Citações

A natureza humana manifesta uma tendência muito acentuada para o orgulho, que são pouquíssimos os que não alimentam esse sentimento, fundados em alguma qualidade real ou imaginária! (Jane Austen)

Conto: Nosso Último Verão

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Grossas lágrimas banhavam seu rosto enquanto tentava a todo custo conter a vontade de gritar, de deixar toda a sua dor esvair de seu peito. A bela paisagem litorânea passava rapidamente pela janela do carro, mas as lágrimas borravam tudo. Precisava se concentrar na direção do carro, precisava se concentrar na direção da sua vida, não poderia desabar agora.

Olhou para o banco do passageiro e a vontade de chorar só aumentou quando o viu tão lindo, sereno, dormindo tranquilamente, como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse normal novamente, mas ela sabia que nada mais seria normal.

Enquanto enxugava as lágrimas com as mãos, seus olhos fitaram a bela aliança em sua mão esquerda. Há dois anos ela estava lá; há dois anos disse sim ao homem da sua vida e naquele momento nunca imaginou que tudo fosse acabar daquela forma.

- Não é justo! – Lizzy sussurrou sentindo que poderia morrer de dor a qualquer momento. – Deus! Eu não vou conseguir.

Ouviu o barulho dele se mexendo no banco e rapidamente enxugou as lágrimas. Não poderia deixar que ele a visse daquele jeito. Prometera fazer daquele ultimo verão o mais perfeito de suas vidas. Sorriu quando ele abriu os olhos e a fitou com carinho.

- Chegamos? – ele perguntou olhando pela janela do carro.

- Não, mas estamos quase lá. – respondeu o mais animada que conseguiu.

- Estava chorando? – ele se angustiou.

- Não! – se apressou em negar – Claro que não! – sorriu fracamente.

- Vai ficar tudo bem, amor. – ele acariciou seu rosto e ela teve vontade de desabar novamente. – Estamos fazendo a coisa certa.

- Eu sei. – sussurrou sentindo que não conseguiria mais segurar o choro, então voltou sua atenção para a estrada. – Descanse mais um pouco, em menos de uma hora estaremos lá.

- Ok! – ele respondeu entendendo que ela precisava ficar “sozinha”.
Darcy fechou os olhos buscando forças para não deixar que tudo aquilo o abalasse, não mais do que já estava machucando. Era tudo muito desesperador, assustador e porque não dizer, cruel, mas sentia que aquela era a melhor coisa a fazer. Aproveitaria aquele ultimo verão ao lado de sua esposa como o ultimo verão da sua vida... Lágrimas solitárias molhavam sua face.
***~***~***~***
- Não pensei que fosse ver o mar novamente. – Darcy sussurrou quando desceu do carro e se juntou a Lizzy na beira da praia. – Tinha esquecido do quanto ele é lindo!

- Está ficando frio, devemos entrar. – ela se preocupou.

- Só mais um pouco, por favor. – pediu gentilmente enquanto se aproximava da água molhando seus pés. – Ah! – exclamou fechando os olhos enquanto uma maravilhosa sensação o invadia. – Isso é maravilhoso!

- Amor, realmente está esfriando e...

- Lizzy! Viemos aqui para viver, isso é viver para mim, por favor. – pediu enquanto estendia a mão para ela, lhe convidando para se juntar a ele.

- Está bem. – assentiu se deixando abraçar por ele.

Ficaram assim, abraçados, enquanto o vai e vem das ondas traziam a paz que tanto precisavam, após meses de dor e sofrimento.
***~***~***~***
Após o jantar, Darcy lia um livro na biblioteca enquanto Lizzy lavava a louça na cozinha. Guardava os últimos pratos no armário quando seu celular tocou. Após identificar a chamada, respirou fundo antes de atender.

- Jane? – falou ao atender o telefone.

- O que pensam que estão fazendo? – uma Jane indignada bradou do outro lado da linha.

- Jane, por favor. – suplicou em meio a um longo suspiro.

- Isso é loucura, minha irmã! Como puderam sair assim, sem avisar ao Charles?! Quase enlouquecemos quando fomos avisados que tinham ido embora. O que deu em vocês?!
- Temos direito, Jane e vocês não podem nos negar isso. – tentou segurar o choro enquanto verificava se Darcy não estava ouvindo.

- Acha que vai conseguir? Acha mesmo que vai conseguir segurar essa barra?

- Não sei. – deixou algumas lágrimas escaparem.

- Vai piorar, Lizzy. Sabe disso, sabe que vai ser doloroso e que...

- Jane! Pelo amor de Deus! – suplicou caindo em um choro copioso.

