à Lizzie e Jane que vamos visitá-las?
 
- Não, Mary! Já lhe disse que seria uma surpresa para elas!
 
- Mas talvez elas não gostem...
 
- Quem, em sã consciência, não iria gostar de receber uma visita de sua família?
 
- Minha flor, entenda... talvez as meninas não estejam em casa. É isso que a Mary quer dizer. Não é, minha filha? – o sr. Bennet disse essa última frase piscando para sua filha.
 
- Sim, papai. – disse Mary.
 
- Então quando chegarmos lá ligarmos para elas. Satisfeitos? – falou a sra. Bennet, um pouco contrariada, já que a surpresa que planejava para suas filhas acabara de ser estragada.
 
- Muito bem, então. Vamos, meninas. Entrem no carro! – gritou o sr. Bennet para suas filhas.
 
*********************************
 
Aquela seria uma semana cheia para Elizabeth. Com o retorno de Georgiana, teria inúmeras reuniões para oficializar os acordos firmados por esta em sua última viagem.
 
A primeira reunião foi tranquila, apenas Elizabeth, Darcy, Georgiana e alguns poucos diretores estavam presentes. Apesar disso, Lizzie sentia, às vezes, um olhar curioso de Darcy sobre si. Ele prestava atenção a cada mínima palavra dita por ela, como se procurasse um defeito. Primeiramente ela se aborreceu, mas depois se envolveu na reunião e o esqueceu. Advogar era realmente o que ela amava fazer.
 
*********************************
 
Numa outra empresa londrina, um boato já havia chegado aos ouvidos de todos os empregados: o patrão namorador já tinha engatado um romance com a recém-contratada.
 
Ao chegar em sua empresa, Bingley se deparou com uma situação um tanto constrangedora. Sua secretária foi logo ao seu encontro para falar-lhe:
 
- Sr. Bingley, bom dia.
 
- Bom dia, Julie! Mas porque você está assim tão... nervosa?
 
- É que uma fofoca está correndo por toda a empresa... não sei como dizer-lhe o que é...
 
- Ora, Julie! O que quer que seja, não pode ser tão grave! – ele estava tão feliz que acreditava que nada poderia desfazer sua felicidade.
 
- É que... bem... como eu já disse, todos os empregados estão sabendo de um certo boato... que envolve o senhor e outra funcionária...
 
- Eu e outra funcionária? Fale logo tudo de uma vez, Julie! – já começava a ficar impaciente. Essa não era uma característica sua, mas não agüentava tanto suspense.
 
- É que estão todos sabendo que o senhor e a senhorita Bennet estão namorando. – falou tudo de uma só vez, antes que a coragem lhe fugisse.
 
- E?
 
- Como assim “e”? O senhor não se importa?
 
- Não. Meu namoro com a senhorita Bennet nada tem a ver com a empresa. Tudo bem que nos conhecemos aqui, mas na empresa nossa relação é e será sempre estritamente profissional.
 
Com essa última resposta, Julie se calou e deixou que seu chefe seguisse até a sua sala, sozinho.
 
*****************************
 
Ao contrário de Bingley, ao saber do boato Jane foi invadida por inúmeras sensações: constrangimento, dúvida, tristeza,...
 
Ela não conseguiu se concentrar a manhã inteira. Só pode se tranqüilizar um pouco na hora do almoço, quando se encontrou com Bingley.
 
- Olá, meu amor. – ele cumprimentou-a depositando um pequeno beijo em sua boca.
 
- Olá. – disse ela, um pouco tímida e perturbada.
 
- O que é que você tem? – falou-lhe preocupado.
 
- Você ficou sabendo da fofoca que se espalhou?
 
- Sobre nós?
 
- É, essa mesmo.
 
- E o que tem ela?
 
- Você não ficou receoso que isso pudesse nos prejudicar?
 
- Oh, Jane... – falou isso puxando-a para si e envolvendo-a com seus braços. – Todos podem falar o que quiserem de nós, isso não vai mudar o que sentimos um pelo outro...
 
- Mas...
 
- Não precisa se preocupar. Daqui a uns dias todos esquecem tudo isso.
 
- Charles, você não entende? E se nosso trabalho for afetado?
 
- Ele não será afetado, certo? Agora fique calma. Você é uma ótima profissional e nem o maior dos erros poderia tirar seu mérito nisso. – falou sorrindo para ela.
 
- Muito obrigada, você não sabe o quanto me ajudou. – abraçou-o apertado, como se não quisesse soltá-lo nunca.
 
Após um tempo abraçados, Charles convidou-a para almoçar, mas foi interrompido pelo celular dela.
 
- Alô?
 
- Jane, querida! Até que enfim você atendeu!
 
- Mamãe? Por que está ligando pra mim a essa hora?
 
- Uma mãe não pode mais ligar para sua filha?
 
- Claro que pode, mas é que a senhora não costuma ligar a essa hora. Foi isso o que eu quis dizer.
 
- Tudo bem, eu só liguei para avisar que estamos aqui, em frente ao prédio que vocês moram.
 
- Na frente do nosso prédio? Mas vocês não nos disseram que nas férias desse ano iriam para Bath?*
 
- Iríamos, mas estávamos todos com uma saudade imensa de vocês e resolvemos mudar os planos e fazer-lhes uma surpresa! O que achou?
 
- Achei ótimo, mãe. Mas agora eu estou no trabalho, e não dá tempo de ir aí.
 
- E a Lizzie, onde está?
 
- Está trabalhando também, mãe. Mas podemos nos encontrar para almoçar, o que a senhora acha? – Jane disse a última frase com o coração na mão, já que tivera de decidir entre sua família e Charles.
 
Acertaram rapidamente o lugar onde se encontrariam para almoçar e Jane falou com Charles para desculpar-se:
 
- Charles, você me desculpa? É que minha mãe acabou de me ligar e disse que ela, meu pai e minhas irmãs mais novas estão aqui em Londres e preciso encontrar-me com eles.
 
- Não há problema, minha linda. – puxou-a para si e beijou-lhe delicadamente nos lábios.
 
- Agora preciso ir. Tchau.
 
- Tchau, bom almoço.
 
Os dois separaram-se e Jane foi para o seu carro ligar para Lizzie, enquanto Charles, que também ia para o seu carro, ligava para Darcy.
 
- Lizzie, querida! Preciso falar com você urgente! – disse ela à sua irmã.
 
- O que foi, Jane? Está com uma voz tão nervosa!
 
- É que eu tenho uma notícia para dar-lhe, mas não sei qual será sua reação.
 
- Fale logo o que é, Jane! Você está me deixando aflita!
 
- É que a nossa família veio passar as férias em Londres.
 
- Aqui? Sem avisar?
 
- É, a mamãe acabou de me ligar.
 
- E eles estão aí com você?
 
- Não, estão nos esperando para almoçar naquele restaurante em que costumamos ir sempre.
 
- Certo, estou indo para lá. Beijos.
 
**************************************
 
- Darcy, preciso falar com você! Está livre para almoçar?
 
- Estou sim.
 
- Então topa almoçar comigo?
 
- E a Jane? Pensei que você iria almoçar com ela!
 
- Ela teve um imprevisto, parece que a família dela veio passar férias aqui.
 
- Aqui? Sem avisar?
 
- É, parece que eles planejavam fazer uma surpresa. Acho que conseguiram. – disse rindo.
 
- Certo. Então te encontro naquele restaurante em que costumamos ir sempre. – disse isso escondendo seus devaneios “Que família é essa das senhoritas Bennet?”
 
- Tudo bem, até lá então.
 
 
* Bath: http://www.imagensviagens.com/bath.htm
 
 

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