Citações

O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.(Jane Austen)

CONTO: RECONCILIAÇÃO

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-Lizzie, Lizzie, abra esta porta, este quarto é meu também!

- Hoje você dorme em outro quarto, afinal já tenho dormido sozinha a algumas noites mesmo.

- Lizzie, por favor, deixe de besteira, já estamos casados há vinte anos, não somos mais recém-casados para ficarmos com este tipo de briga.

- Concordo plenamente. Mas foi você quem causou isso.

- Vamos conversar como adultos. Abra a porta, por favor.

- Para quê? Para você vir com sua conversa, me enrolar, acabarmos na cama, e você voltar a fazer tudo de novo? Não, hoje você dorme em outro quarto.

- Se ao menos eu tivesse a chance de saber o porquê de você estar agindo dessa forma. Acho que tenho esse direito...

- Você terá a noite inteira para saber o que fez, Sr. William Darcy.

Depois de tanto insistir, fui para o quarto que ela havia definido que seria o meu. Nunca tive uma noite tão insone na vida. Nem no auge das preocupações do último ano com os negócios me rendeu numa noite como essa.

O fato de minha mulher não querer dormir na mesma cama comigo, era capaz de me tirar o sono literalmente. Afinal não me lembro de experimentar este sentimento nos últimos vinte anos.

Como o tempo voa! Acho que tê-la ao meu lado durante este tempo todo, acabou me acostumando, acho que perdi um pouco daquela sensação do nosso inicio de casamento, desde que a conheci.

Como detesto me sentir sem a presença dela ao meu lado. Mas afinal de contas, o que eu fiz para merecer isso? Não canso de questionar e sempre sem encontrar a resposta.

Sem sono, fui para a biblioteca, meu lugar preferido. Não conseguia me concentrar em nada. Livros, papéis e mais papéis que trazia do escritório para trabalhar em casa...

Foi quando de repente, comecei a pensar no que poderia ser. Exatamente! Só pode ser o fato de acabar pegando no sono aqui na biblioteca algumas vezes. Lembro que sempre acordava na manhã seguinte coberto. Com certeza ela me via dormindo e preferia me cobrir a me acordar.

Voltei para o quarto e só o fato de saber que ao lado, Lizzie estava sozinha e chateada, me angustiava muito.

Depois de muito tempo acabei finalmente dormindo. Na manhã seguinte, quando desci para o café, todos já estavam à mesa. Lizzie e nossos filhos adolescentes. Já fazia um bom tempo que não parava para prestar atenção como minha família era linda e como era bom estarmos juntos.

- Bom dia. – Eu disse.

- Bom dia, pai. – responderam as crianças em coro.

- E você não vai me dar bom dia? - perguntei a minha esposa diante de seu silêncio. Ela apenas me olhou daquela maneira desafiadora que, no passado acabou por enfeitiçar meu coração.

- Bom dia, Will. – Finalmente ela falou. – Como é bom ouvi-la me chamar de Will, embora eu soubesse pela entonação, que as coisas ainda não estavam boas para o meu lado.

Terminamos nosso café.

Assim que as crianças saíram para o colégio ficamos a sós e então me senti livre para falar.

- Lizzie, sobre ontem à noite, eu sei o quê te deixou assim, vamos conversar na biblioteca, não quero que nos interrompam.
Chegamos à biblioteca, ela se instalou em uma das poltronas, e ficou me olhando com o mesmo olhar desafiador de antes.

-Estou esperando, pode começar! – Disse ela, de maneira ríspida.

- Bem, eu acho que sei o porquê desse seu mau humor... – Iniciei cuidadosamente.

- Meu mau humor?

- Sem interrupções, por favor! Me perdoe, eu sei que tenho sido meio relapso com você, com as crianças...

- Meio...?

- Lizzie, me ouça sim, você não sabe como é difícil para eu admitir isso. Como estava falando, eu sei que você me cobriu algumas noites que passei aqui na biblioteca, mas acredite não fiz de propósito, ando preocupado com os negócios, esta crise na Europa...

- Will, por que você não dividiu isso comigo? Os negócios vão mal?

- Não, Lizzie, por isso mesmo que não quis preocupá-la. Mas não quero que fiquem mal, por isto ando atento. Mas sei que tenho exagerado. Não queria negligenciar com você e as crianças.