- Lizzy... – Jane tentou consolá-la, mas não era uma tarefa muito fácil.

- Eu só... Eu só queria estar vivendo um pesadelo e acordar a qualquer momento.

- Mas é real, Lizzy. Sinto muito, mas é real e vocês precisam encarar isso. Não podem fingir que as coisas vão voltar ao normal, porque não vão.

- Eu sei... Acha que não sei disso?! Mas é nossa escolha e se realmente nos amam e se preocupam conosco, vão nos respeitar e aceitar nossa decisão. – ouviu passos se aproximando, então enxugou as lágrimas. – Preciso desligar, ele está vindo. Não nos ligue mais, por favor. – pediu antes de desligar o celular. – Oi! – o cumprimentou indo em sua direção ajudando-o a sentar. – Cansado?

- Um pouco. – admitiu sentando-a em seu colo. – A viagem foi longa, só isso.

- Já acabei aqui, podemos dormir se quiser.

- Sabe o que eu quero mesmo? – indagou acariciando os cabelos dela.

- Não, o que?

- Dançar com você. – respondeu beijando seus lábios.

- Dançar?!

- É, dançar. Não dançamos há tanto tempo.

- Mas você vai se cansar e...

- Lizzy! – a encarou decidido – Prometemos agir com naturalidade, lembra?
- Você tem razão, me desculpe. – sorriu beijando-o apaixonadamente. – Então vamos dançar, Sr. Darcy. – sorriu enquanto o puxava até a sala.

Lizzy o deixou escolher a trilha sonora e logo uma bela canção ecoou pela sala.

- Sra. Darcy. Concede-me a honra desta dança? – pediu formalmente.

- Desesperadamente, sim. – respondeu sorrindo.

Ele a envolveu carinhosamente em seus braços apertando-a contra o seu corpo enquanto dançavam ao som da bela melodia.

- Sabia que me apaixonei por você assim que começamos a dançar naquele baile? – ela perguntou divertida com as lembranças daquele verão de cinco anos atrás.

- Claro! Sempre fui um ótimo dançarino e as mulheres nunca resistiram a isso. – brincou arrancando uma gargalhada dela.

- Muito modesto! Mas é sério. Sempre te achei um idiota convencido e quase disse não quando me convidou para dançar.

- Ainda bem que não recusou. Mas espera aí? Me achava um idiota convencido?

- Achava! –sorriu – Mas você tem que admitir que era muito esnobe.

- Não era não. Já te expliquei que tinha apenas dificuldade de me aproximar das pessoas.

- É, eu sei. E agora tenho que admitir: aquele seu jeito era um charme!

- Eu sabia que você não resistiria a mim!

- Seu bobo! – brincou mordendo o lóbulo da orelha esquerda dele.

- Agradeço a Deus todos os dias por você ter me amado, por ter entrado na minha vida. O que seria de mim neste momento se não fosse por você? Eu te amo. – falou emocionado.

- Eu também te amo.

- Obrigado por tudo, meu amor. – sussurrou enquanto sentia o doce cheiro que emanava dos cabelos dela. – Sei o quanto está sendo difícil para você...

- Shiii... – ela pediu ainda com os olhos fechados enquanto sentia os toques dele em seu corpo. – Sem palavras agora... Eu só quero te sentir... –sussurrou antes de beijá-lo apaixonadamente.

- Vamos lá para cima. – pediu enquanto a fitava com desejo.

- Sim. – sussurrou enquanto ele a beijava novamente.

***~***~***~***
Fazia uma bela manhã de verão. O sol estava ameno e não ventava muito. Três semanas já haviam se passado desde que chegaram ao litoral e naquele dia resolveram fazer um piquenique na praia.

- Como se sente? – Lizzy se preocupou quando ele fez uma careta de dor.

- Estou bem. – tentou sorrir, mas estava cada vez pior.

- Acho que deveríamos voltar.

- Querida, já falamos sobre isso. Não vou voltar.

- Por que é tão teimoso?

- Ei! – sorriu enquanto segurava a mão dela. – Estou bem! Eu só preciso disso para ficar bem. Sentir o cheiro delicioso do mar, o vento tocar meu rosto e ter você aqui perto de mim. Ok?

- Ok! – respondeu mesmo que contrariada, pois não queria aborrecê-lo.

- Ah! Eu já fui tão bom quanto ele! – mudou de assunto apontando para um surfista que pegava algumas ondas. – Lembra?

- Claro! Você se exibia o tempo todo, como não vou lembrar? – o provocou.