- Will, nossos filhos não são mais crianças, são adolescentes. E eu me preocupo, ver você ficar distante, isolado, como antes de nos casarmos. Não quero aquele William de volta, eu quero o William que casou comigo, então me faça o favor, você sempre foi um excelente homem de negócios, não vai ser essa crise financeira que vai abalar o patrimônio que já temos.
- Então já estou liberado para voltar ao nosso quarto esta noite? – Arrisquei chegando mais perto e envolvendo-a em meus braços.

- Foi por isso que não te deixei entrar para conversamos ontem à noite. Eu sabia que você viria com esses seus truques para me amolecer. – Ela se afastou repentinamente.

- Mas, que truques Lizzie, estou apenas te fazendo carinho, distribuindo beijinhos, esta noite foi insone sem....

- Exatamente isso, vir me acariciando como quem não quer nada...

- Hum, quer dizer que ainda exerço este domínio sobre você? – Brinquei num tom malicioso. - É muito bom saber disso, que minha esposa ainda fica fascinada com os meus carinhos. Mas você não respondeu, estou liberado para voltar ao nosso quarto hoje à noite?

- Hum, só com uma condição.

- Lá vem você e suas condições, Sra. Darcy.

- Já que você admitiu sua negligência conosco. Você volta para nosso quarto, com a condição de você passar mais tempo conosco. Concorda ou quer continuar dormindo sozinho?

- O que eu não faço para te ter ao meu lado.

- William Darcy! E seus filhos não contam?

- Claro! Desculpe-me, mas fico louco só em pensar em passar mais uma noite longe de você. Então assim que eles entrarem de férias, nós iremos para Pemberley.

Naquele dia no escritório, passei grande parte do dia pensando nos acontecimentos da noite anterior. Ficou evidente para mim que os negócios estavam me envolvendo de tal forma, que eu estava negligenciando a convivência com minha família.
Meus filhos estavam crescendo e eu mal os conhecia, não sabia suas ansiedades, suas perspectivas e muito menos seus temores pessoais.

Lizzie realmente me acordou para uma realidade que havia deixado de lado, envolvido com as preocupações financeiras. Precisava desacelerar o ritmo de vida que passei viver, e voltar a fazer parte da vida de minha família.

Na semana seguinte com todos de férias, seguimos para Pemberley. A princípio as crianças ficaram meio chateadas, pois queriam ficar na cidade e aproveitar as férias com os amigos. Porém, com um acordo de que viajaríamos para o litoral por pelo menos um final de semana eles aceitaram ficar alguns dias em Pemberley conosco.


Avistar Pemberley sempre foi uma visão empolgante. Lizzie amava este lugar tanto quanto eu, e esperava que com o tempo nossos filhos pudessem amar também. Apesar de ser dispendioso, nunca abriria mão devir para cá ao menos alguns dias ao ano.

Instalados em Pemberley, cada um procurou seus aposentos isolando-se um do outro.

Enquanto eu caminhava em direção a biblioteca, meu lugar predileto fui impedido por uma Lizzie de braços cruzados, séria e calada, que sem expressar nenhuma palavra já me fazia lembrar o motivo pelo qual estávamos aqui.

- Calma. Falei olhando para ela. É só o tempo deles descansarem da viagem e prometo que vou dedicar muitas horas do dia para cada um separadamente.

Ela me deu um beijo silencioso, e desbloqueou o caminho para a biblioteca.
A tranqüilidade que há em Pemberley, e a pouca oferta de entretenimento local, foi essencial para que a nossa convivência pudesse se estreitar. Apesar de todo conforto, inclusive com eletrônicos, existe no ar uma sensação de harmonia que na cidade não é percebida.

Aos poucos, o meu refúgio seguro, começou a receber outros visitantes, as crianças que buscavam ali uma leitura que as agradasse e que ao mesmo tempo pudesse preencher as horas do dia.

Aproveitando esta oportunidade, comecei a chegar-me mais a eles. Quando William, o mais velho apareceu, convidei-o para cavalgarmos juntos. Fizemos um longo passeio pela propriedade.

Durante todo este trajeto, pude ouvir de meu filho todos os seus anseios, e principalmente seus medos por não querer seguir o meu caminho no mundo dos negócios, o que foi a principio um pouco decepcionante, porém ao mesmo tempo compreendido.

Depois de passar praticamente toda a tarde na companhia um do outro, retornamos para casa.


Falar com minha garotinha é que o me deixa mais inseguro. Ela é uma garota inteligente, e muito calada, um pouco parecida comigo. Esta oportunidade aconteceu quando passei pela porta de seu quarto que estava entreaberta. Entrei e comecei a travar uma conversa que a principio era monossilábica de sua parte.

Então sem que esperasse ela me disse que estava começando a gostar de um garoto de seu colégio. Meu coração de pai gelou! Mas como? Ela já pensando em namorar? Fiz estas perguntas a mim mesmo sem coragem de verbalizá-la.

Passado o susto inicial, comecei a dar conselhos. Afinal, ela já está com dezesseis anos e não tenho mais como evitar que isso aconteça. Conversamos um bom tempo e finalmente quando sai, recebi um beijo que me deixou emocionado.
Por fim, chegando a sala de jogos, vi meu caçula, com toda energia dos quatorze anos, em frente ao videogame. Inesperadamente ele me chamou para uma partida. Confesso que minha primeira reação foi de dizer não, mas talvez essa fosse a oportunidade que precisava para me chegar a ele.

Sentados um ao lado do outro, tivemos horas divertidas, enquanto ele ganhava todas as partidas. Acabamos entre um jogo e outro tendo um bom bate papo e descobri que além de já querer seguir meu caminho no mundo dos negócios, ele também já começava a se interessar por uma gatinha do colégio. Aproveitei a oportunidade é claro para lhe ensinar algumas maneiras de conquistar a garota, que me rendeu um “valeu pai”, que me fez sentir novamente presente na vida de meu filho.


Depois dessas pequenas conversas que tive com os três, agora todos procurávamos nos divertir juntos, aproveitando estes dias sem as preocupações com a rotina do dia a dia.

Cavalgávamos os cinco, nos reuníamos após o jantar para um jogo de tabuleiro que sempre exigia mais de dois participantes.

Nossa última noite de férias em Pemberley, foi de muita conversa entre nós cinco, a ponto das crianças ficarem agora chateadas por ter que voltarmos para a cidade.

Exaustos de tantas brincadeiras e descobertas, um a um foi automaticamente para seus aposentos. Por cada porta que passava, entrava para dar um boa noite, a cada um de meus filhos e receber deles um “obrigado pai, pelas férias maravilhosas”, “ Pai, também gosto muito de Pemberley” ou ainda “ é bom estarmos juntos aqui”.
Caminhando para o quarto senti meu coração bater mais forte por ver minha família unida e feliz. Acho que estava com uma cara abobalhada, pois entrando no quarto, Lizzie foi logo perguntando:

- O que houve para você estar com essa cara de bobo?

- Tenho filhos maravilhosos e não tenho percebido isso.

- Hum, vejo então que valeu a pena ser durona com você – ela me disse com um ar vitorioso.

- É admito que você tem razão – falei já a envolvendo entre meus braços

- O que está pretendendo Sr. William Darcy? – Ela me perguntou desconfiada.

- Ter você em meus braços esta noite, Sra. Elizabeth Darcy

- Hum, mas antes me conte como foi esta experiência em estar mais próximos com nossos filhos?

- Foi realmente muito boa

- Só isso, muito boa? Vamos quero saber todos os detalhes.

- Bem, Lizzie – falei já sentando junto a ela na cama. – Nunca imaginei que eles se abririam tanto comigo, saber que William não pretende assumir os negócios da família, me deixou um pouco desapontado mais depois entendi que seus objetivos são outros. Ao mesmo tempo fiquei emocionado poder participar da vida de Deborah e saber que ela já se interessa por um menino sinceramente me deixou um pouco preocupado. Já com o Robert, foi maravilhoso saber que ele tem vocação para os negócios quando me achava sem alguém para me substituir. Enfim, só quero te agradecer por ter me aberto os olhos com relação aos nossos filhos.

-Então pode começar, agora quem está sentindo sua falta sou eu. - ela me disse com um sorriso provocante, mais um dos encantos de minha mulher.

- Nem precisa pedir, Sra. Darcy, eu já tinha isso em mente...

Tem sido uma experiência extraordinária poder me dedicar mais a minha família, e embora uma ou outra vez, eu me deixe envolver um pouco mais pelos negócios, a foto dessas férias maravilhosas em cima de minha mesa, não me deixa esquecer de que minha família é o que tenho de mais importante na minha vida.


Fim

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