- Eu precisava chamar sua atenção de algum modo. Mas eu realmente era bom e lembro de ter caído em uma onda uma única vez. Foi quando te vi no píer naquela tarde. Céus! Perdi completamente a noção de tudo e só conseguia te ver na minha frente. Parecia uma sereia. – sorriu beijando a mão dela que repousava sobre a sua. – Quero ser cremado e que minhas cinzas sejam jogadas no mar. – pediu encarando-a decidido.

- Não vamos falar sobre isso agora, tudo bem?

- Quando vamos falar sobre isso? – indagou sereno, porém firme.

- Will...

- Eu tenho um câncer que está espremendo meu cérebro, Lizzy. Não sei até quando vou viver. Temos que falar sobre isso.

A resposta foi apenas um olhar fixo no mar a sua frente. Sabia tudo o que estava prestes a acontecer, mas verbalizar aquilo doía tanto, como se alguém dilacerasse seu peito com a mais afiada espada. Algumas lágrimas incontroláveis caíram de seus belos olhos negros.
- Talvez se eu nunca tivesse te convidado para dançar naquele baile de verão você não estaria passando por isso agora.

- Não! – Lizzy o abraçou desesperada. – Nunca repita isso. Se não tivesse me convidado eu não teria vida! Você é minha vida agora.

- Vida?! – ironizou sua própria sorte. – Cuidar de um moribundo não é vida, Lizzy. – sua voz continha um pouco de amargura.

- Não, não faz isso, por favor. – suplicou beijando-o com paixão. – Me fez prometer diante daquele padre que ficaria com você na saúde e na doença, não foi? – tentou brincar, fazendo-o sorrir – Então agora terá que me agüentar.

- O que seria de mim sem você? – sussurrou beijando-a serenamente na testa. – Jogará minhas cinzas no mar?

- Eu prometo. – respondeu com dificuldade devido à voz embargada. – Posso te confessar uma coisa?

- Pode.

- Quando te vi saindo do mar naquele dia, senti meu coração parar por alguns instantes. – admitiu escondendo o rosto com as mãos.

- Eu sei.

- Sabe?! – se surpreendeu.

- Por que acha que tomei coragem de te convidar para dançar?! – a provocou sorrindo enquanto recebia um beijo cálido.

***~***~***~***

- Lizzy! Não podem mais continuar com esta loucura! Já se passou mais de um mês! William precisa de cuidados médico, precisam voltar para o hospital imediatamente. – Charles bradou.

- Charles, não vamos voltar. Ele não quer, tente respeitar a opinião dele, por favor.

- Como amigo até respeito e entendo, mas como médico dele, não posso aceitar um absurdo desses. Como ele está?

- Nada bem. – admitiu sentindo um grande nó se formar em sua garganta. – Está cada vez mais fraco e debilitado.

- Ele está tomando os remédios?

- Sim. Relutou no começo, mas foi à única condição que impus para virmos para cá.

- Os sintomas, Lizzy. O que ele tem sentido?

- Náuseas cada vez mais fortes, a visão está turva, e dores.

- Céus! – Charles suspirou do outro lado da linha.
- Está perto, não está? – choramingou temendo pela resposta.

- Lizzy... – a voz dele tinha pesar – Sabe que não posso ajudá-lo estando aqui em Londres. Traga ele para o hospital.

- Para que, Charles?! Para mais um dia, uma semana, um mês?! Não pode fazê-lo não me deixar, Charles. – o choro veio forte.

- Já está acontecendo, Lizzy. Acha que vai conseguir sozinha?

- Charles...

Um forte barulho vindo do banheiro interrompeu o doloroso dialogo.

- Lizzy? Lizzy? – Um Charles desesperado gritava do outro lado da linha com apenas o silêncio como resposta.

- Will? – Lizzy gritou desesperada enquanto subia as escadas correndo. – Will! – se angustiou com o silêncio.

Ao entrar no banheiro se deparou com ele caído no Box. Aproximou-se rapidamente se certificando se ele estava ferido.

- O que houve? – perguntou ansiosa.

- Eu não sei... – ele parecia confuso, assustado. – Estava tomando banho e de repente perdi o controle das minhas pernas.

- Vem, vou te levar para a cama.

- Não! - ele gritou com fúria – Sai daqui, Lizzy. – pediu chorando amargamente.

- Will! – as lágrimas vinham em cascatas.

- Eu não quero que me veja assim, como um inútil!

- Não pode me deixar de fora da sua vida, agora. – o abraçou fortemente, em desespero.

- Fui um grande egoísta. Não tinha o direito de fazer você passar por tudo isso, me ver desta forma. Não é justo com você.

- Está tudo bem, meu amor.

O abraçou fortemente, então ficaram os dois, abraços deixando todas as suas dores se esvaírem...

- Quero voltar para o hospital. – ele falou decidido cessando as lágrimas alguns minutos depois.

- O... O que?

- Pensei que levaríamos uma vida normal vindo para cá, mas nada está sendo normal, Lizzy. Estou cada vez pior e não quero te ver passando por isso.

- Podemos ficar aqui se quiser.
- Sei que está sendo difícil para você, mesmo que tente esconder. Eu te amo por querer ficar ao meu lado, mas por te amar tanto assim, não posso mais fazer isso com você. Ligue para o Charles e diga que amanhã de manhã estarei no hospital.

- Tem certeza?

- Sim. Mas antes de irmos quero fazer uma coisa...

***~***~***~***

O sol reinava majestoso no céu azul de verão. Com dificuldade e amparado por Lizzy, sentiu a água morna do mar alcançar sua cintura e com os olhos fechados sentiu todo o prazer que aquela sensação lhe proporcionou. Ficou assim por alguns minutos, até que abrindo os olhos se deparou com os belos olhos de sua amada.

- Obrigado por tudo, mas principalmente por estes dias. Quando Charles me falou sobre minha doença e a gravidade, confesso que fiquei revoltado, principalmente por ter tão pouco tempo ao seu lado.

Lizzy se aproximou abrando-o carinhosamente, recostando sua cabeça no peito dele.

- Achei injusto morrer quando estava apenas começando a viver, e cheguei até a pensar que teria sido melhor nunca ter te conhecido. – sentiu ela o abraçar mais forte. – Mas agora sei que a vida me presenteou de uma forma que eu nunca mereci.

Ela o encarou confusa, então ele continuou.

- Eu não tinha vida antes de te conhecer. Meus dias eram tristes e solitários até você encher minha vida de cor e luz, como raios de sol entrando em um quarto escuro. – acariciou os cabelos dela – Agora entendo porque a vida me deu você. – segurou o rosto dela com as mãos. – Não poderia passar por este mundo sem ser feliz, sem amar...

- Eu te amo tanto... – Lizzy sussurrou encostando seus lábios aos dele em meio a lagrimas.

- E eu sempre vou te amar... – retribuiu o beijo – A morte não destruir este amor... Ela nunca vai nos separar... – sussurrou beijando-a com paixão amando-a pela ultima vez...

***~***~***~***
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Cinco anos depois...
 
Sentada na areia branca, Lizzy olhava para o mar com nostalgia de tempos felizes e tempos difíceis vividos naquele lugar. Há dez anos atrás conheceu o amor da sua vida naquela praia e descobriu o auge da felicidade. Mas também, foi ali, há cinco anos que viveu seus últimos momentos ao lado dele. Após cinco anos sem William em sua vida, a dor ainda estava lá, em seu peito.

Depois de voltarem para o hospital, Darcy morreu um pouco mais de um mês depois. Foi o pior momento de sua vida; por dias achou que também morreria, foi ao fundo do poço, mas uma notícia inesperada a fez ressurgir das cinzas e buscar forças para viver novamente...

- Mamãe! Mamãe! – o belo garoto de pouco mais de quatro anos veio correndo do mar em sua direção. – Eu já sei mergulhar! – gritou entusiasmado ao chegar perto dela.

- Ei! Calma aí, mocinho. – sorriu ao receber um abraço molhado.

- Você viu? Eu mergulhei sozinho! – falou todo orgulhoso.

- Claro que vi, meu peixinho. – falou enquanto fazia cócegas em sua barriguinha.

- Tio Charles disse que vai me ensinar a surfar, igual ao meu pai.

- Tenho certeza de que vai ser um ótimo surfista, igualzinho ao seu pai, querido. – o beijou antes dele sair correndo de volta para a praia, esbarrando em Jane que vinha na direção dos dois.

- Will, está cada vez mais parecido com o pai. – Jane observou quando sentou junto da irmã.

- Está sim. – respondeu com um sorriso orgulhoso. – É como se eu tivesse o William ao lado novamente.

- Foi muito corajosa ao voltar aqui depois de tudo o que passou neste lugar.

- Fui feliz aqui, Jane. Foi aqui que William me deu o maior presente que poderia desejar. – olhou na direção do filho que brincava com Charles e os primos na praia. – Ele me disse que nem a morte poderia nos separar, e agora entendo o que ele quis dizer. Will sempre nos ligará de algum modo.

- Vem, mamãe! – o pequeno Will gritou se aproximando dela.

Segurando a mão do filho, caminharam de mãos dadas pela areia branca...


***Fim***
 

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